Capítulo 1: O Chamado da Lua
A lua cheia pairava no céu como um olho vigilante, derramando sua luz prateada sobre a floresta densa que se estendia além dos limites da pequena cidade de Evergreen. O ar da noite estava carregado de umidade, misturando o cheiro terroso de folhas úmidas com o aroma sutil de pinheiros resinosos. Elara Voss ajustou a alça da mochila em seu ombro, sentindo o peso da câmera profissional pressionar contra suas costas. Seus passos eram cautelosos no solo irregular, coberto por raízes retorcidas e musgo macio que amortecia o som de suas botas de trilha. Ela havia crescido ouvindo histórias sobre esses bosques — lendas de criaturas que se moviam nas sombras, uivos que ecoavam como avisos ancestrais. Mas para Elara, uma fotógrafa de vinte e oito anos que vivia de capturar o indomável, aquelas histórias eram apenas combustível para sua curiosidade insaciável.
“Por que diabos eu faço isso?”, murmurou para si mesma, seu fôlego formando nuvens brancas no ar frio. Não era a primeira vez que se aventurava sozinha em territórios proibidos. Seu último projeto, uma série sobre predadores noturnos na Amazônia, a havia deixado com cicatrizes de arranhões de onças e uma sede ainda maior por adrenalina. Mas aqui, no noroeste dos Estados Unidos, algo se sentia diferente. Os moradores de Evergreen a haviam alertado: “Fique longe da Floresta das Sombras. Lobos não são o pior que você pode encontrar lá.” Ela riu na hora, atribuindo aquilo a superstições locais. Afinal, lobos cinzentos eram raros naquela região, e ela estava equipada com spray de pimenta, uma lanterna potente e um instinto afiado para sobrevivência.
Enquanto avançava, o vento sussurrava através das copas das árvores, carregando um uivo distante que fez os pelos de sua nuca se eriçarem. Elara parou, inclinando a cabeça para escutar melhor. Não era um uivo comum — era profundo, ressonante, como se viesse das entranhas da terra. Seu coração acelerou, uma mistura de medo e excitação que ela conhecia bem. “Perfeito para as fotos”, pensou, ajustando a lente da câmera. Ela havia vindo atrás de rumores sobre “lobos fantasmas” — avistamentos de animais maiores que o normal, com olhos que brilhavam como brasas. Se conseguisse capturar algo assim, seu portfólio ganharia um impulso comercial imenso. Revistas como National Geographic pagavam bem por mistérios da natureza.
A trilha se estreitava, forçando-a a se agachar sob galhos baixos. O solo estava úmido de uma chuva recente, e cada passo afundava levemente, liberando o cheiro de terra fértil. Elara sentiu um formigamento na pele, como se estivesse sendo observada. Ela girou lentamente, varrendo a área com a lanterna. Nada. Apenas sombras dançando ao vento. “Calma, Elara. É só sua imaginação.” Mas no fundo, ela sabia que não era. Seu passado a tornara sensível a perigos invisíveis — órfã desde os dez anos, após um acidente de carro que matou seus pais, ela aprendera a confiar em seus instintos. Aquela noite fatídica ainda a assombrava: o cheiro de borracha queimada, os faróis piscando no escuro. Desde então, ela evitava raízes profundas, preferindo a superfície volátil da aventura.
Mais adiante, a floresta se abria para uma clareira banhada pelo luar. No centro, uma rocha musgosa se erguia como um altar antigo. Elara se aproximou, seu pulso acelerando. Ali, o ar parecia mais denso, carregado de uma energia palpável. Ela montou o tripé da câmera, ajustando o foco para capturar a lua refletida em uma poça d’água próxima. Clique. Clique. As imagens saíam perfeitas — etéreas, misteriosas. Mas então, um estalo de galho a fez congelar. Virando-se devagar, ela viu olhos âmbar brilhando na borda da clareira. Um lobo. Não, maior que um lobo. Enorme, com pelagem negra reluzente e presas que reluziam como lâminas.
Seu coração martelava no peito. “Fique parada”, pensou, lembrando-se de documentários sobre predadores. O animal a observava, imóvel, como se a avaliasse. Elara sentiu um puxão estranho, uma atração inexplicável que a fez dar um passo à frente em vez de recuar. “O que você é?”, sussurrou, sua voz tremendo levemente. O lobo inclinou a cabeça, e por um momento, ela jurou ver inteligência humana em seus olhos. Então, com um rosnado baixo que vibrou pelo ar, ele se moveu — não para atacá-la, mas circulando a clareira, mantendo distância.
Do outro lado da floresta, Kael Thornwood corria em sua forma lupina, as patas poderosas devorando o solo com facilidade. O cheiro a atingira como um raio: doce, picante, irresistível. Companheira. A palavra ecoava em sua mente como um mantra ancestral. Ele era o Alfa da Matilha das Sombras Eternas, responsável por centenas de lobos que viviam escondidos entre humanos, mantendo o equilíbrio entre instinto e disfarce. Aos trinta e cinco anos, Kael havia enfrentado guerras, traições e perdas que o endureceram. Sua família fora massacrada por rivais quando ele era jovem, deixando-o com uma cicatriz no ombro e um juramento de nunca mais fraquejar. Ele governava com autoridade absoluta, seu corpo marcado por tatuagens tribais que contavam histórias de vitórias sangrentas.
Mas agora, esse cheiro o desestabilizava. Ele parou na borda da clareira, observando a mulher humana. Humana? Como podia ser? O laço de companheiros era reservado para lobos puros. No entanto, ali estava ela: curvas tentadoras sob roupas de trilha, cabelos castanhos dançando ao vento, olhos verdes que o desafiavam mesmo à distância. Seu instinto rugia para reivindicá-la, marcá-la com sua mordida, mas Kael se conteve. Transformando-se de volta à forma humana — um processo doloroso de ossos se rearranjando, peles se retraindo —, ele emergiu das sombras, nu e imponente, músculos definidos brilhando sob o luar.
Elara engasgou, recuando um passo. O lobo havia… desaparecido? Em seu lugar, um homem. Alto, largo de ombros, com pele bronzeada e olhos âmbar que a perfuravam. Ele não parecia envergonhado pela nudez; ao contrário, avançava com uma confiança predatória. “Quem é você?”, exigiu ela, sua voz firme apesar do tremor interno. O ar entre eles crepitava, carregado de uma tensão que ela não compreendia.
Kael parou a poucos metros, inalando profundamente. O cheiro dela o enlouquecia — jasmim misturado com algo selvagem, único. “Eu sou Kael”, respondeu, sua voz grave como um trovão distante. “E você invadiu meu território, humana.”
Elara ergueu o queixo, recusando-se a se intimidar. “Seu território? Isso é floresta pública. E o que você é? Algum tipo de ilusão?” Seu coração batia forte, mas uma curiosidade ardente a mantinha no lugar. Ele era magnético, com traços angulares, barba por fazer e uma aura de perigo que a atraía como uma mariposa para a chama.
Ele riu baixo, um som que enviou calafrios pela espinha dela. “Ilusão? Não, Elara. Isso é real. Você sente, não sente? Esse puxão.” Ele deu um passo mais perto, e ela pôde sentir o calor emanando de seu corpo, o cheiro masculino de almíscar e floresta.
Como ele sabia seu nome? “Fique longe”, avisou ela, pegando o spray de pimenta. Mas suas mãos tremiam, não de medo, mas de algo mais profundo — desejo? Ridículo. Ela não era do tipo que se rendia a estranhos nus na floresta.
Kael inclinou a cabeça, estudando-a. “Você não deveria estar aqui. Humanos não sobrevivem no meu mundo.” Seus olhos desceram por seu corpo, demorando-se em suas curvas, e ele sentiu sua besta interior rugir. Companheira. Reivindique-a. Mas ele lutava contra isso; uma humana como companheira era uma fraqueza, uma ameaça à matilha.
Elara sentiu um rubor subir pelo pescoço. “Seu mundo? Você parece louco. Ou drogado.” Mas seus olhos traíam curiosidade. “Explique. O que era aquilo? O lobo?”
Ele hesitou, algo raro para um Alfa. “Eu sou o lobo. Somos… diferentes. Matilhas vivem entre vocês, escondidas.” Ele estendeu a mão, não para tocá-la, mas como um gesto. “Você sente a conexão. Não negue.”
Ela riu, nervosa. “Conexão? Eu sinto é que devo chamar a polícia.” Mas no fundo, algo ressoava. Um sonho recorrente que tinha desde criança: correndo com lobos, sentindo-se livre. “Por que eu sinto como se te conhecesse?”
Kael se aproximou mais, o ar entre eles elétrico. “Porque o destino nos uniu. Você é minha.” As palavras saíram possessivas, carregadas de instinto.
Elara recuou, mas tropeçou em uma raiz. Ele a pegou pelo braço, o toque enviando faíscas pela pele dela. “Solte-me!”, exigiu, mas sua voz saiu rouca. O contato era como fogo — quente, consumidor.
Ele não soltou imediatamente, seus dedos firmes mas gentis. “Você não quer que eu solte, Elara. Admita.” Seus olhos travaram nos dela, e por um momento, o mundo se reduziu a eles dois.
Ela puxou o braço, coração disparado. “Você não me conhece. Eu não me rendo a ninguém.” Mas o desejo latejava, uma traidora em seu corpo.
Kael sorriu, predatório. “Ainda não. Mas vai.” Ele recuou, desaparecendo nas sombras tão rápido quanto surgira.
Elara ficou ali, ofegante, o corpo tremendo. O que acabara de acontecer? E por que ela ansiava por mais?
Enquanto isso, na borda da floresta, Kael se transformava de volta, uivando para a lua. Sua companheira era humana — e desafiadora. Isso mudaria tudo.
Mas um uivo respondente veio do leste: rivais se aproximando. O perigo espreitava, e Elara estava no centro dele.
Capítulo 2: Marcas Invisíveis
Elara não dormiu aquela noite.
Deitada na cama estreita do seu pequeno apartamento acima da cafeteria de Evergreen, ela encarava o teto rachado, o corpo ainda vibrando com o eco daquele toque. A pele do braço onde Kael a segurara parecia marcada, embora não houvesse hematoma visível. Era como se ele tivesse deixado impressões digitais de calor puro, pulsando sob a superfície. Cada vez que fechava os olhos, via aqueles olhos âmbar — não os de um homem, mas os do lobo que a observara como se ela fosse a única coisa no mundo que importava.
“Você é minha.”
As palavras dele ecoavam em sua mente como um feitiço ruim. Ela se virou de lado, puxando o cobertor até o queixo, tentando afastar o calor que subia por sua barriga só de lembrar da voz grave, rouca, carregada de certeza absoluta.
“Ridículo”, murmurou para o escuro. “Ele é um maluco. Um exibicionista da floresta. Provavelmente toma algum tipo de droga experimental.”
Mas nem ela acreditava nisso.
Porque quando ele a tocara, algo dentro dela havia respondido. Não era apenas desejo — era reconhecimento. Como se uma parte adormecida de sua alma tivesse acordado de repente e dito: finalmente.
Elara se levantou de supetão, acendendo a luz fraca do abajur. O quarto era pequeno, bagunçado de um jeito organizado: pilhas de revistas de fotografia, lentes espalhadas sobre a escrivaninha, um mapa da região pendurado na parede com alfinetes marcando locais de avistamentos de animais selvagens. Ela foi até a janela e abriu as cortinas. A lua ainda estava alta, quase cheia, derramando luz prateada sobre as ruas desertas.
Seus olhos procuraram a linha escura da floresta ao longe.
“Não vou voltar lá”, decidiu em voz alta, como se precisasse convencer a si mesma. “Nunca mais.”
Mas no fundo, ela sabia que era mentira.
Porque a curiosidade — aquela mesma que a fizera entrar na floresta proibida — agora tinha nome, rosto e corpo. E ele a queria.
Ela voltou para a cama, mas o sono não veio. Em vez disso, veio o sonho.
Estava correndo. Não como humana, mas como algo mais rápido, mais forte. As patas batiam no chão úmido, o vento rasgava seu pelo negro — pelo? — e o cheiro dele estava em todos os lugares. Almíscar, pinho, terra molhada, homem. Ele corria ao seu lado, maior, mais escuro, seus olhos âmbar brilhando na escuridão. Quando ela tropeçava, ele a empurrava com o focinho, gentil mas firme, guiando-a para mais fundo na floresta.
Então a cena mudou.
Eles estavam na clareira. Ele se transformava, pele substituindo pelo, músculos se definindo sob a luz da lua. Nu. Imponente. E ela… ela também mudava. Não completamente. Apenas o suficiente para sentir garras brotando das unhas, presas alongando-se, um ronronar baixo subindo pela garganta.
Ele a puxou contra si, as mãos grandes envolvendo sua cintura, os lábios roçando sua orelha.
“Você sente, não sente? Esse fogo. Ele sempre esteve aí. Só precisava de mim para acordá-lo.”
No sonho, ela não resistiu.
Arqueou o corpo contra o dele, as unhas cravando em suas costas, arrancando um rosnado baixo que reverberou pelo peito dele e pelo dela. Ele a ergueu como se ela não pesasse nada, as coxas dela envolvendo sua cintura, e a beijou como se quisesse devorá-la. A língua invadiu sua boca com uma fome que a fez gemer alto, o gosto dele selvagem, metálico, viciante.
As mãos dele desceram pelas suas costas, apertando sua bunda com força possessiva, pressionando-a contra a ereção dura que pulsava entre eles. Elara sentiu o calor se acumular entre suas pernas, uma umidade traiçoeira que a fez se contorcer, buscando fricção.
“Minha”, ele rosnou contra seus lábios. “Minha companheira. Minha fêmea.”
E então ele a deitou na grama fria, o corpo cobrindo o dela como uma sombra viva. Os dentes roçaram seu pescoço, exatamente onde a pulsação batia mais forte, e ela arqueou o pescoço, oferecendo-se sem pensar.
A mordida veio lenta. Dolorosa. Deliciosa.
O prazer explodiu como um raio, percorrendo cada nervo, concentrando-se no ventre, entre as coxas. Ela gritou, as unhas cravando nos ombros dele, o corpo convulsionando em um orgasmo que a atravessou como fogo líquido.
Elara acordou ofegante, as coxas apertadas, a calcinha encharcada, o coração martelando tão forte que doía.
Ela levou a mão ao pescoço instintivamente. Não havia marca. Mas a pele ali formigava, sensível, como se a mordida tivesse sido real.
“Merda”, sussurrou, jogando as pernas para fora da cama.
Precisava de um banho. Frio. Gelado. Qualquer coisa para apagar aquele fogo que ainda queimava sob a pele.
O dia passou em câmera lenta.
Elara tentou se ocupar: editou fotos antigas, respondeu e-mails de clientes, até limpou a cozinha — algo que odiava fazer. Mas nada funcionava. Cada som a fazia pular. Cada sombra na janela a fazia olhar duas vezes. E o pior: cada homem que passava na rua a fazia comparar. Nenhum tinha aquela altura. Aquela largura de ombros. Aquele olhar que parecia despir a alma antes do corpo.
Por volta das quatro da tarde, ela desceu para a cafeteria no térreo. O cheiro de café fresco e canela a envolveu como um abraço familiar. Mira, a dona do lugar e sua única amiga de verdade na cidade, estava atrás do balcão, limpando a máquina de espresso com movimentos precisos.
Mira tinha uns cinquenta e poucos anos, cabelo grisalho curto e olhos castanhos que pareciam ver através das pessoas. Era a única que sabia um pouco do passado de Elara — o orfanato, os pesadelos recorrentes, a obsessão por fotografar coisas selvagens.
“Você parece que foi atropelada por um caminhão e depois beijada por um fantasma”, disse Mira sem nem levantar os olhos.
Elara bufou uma risada sem humor e se sentou no banco alto. “Algo assim.”
Mira finalmente olhou para ela, franzindo a testa. “O que aconteceu ontem à noite? Você saiu com aquela cara de quem vai caçar lobisomens e voltou… diferente.”
Elara hesitou. Como explicar? “Eu… vi algo na floresta.”
Mira parou de limpar. “O quê?”
“Um lobo. Grande demais. E depois…” Ela engoliu em seco. “Um homem. Ele disse coisas estranhas.”
Mira ficou em silêncio por tempo demais. Quando falou, sua voz estava baixa, quase cautelosa. “Que tipo de coisas?”
“Que eu invadi o território dele. Que eu era… dele.” Elara riu, nervosa. “Loucura, né?”
Mira não riu. Colocou o pano no balcão e se inclinou para frente. “Elara. Escute com atenção. Fique longe daquela floresta. E fique longe de qualquer homem que apareça por aqui com olhos âmbar e um cheiro que faz você querer se jogar nos braços dele.”
Elara piscou, surpresa. “Você… sabe de algo?”
Mira desviou o olhar, limpando uma mancha inexistente no balcão. “Eu sei que existem coisas que os livros de história não contam. E que algumas lendas são reais. Só isso.”
Antes que Elara pudesse pressionar, a sineta da porta tocou.
As duas viraram ao mesmo tempo.
Kael entrou na cafeteria como se fosse dono do lugar.
Jeans escuros abraçando coxas poderosas, camiseta preta justa o suficiente para delinear cada músculo do peito e dos braços, jaqueta de couro preta jogada sobre os ombros largos. O cabelo castanho-escuro estava ligeiramente bagunçado, como se tivesse passado a mão várias vezes. E os olhos… aqueles olhos âmbar varreram o ambiente e pararam nela.
O ar pareceu rarear.
Elara sentiu o corpo inteiro reagir antes mesmo da mente processar. Os mamilos endureceram sob a blusa fina, o ventre se contraiu, e entre as coxas uma pulsação quente e insistente começou.
Mira murmurou algo baixinho que soou como um palavrão.
Kael caminhou até o balcão sem desviar o olhar de Elara. Cada passo era deliberado, predatório. Quando chegou perto o suficiente, o cheiro dele a envolveu — almíscar, pinho, algo selvagem e masculino que fez sua cabeça girar.
“Bom dia, Elara.” A voz era a mesma da noite anterior: grave, aveludada, perigosa.
Ela engoliu em seco. “O que você está fazendo aqui?”
Ele se apoiou no balcão, os antebraços flexionados, músculos saltando sob a pele bronzeada. “Vim tomar um café.”
“Tem Starbucks na estrada principal”, retrucou ela, tentando soar firme.
“Eu prefiro o daqui.” Ele sorriu de lado, um sorriso que prometia coisas pecaminosas. “E a companhia.”
Mira pigarreou alto. “O que vai querer, estranho?”
Kael nem olhou para ela. Seus olhos continuavam cravados em Elara. “Café preto. E uma conversa.”
Elara cruzou os braços, tentando esconder o quanto seus mamilos estavam duros. “Não temos nada para conversar.”
Ele inclinou a cabeça. “Tem certeza?”
O tom era puro desafio.
Mira colocou o café na frente dele com mais força do que o necessário. “Beba e vá embora.”
Kael pegou a xícara sem pressa, levou aos lábios e tomou um gole lento, os olhos nunca deixando os de Elara. “Você sonhou comigo ontem à noite.” Não era pergunta. Era afirmação.
Elara sentiu o rosto queimar. “Você está delirando.”
Ele se inclinou mais perto, baixando a voz para que só ela ouvisse. “Você acordou molhada. latejando. Com meu nome na ponta da língua. Não minta para mim, companheira. Eu sinto você. Sinto cada batida acelerada do seu coração. Sinto o cheiro da sua excitação daqui.”
As palavras a atingiram como socos. Ela apertou as coxas sob o balcão, tentando conter o calor que se espalhava. “Saia daqui”, sussurrou, mas sua voz saiu trêmula.
Kael se endireitou, mas não recuou. “Eu vou embora. Por enquanto. Mas saiba de uma coisa, Elara: você pode fugir. Pode negar. Pode até se convencer de que sou louco. Mas o laço já está formado. E ele só fica mais forte.”
Ele colocou uma nota de cinquenta dólares no balcão — muito mais do que o café valia — e se virou para sair. Na porta, parou e olhou para trás.
“E quando você estiver pronta para parar de lutar contra o inevitável… estarei esperando.”
A sineta tocou novamente quando ele saiu.
Elara ficou olhando para a porta vazia, o corpo tremendo de raiva, medo e algo muito mais perigoso.
Desejo.
Mira tocou seu braço. “Elara… o que você vai fazer?”
Ela respirou fundo, tentando se recompor. “Nada. Ele não vai me controlar.”
Mas mesmo enquanto dizia as palavras, sentia o puxão.
Invisível.
Inevitável.
E lá fora, na rua, Kael parou ao lado da sua moto preta, os punhos cerrados.
Ele podia sentir o cheiro dela no ar — excitação misturada com teimosia e medo. Sua besta interior rosnava, exigindo que voltasse lá dentro, a jogasse sobre o ombro e a levasse para a toca.
Mas ele era Alfa.
E Alfas sabiam esperar.
Porque a caçada só ficava melhor quando a presa achava que podia escapar.
Ele subiu na moto, deu partida e acelerou em direção à floresta.
Mas antes de desaparecer entre as árvores, olhou para trás uma última vez.
E sorriu.
Porque o jogo havia começado.
E ele sempre vencia.
Capítulo 3: O Território Invasivo
A tarde se arrastava preguiçosa em Evergreen, mas dentro da cafeteria o ar parecia carregado de eletricidade estática. Elara ainda sentia o fantasma do cheiro de Kael grudado na pele, como se ele tivesse deixado uma marca olfativa que ninguém mais percebia, mas que a enlouquecia. Mira a observava de canto de olho enquanto limpava xícaras, o silêncio entre elas pesado como chumbo.
“Você vai me contar o que está acontecendo de verdade ou vai continuar fingindo que isso é só um flerte esquisito com um estranho sexy?”, perguntou Mira por fim, largando o pano no balcão.
Elara esfregou as têmporas. “Não é flerte. É… complicação. Ele apareceu do nada ontem à noite na floresta. Me chamou de companheira. Falou de matilhas, territórios. E hoje veio aqui como se me conhecesse a vida inteira.”
Mira ficou imóvel por um segundo longo demais. Depois, respirou fundo e contornou o balcão, puxando uma cadeira para sentar ao lado dela.
“Elara, escute com muita atenção. Eu não sou de acreditar em contos de fadas, mas algumas coisas que acontecem nessa região não têm explicação racional. Há anos ouço histórias sobre famílias que vivem nas montanhas, gente que só aparece na cidade quando precisa. Eles compram terras, controlam reservas ecológicas, têm empresas de segurança privada que parecem mais exércitos do que negócios. E sempre tem um homem no comando. Alto. Olhos claros. Uma presença que faz o ar ficar mais pesado.”
Elara sentiu um frio na espinha. “Você está dizendo que ele é… o quê? Um mafioso da floresta?”
“Não. Estou dizendo que ele pode ser exatamente o que disse ser.” Mira baixou a voz ainda mais. “Lobisomem. Ou algo muito próximo disso. E se ele te chamou de companheira… isso não é brincadeira. É biologia. Instinto. Algo que não se explica com terapia ou lógica.”
Elara riu, mas o som saiu seco e sem graça. “Você está me dizendo que acredita em lobisomens?”
“Eu acredito no que vejo. E vi coisas suficientes para não descartar nada.” Mira tocou o braço dela, o gesto maternal. “Se ele está atrás de você, fuja. Vá embora da cidade por uns tempos. Visite aquela tia distante que você nunca visita. Qualquer coisa. Porque homens como ele não desistem.”
Elara balançou a cabeça devagar. “Eu não fujo, Mira. Nunca fugi. Nem quando meus pais morreram, nem quando o orfanato tentou me dobrar, nem quando perdi jobs por ser ‘difícil demais’. Eu enfrento.”
Mira suspirou, o olhar carregado de preocupação. “Então enfrente com cuidado. Porque isso não é só sobre você ser teimosa. É sobre algo maior que te quer. E que não vai pedir permissão.”
O resto do dia passou em câmera lenta. Elara atendeu clientes, tirou fotos de cappuccinos para o Instagram da cafeteria, respondeu mensagens de editores. Mas sua mente estava em outro lugar. No toque dele. No sonho. No jeito como seu corpo reagia só de lembrar da voz grave dizendo “eu sinto você”.
Quando o turno acabou, ela subiu para o apartamento, trancou a porta com duas voltas e colocou a corrente. Tomou um banho longo, quente, tentando lavar o cheiro imaginário dele da pele. Mas quanto mais esfregava, mais sentia a ausência. Como se o corpo dela tivesse sido recalibrado para sentir falta daquele calor específico.
Vestiu um moletom largo e shorts velhos, acendeu o laptop e começou a pesquisar. “matilhas noroeste americano”. “lendas lobisomens evergreen”. “territórios reservados floresta sombras”. A maioria dos resultados era lixo: fóruns de conspiração, creepypastas, blogs de caçadores de lendas urbanas. Mas em um site obscuro, quase escondido nas páginas profundas do Google, encontrou um artigo antigo digitalizado de um jornal local de 1987.
Título: “Incidente na Reserva Thornwood: Caçador Desaparece Após Relatar ‘Ataque de Animal Gigante’”.
O texto falava de um caçador que sumira após entrar na área que hoje pertencia à Reserva Ecológica Thornwood — propriedade privada de uma empresa chamada Shadow Eternal Holdings. Havia menção a pegadas enormes, uivos que duraram a noite inteira, e um “homem de olhos dourados” visto rondando a área dias antes. O artigo terminava com uma nota: “A empresa nega qualquer envolvimento e afirma que a reserva é protegida para conservação de espécies ameaçadas”.
Elara sentiu o estômago revirar. Thornwood. O sobrenome dele era Thornwood.
Ela fechou o laptop com força e se jogou na cama. Precisava pensar. Precisava de um plano. Mas o que fazer quando o plano A era “ignorar” e o plano B era “fugir”, e nenhum dos dois parecia viável?
Um barulho na janela a fez sentar de supetão.
Era só o vento batendo no vidro. Ou não.
Ela se levantou devagar, aproximando-se da cortina. Puxou de leve. A rua estava vazia. Mas do outro lado, encostada no poste de luz, uma moto preta brilhava sob a iluminação amarelada. E encostado nela, de braços cruzados, estava Kael.
Ele ergueu o olhar diretamente para a janela dela, como se soubesse exatamente onde ela estava. Mesmo à distância, aqueles olhos âmbar pareciam brilhar.
Elara sentiu o ar faltar.
Ele não se moveu. Apenas ficou lá, olhando. Esperando.
Era um desafio silencioso.
Ela poderia fechar a cortina. Poderia chamar a polícia. Poderia fingir que não o via.
Em vez disso, abriu a janela.
“O que você quer?”, gritou ela, a voz ecoando na rua silenciosa.
Kael descruzou os braços. Sua voz chegou clara, mesmo sem gritar.
“Você sabe o que eu quero.”
“Não. Eu não sei. Por que não explica direito, em vez de ficar bancando o predador misterioso?”
Ele deu um passo à frente, saindo da sombra do poste. A luz bateu em cheio nele, destacando os contornos do corpo sob a jaqueta de couro.
“Porque algumas coisas não se explicam com palavras, Elara. Se explicam com toque. Com cheiro. Com o jeito que seu corpo responde ao meu mesmo quando sua mente grita para resistir.”
Ela apertou o parapeito da janela, os dedos brancos de força.
“Você está me perseguindo.”
“Estou te protegendo.”
“De quê?”
“De tudo que vai tentar te tirar de mim. Incluindo você mesma.”
Elara sentiu um arrepio descer pela espinha. Não era só medo. Era algo mais perigoso. Excitação misturada com raiva.
“Desça daí”, ele disse, não como ordem, mas como convite. “Ou eu subo.”
Ela riu, incrédula. “Você acha que vou descer só porque mandou?”
“Não. Acho que você vai descer porque quer saber. Quer sentir. Quer entender por que seu corpo inteiro está gritando meu nome desde que nos vimos.”
Silêncio.
Elara fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando abriu, ele ainda estava lá. Imóvel. Paciente. Implacável.
Ela fechou a janela. Trancou. Encostou as costas na parede e deslizou até o chão, abraçando os joelhos.
Mas o corpo traía. Os mamilos endurecidos roçavam o tecido do moletom. Entre as coxas, uma umidade quente e insistente. O coração batia em um ritmo que parecia ecoar o dele.
Minutos se passaram. Talvez meia hora.
Ela ouviu o ronco da moto sendo ligada. Depois, o som diminuindo à distância.
Ele foi embora.
Mas Elara sabia que não era o fim.
Era só o começo da rendição.
Ela se levantou, foi até o guarda-roupa e pegou a jaqueta de couro velha que usava para andar de moto com um ex-namorado. Vestiu por cima do moletom. Calçou as botas. Pegou as chaves da moto que guardava no armário — uma Yamaha velha, mas confiável.
Desceu as escadas correndo, o coração na garganta.
A rua estava vazia. Mas ela sabia para onde ir.
A floresta.
A reserva.
O território dele.
Porque se ele queria caçá-la, que viesse. Mas ela não seria presa passiva.
Ela ia entrar no jogo.
E ia jogar para ganhar.
Enquanto acelerava pela estrada escura que levava à entrada da Reserva Thornwood, o vento frio batia em seu rosto, mas não conseguia apagar o fogo que queimava dentro dela.
Um uivo ecoou ao longe.
Profundo. Longo. Chamando.
Elara apertou o acelerador.
Estava indo ao encontro do destino.
Ou da perdição.
E, pela primeira vez na vida, não sabia qual das duas opções a assustava mais.
Capítulo 4: A Primeira Rendição
O ronco da moto de Elara cortava a noite como uma lâmina. As luzes da cidade ficavam para trás rapidamente, engolidas pela escuridão crescente da estrada que levava à Reserva Thornwood. O vento gelado batia em seu rosto, fazendo os olhos lacrimejarem, mas ela não diminuía a velocidade. Cada quilômetro percorrido era uma decisão irreversível. Ela estava indo ao encontro dele. Não porque tivesse cedido. Porque precisava entender. Precisava confrontar. Precisava provar — para si mesma, acima de tudo — que não era uma presa fácil.
A entrada da reserva era marcada por uma porteira de ferro alta, pintada de preto fosco, com um letreiro discreto: “Propriedade Privada – Reserva Ecológica Thornwood. Acesso Restrito”. Ao lado, uma câmera de segurança piscava vermelha, impassível. Elara parou a moto, o motor ainda ronronando baixo. Desmontou, tirou o capacete e deixou os cabelos castanhos caírem soltos sobre os ombros. O silêncio da floresta a envolveu de imediato — só o farfalhar das folhas e o canto distante de uma coruja.
Ela empurrou a porteira. Estava aberta.
“Claro que está”, murmurou, com um meio sorriso amargo. Ele a esperava. Sabia que ela viria.
Caminhou pela estrada de terra batida, a moto empurrada ao lado. As árvores se fechavam ao redor como sentinelas, o luar filtrado pelas copas criando padrões prateados no chão. O ar cheirava a pinho, musgo e algo mais — algo quente, animal, masculino. O cheiro dele.
Depois de uns dez minutos de caminhada, a estrada se abria para uma clareira maior que a anterior. No centro, uma casa de madeira escura erguia-se imponente: dois andares, varanda ampla, janelas altas que refletiam a lua. Não era uma cabana rústica. Era uma fortaleza disfarçada de lar. Luzes quentes saíam das janelas do térreo, convidativas e ameaçadoras ao mesmo tempo.
Elara largou a moto contra uma árvore e avançou devagar. O coração batia tão forte que ela sentia na garganta.
A porta da frente se abriu antes que ela chegasse à varanda.
Kael estava lá, encostado no batente, braços cruzados sobre o peito largo. Vestia apenas calça de moletom cinza escura que pendia baixa nos quadris, revelando a linha definida do V que descia para baixo da cintura. Sem camisa. Sem sapatos. A pele bronzeada brilhava sob a luz da varanda, marcada por cicatrizes antigas que contavam histórias de batalhas que ela nem queria imaginar. O peito subia e descia devagar, controlado, mas os olhos âmbar ardiam.
“Você veio”, disse ele, a voz baixa, quase um ronronar.
“Não vim por você”, retrucou ela, parando no último degrau. “Vim porque você invadiu minha vida. Minha cabeça. Meu corpo. E eu quero respostas.”
Ele descruzou os braços e desceu um degrau, diminuindo a distância. O calor dele a alcançou antes mesmo do toque.
“Então entre. Pergunte.”
Elara hesitou só um segundo. Depois subiu os degraus e passou por ele, roçando o ombro no peito nu dele de propósito. Um choque elétrico subiu pelo braço dela. Ele fechou a porta atrás deles com um clique suave.
O interior era inesperado. Madeira polida, móveis escuros e elegantes, uma lareira crepitando no centro da sala ampla. Tapetes grossos no chão. Livros nas estantes. Um cheiro de couro, madeira queimada e dele impregnava tudo.
Ela parou no meio da sala, de costas para ele, tentando recuperar o controle.
“Por que eu?”, perguntou sem se virar. “Por que uma humana? Você disse que isso não acontece.”
Kael se aproximou devagar, parando a poucos centímetros dela. Ela sentia o calor irradiando do corpo dele nas costas.
“Porque o destino não pergunta nossa opinião. Ele escolhe. E escolheu você.” Ele ergueu a mão, os dedos roçando de leve a nuca dela, onde os cabelos se arrepiavam. “Seu sangue carrega algo antigo. Algo que as matilhas perderam há gerações. Híbrido. Latente. Mas real.”
Elara virou-se rápido, ficando cara a cara com ele. Tão perto que precisava erguer o queixo para encará-lo.
“Isso é loucura. Eu sou humana. Sempre fui.”
“Você sonha com lobos desde criança. Corre com eles. Sente o vento no pelo que não tem. Acorda suada, ofegante, com vontade de uivar.” Ele inclinou a cabeça. “Não é loucura. É memória.”
Ela engoliu em seco. As palavras acertavam em cheio.
“E se eu não quiser isso? Se eu não quiser você?”
Os olhos dele escureceram. “Você já quer. Seu corpo não mente. Seu cheiro não mente. Só sua teimosia está no caminho.”
Ele deu mais um passo. Agora estavam colados. O peito dele roçava os seios dela através do moletom fino. Ela sentia a ereção dura pressionando contra sua barriga baixa. O desejo era uma corrente elétrica entre eles.
“Me diga para parar”, ele murmurou, os lábios a milímetros dos dela. “Diga que não quer minha boca na sua. Minhas mãos na sua pele. Meu pau dentro de você até você esquecer seu próprio nome.”
Elara tremia. Não de medo. De necessidade.
“Eu odeio você”, sussurrou.
“Eu sei.” Ele sorriu, lento e perigoso. “E ainda assim você está aqui. Molhada. Latejando. Pronta para mim.”
Ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia fogo neles.
“Então prove”, desafiou. “Prove que isso não é só instinto animal. Prove que vale a pena eu me render.”
Foi o gatilho.
Kael a pegou pela nuca com uma mão grande, os dedos enfiando-se nos cabelos, e a beijou como se quisesse consumi-la. Não foi gentil. Foi faminto. A língua invadiu a boca dela, reivindicando cada canto, cada suspiro. Elara gemeu alto contra os lábios dele, as mãos subindo para agarrar os ombros largos, as unhas cravando na pele.
Ele a ergueu sem esforço, as mãos fortes sob suas coxas, e a levou até a parede mais próxima, prensando-a contra a madeira. As pernas dela envolveram a cintura dele instintivamente. O atrito da ereção dura contra o centro dela, mesmo através das roupas, a fez arquear as costas e gemer de novo.
Kael desceu os beijos pelo pescoço dela, lambendo a pulsação acelerada, roçando os dentes exatamente onde a pele era mais sensível.
“Aqui”, rosnou contra a pele. “É aqui que eu vou te marcar. Quando você pedir. Quando você implorar.”
“Eu não imploro”, ela conseguiu dizer, mesmo enquanto puxava a cabeça dele de volta para outro beijo feroz.
Ele riu baixo contra a boca dela, o som vibrando pelo peito e pelo dela.
“Você vai.”
Ele a carregou escada acima sem quebrar o beijo. Entraram em um quarto amplo, dominado por uma cama king size coberta por lençóis pretos. Kael a deitou no centro, subindo em cima dela sem dar espaço para fuga. Arrancou o moletom dela com um puxão, expondo os seios cheios, os mamilos duros e rosados. Ele parou por um segundo, apenas olhando, os olhos devorando cada centímetro.
“Perfeita”, murmurou, quase reverente.
Então baixou a boca para um dos seios, sugando o mamilo com força, a língua rodopiando, os dentes roçando o suficiente para doer deliciosamente. Elara arqueou as costas, as mãos enfiando-se nos cabelos dele, puxando com força.
“Kael…”
O nome saiu como súplica. Ele rosnou de satisfação, passando para o outro seio enquanto a mão livre descia pela barriga dela, abrindo o botão do jeans, enfiando-se dentro da calcinha sem cerimônia.
Os dedos encontraram a umidade escorregadia, o clitóris inchado e sensível. Ele circulou devagar, depois pressionou com mais força, sentindo-a tremer sob ele.
“Tão molhada para mim”, rosnou contra o seio dela. “Tão pronta.”
Dois dedos entraram nela de uma vez, curvando-se para acertar aquele ponto que a fez gritar. Ele bombeou devagar, o polegar ainda trabalhando o clitóris em círculos implacáveis.
Elara se contorcia, as coxas tremendo, o prazer subindo rápido demais.
“Não… não para…”
Ele ergueu a cabeça, os olhos cravados nos dela.
“Olhe para mim quando gozar. Quero ver cada segundo.”
Ela obedeceu. Os olhos verdes travados nos âmbar dele. O orgasmo a atingiu como uma onda violenta, o corpo convulsionando, os músculos internos apertando os dedos dele em espasmos ritmados. Ela gritou o nome dele, alto e rouco, enquanto ondas de prazer a atravessavam.
Kael não parou. Continuou os movimentos até que ela estivesse ofegante, sensível, quase implorando para parar.
Então ele retirou os dedos devagar, levando-os à boca e lambendo a essência dela com um gemido baixo de prazer.
“Seu gosto”, disse, voz rouca. “Vou querer isso todo dia.”
Elara ainda tremia quando ele arrancou o resto das roupas dela e as dele. Nu, ele era magnífico — músculos definidos, cicatrizes que contavam guerras, a ereção grossa e longa apontando para cima, a cabeça brilhando de pré-gozo.
Ele se posicionou entre as coxas dela, a ponta roçando a entrada sensível.
“Última chance de dizer não”, murmurou, embora os olhos dele mostrassem que parar agora seria tortura.
Elara ergueu os quadris, encontrando-o.
“Não diga besteira. Me fode.”
Ele entrou de uma vez, até o fundo, arrancando um grito dos dois. Ela era apertada, quente, perfeita. Ele parou por um segundo, deixando-a se ajustar, os músculos internos pulsando ao redor dele.
Então começou a se mover. Lento no início. Profundo. Cada estocada arrancando gemidos dela, cada retirada fazendo-a apertar mais.
Aumentou o ritmo. Mais forte. Mais rápido. A cama rangia sob eles. Os corpos suados se chocavam. Ele segurava os pulsos dela acima da cabeça com uma mão, dominando, enquanto a outra apertava o quadril, guiando-a para encontrar cada investida.
Elara sentia tudo. O atrito delicioso, o peso dele, o cheiro dele, o som dos corpos se encontrando. O prazer subia de novo, mais intenso.
“Kael… eu vou…”
“Goza comigo”, ele rosnou, os dentes roçando o pescoço dela. “Goza no meu pau. Me deixa sentir.”
O orgasmo a atingiu primeiro. Ela gritou, o corpo convulsionando, apertando-o com força. Kael perdeu o controle. Estocou fundo uma última vez, enterrando-se até o limite, e gozou com um rugido primal, enchendo-a com jatos quentes que pareciam não acabar.
Ficaram assim por longos minutos, ofegantes, colados, suados.
Ele finalmente rolou para o lado, puxando-a contra o peito. Os braços fortes a envolveram como se nunca mais fosse soltá-la.
Elara descansou a cabeça no ombro dele, o coração ainda disparado.
“Isso não muda nada”, sussurrou, mesmo sabendo que era mentira.
Kael beijou o topo da cabeça dela.
“Muda tudo, companheira.”
Lá fora, na floresta, uivos responderam ao silêncio da casa. Não eram uivos de celebração.
Eram de alerta.
Algo — ou alguém — os observava.
E não estava feliz.
Capítulo 5: Sombras na Fronteira
O quarto ainda cheirava a sexo, suor e algo mais primal — o cheiro inconfundível de marcação parcial, mesmo sem a mordida completa. Elara acordou devagar, o corpo dolorido de um jeito bom, como se cada músculo tivesse sido usado e reivindicado. A luz da manhã filtrava pelas cortinas pesadas, desenhando faixas douradas sobre os lençóis pretos bagunçados. Ela estava deitada de lado, o braço pesado de Kael envolvendo sua cintura por trás, o peito largo colado às suas costas, a respiração dele quente e ritmada contra sua nuca.
Por um momento, ela permitiu-se ficar ali. Sentir o peso reconfortante dele. O calor que parecia se infiltrar nos ossos. Era perigoso admitir, mas havia uma paz estranha naquele abraço — como se, pela primeira vez na vida, seu corpo soubesse exatamente onde pertencia.
Então a realidade voltou como um tapa.
Ela se mexeu, tentando se soltar sem acordá-lo. O braço dele apertou instintivamente, puxando-a de volta contra o peito.
“Para onde você pensa que vai?”, murmurou ele, voz rouca de sono, lábios roçando a pele sensível atrás da orelha.
Elara sentiu um arrepio descer pela coluna.
“Preciso ir embora. Tenho vida lá fora. Trabalho. Responsabilidades.”
Ele riu baixo, o som vibrando pelo corpo dela.
“Sua vida agora inclui isso.” A mão grande deslizou pela barriga dela, subindo devagar até envolver um seio, o polegar roçando o mamilo ainda sensível da noite anterior. “Inclui mim.”
Ela segurou o pulso dele, impedindo o movimento, mas não com força suficiente para realmente parar.
“Não foi um acordo de posse, Kael. Foi sexo. Bom sexo. Ótimo sexo. Mas não significa que eu sou sua.”
Ele virou o corpo dela com facilidade, colocando-a de costas na cama e subindo por cima, apoiando-se nos antebraços para não esmagá-la. Os olhos âmbar estavam semicerrados, ainda sonolentos, mas já queimando com aquela intensidade possessiva que a deixava sem ar.
“Foi mais que sexo.” Ele baixou o rosto até o pescoço dela, inalando profundamente. “Eu sinto meu cheiro em você. Misturado ao seu. Isso é marca inicial. Qualquer lobo que se aproxime vai saber que você foi tocada por mim. Reivindicada.”
Elara empurrou o peito dele, mas era como empurrar uma parede de músculos quentes.
“Então lave o cheiro. Tome banho. Problema resolvido.”
Ele ergueu uma sobrancelha, divertido.
“Você acha que funciona assim? Que água e sabonete apagam um laço de companheiros?” Ele roçou o nariz na curva do ombro dela. “Meu sêmen ainda está dentro de você. Meu cheiro está na sua pele, no seu cabelo, nas suas roupas. E o pior — ou o melhor, dependendo do ponto de vista — é que você também está em mim. Eu carrego seu gosto na língua. Seu cheiro nas narinas. Mesmo se você fugisse para o outro lado do mundo, eu te encontraria.”
Ela sentiu o pânico subir, misturado com um desejo traiçoeiro que latejava entre as coxas só de ouvir aquelas palavras.
“Eu não sou propriedade, Kael. Não sou uma loba que você pode marcar e mandar ficar quieta na toca.”
Ele se afastou um pouco, olhando-a nos olhos. Pela primeira vez, havia algo além de posse ali — uma sombra de vulnerabilidade.
“Eu não quero uma loba submissa. Quero você. A teimosa. A que me desafia. A que me faz questionar tudo que eu achava que sabia sobre ser Alfa.” Ele passou o polegar pelo lábio inferior dela. “Mas não vou mentir. Meu instinto grita para te proteger. Para te manter perto. Para te fazer minha de todas as formas possíveis. E isso me assusta tanto quanto te assusta.”
Elara piscou, surpresa. Era a primeira vez que ele admitia fraqueza.
“Então por que não me deixa ir? Se você sabe que isso é perigoso para os dois…”
“Porque não consigo.” A voz saiu baixa, quase dolorida. “O laço já está formado. Quanto mais tempo passa sem a marca completa, mais doloroso fica. Para mim. E para você.”
Ela franziu a testa.
“Do que você está falando?”
Ele rolou para o lado, deitando de costas e puxando-a para deitar no peito dele. A mão grande acariciava suas costas em movimentos lentos, quase reconfortantes.
“Se um laço de companheiros é formado e não é selado com a mordida, o desejo vira dor física. Febre. Insônia. Alucinações. Eventualmente, loucura. Já vi isso acontecer com lobos que perderam suas companheiras antes da marcação. Não é bonito.”
Elara sentiu um frio na espinha.
“Então você está me dizendo que, se eu não deixar você me morder, nós dois vamos enlouquecer?”
“Basicamente.”
Silêncio pesado.
Ela ergueu o rosto, olhando para ele.
“Isso é chantagem emocional.”
“É biologia. E destino. E talvez um pouco de karma por eu ter sido um filho da puta autoritário a vida inteira.”
Apesar de tudo, ela riu. Baixo. Nervoso.
“Você admite que é autoritário?”
“Com orgulho.” Ele sorriu de lado, mas o sorriso não chegou aos olhos. “Mas com você… eu estou tentando ser diferente. Não prometo perfeição. Mas prometo tentar.”
Elara descansou a testa no peito dele, ouvindo o coração bater forte e constante.
“Eu preciso de tempo.”
“Você tem até a próxima lua cheia. Depois disso, o laço vai começar a cobrar preço.”
Ela ergueu o rosto de novo.
“Quanto tempo temos?”
“Onze dias.”
O número caiu como uma sentença.
Ela se sentou na cama, puxando o lençol para cobrir os seios.
“Eu preciso ir embora. Preciso pensar. Sozinha.”
Kael se sentou também, os músculos dos ombros flexionando enquanto passava a mão pelos cabelos.
“Eu te levo até a cidade. Mas não vou te deixar sozinha por muito tempo. Não agora que o cheiro de outros lobos está no ar.”
Ela franziu a testa.
“Do que você está falando?”
“Ontem à noite, depois que gozamos, você ouviu os uivos. Não eram meus. Eram de Darius. Alfa da Matilha do Sangue Vermelho. Meu maior inimigo. Ele sabe que encontrei minha companheira. E sabe que você é humana. Para ele, isso é fraqueza. Ele vai tentar usar você contra mim.”
Elara sentiu o estômago embrulhar.
“Então eu sou um alvo agora?”
“Você sempre foi. Desde o momento em que pisou no meu território.”
Ela fechou os olhos, respirando fundo.
“Eu não pedi por isso.”
“Eu sei.” Ele tocou o rosto dela com uma gentileza surpreendente. “Mas aconteceu. E agora precisamos lidar com as consequências.”
Eles se vestiram em silêncio. Kael entregou a ela uma camiseta dele — enorme, cheirando a ele — porque as roupas dela estavam rasgadas da pressa da noite anterior. Ela vestiu sem reclamar. O tecido caiu até o meio das coxas, como um vestido improvisado.
Quando saíram da casa, o ar da manhã estava fresco, carregado de orvalho. A moto de Elara ainda estava encostada na árvore. Kael a inspecionou rapidamente, como se procurasse algo.
“Está tudo bem?”
“Sim. Só checando se ninguém mexeu.”
Ele montou na moto dela — que parecia minúscula sob o corpo enorme dele — e estendeu a mão.
“Vem. Eu dirijo.”
“É minha moto.”
“E eu sou maior. Mais forte. E sei onde tem buracos na estrada que você não conhece.”
Ela bufou, mas subiu atrás dele, envolvendo a cintura com os braços. O contato imediato enviou um choque de reconhecimento pelo corpo dela.
Ele deu partida e acelerou devagar pela estrada de terra. O vento batia nos cabelos dela, mas o cheiro dele a envolvia mais forte que nunca.
Chegaram à entrada da cidade em menos de vinte minutos. Kael parou a moto na rua lateral, atrás da cafeteria, onde ninguém os veria.
Elara desmontou, devolvendo o capacete.
“Obrigada pela carona.”
Ele desceu também, ficando perto demais.
“Não me agradeça ainda.” Ele segurou o queixo dela com dois dedos, erguendo seu rosto. “Eu vou te dar espaço. Mas não muito. E se sentir qualquer coisa estranha — febre, dor, sonhos intensos demais — me liga. Ou me chama. Eu vou ouvir.”
Ela assentiu devagar.
“Eu cuido de mim mesma há muito tempo, Kael.”
“Eu sei. Mas agora você não está mais sozinha.”
Ele a beijou então. Não com a fome da noite anterior. Foi lento. Profundo. Quase doce. Um beijo de promessa. De espera.
Quando se afastou, os olhos dele estavam escuros.
“Onze dias, Elara.”
Ela virou as costas e entrou pela porta dos fundos da cafeteria sem olhar para trás.
Mas sentia o olhar dele queimando nas costas até o momento em que fechou a porta.
Lá dentro, Mira estava abrindo o estabelecimento. Parou ao vê-la.
“Meu Deus. Você está… diferente.”
Elara tocou o pescoço instintivamente.
“Eu sei.”
Mira se aproximou, cheirando o ar.
“Você cheira a ele. Forte. E tem marcas no pescoço que não estavam aí ontem.”
Elara levou a mão à pele. Havia pequenas manchas vermelhas — chupões, mordidas leves. Nada permanente. Ainda.
“Eu dormi com ele.”
Mira fechou os olhos por um segundo.
“E agora?”
“Agora eu tenho onze dias para decidir se aceito ser marcada… ou se condeno nós dois a algo pior.”
Mira tocou o braço dela.
“E o que você sente?”
Elara olhou para a rua pela janela. A moto de Kael ainda estava lá, mas ele já havia sumido.
“Eu sinto medo. Raiva. Desejo. E uma saudade idiota de alguém que mal conheço.”
Mira suspirou.
“Então é amor. Ou o começo dele.”
Elara riu sem humor.
“Ou o começo do fim.”
Lá fora, na floresta distante, um uivo solitário ecoou — longo, ameaçador.
Darius estava se movendo.
E o tempo estava correndo.
Capítulo 6: O Primeiro Sangue
Elara passou o resto da manhã trancada no apartamento acima da cafeteria, ignorando as batidas leves de Mira na porta e as mensagens no celular. O corpo ainda carregava as marcas dele — não só as visíveis, como os chupões arroxeados no pescoço e nas coxas internas, mas as invisíveis: uma febre baixa que subia e descia como ondas, um latejar constante entre as pernas, uma saudade que parecia rasgar o peito. Ela tomou dois banhos seguidos, esfregando a pele até ficar vermelha, mas o cheiro dele não saía. Era como se tivesse se infiltrado nos poros.
Quando finalmente desceu, Mira a esperava com um café preto forte e um olhar que não admitia mentiras.
“Você está pálida. E tremendo. O que ele fez?”
Elara sentou no banco alto, envolvendo a xícara quente com as mãos.
“Ele não fez nada que eu não tenha deixado.” Ela bebeu um gole longo, sentindo o líquido queimar a garganta. “Mas agora… agora eu sinto ele mesmo estando tão longe. Como se tivesse uma corda invisível me puxando de volta.”
Mira se inclinou sobre o balcão, voz baixa.
“É o laço. Eu li sobre isso uma vez, em livros antigos que minha avó guardava. Dizem que antes da marca completa, o desejo vira dor. Quanto mais você resiste, pior fica.”
Elara ergueu os olhos, surpresa.
“Você sabe mais do que deixa transparecer.”
Mira deu de ombros, limpando o balcão com movimentos mecânicos.
“Minha família veio de uma linhagem que caçava essas coisas. Ou protegia. Depende do ponto de vista. Eu escolhi proteger. Por isso fico aqui, nessa cidadezinha esquecida, vigiando a fronteira entre os mundos.”
Elara sentiu um frio na espinha.
“Então você sabia que ele existia. Que isso podia acontecer comigo.”
“Suspeitava. Você sempre teve algo… diferente. Seus sonhos. A forma como reage a certos cheiros. A lua cheia te deixa inquieta desde que te conheci. Eu só não queria que você descobrisse assim. Tão rápido. Tão violento.”
Elara baixou o olhar para as mãos. As unhas estavam roídas, um hábito antigo que voltara com força.
“Ele disse que tenho onze dias. Que depois disso a dor vai ser insuportável.”
Mira assentiu devagar.
“É verdade. Mas a dor não é só física. É emocional também. Você vai começar a sentir falta dele como se faltasse ar. Vai sonhar com ele toda noite. E nos sonhos… os sonhos vão ficar mais reais. Mais cruéis.”
Elara fechou os olhos.
“Eu já sinto falta. E odeio isso. Odeio que meu corpo traia minha mente.”
Mira tocou a mão dela.
“Então decida. Aceite ou lute. Mas lute sabendo o preço.”
O dia passou em câmera lenta. Elara atendeu clientes com um sorriso forçado, tirou fotos de bolos para o feed da cafeteria, arrumou prateleiras que não precisavam de arrumação. Mas a cada hora que passava, o vazio dentro dela crescia. Uma dor surda no peito, como se alguém tivesse arrancado um pedaço e levado embora.
Ao entardecer, ela não aguentou mais.
Pegou a moto e seguiu para a reserva. Não para se render. Para confrontar. Para entender se aquilo era mesmo inevitável ou se havia uma saída.
A porteira estava aberta de novo. Como se ele soubesse.
Ela estacionou na clareira da casa e desmontou. O ar estava pesado, carregado de um cheiro metálico que ela não reconhecia de imediato. Sangue. Fresco.
Seu estômago revirou.
“Kael?”
A porta da casa se abriu. Mas não foi Kael quem saiu primeiro.
Foi Jax — o beta que ela vira brevemente na noite anterior, alto, loiro, com cicatrizes finas cruzando o rosto como teias. Ele estava sujo de terra e sangue, os olhos azuis carregados de urgência.
“Entre. Rápido.”
Elara hesitou só um segundo. Correu para dentro.
A sala estava um caos controlado. Dois lobos — em forma humana agora — estavam deitados no chão, gemendo baixo. Um tinha um corte profundo no abdômen, o outro um ferimento na coxa que sangrava profusamente. Kael estava ajoelhado entre eles, mãos pressionando um pano limpo contra o ferimento mais grave. Seu rosto estava tenso, suado, os olhos âmbar quase negros de fúria.
Ele ergueu o olhar quando ela entrou.
“Você não deveria estar aqui.”
“Mas estou.” Ela se aproximou, ignorando o cheiro forte de sangue. “O que aconteceu?”
“Darius. Ele mandou um grupo de batedores. Cruzaram a fronteira norte. Queriam testar nossas defesas. E deixar um recado.”
Jax se aproximou, limpando as mãos numa toalha.
“O recado era para você, Elara. Eles deixaram isso cravado numa árvore na divisa.”
Ele estendeu um pedaço de papel amassado, manchado de sangue. Elara pegou com dedos trêmulos.
Escrita em letras grosseiras, com o que parecia ser carvão:
“Entregue a humana ou perca mais do que sangue. A próxima lua cheia vai decidir.”
Ela amassou o papel na mão.
“Eles querem me usar como moeda de troca.”
Kael se levantou devagar, os punhos cerrados ao lado do corpo. Os músculos dos braços flexionavam com a raiva contida.
“Eles não vão tocar em você.”
“Mas tocaram nos seus. Por minha causa.”
Ele se aproximou dela em dois passos largos, parando perto o suficiente para que ela sentisse o calor da fúria emanando dele.
“Isso não é culpa sua. É minha. Eu sou o Alfa. Eu protejo. E falhei hoje.”
Elara ergueu o queixo, encarando-o.
“Então me deixe ajudar. Me deixe entender como lutar contra isso.”
Jax pigarreou.
“Ela tem razão, chefe. Se ela é mesmo sua companheira, o laço dá força a vocês dois. Quanto mais perto, mais forte o vínculo. Pode ser a vantagem que precisamos.”
Kael rosnou baixo, um som que fez os pelos da nuca de Elara se eriçarem.
“Eu não vou arriscar a vida dela.”
“Você já arriscou quando a marcou parcialmente.” Jax cruzou os braços. “Agora ela está no jogo quer você queira ou não.”
Elara tocou o braço de Kael. O contato foi elétrico. Ele relaxou só um pouco.
“Me deixa ficar. Pelo menos esta noite. Eu não vou embora sabendo que tem gente sangrando por minha causa.”
Kael fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.
“Você fica. Mas fica perto de mim. Não sai do meu campo de visão.”
Ela assentiu.
Eles passaram as horas seguintes cuidando dos feridos. Elara ajudou a limpar os cortes, aplicar antisséptico, fazer curativos improvisados. Seus movimentos eram precisos — anos fotografando em locais remotos a haviam ensinado primeiros socorros básicos. Kael a observava em silêncio, uma mistura de orgulho e preocupação nos olhos.
Quando os dois lobos finalmente dormiram sob efeito de analgésicos fortes, Kael a levou para o andar de cima. Não para o quarto da noite anterior. Para um cômodo menor, com uma cama simples e uma janela que dava para a floresta.
Ele fechou a porta. Trancou.
“Você está exausta”, disse, voz baixa.
“Você também.”
Ele se aproximou devagar, como se temesse assustá-la.
“Eu sinto você tremendo. Não é só cansaço. É o laço cobrando.”
Elara assentiu, os dentes batendo levemente.
“Está doendo. Aqui.” Ela tocou o peito. “E aqui.” A mão desceu para a barriga baixa.
Kael a puxou contra si com gentileza surpreendente. Os braços fortes a envolveram, o queixo descansando no topo da cabeça dela.
“Eu sei. Eu sinto também. Como se uma parte de mim estivesse faltando.”
Ela ergueu o rosto.
“Então me ajuda a aguentar. Pelo menos por hoje.”
Ele a beijou então. Lento. Profundo. Sem pressa. As mãos grandes subiram pelas costas dela, tirando a camiseta dele que ela ainda usava. A pele dela encontrou a dele — quente, febril, necessitada.
Eles caíram na cama juntos. Não foi selvagem como da primeira vez. Foi lento. Deliberado. Cada toque uma promessa. Cada beijo uma confissão.
Kael desceu os lábios pelo pescoço dela, lambendo as marcas que ele mesmo deixara, reacendendo o fogo sob a pele. As mãos exploraram cada curva, cada vale, como se quisesse memorizar tudo. Quando chegou entre as coxas dela, não usou os dedos primeiro. Baixou a boca diretamente, língua traçando caminhos lentos e torturantes, sugando o clitóris com uma pressão perfeita que a fez arquear as costas e gemer seu nome.
Ele a levou ao limite devagar, parando sempre que ela estava perto, prolongando a tortura deliciosa até que ela estivesse implorando — não com palavras, mas com o corpo: quadris erguidos, mãos puxando os cabelos dele, coxas tremendo ao redor da cabeça.
Quando finalmente a deixou gozar, foi intenso. Ondas longas e profundas que a fizeram chorar de alívio e prazer. Ele subiu pelo corpo dela, beijando cada lágrima, e entrou nela devagar, centímetro por centímetro, deixando-a sentir cada detalhe.
Eles se moveram juntos, em um ritmo que parecia sincronizado pelo próprio batimento dos corações. Não havia domínio. Havia entrega mútua. Ele sussurrava contra a orelha dela palavras que ela mal entendia — promessas em uma língua antiga, juramentos de proteção, confissões de medo.
Quando gozaram juntos, foi como uma explosão silenciosa. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, os dentes roçando a pele sem perfurar, o corpo convulsionando dentro do dela.
Ficaram abraçados por longos minutos, suados, ofegantes, completos.
“Eu não vou te perder”, murmurou ele contra a pele dela.
Elara apertou os braços ao redor dele.
“Então não me deixe ir.”
Mas lá fora, na escuridão da floresta, olhos vermelhos observavam a casa. Darius sorria, presas brilhando ao luar.
Ele havia sentido o laço se fortalecer.
E isso só tornava o plano mais doce.
Porque quanto mais forte o laço, maior a dor quando fosse rompido.
Capítulo 7: O Veneno da Dúvida
A manhã seguinte amanheceu cinzenta, com nuvens pesadas pairando sobre a reserva como um presságio. Elara acordou sozinha na cama pequena do quarto de hóspedes. O lençol ainda guardava o calor do corpo de Kael, mas ele não estava ali. O cheiro dele permanecia — forte, reconfortante, possessivo —, mas a ausência física dele a atingiu como um soco no estômago. A dor surda no peito voltou, mais insistente, como se o laço estivesse cobrando o preço pela noite de entrega mútua.
Ela se sentou na beira da cama, os pés descalços tocando o chão frio de madeira. As coxas internas estavam sensíveis, marcadas por leves hematomas em forma de dedos — lembranças da forma como ele a segurara enquanto se moviam juntos, lentos e profundos, como se o mundo pudesse esperar. Mas agora, à luz do dia, a realidade batia forte: ela estava no território dele, cercada por lobos feridos, ameaçada por um inimigo que nem conhecia, e seu corpo gritava por um homem que, horas antes, prometera não deixá-la ir.
Elara vestiu a camiseta dele de novo — a única roupa que restava intacta — e desceu as escadas. A casa estava silenciosa demais. Os feridos haviam sido levados para uma ala médica improvisada no porão, segundo Jax explicara na noite anterior. Ela encontrou a cozinha vazia, mas havia café fresco na cafeteira e um bilhete ao lado de uma xícara.
“Volto antes do meio-dia. Fique dentro de casa. Jax está na varanda. — K”
Ela amassou o papel na mão, irritada com o tom de ordem disfarçado de preocupação. Mas bebeu o café mesmo assim, sentindo o líquido quente descer e acalmar um pouco o tremor nas mãos.
Jax apareceu na porta dos fundos minutos depois, carregando uma pilha de lenha. Ele era alto quase como Kael, mas mais magro, com um sorriso fácil que contrastava com as cicatrizes no rosto.
“Bom dia, rainha da casa.”
Elara ergueu uma sobrancelha.
“Rainha? Sério?”
“É como os outros estão chamando você pelas costas. A humana que domou o Alfa. Ou quase.” Ele largou a lenha perto da lareira e se encostou no balcão. “Kael está na fronteira norte com Luna e mais três betas. Reforçando as patrulhas. Darius mandou mais um recado esta madrugada: um coelho morto na linha divisória, com o coração arrancado e uma mensagem amarrada na pata. ‘Ela morre primeiro’.”
Elara sentiu o estômago revirar.
“Ele está brincando com a gente.”
“Não. Darius não brinca. Ele planeja. E ele odeia Kael desde que perdeu a irmã numa guerra antiga. Culpa Kael pela morte dela, mesmo que tenha sido acidente de batalha.” Jax passou a mão pelo cabelo loiro desgrenhado. “Agora que Kael encontrou uma companheira… humana… Darius vê a oportunidade perfeita para enfraquecê-lo. Se ele te pegar, quebra o Alfa. Se te matar, quebra a matilha.”
Ela apertou a xícara com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
“Então eu sou o calcanhar de Aquiles dele.”
Jax deu de ombros.
“Ou a arma que pode salvar todos nós. O laço de companheiros não é só fraqueza. Quando selado, dá força. Visão compartilhada. Sentidos ampliados. Cura mais rápida. Kael já está mais forte desde que te tocou. Você também vai ficar, se aceitar.”
Elara baixou o olhar.
“Ele disse que eu tenho até a próxima lua cheia.”
“Onze dias agora viraram dez.” Jax a observou com atenção. “Você sente a dor?”
Ela assentiu devagar.
“Como se tivesse um buraco no peito. E febre que vem e vai. Sonhos… sonhos que parecem reais demais.”
Jax suspirou.
“É o laço cobrando. Quanto mais perto vocês ficam, mais forte o vínculo. Mas se você fugir agora… a dor vai piorar. Para os dois.”
Antes que ela pudesse responder, a porta da frente se abriu com violência. Luna entrou primeiro — alta, cabelos pretos curtos, olhos cinza afiados como lâminas. Atrás dela, Kael. Sangue fresco manchava a manga da camisa dele, mas não parecia ser dele.
Luna parou ao ver Elara, o olhar percorrendo-a de cima a baixo com desdém mal disfarçado.
“Ela ainda está aqui.”
Kael rosnou baixo, um aviso.
“Luna.”
A beta ergueu as mãos em rendição falsa.
“Só estou constatando o óbvio, Alfa. Enquanto você brinca de casinha com a humana, Darius está movendo peças. Encontramos mais dois corpos na fronteira leste. Não eram nossos. Eram dele. Ele está sacrificando os próprios para nos provocar. Para nos distrair.”
Kael se aproximou de Elara, parando ao lado dela como um escudo vivo. A mão dele tocou a lombar dela — um gesto sutil, mas possessivo.
“O que mais?”
Luna cruzou os braços.
“Um deles tinha isso na boca.” Ela jogou um celular velho no balcão. “Mensagem de texto enviada há uma hora: ‘Diga à humana que seus pais não morreram em acidente. Pergunte ao Alfa o que ele esconde sobre o carro que explodiu na estrada.’”
O mundo de Elara parou.
Ela pegou o celular com mãos trêmulas. A mensagem estava lá, exatamente como Luna descrevera.
Seus olhos subiram para Kael. Ele estava imóvel, o rosto uma máscara de pedra, mas os olhos traíam — culpa, raiva, medo.
“É verdade?”, perguntou ela, voz baixa e perigosa.
Kael respirou fundo.
“Eu não matei seus pais.”
“Mas sabe algo sobre isso.”
Silêncio.
Luna bufou.
“Ele sabe. Todo mundo na matilha velha sabe. Seus pais eram caçadores. Caçadores de lobisomens. Eles entraram no território errado numa noite de lua cheia. Tentaram matar o pai de Kael — o Alfa anterior. Houve luta. O carro deles saiu da estrada. Explodiu. Ninguém pretendia matar humanos civis. Mas aconteceu.”
Elara sentiu o chão sumir sob os pés.
“Você sabia disso. Desde o começo. E não me contou.”
Kael deu um passo à frente, estendendo a mão.
“Elara…”
Ela recuou.
“Não toque em mim.”
A dor no peito explodiu — não só emocional, mas física. Como se o laço estivesse sendo rasgado. Ela levou a mão ao coração, ofegante.
Kael sentiu também. Seu rosto contorceu-se em dor.
“Eu ia te contar. Quando fosse seguro. Quando você estivesse pronta.”
“Pronto?” Ela riu, amarga. “Você me fodeu, me marcou parcialmente, me trouxe para o meio da sua guerra… e escondeu que seus lobos mataram meus pais?”
“Não foram meus lobos. Foi antes de eu ser Alfa. Eu era adolescente. Eu vi acontecer. E jurei que nunca mais deixaria humanos inocentes morrerem por causa da nossa existência.”
Ela balançou a cabeça, lágrimas queimando os olhos.
“Você mentiu por omissão. Isso é pior.”
Luna interveio, voz fria.
“Ela não pertence aqui, Kael. Mande-a embora. Antes que Darius a use contra nós. Antes que ela nos destrua por dentro.”
Kael virou-se para Luna com um rosnado que fez as janelas tremerem.
“Saia. Agora.”
Luna hesitou, depois saiu, batendo a porta.
Jax pigarreou.
“Eu… vou ver os feridos.”
Sozinhos na cozinha, o silêncio era ensurdecedor.
Elara respirou fundo, tentando controlar o tremor.
“Eu preciso ir embora.”
Kael fechou os olhos.
“Se você for agora, a dor vai te destruir. E a mim também.”
“Talvez eu prefira a dor à traição.”
Ele abriu os olhos — vermelhos nas bordas, como se a besta interior estivesse lutando para sair.
“Eu não traí você. Eu protegi você. De Darius. De mim mesmo. De tudo que poderia te machucar mais.”
Ela deu um passo à frente, parando perto o suficiente para sentir o calor dele.
“Então por que dói tanto?”
“Porque o laço sente a dúvida. Sente o medo. Sente quando você quer fugir.” Ele ergueu a mão devagar, tocando o rosto dela. Ela não recuou dessa vez. “Eu sinto tudo que você sente, Elara. Cada lágrima. Cada raiva. Cada desejo.”
Ela fechou os olhos, uma lágrima escorrendo.
“Eu não sei mais quem sou. Humana? Híbrida? Companheira? Vítima?”
Ele limpou a lágrima com o polegar.
“Você é tudo isso. E mais. Você é minha. Mas só se quiser ser.”
Ela abriu os olhos. Os dele estavam vulneráveis — algo raro num Alfa.
“Me dá tempo. Um dia. Só um dia para pensar.”
Kael assentiu devagar.
“Um dia. Mas não saia da reserva. Não sozinha.”
Ela assentiu.
Ele a puxou contra o peito então. Não para dominar. Para consolar. Ela deixou. Enterrou o rosto no pescoço dele, inalando o cheiro que a acalmava e a destruía ao mesmo tempo.
Mas enquanto ele a abraçava, a mente dela girava.
Seus pais. O acidente. O segredo.
E Darius lá fora, esperando o momento perfeito para atacar.
Lá fora, na floresta, um lobo solitário observava a casa com olhos vermelhos brilhantes.
Darius sorriu, presas à mostra.
A semente da dúvida havia sido plantada.
Agora era só esperar que ela crescesse.
E destruísse tudo.
Capítulo 8: Fogo e Cinzas
Elara passou o dia inteiro na casa de Kael, mas não com ele. Depois da revelação na cozinha, ela pediu espaço — não para fugir, mas para respirar. Ele concedeu, embora cada músculo do corpo dele parecesse lutar contra a ideia. Kael saiu com Jax e Luna para reforçar as patrulhas na fronteira leste, deixando-a sob a vigilância discreta de dois betas mais jovens que patrulhavam o perímetro da clareira. Ela sentia os olhos deles mesmo sem vê-los. Era como viver dentro de uma gaiola invisível, forjada por proteção e desconfiança.
Ela subiu para o quarto pequeno e se trancou lá. Sentou-se na beira da cama, as costas encostadas na cabeceira de madeira escura, e deixou as lágrimas virem. Não eram soluços dramáticos. Eram silenciosas, quentes, escorrendo pelo rosto como se quisessem lavar a raiva, a confusão, a dor que se instalava cada vez mais fundo no peito. Seus pais. A explosão. O carro saindo da estrada numa noite chuvosa que ela ainda via em pesadelos. Ela sempre acreditara que fora acidente. Falha mecânica. Chuva forte. Motorista imprudente. Agora, a verdade era um veneno lento: seus pais eram caçadores. E morreram por causa de lobos. Lobos que, de alguma forma, estavam ligados ao homem que ela havia deixado entrar no corpo e na alma.
Ela pegou o celular — o sinal ali era fraco, mas suficiente para abrir as fotos antigas. Uma imagem dela aos dez anos, sorrindo entre os pais numa praia qualquer. O pai com barba cheia e olhos gentis. A mãe com cabelos castanhos iguais aos dela, abraçando-a por trás. Eles pareciam normais. Felizes. Não caçadores. Não assassinos de lobisomens.
“Por que vocês nunca me contaram?”, sussurrou para a tela. “Por que me deixaram achar que era só um acidente?”
A dor no peito aumentou. Não era só emocional. Era física. Uma queimação que subia do centro do tórax e se espalhava pelos braços, pelas pernas, concentrando-se entre as coxas como uma necessidade cruel. O laço. Ele não perdoava a distância emocional. Quanto mais ela se afastava mentalmente de Kael, mais o corpo cobrava.
Ela jogou o celular de lado e deitou de costas, respirando fundo. Tentou se concentrar em outra coisa. No teto. Nas vigas de madeira. No som distante do vento nas árvores. Mas tudo a levava de volta a ele. Ao jeito como ele a olhara quando confessou a verdade — não com arrogância, mas com medo genuíno de perdê-la. Ao toque das mãos grandes que a seguravam como se ela fosse a única coisa que o mantinha inteiro.
Um gemido baixo escapou dos lábios dela. Involuntário. O corpo traía. Os mamilos endureceram sob a camiseta larga, roçando o tecido e enviando choques diretos para o ventre. Entre as pernas, uma umidade quente começou a se formar, insistente, dolorosa.
“Merda”, murmurou, apertando as coxas.
Não adiantou. A necessidade só cresceu.
Ela deslizou a mão pela barriga, hesitante. Desceu até a borda da calcinha. Os dedos roçaram o clitóris inchado e ela arqueou as costas, mordendo o lábio para não gemer alto. Era ridículo. Patético. Se masturbar pensando nele depois de tudo que descobrira. Mas o corpo não se importava com lógica. O corpo queria alívio. Queria ele.
Ela fechou os olhos e deixou os dedos descerem mais. Circulou devagar, imaginando que eram os dele — grossos, firmes, implacáveis. Lembrou da boca dele entre suas coxas na noite anterior, da língua lenta e torturante, do jeito como ele a olhara enquanto a levava ao limite. Um gemido escapou, mais alto dessa vez. Ela aumentou o ritmo, os quadris se movendo contra a mão, buscando mais pressão.
A porta se abriu de repente.
Elara congelou, os dedos ainda dentro da calcinha, o rosto vermelho de vergonha e tesão.
Kael estava no batente, imóvel. Os olhos âmbar escurecidos, as narinas dilatadas, captando o cheiro dela no ar — excitação pura, misturada com lágrimas e raiva. Ele fechou a porta atrás de si com um clique suave, mas o som ecoou como um tiro.
“Eu senti você”, disse ele, voz rouca. “Do outro lado da floresta. Senti sua dor. Seu desejo. Seu vazio.”
Ela tirou a mão devagar, puxando a camiseta para baixo, tentando se cobrir.
“Saia.”
“Não.”
Ele avançou um passo. Depois outro. O ar entre eles crepitava.
“Você está se punindo”, continuou ele. “Se negando. Negando a mim. E isso só piora tudo.”
“Eu tenho direito de estar com raiva.”
“Tem.” Ele parou ao pé da cama, olhando para baixo. “Mas não tem direito de se machucar por causa dela.”
Elara sentou-se, os joelhos dobrados contra o peito.
“Você escondeu a verdade sobre meus pais.”
“Eu escondi até entender o que você era para mim. Até saber que não era só uma humana qualquer. Que era minha companheira.” Ele se ajoelhou na beira da cama, ficando na altura dos olhos dela. “Eu vi o acidente. Eu tinha dezesseis anos. Meu pai era o Alfa. Seus pais entraram no território atirando. Mataram dois dos nossos antes de serem encurralados. O carro capotou. Explodiu. Eu não atirei. Eu não ordenei. Mas eu estava lá. E carreguei a culpa desde então.”
Ela o encarou, procurando mentira nos olhos dele. Não encontrou.
“Por que não me contou logo?”
“Porque eu tinha medo que você me odiasse antes mesmo de me conhecer. E eu já estava perdido por você desde o primeiro cheiro.”
Silêncio pesado.
Elara sentiu novas lágrimas subirem.
“Eu não sei como perdoar isso.”
“Não precisa perdoar hoje. Nem amanhã. Mas não se afaste. Não me afaste. Porque isso está nos matando.”
Ele estendeu a mão. Não para tocá-la. Para oferecer.
Elara olhou para aquela mão grande, marcada por cicatrizes antigas. A mesma mão que a segurara com gentileza na noite anterior. A mesma que agora tremia levemente — de medo, talvez. De um Alfa que nunca aprendera a temer nada, exceto perdê-la.
Ela respirou fundo. Estendeu a própria mão. Colocou na dele.
O contato foi como um choque. O laço reagiu imediatamente — a dor no peito diminuiu, transformando-se em calor reconfortante. O latejar entre as pernas voltou, mas agora era desejo puro, não punição.
Kael fechou os dedos ao redor dos dela. Puxou-a devagar para o colo dele. Ela foi. Sentou-se de frente, as pernas de cada lado dos quadris dele, o rosto enterrado no pescoço forte.
“Eu sinto muito”, murmurou ele contra os cabelos dela. “Por tudo que você perdeu. Por tudo que eu não consegui impedir.”
Ela assentiu contra a pele dele, inalando o cheiro que a acalmava.
“Eu também sinto muito. Pelos seus. Pelos meus. Por nós.”
Ele ergueu o rosto dela com cuidado. Beijou-a devagar. Não com fome. Com reverência. Língua traçando os lábios dela, pedindo entrada. Ela abriu para ele. Deixou que ele a beijasse como se fosse a primeira vez.
As mãos dele subiram pelas costas dela, tirando a camiseta com movimentos lentos. Ela o ajudou, erguendo os braços. Ficou nua da cintura para cima. Os seios roçaram o peito dele através da camisa fina. Ele gemeu baixo, o som vibrando entre eles.
“Você é linda”, sussurrou contra a pele do ombro dela. “Mesmo chorando. Mesmo com raiva. Sempre.”
Ele baixou a boca para um seio, lambendo o mamilo devagar, sugando com gentileza. Elara arqueou as costas, as mãos enfiando-se nos cabelos dele. Não puxou. Acariciou.
Kael a deitou na cama com cuidado. Tirou a própria camisa. Desceu a calça. Ficou nu, magnífico, a ereção dura apontando para cima. Mas não avançou. Ficou entre as pernas dela, olhando-a nos olhos.
“Eu não vou te tocar se você não quiser.”
Ela estendeu os braços.
“Eu quero. Quero você. Mesmo com tudo isso. Quero sentir que ainda existimos.”
Ele desceu sobre ela devagar. Beijou cada centímetro da pele exposta — pescoço, clavícula, seios, barriga. Quando chegou entre as coxas, parou. Olhou para cima.
“Posso?”
Ela assentiu, mordendo o lábio.
Ele usou a boca primeiro. Lento. Reverente. Língua traçando caminhos suaves, explorando cada dobra, sugando o clitóris com pressão delicada. Elara gemeu baixo, as mãos nos lençóis, os quadris se movendo em ritmo lento.
Quando ela estava perto, ele subiu. Posicionou-se na entrada dela. Entrou devagar, centímetro por centímetro, deixando-a sentir cada detalhe. Quando estava todo dentro, parou. Ficou imóvel, os olhos cravados nos dela.
“Eu te amo”, disse ele, voz rouca. “Não sei quando começou. Mas sei que é verdade.”
Elara sentiu o coração apertar. Não de dor. De algo maior.
“Eu também”, sussurrou. “Mesmo com raiva. Mesmo com medo. Eu te amo.”
Ele começou a se mover então. Lento. Profundo. Cada estocada uma declaração. Cada retirada uma promessa. Eles se olharam o tempo todo. Não havia pressa. Não havia domínio. Havia conexão.
Quando gozaram, foi juntos. Silencioso. Intenso. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, os dentes roçando a pele sem morder. Ela apertou as pernas ao redor dele, as unhas cravando levemente nas costas.
Ficaram abraçados depois. Suados. Completos.
Mas a paz durou pouco.
Um uivo cortou o ar — próximo. Perigoso.
Kael sentou-se de repente, os sentidos em alerta.
“Eles estão aqui.”
Elara sentiu o coração disparar.
“Quem?”
“Darius. E não veio sozinho.”
Lá fora, o som de patas batendo no chão. Gritos. Rosnados.
A guerra havia chegado à porta deles.
E o laço, recém fortalecido pelo amor confessado, seria testado como nunca antes.
Capítulo 9: A Noite dos Primeiros Uivos de Guerra
O som dos uivos não era mais distante. Era próximo. Era múltiplo. Era raiva em forma de som.
Kael rolou para fora da cama em um movimento fluido, quase felino, antes mesmo que Elara conseguisse processar o que estava acontecendo. Ele estava nu, mas a transformação já começava: os músculos engrossando, os ossos estalando em um ritmo controlado, a pele ondulando enquanto o pelo negro começava a surgir em ondas. Não era uma mudança completa — ele ainda mantinha traços humanos suficientes para falar, para comandar —, mas era o suficiente para que qualquer um que o visse soubesse: o Alfa estava pronto para matar.
“Fique aqui dentro,” ordenou ele, a voz já mais grave, com um rosnado subjacente que vibrava pelo ar. “Tranque a porta. Não abra para ninguém que não seja eu ou Jax. Entendeu?”
Elara estava de joelhos na cama, o lençol agarrado contra o peito nu, o coração disparado tão forte que parecia querer sair pela garganta.
“E você vai fazer o quê? Sair pelado e enfrentar um exército?”
Os olhos âmbar dele brilharam no escuro do quarto.
“Exatamente.”
Ele abriu a janela com um puxão e saltou. Não houve hesitação. O corpo dele desapareceu na escuridão lá fora como se a noite o tivesse engolido.
Elara ficou parada por longos segundos, o corpo ainda quente do prazer recente, a mente girando em câmera lenta. Então o instinto falou mais alto que o medo.
Ela pulou da cama, correu até a janela e olhou para baixo.
A clareira estava viva.
Sombras se moviam rápido entre as árvores. Lobos — alguns em forma animal, outros ainda parcialmente humanos — corriam em direção à casa. E no centro de tudo, Kael já estava no chão, completamente transformado agora: um lobo negro gigantesco, maior que qualquer animal que ela já vira em documentários ou zoológicos. Seus olhos brilhavam como brasas vivas. Quando ele abriu a boca e soltou um rugido, o som fez as janelas tremerem.
Elara sentiu o som reverberar dentro do próprio peito. Não era só medo. Era reconhecimento. Era orgulho. Era terror e desejo misturados de uma forma que ela nunca imaginara possível.
Ela fechou a janela com força e correu para o corredor. Não ia ficar trancada como uma donzela em torre. Não era quem ela era.
No andar de baixo, encontrou Jax já armado — não com armas humanas, mas com uma faca longa e curva que parecia feita para rasgar carne grossa. Ele estava sem camisa, o peito subindo e descendo rápido, olhos claros quase prateados na penumbra.
“Você deveria estar trancada lá em cima,” disse ele sem rodeios.
“E você deveria estar lá fora ajudando seu Alfa.”
Jax hesitou só um segundo.
“Ele me mandou ficar aqui. Proteger você.”
“Então proteja-me lá fora. Porque eu não vou ficar esperando enquanto ele sangra por mim.”
Jax praguejou baixo, mas assentiu.
“Tudo bem. Mas você fica atrás de mim. E se eu mandar correr, você corre. Sem discussão.”
Elara pegou a jaqueta de couro de Kael que estava jogada no sofá e vestiu por cima da camiseta larga. Era enorme nela, mas carregava o cheiro dele — e isso, de alguma forma, a fazia se sentir mais forte.
Eles saíram pela porta dos fundos.
O ar da noite estava pesado, saturado de cheiros metálicos: sangue, terra revirada, pelo molhado, raiva. Uivos e rosnados vinham de todas as direções. A clareira parecia um campo de batalha em câmera lenta.
Elara viu Kael pela primeira vez em ação plena.
Ele era uma força da natureza. Movia-se com velocidade impossível para um animal daquele tamanho, derrubando dois lobos cinzentos de uma só vez com as patas dianteiras. Suas presas brilhavam quando rasgavam carne. O sangue respingava no pelo negro, mas ele não parava. Cada movimento era preciso, letal, econômico. Ele não lutava por raiva cega. Lutava como alguém que já havia feito isso muitas vezes — e sempre vencera.
Mas eram muitos.
Três lobos o cercaram de uma vez. Um cinzento enorme mordeu seu ombro esquerdo. Kael rugiu, girou o corpo e jogou o atacante contra uma árvore com tanta força que o tronco estalou. Mas o segundo aproveitou a brecha e cravou as presas na coxa traseira dele.
Elara sentiu a dor como se fosse sua.
Um grito escapou da garganta dela antes que pudesse conter.
“Kael!”
O som da voz dela atravessou o caos.
Kael virou a cabeça enorme na direção dela. Por um segundo, seus olhos encontraram os dela através da distância. E naquele olhar havia tudo: fúria, proteção, medo por ela, amor.
Ele se livrou do lobo que o mordia com um giro violento, jogando-o longe. Mas o terceiro atacante já saltava em sua direção.
Jax agiu antes que Elara pudesse pensar.
Ele correu, transformando-se no meio do caminho — ossos estalando, corpo crescendo, pelo loiro surgindo. O lobo loiro interceptou o atacante de Kael no ar, rolando com ele no chão em uma confusão de presas e garras.
Elara ficou paralisada por um segundo.
Então viu.
Um lobo menor, quase branco, estava contornando a luta principal. Seus olhos vermelhos brilhavam com inteligência cruel. Ele não atacava Kael. Ele corria direto para ela.
Darius.
Ela soube instintivamente.
O lobo branco parou a poucos metros, transformando-se com uma lentidão quase teatral. Quando terminou, era um homem alto, magro, de cabelos quase platinados e olhos vermelho-sangue que pareciam brilhar mesmo na escuridão. Uma cicatriz fina cortava seu rosto da têmpora esquerda até o canto da boca, dando-lhe um sorriso permanente e torto.
“Elara Voss,” disse ele, voz suave, quase melíflua. “A famosa companheira humana. Finalmente nos conhecemos.”
Elara recuou um passo. Não tinha arma. Não tinha como lutar. Mas ergueu o queixo.
“Se você veio me buscar, vai ter que passar por cima do seu cadáver primeiro.”
Darius riu — um som baixo, divertido, frio.
“Que espírito. Não é à toa que ele está tão obcecado.” Ele deu um passo à frente. “Mas veja bem… eu não vim buscar você hoje. Vim apenas deixar um lembrete.”
Ele estalou os dedos.
Dois lobos surgiram atrás dele, arrastando algo entre eles.
Era Luna.
A beta estava inconsciente, o rosto ensanguentado, um braço pendendo em ângulo errado. Eles a jogaram aos pés de Darius como se fosse lixo.
Elara sentiu o estômago subir à garganta.
“Ela tentou me impedir de chegar até você,” explicou Darius com calma. “Leal até o fim. Pena que o Alfa dela esteja tão… distraído.”
Ele se abaixou, segurou o queixo de Luna e ergueu o rosto dela. Os olhos da beta abriram devagar, desfocados.
“Você devia ter escolhido um lado melhor, querida.”
Então, com um movimento rápido demais para acompanhar, Darius cravou as presas no pescoço de Luna.
O grito de Elara foi imediato, visceral.
“LUNA!”
O sangue jorrou quente e escuro. Luna convulsionou uma vez, duas, e depois ficou imóvel.
Darius se levantou, lambendo os lábios devagar, os olhos fixos em Elara.
“É assim que começa,” disse ele. “Primeiro os que estão ao redor. Depois os que estão perto. E por último… você assiste enquanto ele sangra por você. Até que não reste mais nada para salvar.”
Ele deu um passo atrás, ainda sorrindo.
“Da próxima vez, não vou ser tão educado.”
Ele se transformou de novo — rápido, fluido — e desapareceu entre as árvores com os dois lobos que o acompanhavam.
A clareira ficou estranhamente silenciosa por alguns segundos.
Então Kael apareceu.
Ele voltou à forma humana correndo, nu, coberto de sangue que não era todo dele. Caiu de joelhos ao lado de Luna. Tocou o pescoço dela. Não havia mais pulso.
“Não…” A voz dele saiu quebrada. “Não, não, não…”
Elara correu até ele. Caiu ao lado, as mãos tremendo enquanto tocava o braço dele.
“Kael…”
Ele não respondeu. Apenas segurou o corpo de Luna contra o peito, os ombros largos tremendo. Pela primeira vez, Elara viu o Alfa chorar — não com soluços altos, mas com lágrimas silenciosas que caíam no cabelo preto da beta.
Jax voltou à forma humana também, mancando, o rosto pálido.
“Ela… ela tentou nos avisar. Eles a pegaram na retaguarda.”
Kael não respondeu.
Ele apenas segurava Luna.
Elara sentiu as próprias lágrimas escorrerem. Não conhecia a beta havia muito tempo. Não eram amigas. Mas vira nos olhos dela o quanto ela amava Kael — não como companheira, mas como alguém que daria a vida por ele. E agora estava morta. Por causa dela.
“Kael…” Ela tocou o rosto dele, limpando uma lágrima com o polegar. “Olha para mim.”
Ele ergueu os olhos lentamente. Vermelhos. Destruídos.
“Isso não é sua culpa,” sussurrou ela.
“É sim.” A voz dele era quase irreconhecível. “Eu a coloquei nessa posição. Eu trouxe você para cá. Eu… falhei.”
“Você está lutando. Está vivo. Estamos vivos.”
Ele balançou a cabeça devagar.
“Não por muito tempo. Não se ele continuar assim.”
Elara segurou o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela.
“Então lute mais. Lute mais forte. Por ela. Por mim. Por todos eles.”
Algo mudou nos olhos dele.
A dor ainda estava lá. A culpa ainda estava lá. Mas também havia fogo.
Ele assentiu uma vez. Devagar.
Então se levantou, ainda segurando o corpo de Luna nos braços.
“Jax. Reúna os outros. Vamos enterrá-la ao amanhecer. Depois… depois vamos planejar.”
Ele olhou para Elara.
“E você… vem comigo.”
Ele não esperou resposta. Apenas começou a caminhar em direção à casa, o corpo de Luna nos braços.
Elara o seguiu.
Porque naquele momento ela entendeu uma coisa com clareza absoluta:
A guerra não era mais sobre território. Não era mais sobre rivalidade antiga.
Era pessoal.
E se Darius queria sangue…
Então eles dariam sangue.
Mas seria o sangue dele que mancharia a terra primeiro.
Capítulo 10: Cinzas e Promessas Quebradas
O amanhecer chegou tímido, filtrado por nuvens grossas que pareciam carregar o peso da noite anterior. A clareira estava silenciosa agora, exceto pelo som distante de pás cavando terra úmida. Kael insistira em enterrar Luna ali mesmo, no limite da floresta, sob uma árvore antiga de tronco largo e raízes expostas que pareciam garras antigas. Não haveria cerimônia longa. Não haveria discursos. Apenas o silêncio respeitoso de uma matilha que perdera uma das suas.
Elara observava de longe, encostada na varanda da casa, os braços cruzados contra o peito como se pudesse segurar o vazio que se instalara dentro dela. Ela vestia uma das camisas de flanela de Kael — grande demais, mangas dobradas várias vezes —, e o cheiro dele ainda a envolvia, mas agora parecia mais um lembrete de perda do que de conforto. O corpo doía em lugares que não tinham sido tocados: o peito latejava com uma dor surda e constante, como se o laço estivesse sendo esticado até o limite da ruptura.
Jax terminou de preencher o buraco com terra fresca. Ele se abaixou, colocou uma pedra lisa e cinzenta sobre o monte, e murmurou algo baixo que o vento levou embora. Depois se levantou, limpou as mãos na calça e caminhou até Elara.
“Ela não queria ser enterrada na cidade,” disse ele, voz rouca de cansaço e lágrimas não derramadas. “Sempre dizia que preferia virar adubo para as árvores do que ser comida de vermes em caixão. Teimosa até o fim.”
Elara assentiu devagar, sem conseguir falar. Seus olhos estavam fixos no monte de terra fresca. Luna estivera ali horas antes — viva, feroz, ciumenta, leal. Agora era só um nome e uma pedra.
Kael foi o último a se afastar do túmulo. Ele ficou parado por longos minutos, imóvel como uma estátua de obsidiana, o vento bagunçando os cabelos escuros. Quando finalmente se virou, seus olhos encontraram os de Elara imediatamente. Havia algo diferente neles: não mais só dor, mas uma determinação fria, afiada como lâmina recém-forjada.
Ele subiu os degraus da varanda devagar. Parou na frente dela. Não a tocou de imediato — apenas ficou ali, respirando o mesmo ar que ela, deixando que o cheiro dela o ancorasse.
“Eu vou matar ele,” disse ele, voz baixa, sem emoção aparente. “Não importa o que custar. Darius vai morrer antes da próxima lua cheia.”
Elara ergueu o olhar para ele.
“E depois? Quantos mais vão morrer antes disso?”
Kael não respondeu de imediato. Ele estendeu a mão e, dessa vez, tocou o rosto dela — com uma delicadeza que contrastava com a fúria que queimava em seus olhos.
“Quantos forem necessários. Mas você não vai ser um deles.”
Ela segurou o pulso dele, não para afastar, mas para manter a mão ali.
“Eu não quero ser o motivo de mais mortes. Luna morreu por minha causa. Por causa do que eu represento para você.”
“Ela morreu porque Darius é um covarde que ataca pelas costas. Ela morreu porque escolheu defender o que acreditava.” Ele baixou a voz ainda mais. “E eu vou honrar isso matando o filho da puta que a tocou.”
Elara sentiu um arrepio descer pela espinha — não de medo, mas de reconhecimento. Aquele era o Alfa que comandava matilhas inteiras. O homem que governava com punho de ferro e instinto puro. E, pela primeira vez, ela via o quanto ele estava disposto a queimar o mundo para protegê-la.
“Então me deixa ajudar,” sussurrou ela. “Não me tranque aqui como se eu fosse frágil. Eu não sou loba, mas também não sou inútil.”
Kael inclinou a cabeça, estudando-a.
“O que você propõe?”
“Eu sei fotografar. Sei me mover sem ser vista. Sei observar. Deixa eu ajudar nas patrulhas. Deixa eu mapear os movimentos deles. Se Darius está usando táticas de guerrilha, então precisamos de olhos que ele não espere.”
Jax, que se aproximara em silêncio, soltou um assovio baixo.
“Ela tem razão, chefe. Humanos são bons em se esconder em lugares onde nós somos óbvios. E ela já provou que não foge de briga.”
Kael ficou em silêncio por longos segundos. Depois assentiu uma vez.
“Você fica sempre com Jax ou comigo. Nunca sozinha. Nunca sem comunicação. E se eu mandar voltar, você volta. Sem discussão.”
Elara assentiu.
“Combinado.”
Ele a puxou então para um abraço rápido, feroz. Enterrou o rosto nos cabelos dela e inalou profundamente, como se precisasse se lembrar de que ela ainda estava ali, viva, quente, real.
“Eu não aguento perder mais ninguém,” murmurou contra a têmpora dela. “Principalmente você.”
Ela apertou os braços ao redor dele.
“Então não perca.”
O resto do dia foi dedicado a planejamento.
Na sala principal da casa, mapas antigos foram espalhados sobre a mesa grande de carvalho. Kael marcou as fronteiras atuais da matilha, os pontos de invasão recentes, os caminhos que Darius usara para se aproximar. Jax trouxe relatórios de patrulha: pegadas, cheiros, marcas de urina que serviam como insultos territoriais.
Elara se sentou ao lado de Kael, o joelho tocando o dele sob a mesa. Ela ouvia tudo, absorvia cada detalhe. Quando chegou sua vez de falar, apontou para uma área sombreada no mapa.
“Aqui. Essa ravina ao sul. É estreita demais para um grupo grande passar, mas perfeita para um atirador solitário ou um mensageiro. Se eu subir nas árvores altas do lado leste, consigo visão panorâmica sem ser vista. Posso tirar fotos com lente longa. Registrar movimentos, números, padrões.”
Kael franziu a testa.
“É perigoso. Se te virem…”
“Eles não vão me ver. Eu já fiz isso antes — em florestas tropicais, em zonas de conflito humano. Sei me camuflar. Sei ficar imóvel por horas.”
Jax sorriu de lado.
“Ela tem colhões, Alfa. Deixa ela tentar.”
Kael olhou para Elara por longos segundos. Depois assentiu.
“Você vai com Jax ao amanhecer. Ele te leva até o ponto. Fica com você até o anoitecer. Qualquer sinal de problema, vocês voltam.”
Elara sentiu um alívio misturado com adrenalina.
“E você?”
“Eu vou para o norte. Darius gosta de atacar onde acha que estamos fracos. Vou mostrar que ele está errado.”
A noite caiu pesada.
Eles jantaram em silêncio — carne assada, pão, vinho tinto forte que Kael insistiu que ela bebesse para acalmar os nervos. Depois, ele a levou para o quarto principal — não o pequeno onde haviam se amado antes, mas o dele. Uma suíte ampla com cama enorme, lareira crepitante e janelas altas que davam para a floresta escura.
Ele fechou a porta. Trancou.
Virou-se para ela.
“Eu preciso de você esta noite,” disse ele, voz baixa e rouca. “Preciso sentir que ainda temos algo pelo que lutar.”
Elara caminhou até ele devagar. Colocou as mãos no peito dele, sentindo o coração bater forte sob a palma.
“Então me sinta.”
Ele a beijou como se estivesse morrendo de sede e ela fosse a única fonte de água no mundo. As mãos grandes subiram pelas costas dela, arrancando a camisa com urgência controlada. Ela fez o mesmo com a dele — unhas arranhando levemente a pele, arrancando um rosnado baixo que reverberou pelo peito dele e pelo dela.
Eles caíram na cama juntos. Não houve preliminares lentas dessa vez. Era necessidade crua. Desespero. Ele arrancou as roupas restantes dela, posicionou-se entre as coxas e entrou de uma vez, fundo, arrancando um grito dos dois. Ela arqueou as costas, as unhas cravando nos ombros largos, marcando-o como ele a marcara tantas vezes.
Kael se movia com força, cada estocada profunda e possessiva, como se quisesse gravar-se dentro dela para sempre. Ela encontrava cada movimento, quadris erguidos, pernas apertando a cintura dele. Eles não falavam. Só gemiam, rosnados, respirações entrecortadas.
Quando ela estava perto, ele parou de repente. Enterrou-se até o limite e ficou imóvel, os olhos cravados nos dela.
“Olhe para mim,” ordenou, voz rouca. “Quero ver você gozar sabendo que eu sou seu. Que você é minha. Que nada — nem Darius, nem a morte, nem o passado — vai nos separar.”
Elara sentiu as lágrimas subirem, mas não desviou o olhar.
“Eu sou sua,” sussurrou. “Sempre fui. Mesmo quando eu lutava contra isso.”
Ele começou a se mover de novo — lento agora, profundo, torturante. Cada estocada uma promessa. Cada retirada uma súplica.
Quando gozaram, foi juntos. Violento. Catártico. Ele rugiu o nome dela contra o pescoço, os dentes roçando a pele sem perfurar. Ela gritou o dele, o corpo convulsionando ao redor dele em ondas que pareciam não acabar.
Depois, ficaram abraçados, suados, ofegantes. Ele a segurou contra o peito, uma mão grande acariciando as costas dela em movimentos lentos.
“Eu te amo,” murmurou ele no escuro. “Mais do que a matilha. Mais do que o território. Mais do que minha própria vida.”
Elara ergueu o rosto, beijou-o devagar.
“Eu também te amo. E vou lutar ao seu lado. Até o fim.”
Ele assentiu, os olhos brilhando no escuro.
“Então amanhã começamos de verdade.”
Lá fora, na floresta, um uivo solitário respondeu ao silêncio da casa.
Não era de ameaça.
Era de luto.
Mas também de promessa.
A matilha estava de luto.
Mas estava pronta para a guerra.
E no centro de tudo, dois corações batendo no mesmo ritmo — um laço que nem a morte de Luna conseguira romper.
Ainda.
Capítulo 11: Olhos na Escuridão
O amanhecer trouxe uma neblina densa que se arrastava pela floresta como fumaça fria. Elara acordou antes do sol nascer de verdade, o corpo ainda pesado do sono interrompido por sonhos fragmentados: Luna caindo, Darius sorrindo com dentes ensanguentados, Kael rugindo enquanto o sangue escorria pelo seu pelo negro. Ela se sentou na cama enorme, o lençol embolado ao redor das pernas, e respirou fundo para afastar as imagens. Kael já não estava ali — saíra antes do alvorecer para organizar as patrulhas do norte, como prometera na noite anterior.
Ela se vestiu rápido: calça cargo preta, botas de trilha resistentes, uma camiseta térmica de manga longa e a jaqueta de couro dele por cima. Pendurou a câmera no pescoço — a lente teleobjetiva de 400mm que comprara para fotografar predadores distantes agora serviria para algo muito mais perigoso. No espelho do quarto, viu o próprio reflexo: olheiras profundas, pele pálida, mas olhos verdes queimando com uma determinação que ela não via em si mesma há anos.
Quando desceu, Jax a esperava na cozinha com duas canecas de café fumegante e um mapa dobrado.
“Bom dia, espiã,” disse ele, tentando soar leve, mas a voz saiu cansada. Os olhos dele estavam vermelhos — não dormira muito, se é que dormira.
“Bom dia, babá,” retrucou ela, pegando o café. “Kael já saiu?”
“Antes da primeira luz. Levou quatro betas. Disse que se Darius tentar outra incursão pelo norte, vai encontrá-lo esperando.” Jax apontou para o mapa aberto sobre a mesa. “Nós vamos para o sul. A ravina que você marcou ontem. É um caminho estreito, mas tem árvores altas o suficiente para cobertura. Se ele mandar batedores por ali, vamos ver primeiro.”
Elara assentiu, traçando o dedo pelo traçado irregular da ravina.
“Quanto tempo de caminhada?”
“Duas horas se formos rápidos e silenciosos. Três se formos cuidadosos.” Ele a olhou de cima a baixo. “Você está pronta para ficar horas imóvel em cima de uma árvore?”
“Já fiquei oito horas numa árvore na Amazônia esperando uma onça aparecer. Acho que aguento.”
Jax deu um meio sorriso — o primeiro desde a morte de Luna.
“Então vamos.”
Eles saíram pela porta dos fundos, evitando a clareira onde o túmulo de Luna ainda era uma ferida fresca na terra. A neblina os envolveu imediatamente, abafando os sons, tornando cada passo mais cauteloso. Jax ia na frente, movendo-se com uma graça que parecia contradizer seu tamanho. Ele parava a cada poucos metros, farejando o ar, ouvindo. Elara seguia atrás, pisando exatamente onde ele pisava, tentando não quebrar galhos secos.
Depois de uma hora de caminhada silenciosa, Jax parou e ergueu a mão. Apontou para cima.
“Ali. Aquele pinheiro tem galhos bons para apoio. Visão limpa para a ravina inteira.”
Elara olhou. O tronco era grosso, a casca áspera, mas os galhos mais baixos eram acessíveis. Ela assentiu.
“Me dá um impulso.”
Jax entrelaçou as mãos. Ela pisou nelas e subiu com agilidade, usando a força das pernas e dos braços para alcançar o primeiro galho. Depois disso foi mais fácil — escalada lenta, cuidadosa, até chegar a um ponto alto onde conseguia se sentar com as costas apoiadas no tronco e as pernas penduradas. A ravina se estendia abaixo como uma cicatriz na terra: estreita, íngreme, cheia de sombras.
Jax subiu logo atrás, posicionando-se num galho paralelo, um pouco mais baixo.
“Confortável?” perguntou ele, voz baixa.
“Melhor que ficar esperando na casa.” Ela ajustou a câmera, tirou a tampa da lente e verificou o foco. “Agora é esperar.”
O silêncio caiu entre eles.
Horas se passaram.
O sol subiu devagar, dissipando parte da neblina, mas deixando um ar úmido e frio que penetrava as roupas. Elara sentia os músculos das costas reclamarem, mas ignorava. Já havia feito isso antes — esperar era parte do ofício de fotógrafa de natureza. Só que agora a presa era muito mais perigosa.
Perto do meio-dia, Jax ergueu a mão de novo.
“Cheiro,” sussurrou. “Dois. Vindo do leste.”
Elara não sentiu nada, mas confiou nele. Ajustou a câmera, zoom máximo, respiração controlada.
Minutos depois, dois vultos surgiram na borda da ravina. Homens — ou quase. Vestiam roupas escuras, capuzes puxados, movimentos furtivos. Um deles carregava um rifle longo com luneta. O outro tinha uma mochila pesada.
Elara começou a fotografar. Clique. Clique. Cada imagem capturava detalhes: o rosto parcialmente visível de um deles, a tatuagem no pescoço do outro — um lobo vermelho com olhos negros —, a forma como olhavam ao redor, como se soubessem que estavam sendo observados.
Jax murmurou algo baixo.
“Eles estão marcando o terreno. Provavelmente preparando uma emboscada para quando Kael voltar pelo norte.”
Elara continuou clicando. Zoom no rifle. Zoom na tatuagem. Zoom no rosto do que parecia ser o líder — olhos cinzentos frios, cicatriz na sobrancelha.
Então o líder parou. Ergueu o nariz. Farejou o ar.
E olhou diretamente para cima.
Direto para a árvore deles.
Elara congelou.
Jax praguejou baixinho.
“Ele sentiu.”
O homem sorriu — um sorriso lento, predatório. Ergueu o rifle devagar, apontando para o alto.
Antes que pudesse atirar, Jax se moveu.
Ele saltou do galho como um raio loiro, transformando-se no ar, patas batendo no chão com força. O lobo loiro atacou o atirador, derrubando-o com um rosnado feroz. O segundo homem tentou sacar uma faca, mas Jax era mais rápido — girou e cravou as presas no braço dele, arrancando um grito abafado.
Elara desceu da árvore o mais rápido que pôde, coração na boca. Quando chegou ao chão, Jax já havia imobilizado os dois. Um estava inconsciente, o outro gemia, o braço sangrando.
Jax voltou à forma humana, ofegante, sangue na boca.
“Peguei eles vivos. Kael vai querer interrogá-los.”
Elara se aproximou, câmera ainda na mão.
“Eu tenho fotos. Rostos. Armas. Tatuagens.”
Jax assentiu.
“Bom trabalho. Agora vamos levá-los de volta.”
Eles amarraram os dois com cordas que Jax carregava na mochila e começaram a arrastá-los de volta pela trilha. O caminho de volta foi mais lento, mais pesado. Elara sentia cada músculo protestar, mas a adrenalina mantinha tudo em foco.
Quando chegaram à clareira, Kael já estava lá — esperando na varanda, braços cruzados, olhos âmbar fixos na direção de onde eles vinham. Ele desceu os degraus em passos largos, o rosto uma máscara de preocupação e fúria contida.
“Vocês estão bem?” perguntou, voz rouca, olhando primeiro para Elara.
Ela assentiu.
“Sim. E trouxemos presentes.”
Kael olhou para os dois prisioneiros. Seus olhos escureceram.
“Levem para o porão. Amarrem bem. Vou falar com eles em um minuto.”
Jax assentiu e arrastou os homens para dentro.
Kael se aproximou de Elara. Tocou o rosto dela com cuidado, examinando cada centímetro.
“Você está machucada?”
“Não. Só cansada.”
Ele a puxou contra o peito, abraçando forte.
“Eu senti você em perigo. Lá de longe. O laço… ele me avisou.”
Ela enterrou o rosto no pescoço dele, inalando o cheiro familiar.
“Eu estou bem. E conseguimos o que precisávamos.”
Ele se afastou um pouco, olhando nos olhos dela.
“Você foi corajosa. Mais do que eu queria que fosse.”
“Você me deixou ir. Isso já é progresso.”
Ele deu um meio sorriso — o primeiro desde a morte de Luna.
“Talvez eu esteja aprendendo.”
Eles entraram na casa juntos.
No porão escuro e frio, os dois prisioneiros estavam amarrados em cadeiras de metal. Um acordara e olhava para Kael com ódio puro. O outro ainda estava desacordado.
Kael parou na frente do acordado.
“Fale,” disse simplesmente.
O homem cuspiu no chão.
“Vá se foder, Thornwood. Darius já sabe que você está fraco. Sua cadelinha humana não vai salvá-lo.”
Kael não se moveu. Apenas olhou.
Então, devagar, estendeu a mão e tocou o ombro do homem.
O osso estalou.
O homem gritou.
Elara estremeceu, mas não desviou o olhar.
Kael se inclinou.
“Eu perguntei com educação. Agora vou perguntar de outro jeito. Quantos mais estão vindo? Quando? Por onde?”
O homem respirava rápido, suor escorrendo pelo rosto.
“Você… não vai… me quebrar…”
Kael apertou mais.
Outro estalo. Outro grito.
“Vinte,” cuspiu o homem por fim. “Vinte e cinco. Amanhã à noite. Pelo leste. Ele quer a humana viva. Para assistir enquanto te mata.”
Kael soltou o ombro. Olhou para Elara.
“Vá subir. Isso não é para você ver.”
Ela balançou a cabeça.
“Eu fico. Eu preciso saber.”
Ele hesitou. Depois assentiu.
Virou-se para o prisioneiro de novo.
“Obrigado pela informação.”
Então, com um movimento rápido, quebrou o pescoço do homem.
O corpo caiu mole na cadeira.
Elara engoliu em seco, mas não recuou.
Kael olhou para o outro — ainda desacordado.
“Jax. Acorde ele. Vamos ver se ele tem algo a acrescentar.”
Jax assentiu.
Kael se virou para Elara.
“Você tem certeza de que quer ficar?”
Ela ergueu o queixo.
“Tenho. Porque se vamos lutar juntos… então é juntos até o fim.”
Ele a puxou para um beijo rápido, feroz.
“Então até o fim, companheira.”
Lá fora, o sol começava a se pôr.
E a próxima noite prometia ser a mais sangrenta de todas.
Capítulo 12: A Noite Antes do Fim
A casa estava mergulhada em um silêncio opressivo quando o sol se pôs. As luzes internas foram mantidas baixas — apenas lâmpadas fracas nas salas principais e no porão, onde os ecos dos interrogatórios ainda pareciam pairar no ar. O segundo prisioneiro não resistira muito tempo. Depois que Kael quebrara o primeiro pescoço, o outro começara a falar quase imediatamente: vinte e cinco lobos confirmados, ataque planejado para o anoitecer seguinte, ponto de concentração na borda leste da ravina que Elara havia mapeado. Darius queria a humana viva. Queria que ela assistisse enquanto Kael era despedaçado. Queria que o laço de companheiros se rompesse na frente dela, para que o Alfa sentisse a dor absoluta antes de morrer.
Kael não matou o segundo. Deixou-o vivo, amarrado e amordaçado no porão, como isca para qualquer resgate que Darius pudesse tentar. Mas o preço da informação fora alto: o homem morreria devagar se não recebesse cuidados, e ninguém ali tinha intenção de oferecê-los.
Elara subiu para o quarto principal sozinha. O corpo doía — não só dos músculos tensos da escalada e da espera na árvore, mas de dentro para fora. O laço pulsava como uma ferida aberta: cada vez que Kael se afastava fisicamente, mesmo que por poucos metros, uma pontada aguda atravessava seu peito. Ela sabia que era o aviso do destino: o tempo estava acabando. Dez dias haviam se reduzido a oito. A próxima lua cheia se aproximava como uma sentença.
Ela tomou um banho quente, deixando a água escaldante lavar o suor, a terra, o cheiro de medo que impregnara suas roupas. Quando saiu do banheiro, enrolada numa toalha, encontrou Kael já no quarto. Ele estava de pé junto à janela, olhando para a floresta escura, nu da cintura para cima, as costas marcadas por cicatrizes antigas e novas — algumas ainda vermelhas da luta da noite anterior. Os músculos estavam tensos, como se o corpo inteiro estivesse preparado para explodir.
Ele não se virou imediatamente. Apenas falou, voz baixa e rouca:
“Eu matei dois hoje. Não os prisioneiros. Dois dos meus próprios betas. Eles estavam feridos demais para sobreviver à noite. Eu os ajudei a ir embora. Com as próprias mãos.”
Elara sentiu o estômago revirar. Caminhou até ele devagar, descalça, o chão frio sob os pés. Parou atrás dele e encostou a testa nas costas largas, sentindo o calor da pele dele contra a sua.
“Você fez o que precisava ser feito.”
“Eu fiz o que um Alfa faz.” Ele virou-se devagar, os olhos âmbar escuros, quase negros. “Mas não é isso que eu queria ser para você. Eu queria ser… mais. Alguém que não precisasse matar para proteger.”
Ela ergueu a mão e tocou o rosto dele, traçando a linha da mandíbula, a barba por fazer.
“Você é tudo isso. E mais. Você é o homem que me deixa escolher. Que me deixa lutar ao seu lado. Que me deixa amar você mesmo sabendo o preço.”
Kael fechou os olhos por um segundo, como se as palavras doessem mais que qualquer ferimento.
“Eu sinto você se afastando,” murmurou. “Não fisicamente. Dentro de você. A dúvida. O medo. O laço está sentindo. Está me rasgando.”
Elara deixou a toalha cair. Ficou nua na frente dele, sem vergonha, sem defesas.
“Então me sinta de novo. Me sinta inteira. Me sinta sua.”
Ele a pegou no colo como se ela não pesasse nada. Levou-a até a cama e a deitou com uma delicadeza que contrastava com a urgência nos olhos. Não houve pressa dessa vez. Ele a beijou devagar — lábios, pescoço, clavícula, seios —, cada toque uma reverência. As mãos grandes percorreram cada curva do corpo dela como se quisesse memorizar: a linha da cintura, a curva dos quadris, a suavidade da parte interna das coxas.
Quando chegou entre as pernas dela, não usou a boca imediatamente. Apenas olhou. Olhou como se estivesse vendo algo sagrado.
“Você é linda,” sussurrou. “Mesmo com medo. Mesmo com raiva. Mesmo com tudo que eu trouxe para sua vida.”
Então baixou a boca. Lento. Torturante. Língua traçando caminhos suaves, circulando o clitóris com pressão perfeita, sugando devagar até que ela arqueasse as costas e gemesse seu nome. Ele não a deixou gozar rápido. Parava sempre que ela chegava perto, subia pelo corpo dela, beijava sua boca, deixava que ela sentisse o próprio gosto nos lábios dele.
“Eu quero ouvir você implorar,” murmurou contra a orelha dela. “Quero que você diga que é minha. Que sempre será.”
Elara agarrou os ombros dele, unhas cravando na pele.
“Eu sou sua,” sussurrou, voz trêmula. “Sempre fui. Mesmo quando eu lutava. Mesmo quando eu odiava. Eu sou sua, Kael. Me marca. Me completa. Me faz sua de verdade.”
As palavras o quebraram.
Ele se posicionou entre as coxas dela, a ereção dura roçando a entrada molhada. Entrou devagar — centímetro por centímetro —, deixando-a sentir cada detalhe, cada veia pulsando, cada respiração dele se misturando à dela. Quando estava todo dentro, parou. Ficou imóvel, os olhos cravados nos dela.
“Eu te amo,” disse ele, voz rouca. “Mais do que qualquer lei antiga. Mais do que qualquer matilha. Mais do que minha própria besta.”
Elara sentiu as lágrimas subirem, mas sorriu através delas.
“Então me marca. Agora. Antes que seja tarde.”
Ele hesitou só um segundo. Depois baixou a boca para o pescoço dela — exatamente onde a pulsação batia mais forte, onde a pele era mais fina, mais sensível. Os dentes roçaram primeiro. Depois pressionaram. A dor veio aguda, lancinante — mas misturada a um prazer tão intenso que ela gritou, o corpo convulsionando ao redor dele.
A mordida foi lenta. Deliberada. Ele não rasgou. Ele marcou. Os dentes perfuraram a pele, o sangue quente escorreu pela clavícula dela, e ao mesmo tempo ele começou a se mover dentro dela — estocadas profundas, ritmadas, sincronizadas com cada sucção da boca no pescoço.
O laço explodiu.
Era como se um circuito se fechasse. Como se cada nervo do corpo dela se conectasse diretamente ao dele. Ela sentiu tudo: a dor dele pela perda de Luna, a raiva contra Darius, o medo de perdê-la, o amor avassalador que o consumia. E ele sentiu ela — a solidão antiga, o trauma dos pais, a teimosia que a mantivera viva, o desejo que a queimava por dentro.
O orgasmo veio como uma onda violenta. Ela gritou o nome dele, as unhas rasgando as costas dele, o corpo convulsionando em espasmos que pareciam não acabar. Kael rugiu contra o pescoço dela, os quadris estocando uma última vez, enterrando-se até o limite enquanto gozava dentro dela — jatos quentes, profundos, marcando-a por dentro como a mordida marcava por fora.
Eles caíram juntos, ofegantes, suados, colados. A mordida ainda sangrava levemente, mas a dor já havia se transformado em calor — um calor que se espalhava pelo corpo dela como fogo líquido, selando o laço.
Kael ergueu o rosto devagar. Os olhos dele estavam úmidos.
“Agora é irreversível,” sussurrou. “Você é minha companheira. Minha fêmea. Minha vida.”
Elara tocou a marca no pescoço — sensível, latejante, mas perfeita.
“E você é meu. Meu Alfa. Meu amor. Meu tudo.”
Eles ficaram abraçados por longos minutos, respirando juntos, corações batendo no mesmo ritmo.
Mas o momento foi interrompido por um uivo longo e solitário vindo da floresta.
Não era de ameaça.
Era de aviso.
Jax entrou no quarto sem bater, já transformado parcialmente, olhos prateados brilhando no escuro.
“Eles estão se movendo. Mais cedo do que o prisioneiro disse. Estão na ravina agora. Vinte e cinco, talvez mais.”
Kael se levantou devagar, o corpo ainda nu, mas já mudando — músculos engrossando, olhos escurecendo.
“Reúna todos. Vamos acabar com isso hoje.”
Elara se sentou na cama, tocando a marca fresca no pescoço. Sentiu o poder novo correndo nas veias — não transformação completa, mas algo híbrido, forte, vivo.
Ela olhou para Kael.
“Eu vou com você.”
Ele hesitou.
“Você acabou de ser marcada. Seu corpo está se ajustando. Pode ser perigoso.”
“Eu não vou ficar esperando. Não agora. Não depois disso.”
Ele a encarou por longos segundos. Depois assentiu.
“Então lute ao meu lado. Como minha igual.”
Elara sorriu — feroz, determinada.
“Como sua igual.”
Eles desceram juntos.
A matilha já se reunia na clareira: betas armados com facas, garras, presas. Olhos brilhando na escuridão. O ar cheirava a sangue, raiva, lealdade.
Kael parou no centro, Elara ao seu lado.
“Hoje não lutamos só por território,” disse ele, voz ecoando pela clareira. “Lutamos por quem perdemos. Por quem ainda podemos salvar. E por ela.” Ele olhou para Elara. “Minha companheira. Marcada. Nossa.”
Um uivo coletivo subiu — feroz, unificado.
Elara sentiu o som reverberar no próprio peito.
O laço estava completo.
A guerra começava agora.
E eles não iriam perder.
Capítulo 13: O Sangue da Lua Crescente
A clareira se transformou em um palco de sombras e presas à medida que a noite avançava. A lua crescente pendia baixa no céu, fina como uma lâmina de prata, lançando uma luz pálida que mal conseguia atravessar a copa densa das árvores. O ar estava carregado: cheiro de terra úmida, sangue seco da noite anterior, suor de corpos ansiosos e o odor inconfundível de fúria lupina. A matilha se posicionara em formação semicircular — Kael no centro, Elara imediatamente à direita dele, Jax à esquerda. Atrás deles, os betas restantes formavam linhas irregulares, alguns já parcialmente transformados, olhos brilhando como brasas na penumbra.
Elara sentia o laço pulsar dentro do peito como um segundo coração. A marca no pescoço ainda latejava — não mais com dor, mas com uma energia viva, quase elétrica. Cada batida do coração de Kael ecoava no dela. Cada respiração dele era sentida como se fosse sua. Ela não era loba completa, mas algo havia mudado: seus sentidos estavam mais aguçados. O farfalhar das folhas soava mais alto, o cheiro de pinho mais intenso, e o pulsar distante de patas inimigas chegava até ela como um tambor de guerra.
Kael ergueu a mão. Silêncio absoluto.
“Eles vêm pelo leste,” disse ele, voz baixa mas carregada, ecoando na mente de todos através do laço de matilha. “Vinte e cinco confirmados. Talvez mais. Darius lidera. Ele quer Elara viva. Quer me ver sangrar antes de morrer. Mas hoje… hoje ele morre primeiro.”
Um rosnado baixo subiu da matilha — aprovação feroz, luto transformado em sede de vingança.
Elara tocou o braço dele. A pele estava quente, quase febril.
“Eu sinto eles,” sussurrou. “Estão perto. Muito perto.”
Kael virou o rosto para ela. Os olhos âmbar brilhavam com algo além de fúria — orgulho.
“Então lute como minha companheira. Como minha igual.”
Ela assentiu. Pela primeira vez desde que tudo começara, não havia dúvida. Apenas certeza.
O primeiro uivo inimigo cortou o ar — longo, provocador, vindo da borda da ravina.
Kael respondeu com um rugido que fez o chão vibrar. A matilha inteira uivou em uníssono. O som era primal, ensurdecedor, um desafio que ecoou pelas montanhas.
Então veio o ataque.
Eles surgiram como uma onda cinzenta e negra: lobos em forma animal, alguns ainda em transição, olhos vermelhos brilhando na escuridão. Darius liderava — lobo branco imenso, cicatriz visível mesmo na forma lupina, presas à mostra em um rosnado permanente.
Kael se transformou no mesmo instante. O corpo cresceu, ossos estalaram, pelo negro cobriu a pele. Ele saltou para frente, interceptando o primeiro grupo de atacantes. Suas patas bateram no chão com força, derrubando dois de uma vez. Presas rasgaram carne, sangue espirrou quente no ar frio.
Elara não ficou parada.
Ela correu para o lado, mantendo-se na borda da clareira, câmera pendurada no pescoço — não para fotografar, mas para usar como distração se precisasse. Jax a seguia de perto, já em forma de lobo loiro, rosnando baixo.
Um lobo cinzento menor desviou de Kael e veio direto para ela — rápido, letal, olhos fixos na marca fresca no pescoço dela.
Elara sentiu o instinto falar antes da razão. Ela se abaixou, rolou para o lado, pegou uma pedra pesada do chão e acertou a cabeça do lobo quando ele saltou. O impacto foi sólido — um estalo seco. O animal caiu atordoado. Jax terminou o serviço com um golpe de presas na garganta.
Ela se levantou ofegante, mãos tremendo, mas olhos firmes.
Mais dois vieram.
Jax interceptou um. O outro alcançou Elara.
Ela não pensou. Apenas agiu.
Sentiu o laço pulsar — quente, urgente. Como se Kael estivesse dentro dela, guiando-a. Seus dedos formigaram. As unhas cresceram ligeiramente — não garras completas, mas afiadas o suficiente. Ela cravou-as no pescoço do lobo atacante, rasgando com força inesperada. O animal uivou de dor, recuou. Ela chutou a barriga dele, derrubando-o. Jax terminou com uma mordida final.
Elara olhou para as próprias mãos — unhas alongadas, sujas de sangue. Não era transformação completa. Era algo híbrido. Algo novo.
Do outro lado da clareira, Kael lutava como uma tempestade viva. Ele derrubava inimigos com golpes precisos, mas eram muitos. Um lobo maior mordeu seu flanco. Sangue escorreu pelo pelo negro. Ele rugiu, girou e quebrou o pescoço do atacante com as mandíbulas.
Mas Darius esperava.
O lobo branco circulava devagar, esperando o momento. Quando Kael se virou para enfrentar mais três, Darius atacou pelas costas — rápido, cruel, presas mirando a nuca.
Elara sentiu o perigo antes de ver.
O laço gritou dentro dela — dor antecipada, medo puro.
“Kael!”
Ela correu. Não pensou. Apenas correu.
Saltou entre eles no último segundo. O impacto foi brutal. As presas de Darius rasgaram seu ombro em vez do de Kael. A dor explodiu branca e quente. Ela gritou, caindo no chão, sangue escorrendo pelo braço.
Kael virou-se como um raio. Seus olhos encontraram os dela — horror, fúria, amor misturados em um único olhar.
Ele atacou Darius com uma violência que fez o ar tremer. Os dois lobos colidiram no centro da clareira — negro contra branco, Alfa contra traidor. Presas se chocaram. Garras rasgaram. Sangue voou em arcos escuros.
Elara tentou se levantar. O ombro ardia, mas o laço a mantinha consciente — o poder de Kael fluía para ela, curando devagar, estancando o sangramento. Ela viu Jax lutar ao seu lado, protegendo-a enquanto derrubava mais um atacante.
No centro, a luta entre Kael e Darius era brutal. Darius era rápido, astuto, mas Kael era força bruta temperada por raiva pessoal. Ele acertou uma pata no flanco de Darius, rasgando carne. Darius revidou, mordendo o ombro já ferido de Kael.
Eles rolaram no chão, uma massa de pelo e sangue.
Então Kael conseguiu vantagem. Prendeu Darius pelo pescoço com as mandíbulas. Apertou. O lobo branco convulsionou, as patas traseiras chutando o ar.
Kael não soltou.
Apertou mais.
Até o corpo de Darius ficar imóvel.
O silêncio caiu como uma lâmina.
A matilha inimiga parou. Alguns recuaram. Outros caíram de joelhos em rendição.
Kael soltou o corpo. Voltou à forma humana devagar, nu, coberto de sangue — próprio e alheio. Caminhou até Elara, mancando, mas firme.
Caiu de joelhos ao lado dela.
Tocou o ferimento no ombro dela com mãos trêmulas.
“Você está bem?”
Ela assentiu, lágrimas escorrendo pelo rosto sujo.
“Você venceu.”
Ele a puxou contra o peito, ignorando a própria dor.
“Não. Nós vencemos.”
Jax se aproximou, já humano novamente, ofegante.
“Os que sobraram estão fugindo. Alguns se renderam. O que fazemos?”
Kael olhou para os corpos espalhados. Para o de Darius, imóvel no centro.
“Enterrem os nossos. Os deles… deixem para os corvos. Quem se render… decidimos amanhã.”
Ele ergueu Elara nos braços com cuidado.
“Vamos para casa.”
A caminhada de volta foi lenta. A matilha os seguia em silêncio respeitoso. O sangue ainda pingava do ombro dela, mas o ferimento já se fechava — devagar, milagrosamente. O laço completo fazia seu trabalho.
Dentro da casa, Kael a levou direto para o banheiro. Colocou-a sentada na bancada, abriu a torneira quente, limpou o ferimento com delicadeza infinita.
“Você pulou na frente dele,” murmurou, voz rouca. “Por mim.”
“Eu faria de novo.”
Ele ergueu os olhos. Lágrimas brilhavam nos cantos.
“Nunca mais faça isso.”
Ela tocou o rosto dele.
“Então nunca mais me deixe para trás.”
Ele assentiu. Beijou-a devagar — lábios salgado de sangue e lágrimas.
Depois a levou para a cama. Deitou-se ao lado dela, puxando-a contra o peito.
A marca no pescoço dela pulsava em sincronia com a dele — agora completa, eterna.
“Acabou,” sussurrou ele.
“Não,” respondeu ela, voz suave. “Começou.”
Ele sorriu contra os cabelos dela.
“Então que comece.”
Lá fora, a matilha uivava — não de guerra, mas de vitória. De luto por quem se foi. De esperança pelo que viria.
E no quarto escuro, dois corpos entrelaçados, dois corações batendo como um só.
O destino havia unido garras e alma.
E nada mais os separaria.
Capítulo 14: Herdeiros da Lua
O amanhecer após a batalha trouxe uma quietude quase sagrada à reserva. A clareira ainda cheirava a sangue seco e terra revirada, mas o vento já começava a levar embora os vestígios mais cruéis da noite. Os corpos dos inimigos haviam sido arrastados para fora do território — não por respeito, mas por pragmatismo: corvos e predadores menores fariam o trabalho de limpeza. Os rendidos — sete lobos que jogaram as cabeças para baixo e expuseram o pescoço em submissão — foram confinados em uma área isolada do porão, sob vigilância constante de Jax e dois betas mais experientes. Kael decidiria o destino deles mais tarde. Hoje, o foco era cura. E reconstrução.
Elara acordou com o sol já alto, filtrado pelas cortinas pesadas do quarto principal. O ombro direito latejava em um ritmo baixo e constante, mas o ferimento — que deveria ter levado semanas para cicatrizar — estava agora coberto por uma crosta fina, rosada, quase fechada. Ela tocou a pele ao redor com cuidado e sentiu um calor sutil emanando dali, como se o próprio laço estivesse tecendo a carne de volta. A marca no pescoço, por outro lado, pulsava com vida própria: não dor, mas presença. Presença de Kael, mesmo estando a metros de distância.
Ela se sentou na cama devagar. O corpo inteiro doía — músculos protestando contra o esforço da noite anterior, arranhões superficiais ardendo, mas nada quebrado. Nada irreparável. Vestiu uma das camisas dele (já virara hábito) e desceu as escadas descalça.
A cozinha estava cheia de movimento controlado. Jax mexia uma panela grande de ensopado de carne e raízes — comida de recuperação para os feridos. Dois betas jovens limpavam bandagens ensanguentadas na pia. Mira — sim, Mira, que chegara de madrugada depois de receber uma mensagem urgente de Elara — organizava frascos de ervas e pomadas sobre a mesa. Ela ergueu os olhos quando Elara apareceu na porta.
“Você parece que foi atropelada por uma matilha inteira,” disse Mira, mas o tom era suave, quase maternal. “Sente-se. Coma. Seu corpo está queimando energia para curar.”
Elara obedeceu, sentando-se no banco alto. Mira colocou uma tigela fumegante na frente dela e uma xícara de chá amargo que cheirava a camomila e algo mais forte, provavelmente analgésico natural.
“Onde está Kael?” perguntou Elara, voz rouca de sono e gritos da noite anterior.
“Lá fora. Com os corpos dos nossos.” Mira tocou o braço dela com gentileza. “Ele está enterrando os últimos. Sozinho. Não quis ajuda.”
Elara sentiu um aperto no peito. Levantou-se imediatamente.
“Eu vou até ele.”
Mira não tentou impedir. Apenas assentiu.
“Leve isso.” Ela entregou um cantil de metal. “Água com sal e mel. Ele precisa se hidratar.”
Elara pegou o cantil e saiu pela porta dos fundos.
O ar estava frio, mas o sol já aquecia a terra. Ela seguiu o caminho até o limite da floresta, onde as sepulturas novas formavam uma linha irregular sob as árvores antigas. Havia sete montes frescos agora — Luna e os seis betas que não sobreviveram à noite. Kael estava ajoelhado diante do último, mãos sujas de terra, cabeça baixa. Ele não usava camisa; as costas largas estavam marcadas por novos arranhões e hematomas que já começavam a desbotar graças à regeneração lupina.
Elara parou a alguns metros, dando-lhe espaço. Mas o laço os conectava mesmo assim. Ele sentiu a presença dela antes mesmo de ouvir os passos.
“Eu matei todos que pude,” disse ele sem se virar. Voz baixa, quase quebrada. “Mas não foi suficiente. Seis dos meus. Seis famílias que agora vão uivar sozinhas na próxima lua cheia.”
Elara se aproximou devagar. Ajoelhou-se ao lado dele. Colocou o cantil no chão e tocou o ombro dele — o mesmo que Darius mordera na noite anterior. A pele estava quente, mas a ferida já era só uma linha rosada.
“Você salvou muito mais,” sussurrou ela. “Vinte e cinco contra nós. E nós ainda estamos aqui. A matilha ainda está aqui. Porque você lutou. Porque nós lutamos.”
Kael ergueu o rosto devagar. Os olhos âmbar estavam vermelhos nas bordas — não de transformação, mas de lágrimas contidas.
“Eu quase te perdi ontem. Você pulou na frente dele. Por mim.”
“E faria de novo.”
Ele balançou a cabeça.
“Não. Nunca mais. Eu não aguento a ideia de você sangrando por mim.”
Elara segurou o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela.
“Então entenda uma coisa, Kael Thornwood. Eu não sou uma companheira que você protege. Eu sou uma companheira que luta ao seu lado. Que sangra com você. Que vence com você. Se isso significa levar uma mordida no ombro para salvar sua nuca… então que seja. Porque o laço não é só sobre você me proteger. É sobre nós nos protegermos mutuamente.”
Ele fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando abriu, havia algo novo ali — não só alívio, mas aceitação profunda.
“Eu sei,” murmurou. “Eu sei. Mas o medo… o medo de te perder é maior que qualquer batalha.”
Elara sorriu devagar, passando o polegar pela cicatriz antiga no ombro dele.
“Então vamos transformar esse medo em força. Vamos reconstruir. Vamos ensinar os novos. Vamos mostrar que uma matilha com uma companheira híbrida é mais forte que qualquer outra.”
Kael a puxou para o colo dele. Sentaram-se ali mesmo, na terra fresca ao lado das sepulturas, abraçados como se o mundo pudesse esperar.
“Eu quero filhos com você,” disse ele de repente, voz baixa contra os cabelos dela. “Não agora. Não enquanto a poeira não baixar. Mas um dia. Filhos que carreguem seu fogo e minha força. Que não tenham que escolher entre humano e lobo. Que sejam os dois.”
Elara sentiu o coração apertar — não de medo, mas de algo quente, expansivo.
“Eu também quero,” sussurrou. “Eles vão ser teimosos como eu e dominantes como você. Vão dar trabalho.”
Ele riu baixo — o primeiro riso verdadeiro desde a batalha.
“Vão ser perfeitos.”
Eles ficaram ali por longos minutos, apenas respirando juntos. O laço pulsava calmo agora, curativo, reconfortante. Quando finalmente se levantaram, Kael estendeu a mão para ela.
“Vem. Vamos reunir a matilha. Temos muito o que decidir.”
Eles voltaram para a clareira de mãos dadas.
Os betas se reuniram ao redor deles. Alguns feridos ainda mancavam, outros carregavam curativos frescos, mas todos ergueram os olhos com respeito — não só para Kael, mas para Elara. A marca no pescoço dela era visível, fresca, orgulhosa. A matilha sentia o laço completo. Sentia a força nova que corria entre eles.
Kael parou no centro.
“Ontem perdemos seis. Ontem perdemos Luna.” A voz dele ecoou clara, firme. “Mas hoje ganhamos algo maior. Hoje ganhamos um futuro. Darius está morto. Sua matilha se dissolveu. Os que restaram ou fugiram ou se renderam. Nós vamos absorver quem quiser jurar lealdade. Vamos ensinar os jovens. Vamos proteger os fracos. E vamos mostrar ao mundo que humanos e lobos podem coexistir — não como predador e presa, mas como iguais.”
Ele olhou para Elara.
“Porque minha companheira não é uma fraqueza. Ela é nossa força. E qualquer um que duvidar disso… pode tentar provar o contrário.”
Um uivo subiu da matilha — não de guerra, mas de unidade. De aceitação. De esperança.
Jax deu um passo à frente, sorrindo de lado apesar das olheiras profundas.
“E agora, Alfa? O que vem depois?”
Kael apertou a mão de Elara.
“Depois… reconstruímos. Curamos. Vivemos.”
Elara ergueu o queixo, olhando para todos.
“E eu vou estar aqui. Não como uma humana que precisa ser protegida. Como uma de vocês. Como companheira do Alfa. Como parte dessa matilha.”
Os uivos subiram mais alto.
Naquela tarde, eles começaram o trabalho: curar feridos, enterrar os últimos vestígios da batalha, planejar a integração dos rendidos. Mira ficou para ajudar com as ervas e os cuidados. Jax assumiu a liderança das patrulhas de fronteira — agora mais amplas, mais seguras.
E à noite, quando a lua crescente subiu mais alto, Kael levou Elara para o alto de uma colina que dava vista para toda a reserva.
Eles se sentaram na grama fria, costas contra uma rocha aquecida pelo sol do dia. Ele a puxou para o colo, braços ao redor dela, queixo no ombro.
“Você sente?” perguntou ele, voz suave.
Ela assentiu.
“O laço. A matilha. O futuro.”
Ele beijou a marca no pescoço dela — devagar, reverente.
“Então vamos viver isso. Um dia de cada vez.”
Elara virou o rosto e o beijou — lento, profundo, cheio de promessas.
“Um dia de cada vez,” repetiu ela.
Lá embaixo, a matilha uivava para a lua.
Não era um uivo de luto.
Era um uivo de renascimento.
E no topo da colina, duas almas entrelaçadas, marcadas para sempre.
Garras e destino, enfim unidos.
Capítulo 15: Raízes e Asas
Os dias seguintes à batalha foram de uma calma tensa, como o silêncio que segue um trovão. A reserva Thornwood respirava devagar, curando-se ferida por ferida. As sepulturas novas ganharam pedras marcadas com nomes e datas simples — Luna, Elias, Mara, Thorne, Lira, Silas e Rowan. Cada uma delas era visitada diariamente por alguém da matilha. Não havia flores artificiais ou velas; apenas pedaços de osso polido, penas de coruja, uma flor silvestre colhida ao amanhecer. Rituais pequenos, pessoais, que mantinham os mortos presentes sem transformá-los em ídolos.
Elara passava as manhãs ajudando Mira na cozinha improvisada que se tornara um centro de cura. Elas preparavam chás de casca de salgueiro e milefólio para reduzir inflamações, pomadas de calêndula e arnica para cortes, e caldos densos de carne e raízes para repor forças. Mira ensinava sem pressa: como identificar ervas pelo cheiro, como medir doses sem pesar, como sentir quando um ferimento estava infectando antes mesmo de aparecer pus. Elara absorvia tudo com uma fome quieta. Não era só conhecimento prático; era uma forma de se sentir útil, de ancorar-se naquele mundo novo que ainda parecia meio sonho, meio pesadelo.
À tarde, ela saía com Jax para patrulhas leves — mais observação do que combate. A fronteira sul estava tranquila; os poucos sobreviventes da matilha de Darius haviam se dispersado ou sido absorvidos por grupos menores nas montanhas distantes. Jax ensinava a ela como ler pegadas frescas, como distinguir cheiro de medo de cheiro de fome, como identificar trilhas que não eram feitas por patas, mas por botas humanas curiosas demais. Ele falava pouco de Luna, mas quando falava, era com uma saudade crua que não tentava disfarçar.
“Ela odiava esperar,” disse ele certa tarde, enquanto caminhavam pela borda de um riacho estreito. “Sempre dizia que esperar era pior que lutar. Pelo menos na luta você sabe o que está enfrentando.”
Elara assentiu, chutando uma pedra que rolou para dentro da água.
“Eu entendo. Esperar me deixa louca também.”
Jax olhou para ela de lado.
“Você mudou, sabia? Não só por causa da marca. Tem algo… mais selvagem em você agora. Não é transformação. É outra coisa.”
Ela tocou a cicatriz no ombro — já quase invisível.
“Talvez seja só medo virando coragem.”
“Ou talvez seja o laço te moldando. Não para ser loba. Para ser a ponte.”
Elara parou de andar. Olhou para o beta loiro com atenção.
“Você acha que eu sou mesmo a chave para mudar as coisas?”
Jax deu de ombros.
“Eu acho que Kael estava preso há muito tempo. Preso na culpa, na raiva, no peso de ser Alfa. Você o obrigou a olhar para fora de si mesmo. E agora a matilha está olhando para fora também. Não é mais só sobreviver entre humanos. É coexistir. Talvez até prosperar.”
Elara sentiu um calor subir pelo peito — não o fogo do desejo, mas algo mais quieto, mais profundo. Orgulho misturado com responsabilidade.
“Então vamos fazer isso direito,” disse ela simplesmente.
Jax sorriu — um sorriso pequeno, mas genuíno.
“Já estamos fazendo.”
As noites eram de Kael e Elara.
Eles não se trancavam mais no quarto como se o mundo fosse acabar. Agora saíam para a floresta depois que a matilha se recolhia. Caminhavam em silêncio até um pequeno platô rochoso que dava vista para o vale inteiro. Ali, sob a lua crescente que crescia a cada noite, eles se sentavam de costas um para o outro, ou deitados lado a lado na grama fria, mãos entrelaçadas.
Às vezes falavam. Às vezes não.
Uma noite, Kael quebrou o silêncio primeiro.
“Eu sonhei com eles ontem,” disse ele, voz baixa. “Meus pais. Luna. Seus pais também. Estavam todos juntos numa clareira. Não brigando. Só… olhando para mim. Como se esperassem algo.”
Elara virou o rosto para ele. A luz da lua prateava os traços dele, suavizando as linhas duras.
“O que você acha que eles esperam?”
Kael respirou fundo, olhando para as estrelas.
“Que eu pare de carregar o passado como uma corrente. Que eu comece a construir em vez de só defender.”
Ela apertou a mão dele.
“Então construa. Comigo.”
Ele virou-se para encará-la. Os olhos âmbar brilhavam com algo vulnerável, quase infantil.
“Eu quero uma família, Elara. Não só herdeiros para a matilha. Uma família de verdade. Crianças que cresçam sabendo que não precisam escolher lados. Que possam ser humanos nos dias de sol e lobos nas noites de lua cheia. Ou o que quiserem ser.”
Ela sentiu os olhos arderem.
“Eu também quero. Mas… e se eu não conseguir? E se o lado híbrido em mim for fraco demais?”
Kael a puxou para cima dele, fazendo-a sentar no colo. As mãos grandes envolveram a cintura dela, firmes, seguras.
“Você pulou na frente de um Alfa assassino para me proteger. Seu lado híbrido não é fraco. Ele só estava dormindo. E agora acordou.”
Ele baixou a boca para a marca no pescoço dela — beijou devagar, lambendo a cicatriz como se pudesse curá-la de novo.
“E mesmo se nunca tivéssemos filhos,” murmurou contra a pele dela, “eu ainda escolheria você. Todo dia. Em cada vida.”
Elara fechou os olhos, deixando as lágrimas escorrerem.
“Então vamos tentar. Quando estivermos prontos. Vamos tentar.”
Ele a beijou então — lento, profundo, cheio de promessas silenciosas. As mãos subiram pelas costas dela, tirando a jaqueta, a camisa, até que a pele dela encontrou a dele sob o luar. Eles fizeram amor ali mesmo, na rocha aquecida pelo dia, com a floresta como testemunha. Não foi selvagem. Foi reverente. Cada toque uma declaração. Cada gemido uma juramento.
Depois, deitados nus sob o céu, corpos entrelaçados para se aquecer, Kael traçou com o dedo a linha da cicatriz no ombro dela.
“Você vai carregar isso para sempre,” disse ele, voz rouca de emoção.
“Bom,” respondeu ela. “Vai me lembrar que eu escolhi lutar. Que eu escolhi você.”
Ele a apertou mais forte contra o peito.
“E eu vou carregar você para sempre. Dentro de mim. Até o último uivo.”
Eles adormeceram assim — sob as estrelas, sob a lua crescente, sob o peso leve de um futuro que começava a se desenhar.
Lá embaixo, na casa, a matilha dormia.
Jax patrulhava sozinho, mas com um sorriso discreto no rosto.
Mira preparava mais chás, murmurando bênçãos antigas que ninguém mais lembrava.
E nas sepulturas, as pedras pareciam menos frias.
Como se os mortos, enfim, descansassem sabendo que os vivos haviam aprendido a viver.
Capítulo 16: O Primeiro Inverno Juntos
O outono se rendeu ao inverno com uma lentidão quase relutante. As folhas douradas caíram como chuva lenta, cobrindo o chão da reserva em um tapete crocante que rangia sob as botas. O ar ganhou um cheiro novo: gelo seco, fumaça de lenha, resina de pinheiros congelados. A primeira neve veio numa madrugada quieta, flocos grandes e preguiçosos que se acumulavam nos telhados e nas sepulturas, suavizando as bordas das pedras marcadas com nomes. Elara acordou com o silêncio absoluto que só a neve traz — nenhum pássaro, nenhum vento forte, só o crepitar distante da lareira no andar de baixo.
Kael ainda dormia ao lado dela, de bruços, o braço pesado atravessado sobre a cintura dela como se, mesmo no sono, precisasse saber que ela estava ali. A respiração dele era profunda, ritmada, o peito subindo e descendo contra o colchão. A luz pálida que entrava pela janela desenhava sombras suaves nas costas largas, destacando as cicatrizes antigas e as novas — linhas finas, quase prateadas agora, que contavam a história da batalha vencida.
Ela se virou devagar para não acordá-lo e traçou com o dedo uma das marcas mais recentes, no ombro esquerdo. Ele estremeceu levemente no sono, mas não acordou. Em vez disso, apertou o braço ao redor dela, puxando-a mais para perto. Elara sorriu contra o travesseiro. O laço fazia isso com eles: mesmo dormindo, sentiam um ao outro. Uma coceira na mente, um calor no peito, um sussurro que não precisava de palavras.
Ela escapou com cuidado, vestiu um suéter grosso de lã cinza (dele, claro) e desceu as escadas descalça. A casa estava aquecida pela lareira que alguém — provavelmente Jax — mantivera acesa durante a noite. Na cozinha, Mira já estava lá, mexendo uma panela de mingau de aveia com canela e maçãs secas. O cheiro era reconfortante, caseiro, quase mágico depois de tantas noites de sangue e adrenalina.
“Você acordou cedo,” disse Mira sem se virar. “Ou ele te acordou?”
Elara riu baixo, sentando-se no banco.
“Ele ainda dorme como uma pedra. Acho que a batalha o deixou exausto por semanas.”
Mira colocou uma tigela fumegante na frente dela e sentou-se do outro lado da mesa.
“E você? Como está se sentindo com… tudo isso?”
Elara tocou a marca no pescoço instintivamente. A cicatriz estava sensível ao frio, mas não doía mais. Era parte dela agora, como uma tatuagem viva.
“Eu sinto… paz. E medo ao mesmo tempo. Paz porque sei que ele é meu. Medo porque sei que isso não acaba nunca. Sempre vai haver alguém que não aceita uma humana marcada como companheira de Alfa. Sempre vai haver uma fronteira para defender.”
Mira assentiu devagar, os olhos castanhos sábios e cansados.
“É verdade. Mas agora você não é mais só humana. E ele não é mais só lobo. Vocês dois criaram algo novo. E isso assusta mais do que qualquer batalha.”
Elara comeu uma colherada do mingau quente. O sabor era doce, reconfortante.
“Eu quero construir algo aqui,” disse ela depois de um silêncio. “Não só sobreviver. Uma escola para os jovens híbridos que vão nascer. Um lugar onde eles aprendam a controlar os dois lados sem vergonha. Onde humanos possam vir sem medo, e lobos possam aprender a viver entre eles.”
Mira ergueu uma sobrancelha.
“Você quer transformar a reserva numa ponte?”
“Quero transformar em casa. Para todos.”
Antes que Mira pudesse responder, passos pesados desceram as escadas. Kael apareceu na porta da cozinha — cabelos bagunçados, só de calça de moletom cinza que pendia baixa nos quadris, peito nu e marcado. Ele parou ao ver Elara e Mira, e um sorriso lento se abriu no rosto dele — cansado, mas genuíno.
“Bom dia, companheira.”
Elara sentiu o laço pulsar — quente, carinhoso, possessivo.
“Bom dia, Alfa.”
Ele caminhou até ela, inclinou-se e beijou-a devagar, sem pressa, como se tivessem todo o tempo do mundo. Mira bufou uma risada baixa e se levantou.
“Vou deixar vocês dois. Tenho ervas para colher antes que a neve enterre tudo.”
Quando ela saiu, Kael sentou-se ao lado de Elara, puxando-a para o colo dele como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“Você estava falando sério lá em cima?” perguntou ele, voz baixa contra a orelha dela. “Sobre construir uma escola?”
Ela se virou para encará-lo, surpresa.
“Você ouviu?”
“Eu sinto você. Mesmo dormindo. Sinto seus pensamentos como ecos.” Ele traçou o contorno da marca no pescoço dela com o polegar. “E sim. Eu quero isso também. Quero que nossos filhos — quando vierem — cresçam sabendo que não precisam se esconder. Que podem correr na floresta e estudar livros na mesma semana.”
Elara sentiu um nó na garganta.
“Então vamos começar. Pequeno. Com os jovens da matilha que já mostram sinais híbridos. Com os filhos dos rendidos que decidiram ficar. E quem sabe… um dia, com crianças humanas que queiram aprender sobre nós.”
Kael assentiu devagar.
“Vamos precisar de espaço. De professores. De segurança. Mas sim. Vamos começar.”
Eles passaram o resto da manhã planejando — no papel, no mapa, em conversas sussurradas enquanto a neve caía mais forte lá fora. Jax entrou em algum momento, trazendo notícias das patrulhas: fronteiras seguras, nenhum sinal de ameaça. Mira voltou com cestas de ervas congeladas e juntou-se à conversa. Aos poucos, outros betas foram chegando, atraídos pelo cheiro de café fresco e pela energia nova que corria pela casa.
Ao entardecer, a neve já cobria tudo em branco espesso. Kael levou Elara para fora, só os dois. Eles caminharam até o platô rochoso onde costumavam se deitar à noite. A vista estava transformada: o vale inteiro era um mar de branco, as árvores curvadas sob o peso da neve, a casa lá embaixo parecendo uma cabana de conto de fadas com fumaça subindo da chaminé.
Ele a abraçou por trás, queixo no ombro dela, mãos grandes sobre a barriga dela — protetoras, quentes.
“Eu nunca pensei que teria isso,” murmurou ele. “Paz. Depois de tudo.”
Elara encostou a cabeça na dele.
“Nem eu. Mas aqui estamos.”
Ele virou-a devagar para encará-lo. A neve caía nos cabelos dele, nos cílios, derretendo ao tocar a pele quente.
“Casa comigo,” disse ele de repente, voz rouca. “Não como companheira marcada. Como esposa. Na frente da matilha, na frente dos humanos que ainda respeitam leis antigas. Quero que todo mundo saiba que você é minha — não só por destino, mas por escolha.”
Elara sentiu o coração disparar.
“Você está me pedindo em casamento… na neve?”
Ele sorriu — aquele sorriso torto, perigoso e terno ao mesmo tempo.
“Estou te pedindo em casamento na neve, na floresta, na vida que construímos juntos. Sim ou não, Elara Voss?”
Ela riu — um riso leve, livre, que ecoou pelo platô.
“Sim. Mil vezes sim.”
Ele a beijou então — feroz, profundo, cheio de fome e promessa. A neve caía ao redor deles como confetes frios, mas o calor entre os corpos era suficiente para derreter tudo.
Quando se separaram, ofegantes, ele encostou a testa na dela.
“Vamos marcar a data para a próxima lua cheia. Quero que seja sob ela. Quero que a matilha veja. Quero que o mundo saiba.”
Elara assentiu, lágrimas quentes escorrendo pelo rosto gelado.
“Então que seja na lua cheia. Que seja para sempre.”
Eles voltaram para casa de mãos dadas, a neve rangendo sob os pés, o futuro se abrindo como um caminho limpo e branco à frente.
Lá embaixo, as luzes da casa brilhavam quentes.
A matilha esperava.
E o inverno, pela primeira vez, parecia não ser fim de nada — apenas o começo de tudo.
Capítulo 17: A Cerimônia da Lua Cheia
A lua cheia chegou como uma promessa cumprida. Ela subiu lenta e pesada no céu de inverno, tingindo a neve de prata e transformando a clareira em um palco etéreo. Flocos finos ainda caíam, mas o vento havia parado, deixando o ar imóvel, quase sagrado. A matilha se reuniu cedo — não por ordem, mas por instinto. Eles formaram um círculo amplo ao redor da rocha central, a mesma onde Kael e Elara haviam se amado tantas noites. Tochas de resina queimavam em postes improvisados, lançando chamas douradas que dançavam sobre os rostos sérios e expectantes.
Elara esperava dentro da casa, sozinha com Mira. A beta mais velha — que se tornara algo entre mentora e mãe adotiva — ajudava-a a se vestir. O vestido era simples, mas poderoso: tecido branco de lã fina, bordado com fios prateados que imitavam veias de lua. Sem mangas, decote sutil, saia longa que roçava o chão. Mira prendera os cabelos castanhos de Elara em uma trança solta, deixando fios soltos emoldurarem o rosto. Na marca do pescoço, uma fina corrente de prata com uma pedra de luar pendia — presente de Mira, símbolo de proteção antiga.
“Você está linda,” disse Mira, voz baixa e emocionada. “Mas mais que isso… você está forte. A matilha sente. Eles não estão aqui só para ver uma cerimônia. Estão aqui para ver o futuro se selar.”
Elara tocou a pedra fria contra a pele quente.
“Eu estou nervosa. Não pelo laço — isso já está feito. Mas por… tornar oficial. Para eles. Para nós.”
Mira segurou as mãos dela.
“O laço é destino. O casamento é escolha. E você está escolhendo. De novo. Diante de todos.”
Um uivo baixo subiu lá fora — sinal de que a hora chegara.
Elara respirou fundo.
“Vamos.”
Elas saíram pela porta dos fundos. O frio mordeu a pele exposta dos braços e do decote, mas Elara mal sentiu. O laço pulsava quente dentro dela, guiando-a como uma bússola interna. Quando pisou na clareira, o círculo de lobos se abriu em silêncio respeitoso. Olhares baixos, cabeças inclinadas — não submissão forçada, mas reverência genuína.
Kael esperava no centro, de pé sobre a rocha. Vestia calça preta de couro macio e uma camisa aberta no peito, as mangas arregaçadas até os cotovelos. O pelo negro do lobo interior parecia pulsar sob a pele, mas ele mantinha a forma humana — por escolha, por respeito à cerimônia que misturava os dois mundos. Seus olhos âmbar a encontraram imediatamente. O ar entre eles crepitou.
Jax deu um passo à frente, segurando uma taça de prata cheia de vinho tinto misturado com sangue — o de Kael e o dela, colhido na véspera em um ritual simples e íntimo.
“Matilha das Sombras Eternas,” começou Jax, voz ecoando clara na noite gelada. “Hoje não celebramos só uma união. Celebramos o que nasceu do caos. Do sangue. Da perda. E da coragem. Hoje, nosso Alfa e sua companheira escolhem selar o laço não só com presas e destino, mas com palavras e testemunhas. Que a lua veja. Que a terra guarde. Que o fogo lembre.”
Ele entregou a taça a Kael.
Kael desceu da rocha. Caminhou até Elara devagar, cada passo deliberado. Parou na frente dela. A matilha prendeu a respiração.
Ele pegou a mão esquerda dela e a levou aos lábios, beijando os nós dos dedos.
“Elara Voss,” disse ele, voz grave e firme, carregada de emoção crua. “Você entrou na minha vida como uma intrusa. Desafiou meu território, meu orgulho, meu controle. Me fez questionar tudo que eu achava que sabia sobre ser Alfa. Sobre ser homem. Sobre ser digno de alguém. Você sangrou por mim. Lutou por mim. Me amou quando eu não merecia. E me escolheu quando poderia ter fugido.”
Ele virou a mão dela, palma para cima, e colocou a taça ali.
“Eu prometo: proteger você não como posse, mas como parceira. Amar você não como destino, mas como escolha diária. Construir com você um futuro onde nossos filhos — se vierem — nunca precisem esconder quem são. E se o mundo tentar nos separar de novo… eu queimo o mundo antes de deixar você ir.”
Lágrimas quentes escorreram pelo rosto de Elara. Ela pegou a taça, bebeu um gole do vinho misturado com sangue — o gosto metálico e doce ao mesmo tempo. Depois ofereceu a taça a ele.
Kael bebeu sem desviar os olhos dos dela.
Então Elara falou, voz clara apesar do tremor sutil.
“Kael Thornwood. Você me encontrou quando eu estava perdida. Não só na floresta, mas dentro de mim mesma. Me fez enfrentar o que eu temia: ser desejada, ser necessária, ser parte de algo maior que eu. Você me marcou não para prender, mas para libertar. Me deu força quando eu achava que não tinha. Me ensinou que amar não é se render — é se entregar por vontade própria.”
Ela colocou a taça no chão entre eles.
“Eu prometo: lutar ao seu lado, não atrás de você. Questionar quando precisar, apoiar quando doer. Amar você nos dias bons e nos ruins. E se o destino tentar nos separar… eu uivo até o céu me ouvir e nos trazer de volta.”
Um silêncio profundo caiu sobre a clareira. Até o vento parecia prender a respiração.
Então Kael ergueu a mão direita. Elara colocou a dela sobre a dele, palma contra palma.
Jax deu um passo à frente, pegou uma tira fina de couro preto e amarrou os pulsos deles juntos — não apertado, mas firme o suficiente para simbolizar união.
“Pela lua que nos guia,” disse Jax. “Pela terra que nos sustenta. Pelo fogo que nos une. Que o laço seja eterno. Que a escolha seja diária. Que o amor seja maior que qualquer lei antiga.”
A matilha respondeu com um uivo coletivo — baixo no início, crescendo até encher o céu. As tochas pareceram queimar mais forte. A neve parou de cair, como se a própria natureza assistisse.
Kael puxou Elara para si com os pulsos ainda amarrados. Beijou-a devagar, profundamente, sob os olhos de todos. Quando se separaram, ele sussurrou contra os lábios dela:
“Minha esposa.”
Ela sorriu, lágrimas brilhando.
“Meu marido.”
Jax desamarrou o couro com cuidado. A matilha explodiu em uivos de celebração — alegres, selvagens, cheios de vida. Alguns transformaram-se parcialmente só para uivar mais alto. Outros bateram palmas, bateram os pés na neve, criaram um ritmo primal que ecoou pela floresta.
Kael ergueu Elara nos braços como se ela fosse leve como uma pluma. Carregou-a de volta para casa sob os aplausos e uivos da matilha. Dentro, a lareira crepitava alta. Ele a colocou no chão devagar, fechou a porta, trancou.
Então a beijou de novo — agora sem testemunhas, sem pressa, só eles dois.
As mãos dele desceram pelas costas dela, abrindo o vestido devagar, deixando-o cair aos pés. Ela tirou a camisa dele com a mesma lentidão reverente. Pele contra pele. Calor contra frio. Amor contra tudo que já haviam enfrentado.
Eles caíram na cama juntos. Não foi selvagem como nas noites de guerra. Foi lento, profundo, quase sagrado. Cada toque uma renovação da promessa que haviam feito lá fora. Cada beijo uma confirmação. Quando ele entrou nela, foi com os olhos abertos, fixos nos dela, sussurrando contra a boca:
“Eu te amo, Elara Thornwood.”
Ela arqueou as costas, as unhas cravando levemente nas costas dele.
“Eu te amo, Kael Thornwood.”
Eles se moveram juntos — ritmo lento, profundo, sincronizado pelo laço que agora era mais que instinto: era escolha, era voto, era eternidade.
Quando gozaram, foi juntos — silencioso, intenso, como se o mundo inteiro tivesse parado para respirar com eles.
Depois, ficaram abraçados, suados, ofegantes, rindo baixo entre beijos preguiçosos.
Lá fora, a matilha ainda uivava — agora canções antigas de celebração, de fertilidade, de novos começos.
E dentro, dois corações batiam como um só.
A lua cheia assistia.
E sorria.
Porque o destino, enfim, havia sido aceito.
E a história deles — garras, destino, amor — estava apenas começando.
Capítulo 18: Sementes no Inverno
O inverno se instalou de verdade após a cerimônia. A neve não parava mais — caía em camadas grossas, cobrindo a clareira como um cobertor branco e pesado, isolando a reserva do resto do mundo. As estradas de terra viraram trilhas intransitáveis para veículos comuns, e a matilha se adaptou ao ritmo lento da estação: caçadas curtas, fogueiras longas, histórias contadas ao redor do fogo para passar o tempo. Os jovens — especialmente os híbridos que começavam a mostrar sinais mais fortes — passavam as tardes na casa principal, aprendendo com Mira as ervas que resistiam ao frio e com Jax os primeiros exercícios de controle de transformação parcial.
Elara e Kael passaram a maior parte das noites na cama grande do quarto principal, corpos entrelaçados sob pilhas de peles e cobertores. O laço completo tornava cada toque mais intenso: um simples roçar de dedos enviava ondas de calor pelo corpo dela, um sussurro dele na orelha fazia a marca no pescoço pulsar como um segundo pulso. Eles faziam amor com uma lentidão nova — não por falta de desejo, mas por uma necessidade de saborear cada segundo. Como se, depois de tanta guerra, o simples ato de existir juntos fosse a maior vitória.
Uma madrugada, quando a neve batia forte contra as janelas, Elara acordou com uma sensação estranha no ventre. Não era dor. Era um calor sutil, quase elétrico, como se algo minúsculo tivesse acabado de se acender dentro dela. Ela ficou imóvel, mão espalmada sobre a barriga baixa, ouvindo o coração bater mais rápido.
Kael acordou no mesmo instante — o laço os conectava mesmo no sono.
Ele se virou devagar, apoiando-se no cotovelo, olhos âmbar brilhando no escuro.
“O que foi?”
Elara não respondeu de imediato. Apenas manteve a mão no lugar, sentindo.
“Eu… acho que sinto algo.”
Ele colocou a mão grande sobre a dela, cobrindo-a completamente. Ficou em silêncio por longos segundos, concentrado. Então seus olhos se arregalaram — devagar, como se não acreditasse no que sentia.
“É… é real.”
Elara ergueu o olhar para ele, lágrimas já brilhando.
“Você sente também?”
Kael assentiu, voz rouca de emoção.
“É pequeno. Muito pequeno. Mas está aí. Pulsando. Forte. Como um coração minúsculo batendo junto com o nosso.”
Ela riu — um riso trêmulo, misturado com choro.
“Então… estamos esperando?”
Ele se inclinou e beijou a barriga dela devagar, reverente, como se estivesse beijando algo sagrado.
“Estamos esperando,” murmurou contra a pele. “Nosso primeiro filhote.”
Eles ficaram ali, deitados de lado, mãos sobrepostas na barriga dela, ouvindo o silêncio da noite e o som sutil — quase imaginário — de uma nova vida se formando. Não falaram muito depois disso. Apenas ficaram abraçados, respirando juntos, deixando a notícia se assentar como neve fresca.
Na manhã seguinte, contaram a Mira primeiro.
Ela parou no meio de mexer o chá, os olhos arregalados.
“Vocês têm certeza?”
Kael assentiu, braço ao redor da cintura de Elara.
“O laço não mente. E eu sinto. Nós dois sentimos.”
Mira levou a mão ao peito, lágrimas escorrendo silenciosas.
“Então a ponte está sendo construída de dentro para fora.” Ela abraçou Elara com força. “Você vai ser mãe, menina. E uma mãe forte.”
A notícia se espalhou pela matilha como fogo em palha seca. Não houve anúncio formal — não precisava. O laço de matilha carregava a emoção: alegria, esperança, um orgulho coletivo que fez os uivos daquela noite soarem diferentes — mais altos, mais longos, cheios de vida.
Jax foi o primeiro a se aproximar deles depois. Ele parou na porta da cozinha, mãos nos bolsos, sorriso torto no rosto marcado.
“Então… mini-Alfa a caminho?”
Kael riu — um riso profundo, raro, que fez Elara sorrir só de ouvir.
“Ou mini-Elara. Teimosa, questionadora, impossível de controlar.”
Jax deu um tapa leve no ombro de Kael.
“Se for como a mãe, a matilha vai precisar de mais do que patrulhas. Vai precisar de paciência.”
Elara riu, tocando a barriga ainda plana.
“Vai precisar de tudo isso. E mais.”
Os meses passaram em um ritmo diferente. A neve derreteu devagar, revelando brotos verdes tímidos sob o branco. A barriga de Elara começou a arredondar — sutil no início, depois mais visível, uma curva suave que ela acariciava sem perceber. O corpo dela mudava: os seios ficavam mais cheios, sensíveis; os quadris pareciam mais largos; uma energia nova corria nas veias, como se o bebê já compartilhasse o laço com eles dois.
Kael se tornou ainda mais protetor — mas não sufocante. Ele a carregava nas costas durante caminhadas longas, insistia que ela descansasse, mas nunca a impedia de treinar com os jovens ou ajudar nas patrulhas leves. À noite, deitava com a cabeça no ventre dela, ouvindo o batimento minúsculo que ficava mais forte a cada semana.
“É forte,” dizia ele, voz baixa e maravilhada. “Sente? Já tem vontade própria. Já chuta quando eu falo.”
Elara passava os dedos pelos cabelos dele.
“Ele — ou ela — já sabe que tem um pai que mataria por eles.”
“E uma mãe que pularia na frente de um Alfa para salvá-lo.”
Eles riam baixo, beijavam devagar, faziam amor com cuidado e reverência — movimentos lentos, profundos, cheios de uma intimidade que ia além do prazer físico.
No final da primavera, quando as primeiras flores silvestres começaram a brotar nas bordas da clareira, Elara sentiu o bebê se mexer de verdade pela primeira vez — não um pulsar sutil, mas um chute forte, decidido.
Ela pegou a mão de Kael e colocou sobre a barriga.
“Agora.”
Ele esperou, imóvel. Então veio — um movimento claro, vivo.
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
“É… é real.”
Elara riu, chorando ao mesmo tempo.
“É nosso.”
Eles ficaram ali, sentados na grama morna, mãos sobre a barriga, sentindo cada movimento como uma promessa viva.
A matilha sentia também. Os uivos daquela noite foram diferentes — não de guerra, não de luto, não de celebração vazia. Foram uivos de criação. De continuidade. De um futuro que nascia dentro de uma companheira híbrida e de um Alfa que aprendera, enfim, a amar sem possuir.
E no coração da reserva, sob a lua que crescia de novo, duas almas — e uma terceira minúscula — batiam como uma só.
O inverno havia passado.
A primavera chegara.
E com ela, as sementes do amanhã.
Capítulo 19: O Primeiro Choro Sob a Lua
O verão chegou tímido, trazendo um calor úmido que grudava na pele e fazia o ar cheirar a terra molhada e flores silvestres. A barriga de Elara já não era mais uma curva sutil — era proeminente, redonda, viva. Ela caminhava mais devagar agora, uma mão sempre apoiada na lombar, a outra instintivamente sobre o ventre onde o bebê se mexia com vigor crescente. Cada chute era uma conversa silenciosa: forte, insistente, como se a criança já soubesse que o mundo lá fora era vasto e perigoso, mas que dentro dela havia segurança absoluta.
Kael não saía mais para patrulhas longas sem ela saber exatamente onde ele estaria. Ele a carregava nas costas durante as caminhadas curtas pela floresta, insistia que ela descansasse à sombra das árvores antigas, e passava as tardes com a cabeça no colo dela, ouvindo os batimentos duplos — o dela e o do bebê. Às vezes, ele colocava a boca contra a barriga e falava baixo, em uma língua antiga que a matilha usava para rituais, palavras que soavam como vento entre folhas e uivos distantes.
“Você vai ser forte,” sussurrava ele. “Vai ser livre. Vai ter o melhor dos dois mundos — e nenhum dos medos que nós carregamos.”
Elara passava os dedos pelos cabelos dele, sorrindo apesar das dores nas costas e do inchaço nos pés.
“Ele — ou ela — já ouve você. Sente quando sua voz muda. Quando você fala de nós.”
Kael erguia o rosto, olhos âmbar brilhando com uma emoção que ele raramente deixava transparecer para os outros.
“Então que ouça. Que saiba que tem uma matilha inteira esperando para protegê-lo. E uma mãe que enfrentaria o mundo por ele.”
As noites eram as mais intensas.
O corpo de Elara mudara tanto que algumas posições já não eram confortáveis. Kael se adaptava sem reclamar — deitava de lado atrás dela, uma mão grande sobre a barriga, a outra acariciando os seios sensíveis com uma delicadeza quase dolorosa. Ele entrava devagar, movimentos mínimos, profundos, focados no prazer dela mais que no seu. Cada estocada era acompanhada de beijos no ombro, no pescoço, na marca que ainda pulsava em sincronia com os dois corações — agora três.
“Você está linda assim,” murmurava ele contra a pele dela. “Carregando nossa vida. Carregando o futuro.”
Elara arqueava as costas devagar, gemendo baixo quando ele acertava o ponto certo.
“E você… está sendo insuportavelmente gentil.”
Ele ria contra o pescoço dela, um som rouco e quente.
“Porque se eu não for… você me mata.”
Eles gozavam juntos — silencioso, intenso, como ondas que se encontram e se acalmam. Depois, ficavam abraçados, suados apesar do ventilador girando preguiçoso no teto. Kael traçava círculos lentos na barriga dela, sentindo os movimentos do bebê responderem ao toque.
“Ele gosta quando você goza,” dizia ele, meio brincando, meio sério. “Sente o laço se fortalecer.”
Elara ria baixo, virando o rosto para beijá-lo.
“Então vamos fortalecer mais vezes.”
O trabalho na reserva continuava. A escola improvisada ganhara forma: uma construção de madeira ao lado da casa principal, com janelas amplas e chão de tábuas polidas. As crianças — híbridas e puras — aprendiam juntas: leitura, matemática, controle de transformação, história das matilhas antigas e do mundo humano. Elara ensinava fotografia básica para os mais velhos, mostrando como capturar a luz da lua ou o movimento de um lobo correndo. Mira ensinava ervas e primeiros socorros. Jax ensinava luta e rastreamento. Kael ensinava liderança — não com punho fechado, mas com exemplos vivos.
Uma tarde quente, enquanto Elara descansava na varanda com uma limonada gelada na mão, uma das meninas mais novas — Lila, sete anos, cabelos cacheados e olhos que mudavam de verde para âmbar quando emocionada — subiu os degraus e parou na frente dela.
“Tia Elara… posso tocar?”
Elara sorriu e assentiu. Lila colocou as mãozinhas pequenas na barriga, olhos arregalados.
“Ele mexeu!”
“Ela,” corrigiu Elara, brincando. “Ou ele. Ainda não sabemos.”
Lila franziu a testa, concentrada.
“Eu sinto… dois corações. O seu e o dele. Mas tem outro batimento. Mais rápido. Mais forte.”
Elara sentiu um arrepio bom descer pela espinha.
“Você sente o laço também?”
Lila assentiu, orgulhosa.
“Eu sinto tudo. Quando o Alfa está feliz. Quando a tia está cansada. Quando o bebê chuta.”
Elara puxou a menina para um abraço apertado.
“Então você vai ser uma grande beta um dia. Ou talvez até Alfa.”
Lila riu, balançando a cabeça.
“Eu quero ser como você. Forte. E gentil. E com um companheiro que me ame como o Alfa ama você.”
Elara sentiu os olhos arderem.
“Então você vai ter. Porque você merece.”
A menina desceu correndo para brincar com as outras crianças. Elara ficou olhando para o vale, mão na barriga, sentindo o bebê responder com um chute forte.
Kael apareceu minutos depois, suado da patrulha, camisa grudada no peito. Ele parou ao lado dela, inclinou-se e beijou o topo da cabeça.
“Ouvi o que Lila disse.”
Elara ergueu o rosto.
“Ela sente o bebê. Como se já fosse da matilha.”
Kael sentou-se ao lado dela, puxando-a para encostar no ombro dele.
“Porque já é. Desde o momento em que o coração começou a bater. A matilha sente. E protege.”
Eles ficaram em silêncio por um tempo, apenas ouvindo os sons da tarde: risadas das crianças, o vento nas árvores, o riacho distante.
Então Elara falou, voz baixa.
“Eu tenho medo, Kael. Medo de não saber ser mãe. Medo de que o bebê sinta o peso do que nós passamos. Medo de que o mundo ainda não esteja pronto para alguém como ele — ou ela.”
Kael virou o rosto dela para si, olhos firmes.
“Você vai ser a melhor mãe que esse mundo já viu. Porque você lutou para chegar aqui. Porque você escolheu amar mesmo quando doía. Porque você carrega dentro de si o fogo que nenhum inverno apagou.”
Ele colocou a mão sobre a barriga dela, sentindo outro chute — como se o bebê respondesse às palavras do pai.
“E quanto ao mundo… vamos torná-lo pronto. Juntos. Como sempre fizemos.”
Elara assentiu, lágrimas escorrendo silenciosas.
“Juntos.”
A lua cheia daquela noite foi especial.
A matilha se reuniu novamente na clareira — não para guerra, não para casamento, mas para saudação. Eles formaram o círculo, tochas acesas, uivos baixos e ritmados. Kael e Elara ficaram no centro. Ela apoiada nele, barriga proeminente sob o vestido leve de verão. Ele com o braço ao redor dela, protetor, orgulhoso.
Jax deu um passo à frente.
“Matilha,” disse ele, voz ecoando. “Hoje saudamos não só nosso Alfa e sua companheira. Saudamos o que está por vir. Uma nova vida. Um novo laço. Uma nova esperança.”
Os uivos subiram — suaves no início, crescendo até encher o céu. Elara sentiu o bebê mexer forte, como se respondesse ao chamado.
Kael ergueu a mão. Silêncio.
“Esse filho — ou filha — não vai crescer em medo. Vai crescer em liberdade. Vai saber que tem uma matilha que o ama antes mesmo de nascer. E uma mãe e um pai que lutariam o mundo inteiro por ele.”
Ele olhou para Elara.
“E nós prometemos: vamos ensinar a amar. A questionar. A lutar. A perdoar. Vamos ensinar que o destino não é prisão — é convite.”
Os uivos voltaram — mais altos, mais alegres.
Elara tocou a barriga, sentindo o bebê chutar em resposta.
“Ele ouviu,” sussurrou.
Kael beijou a testa dela.
“Então que continue ouvindo. Para sempre.”
A noite terminou com fogueira, comida, risadas. Crianças correndo entre as pernas dos adultos. Histórias antigas sendo contadas. E no centro de tudo, Elara e Kael — sentados lado a lado, mãos entrelaçadas sobre a barriga, ouvindo o coração triplo bater em harmonia perfeita.
O verão seguia seu curso.
A vida crescia dentro dela.
E o futuro — enfim — parecia possível.
Capítulo 20: O Nascimento da Primeira Estrela
O outono voltou tímido, trazendo folhas avermelhadas que caíam como brasas lentas sobre a reserva. A barriga de Elara já não permitia caminhadas longas; ela se movia com uma lentidão graciosa, apoiada no braço de Kael ou na bengala rústica que Jax entalhara para ela — madeira de carvalho polida, com uma alça em forma de lobo curvado. O bebê descera nas últimas semanas; cada passo era pesado, cada respiração um pouco mais curta. Mas o laço nunca estivera tão forte: o batimento triplo ecoava constante, uma sinfonia interna que acalmava os dois mesmo nas noites de insônia.
Mira passou a dormir no quarto de hóspedes, pronta para qualquer sinal. Jax reforçara as patrulhas, mas mantinha distância respeitosa — a matilha inteira sentia o momento se aproximar. Os uivos noturnos eram mais suaves agora, quase canções de ninar coletivas. As crianças deixavam flores silvestres secas na varanda da casa principal, pequenos presentes silenciosos para o que estava por vir.
A noite começou como qualquer outra.
Elara acordou com uma contração baixa, surda, que subiu pelas costas como uma onda lenta. Não era dor aguda — ainda não. Era pressão. Preparação. Ela tocou a barriga e sentiu o bebê se mexer uma última vez, forte, como se dissesse: estou pronto.
“Kael.”
Ele acordou no mesmo instante, olhos âmbar abertos no escuro, já alerta.
“Agora?”
Ela assentiu, respirando devagar.
“Agora.”
Ele não entrou em pânico. Não havia espaço para isso. Levantou-se com calma, ajudou-a a sentar na beira da cama, apoiou as costas dela com travesseiros. Depois chamou Mira com um uivo baixo — não alto, não urgente, apenas o chamado certo. Mira apareceu segundos depois, já com a bolsa de ervas e toalhas limpas.
“Respire fundo,” disse Mira, voz firme e calma. “Vamos trazer essa criança ao mundo como ela merece: com força e amor.”
As horas seguintes foram um borrão de dor e espera. Contrações vinham em ondas crescentes — lentas no início, depois mais próximas, mais intensas. Elara segurava a mão de Kael com tanta força que as unhas deixavam meias-luas na pele dele. Ele não reclamava. Apenas sussurrava contra a testa dela:
“Você é a mais forte que eu conheço. Você já enfrentou o pior. Isso é só mais uma batalha — e você vai vencer.”
Entre uma contração e outra, ele beijava a marca no pescoço dela, lambia a cicatriz como se pudesse transferir sua força para ela. O laço fazia o trabalho: cada vez que a dor subia, ele sentia também — um eco distante, mas real. Ele absorvia o que podia, canalizando a própria energia para ela, mantendo-a lúcida, mantendo-a presente.
Mira trabalhava com precisão antiga: ervas para aliviar, compressas quentes na lombar, palavras de encorajamento sussurradas em línguas que Elara mal entendia, mas sentia.
“Você está abrindo caminho,” dizia Mira. “Deixe vir. Deixe nascer.”
Quando a transição chegou — aquela hora em que o corpo parece se partir ao meio —, Elara gritou. Não de medo. De força. De vida. Kael segurou o rosto dela entre as mãos, olhos nos olhos.
“Olhe para mim. Só para mim. Eu estou aqui. Nós estamos aqui.”
Ela assentiu, lágrimas escorrendo, suor colando os cabelos na testa.
“Eu te amo,” sussurrou entre uma contração e outra.
“Eu te amo mais,” respondeu ele, voz quebrada pela emoção.
Então veio o empurrão final.
Mira guiou.
“Agora. Forte. Respire e empurre.”
Elara empurrou — com todo o corpo, com toda a alma, com todo o fogo que carregava desde o primeiro encontro na floresta.
O choro veio segundos depois.
Alto. Vivo. Furioso.
Um som que cortou a noite como uma lâmina de luz.
Mira ergueu o bebê — pequeno, vermelho, coberto de vérnix e sangue, punhos cerrados, boca aberta em protesto contra o mundo frio.
“É uma menina,” anunciou Mira, voz trêmula de emoção.
Kael cortou o cordão com uma faca cerimonial que Mira entregou — prata antiga, gravada com runas de proteção. Depois pegou a filha nos braços com uma delicadeza que contrastava com o tamanho dele.
A menina parou de chorar no instante em que sentiu o cheiro do pai. Os olhinhos — ainda inchados, mas já abertos — fixaram-se nos dele. Eram âmbar, como os do pai, mas com um brilho verde no centro, como os da mãe.
Elara estendeu os braços, exausta, mas radiante.
“Me dá ela.”
Kael colocou a filha no peito dela com cuidado infinito. A menina se aninhou imediatamente, buscando o calor, o cheiro, o leite. Elara chorou — não de dor, mas de uma alegria tão grande que parecia explodir dentro do peito.
“Oi, pequena,” sussurrou ela, beijando a cabecinha coberta de penugem escura. “Bem-vinda ao mundo.”
Kael se inclinou, beijando a testa da filha, depois a da esposa.
“Ela é perfeita,” murmurou. “Como você.”
Mira limpou as lágrimas com as costas da mão.
“Nome?”
Elara olhou para Kael. Eles haviam discutido dezenas de nomes nas noites longas, mas nenhum parecera certo até aquele momento.
“Liora,” disse Elara, voz suave. “Luz da lua. Porque ela nasceu sob ela. E porque ela vai iluminar tudo que tocarmos.”
Kael assentiu, olhos úmidos.
“Liora Thornwood.”
Mira sorriu.
“Um nome forte. Para uma menina forte.”
Eles ficaram ali — os três, agora quatro — no silêncio quebrado apenas pelo choro suave da recém-nascida e pela respiração pesada de Elara. O laço pulsava diferente agora: não só dois corações, mas três. E o terceiro era o mais brilhante de todos.
Lá fora, a matilha sentiu.
O uivo começou baixo — um só lobo, talvez Jax. Depois outro. Depois mais. Até que o céu inteiro pareceu vibrar com o som: uivos de boas-vindas, de alegria, de proteção. Não eram uivos de guerra. Eram uivos de nascimento. De continuidade. De uma nova era que começava com um choro minúsculo e um nome sussurrado.
Kael deitou-se ao lado de Elara, envolvendo os dois — mãe e filha — com o braço. Beijou a testa de Liora, depois a de Elara.
“Obrigado,” sussurrou ele. “Por me dar isso. Por me dar ela. Por me dar nós.”
Elara sorriu, exausta, completa.
“Obrigada por me esperar. Por me amar. Por me deixar ser parte disso.”
Liora bocejou — um bocejo minúsculo, perfeito — e fechou os olhos, aninhada entre os pais.
A lua cheia assistia pela janela.
E pela primeira vez em gerações, a matilha das Sombras Eternas não uivava para a escuridão.
Uivava para a luz.
Para a filha da ponte.
Para o começo de tudo que viria depois.
Capítulo 21: Os Primeiros Passos na Lua
Liora tinha três meses quando deu o primeiro sinal claro de que não seria uma criança comum.
Era uma noite de lua crescente, fina e afiada como uma garra prateada no céu. A casa estava quieta — o fogo na lareira reduzido a brasas vermelhas, o vento sussurrando nas árvores lá fora. Elara amamentava Liora no sofá da sala principal, o corpinho quente e macio aninhado contra o peito. A menina mamava com uma concentração feroz, os punhos cerrados contra a pele da mãe, os olhinhos semicerrados em um prazer absoluto.
Então aconteceu.
Um tremor sutil percorreu o corpo minúsculo. Não foi choro. Não foi soluço. Foi um ronronar baixo, quase inaudível — um som que não pertencia a um bebê humano. Era o ronronar de filhote, aquele que as lobas usam para acalmar os pequenos na toca.
Elara congelou. Olhou para baixo. Liora ainda mamava, mas agora os olhos estavam abertos — âmbar puro com aquele brilho verde no centro, como se carregasse pedaços de ambos os pais. As pupilas se estreitaram ligeiramente, não como em humanos, mas como em felinos — ou lobos — ajustando-se à luz fraca.
“Kael.”
Ele apareceu na porta em segundos, já alerta. Parou ao ver a cena. Seus olhos se arregalaram devagar.
“Ela… ronronou?”
Elara assentiu, sem tirar os olhos da filha.
“E olhe os olhos.”
Kael se aproximou em silêncio. Ajoelhou-se ao lado do sofá. Estendeu a mão grande e tocou de leve a cabecinha coberta de penugem escura. Liora parou de mamar por um segundo, virou o rosto minúsculo para o pai e… ronronou de novo. Mais alto. Mais claro. Um som que vibrava no peito dela e ecoava no laço familiar.
Kael riu — um riso baixo, incrédulo, emocionado.
“Ela já está se comunicando como loba. Aos três meses.”
Elara sentiu lágrimas quentes escorrerem.
“Ela é híbrida. De verdade. Não só no sangue. No instinto.”
Kael pegou a filha com cuidado infinito, aninhando-a contra o peito nu. Liora se aconchegou imediatamente, as mãozinhas agarrando a pele dele, o ronronar continuando como uma canção de ninar particular. Ele olhou para Elara, olhos brilhando.
“Ela sente o laço. Sente nós dois. E está respondendo.”
Naquela mesma noite, eles levaram Liora para a clareira — embrulhada em uma manta grossa de lã, protegida do frio. A matilha já esperava, como se o laço coletivo tivesse carregado a notícia antes mesmo de palavras. Eles formaram o círculo habitual, tochas baixas, uivos suaves e ritmados.
Jax deu um passo à frente, sorriso largo apesar da cicatriz que ainda marcava o rosto.
“A pequena ronrona,” disse ele, voz carregada de orgulho. “Já fala com a matilha antes de falar com palavras.”
Um uivo baixo subiu — aprovação, alegria, proteção renovada.
Kael ergueu Liora acima da cabeça, a lua crescente refletindo nos olhinhos âmbar-verdes dela.
“Matilha das Sombras Eternas,” anunciou ele, voz ecoando clara na noite fria. “Esta é Liora Thornwood. Filha do Alfa e da companheira. Híbrida. Nossa. E já ronrona para nós.”
Os uivos explodiram — alegres, selvagens, cheios de vida. Alguns lobos se aproximaram devagar, farejando o ar ao redor da menina, roçando o focinho na manta com delicadeza. Liora não chorou. Em vez disso, estendeu as mãozinhas minúsculas e… ronronou mais alto, como se respondesse ao chamado.
Elara sentiu o peito explodir de amor e medo ao mesmo tempo. Amor pela filha que já mostrava força. Medo pelo que isso significava: ela não seria uma criança comum. Seria observada. Seria diferente. Seria alvo.
Kael sentiu o medo dela através do laço. Abaixou Liora e a entregou aos braços da mãe. Depois abraçou as duas, envolvendo-as completamente.
“Ela vai ser forte,” sussurrou contra a testa de Elara. “Porque tem você como mãe. Porque tem a matilha como família. Porque tem o meu sangue correndo nas veias.”
Elara assentiu, beijando a cabecinha da filha.
“E porque tem você como pai.”
A matilha ficou ali por horas — contando histórias, cantando canções antigas em vozes baixas, passando Liora de colo em colo com uma reverência que fazia o coração de Elara doer de tão cheio. Cada membro tocava a testa da menina com dois dedos — um gesto antigo de bênção e proteção. Quando a lua começou a descer, eles voltaram devagar para casa.
Naquela noite, Liora dormiu entre os pais — o corpinho quente entre dois corpos maiores, ronronando baixinho mesmo no sono. Kael e Elara ficaram acordados, olhando para ela, mãos entrelaçadas sobre a barriguinha que subia e descia em ritmo perfeito.
“Ela vai mudar tudo,” murmurou Elara.
Kael beijou a palma da mão dela.
“Ela já mudou.”
Os meses seguintes foram de descobertas constantes.
Aos seis meses, Liora começou a tentar se transformar parcialmente — não completa, mas pequenos sinais: as unhas alongando-se ligeiramente quando chorava de fome, os olhos mudando de cor conforme a luz da lua, um rosnado minúsculo quando algo a assustava. Elara e Kael aprenderam juntos: como acalmá-la com ronronares baixos, como ensinar controle sem reprimir instinto, como equilibrar o lado humano com o lupino.
A matilha ajudava. As crianças mais velhas brincavam com ela na forma híbrida — mostrando como controlar as garras pequenas, como farejar o ar sem medo. Mira ensinava canções de ninar que misturavam palavras humanas e sons lupinos. Jax contava histórias de Alfas antigos que haviam nascido híbridos e mudado o curso das matilhas.
Elara começou a escrever — não fotos, mas palavras. Um diário para Liora. Para que, quando crescesse, soubesse de onde vinha. Soubesse que ser diferente não era fraqueza. Era poder.
Uma noite de lua cheia, quando Liora tinha oito meses, eles a levaram novamente para a clareira. Ela já engatinhava rápido, ria alto quando via os lobos, estendia as mãozinhas gorduchas para tocar focinhos e patas.
Kael a ergueu no ar.
“Liora,” disse ele, voz carregada. “Esta é sua matilha. Eles te protegem. E você vai protegê-los um dia.”
A menina olhou para todos — olhos âmbar-verdes brilhando sob a lua. Então abriu a boca minúscula e… uivou.
Não foi um choro. Não foi um ronronar.
Foi um uivo verdadeiro — pequeno, agudo, mas perfeito. Um uivo de filhote que ecoou pela clareira e foi respondido por dezenas de vozes adultas.
A matilha uivou de volta — orgulho, amor, promessa.
Elara chorou de alegria, abraçando Kael e a filha ao mesmo tempo.
“Ela uivou,” sussurrou.
Kael beijou as lágrimas dela.
“Ela uivou.”
Naquela noite, sob a lua cheia, a primeira estrela da nova geração encontrou sua voz.
E a matilha soube: o futuro não estava vindo.
O futuro já estava ali — rindo, ronronando, uivando.
E era lindo.
Capítulo 22: A Primeira Transformação
Liora tinha exatamente um ano e três luas quando aconteceu pela primeira vez.
Era uma noite de lua cheia de verão — quente, pegajosa, com o ar carregado do cheiro de grama cortada e flores noturnas. A clareira estava iluminada por fogueiras baixas, tochas espalhadas em círculo, e a matilha reunida em formação solta: adultos sentados ou deitados na grama, crianças correndo entre eles, risadas misturadas a uivos suaves de brincadeira. Era a noite da “primeira lua consciente” — um ritual antigo para filhotes que completavam o primeiro ciclo completo de luas desde o nascimento. Não havia expectativa de transformação completa. A maioria dos híbridos só começava a mudar de forma aos três ou quatro anos. Era apenas uma celebração: uivos em família, histórias contadas, bênçãos sussurradas na testa da criança.
Elara carregava Liora nos braços, o corpinho quente e inquieto contra o peito. A menina usava um vestidinho leve de linho branco, bordado com fios prateados que brilhavam sob a luz da lua. Os cabelos escuros — agora cacheados e chegando aos ombros — estavam soltos, enfeitados com flores silvestres colhidas por Lila e as outras crianças. Os olhos âmbar-verdes brilhavam de excitação; ela batia palminhas toda vez que via um lobo se transformar parcialmente para brincar.
Kael caminhava ao lado delas, mão na lombar de Elara — um toque constante, protetor, mas não sufocante. Ele olhava para a filha com uma mistura de orgulho e uma ansiedade que só Elara conseguia sentir através do laço.
“Ela está agitada hoje,” murmurou ele, baixo o suficiente para que só ela ouvisse.
Elara assentiu.
“Desde o meio-dia. Não parou quieta. Acho que sente a lua.”
Eles chegaram ao centro da clareira. Jax já estava lá, segurando a taça cerimonial de prata — a mesma usada no casamento deles. Dentro, vinho tinto misturado com uma gota do sangue de Kael e uma gota do de Elara. Um símbolo simples: a criança pertencia aos dois, e aos dois mundos.
A matilha se calou quando Kael ergueu Liora acima da cabeça.
“Liora Thornwood,” anunciou ele, voz ecoando clara e forte sob a lua cheia. “Filha da ponte. Filha da matilha. Hoje completamos seu primeiro ciclo. Que a lua a veja. Que a terra a acolha. Que o fogo a aqueça. Que o vento a carregue. E que ela encontre sempre o caminho de casa.”
Os uivos subiram — suaves, harmoniosos, como uma canção antiga.
Elara pegou a taça das mãos de Jax. Beijou a testa da filha, depois molhou o dedo indicador no líquido vermelho-escuro e traçou uma pequena runa na testa de Liora: uma cruz simples com uma lua crescente no centro. Kael fez o mesmo com o polegar, murmurando palavras em língua antiga que significavam proteção, força e liberdade.
Liora riu — um riso alto, cristalino, que fez a matilha sorrir. Ela estendeu as mãozinhas gorduchas para a lua, como se quisesse tocá-la.
Então seu corpinho tremeu.
Não foi ronronar dessa vez. Foi algo mais profundo. Um tremor que começou nos pés e subiu pelas pernas, pelo tronco, pelos braços. Os olhos dela mudaram primeiro: as pupilas se estreitaram em fendas verticais, o âmbar se intensificando até parecer ouro líquido. As unhas cresceram — não muito, mas o suficiente para se tornarem garrinhas afiadas e claras. Um pelo fino, quase invisível, surgiu nos braços e nas pernas, macio como penugem de filhote.
A matilha prendeu a respiração.
Elara sentiu o laço pulsar — forte, urgente, cheio de vida nova.
“Liora…” sussurrou ela.
A menina não chorou. Em vez disso, abriu a boca minúscula e soltou um uivo — não o uivo agudo de filhote que já conheciam, mas um uivo mais cheio, mais ressonante, que vibrou no peito de todos os presentes. Era pequeno, mas perfeito. Era lobo. Era humano. Era os dois.
Kael caiu de joelhos na grama, pegando a filha com cuidado. Ele a aninhou contra o peito, sentindo o pelo fino roçar sua pele, sentindo o coraçãozinho bater acelerado contra o seu.
“Ela mudou,” disse ele, voz rouca de emoção. “Aos treze meses. Ninguém muda tão cedo. Nem os puros.”
Jax se aproximou devagar, olhos arregalados.
“Ela não mudou completa. Olhem… está voltando.”
De fato: o pelo recuava, as garrinhas encolhiam, os olhos voltavam ao normal — âmbar com verde no centro. Liora piscou, confusa por um segundo, depois riu de novo, estendendo as mãozinhas para o pai como se nada tivesse acontecido.
A matilha explodiu em uivos — não de surpresa, mas de celebração pura. Alguns se transformaram parcialmente só para responder ao chamado dela. Crianças correram para perto, querendo tocar, cheirar, brincar. Lila foi a primeira: ajoelhou-se na frente de Liora e tocou o nariz dela com o próprio.
“Você é como eu,” sussurrou a menina. “Mas mais forte.”
Elara sentiu lágrimas quentes escorrerem. Ela se ajoelhou ao lado de Kael, abraçando os dois.
“Ela é a primeira,” disse ela, voz trêmula. “A primeira da nova geração que não precisa esperar. Que já sente os dois lados desde o começo.”
Kael beijou a testa da filha, depois a da esposa.
“Ela é o que nós sonhamos. Livre. Inteira. Sem medo.”
A noite seguiu em festa. A matilha dançou ao redor das fogueiras, cantou canções antigas adaptadas para incluir o nome de Liora. As crianças brincaram de “primeira mudança” — fingindo ronronar e uivar, correndo em círculos. E no centro de tudo, Liora — agora de volta à forma totalmente humana — ria alto, batendo palminhas toda vez que via um lobo se transformar.
Mais tarde, quando a lua começou a descer, Kael e Elara levaram a filha de volta para casa. Liora dormia nos braços do pai, exausta da emoção, o rostinho sujo de terra e flores, um sorriso satisfeito nos lábios.
Eles a colocaram no berço — agora maior, com grades de madeira entalhadas por Jax. Kael ficou olhando para ela por longos minutos, mão na grade, olhos úmidos.
“Ela mudou hoje,” sussurrou ele. “E não teve medo. Não chorou. Apenas… foi.”
Elara abraçou-o por trás, encostando o rosto nas costas dele.
“Porque ela nasceu sabendo que é amada. Porque sabe que tem nós dois. Porque sabe que a matilha a espera de braços abertos.”
Kael virou-se, puxando-a para um beijo lento, profundo.
“E porque tem você como mãe. A mulher que ensinou um Alfa a amar sem possuir.”
Eles se deitaram juntos naquela noite, corpos entrelaçados, ouvindo a respiração ritmada da filha no berço ao lado.
O laço pulsava diferente agora — não só dois, não só três, mas um todo maior. Uma família. Uma promessa viva.
Lá fora, a matilha ainda uivava baixo — canções de ninar para a pequena que já uivava de volta.
E sob a lua que descia devagar, a primeira transformação completa não foi de corpo.
Foi de destino.
Porque Liora Thornwood não era apenas filha de Alfa e companheira híbrida.
Ela era o começo.
E o começo, enfim, tinha voz.
Capítulo 23: A Primeira Caçada
Liora tinha dois anos e meio quando pediu pela primeira vez para caçar.
Era uma tarde de outono tardio, com o sol baixo e dourado filtrando-se pelas copas das árvores. A reserva estava quieta — a maioria da matilha descansava após uma caçada coletiva na noite anterior. Elara estava na varanda, costurando uma pequena capa de lã para a filha, enquanto Liora brincava no chão com um punhado de folhas secas e pedrinhas. A menina já falava frases completas, corria rápido demais para um humano da idade, e tinha o hábito de rosnar baixinho quando algo a irritava — um som que fazia os adultos da matilha sorrirem com orgulho e as crianças imitarem com risadas.
Naquele dia, ela parou de brincar de repente. Ficou de pé, mãos sujas de terra, olhos âmbar-verdes fixos na floresta além da clareira. O vento trouxe um cheiro distante — cervo, talvez, ou coelho grande. Ela inalou fundo, narinas dilatando como as de um filhote farejando pela primeira vez.
“Pai,” chamou ela, voz clara e decidida. “Quero caçar.”
Kael, que estava do outro lado da clareira consertando uma cerca quebrada, parou no mesmo instante. Ele largou o martelo e caminhou até a varanda em passos largos, olhos fixos na filha.
Elara ergueu o olhar do costurado, coração acelerando um pouco.
“Liora, caçar é coisa de lobo grande,” disse ela com calma. “Você ainda é pequena.”
A menina cruzou os bracinhos — um gesto que aprendera com a mãe quando queria ser teimosa.
“Eu sinto,” insistiu. “Sinto o cheiro. Lá.” Ela apontou para o leste, para a trilha que levava ao riacho largo. “Tem um coelho gordo. Eu quero pegar.”
Kael se ajoelhou na frente dela, ficando na altura dos olhos da filha. Ele tocou o rostinho sujo com o polegar, limpando uma mancha de terra.
“Você já sente o cheiro a essa distância?”
Liora assentiu com vigor.
“E sinto a fome dele. Ele está comendo grama. Está distraído.”
Elara e Kael trocaram um olhar. Não era surpresa — Liora já demonstrava sentidos aguçados desde bebê —, mas era cedo. Muito cedo. A maioria dos filhotes só começava a participar de caçadas supervisionadas aos quatro ou cinco anos.
Kael respirou fundo.
“Então vamos,” disse ele simplesmente.
Elara abriu a boca para protestar, mas viu o brilho nos olhos da filha — não era capricho. Era instinto. Era chamado. Era o que ela era.
“Tudo bem,” disse Elara, dobrando o tecido e se levantando. “Mas vamos juntos. E devagar. Sem correria. Sem risco.”
Liora deu um pulinho de alegria, batendo palminhas.
“Eu prometo!”
Eles saíram os três — Kael na frente, Elara ao lado dele segurando a mãozinha de Liora. A menina caminhava com passos decididos, narinas dilatadas, olhos fixos na trilha à frente. Não havia pressa. Kael ensinava enquanto andavam: como pisar sem quebrar galhos secos, como respirar pelo nariz para captar o vento, como distinguir cheiro de medo de cheiro de alerta.
“Se o coelho sentir medo de repente,” explicou Kael, voz baixa, “ele vai correr. Mas se sentir só curiosidade, ele fica parado. Você sente a diferença?”
Liora assentiu, concentrada.
“Ele está… curioso. Sente nós. Mas não tem medo ainda.”
Eles seguiram em silêncio por mais dez minutos. O riacho apareceu à frente — água clara correndo sobre pedras lisas, margens cobertas de capim alto. O coelho estava lá: grande, cinzento, orelhas erguidas, mastigando uma folha larga.
Liora parou. Seu corpinho inteiro ficou imóvel — postura baixa, olhos fixos, respiração lenta. Um ronronar baixo começou no peito dela, mas não era de contentamento. Era de concentração.
Kael se abaixou ao lado dela.
“Agora você decide,” sussurrou. “Quer tentar sozinha ou quer que eu te mostre?”
Liora olhou para o pai. Depois para a mãe. Depois para o coelho.
“Eu quero tentar,” disse ela, voz baixa, mas firme.
Elara sentiu o coração apertar. Kael apertou a mão dela — um gesto silencioso de apoio mútuo.
Liora começou a se mover. Não era uma corrida. Era um rastejar lento, quase imperceptível. Passo a passo, joelhos dobrados, mãos tocando o chão como patas. O pelo fino surgiu nos braços e nas pernas — não transformação completa, mas o suficiente para camuflar, para ajudar. Os olhos dela mudaram de novo: pupilas em fenda, brilho intenso.
O coelho ergueu a cabeça. Farejou o ar. Mas não fugiu. Curiosidade venceu o instinto.
Liora chegou a cinco metros. Depois três. Depois dois.
Então saltou.
Não foi perfeito. Foi desajeitado, infantil. Mas foi rápido. As mãozinhas com garrinhas minúsculas agarraram o coelho pelo dorso. O animal se debateu uma vez, duas. Liora segurou firme, rosnando baixo — um som que não era ameaça, mas afirmação.
Kael e Elara correram até ela.
Liora ergueu o coelho — ainda vivo, mas imobilizado — com um sorriso triunfante.
“Eu peguei!”
O coelho parou de se debater. Liora olhou para ele, depois para os pais.
“Agora o que faço?”
Kael se ajoelhou ao lado dela.
“Você decide. Se for caçar para comer, termina rápido e sem sofrimento. Se for só para provar que consegue… deixa ir.”
Liora franziu a testa, pensando. Depois abriu as mãos devagar.
O coelho ficou parado por um segundo, surpreso. Depois disparou em ziguezague, desaparecendo entre os arbustos.
Liora riu — alto, feliz.
“Eu deixei ir. Porque ele não era para comer. Era para brincar.”
Elara sentiu lágrimas quentes nos olhos. Abraçou a filha com força.
“Você fez certo, meu amor. Fez muito certo.”
Kael pegou Liora no colo, beijando a testa suja dela.
“Você caçou. Pegou. E escolheu soltar. Isso é mais forte que qualquer presa derrubada.”
Eles voltaram para casa devagar, Liora contando e recontando a história com detalhes exagerados — o coelho era “enorme”, o salto foi “altíssimo”, o ronronar dela foi “mais alto que o do papai”. Quando chegaram à clareira, a matilha já esperava — o laço carregara a notícia antes mesmo deles chegarem.
Jax foi o primeiro a se aproximar, sorrindo largo.
“A pequena caçadora,” disse ele, bagunçando os cabelos cacheados dela. “Pegou e soltou. Isso é raro. Isso é… Alfa.”
A matilha uivou — não alto, não feroz, mas carinhoso. Um uivo de orgulho por uma filhote que já mostrava misericórdia junto com força.
Naquela noite, depois que Liora dormiu exausta no berço, Kael e Elara sentaram-se na varanda, olhando as estrelas.
“Ela escolheu soltar,” disse Elara, voz baixa. “Aos dois anos e meio. Já entende que caçar não é só matar.”
Kael passou o braço ao redor dela, puxando-a contra o peito.
“Porque ela tem você como exemplo. Porque vê você lutar sem crueldade. Porque sente o laço e sabe que força sem coração é só violência.”
Elara encostou a cabeça no ombro dele.
“E porque tem você como pai. Que ensinou que um Alfa protege — não destrói.”
Eles ficaram em silêncio por um tempo, ouvindo o vento nas árvores e os uivos distantes da matilha em patrulha.
“Ela vai ser mais que nós dois,” murmurou Kael por fim. “Vai ser o que a gente só sonhou.”
Elara sorriu, beijando o canto da boca dele.
“Então vamos continuar sonhando juntos. E vamos continuar ensinando.”
Kael a beijou devagar, profundamente — um beijo que carregava anos de luta, de amor, de esperança.
“Juntos,” concordou ele.
Lá dentro, Liora dormia — sorrindo no sono, mãozinha fechada como se ainda segurasse o coelho que escolhera soltar.
E sob a lua crescente, a matilha uivava baixo.
Não por caça.
Por futuro.
Por uma filhote que já caçava com coração.
E que, um dia, lideraria com ambos.
Capítulo 24: A Sombra que Volta
Liora tinha quatro anos quando a primeira sombra do passado voltou a se mover.
Era uma manhã de primavera fria, com neblina baixa rastejando pela clareira como fumaça branca. A reserva acordava devagar: o cheiro de café fresco subia da cozinha, crianças riam correndo atrás de borboletas precoces, e o som distante de machados cortando lenha ecoava das bordas da floresta. Elara estava na varanda principal, sentada em uma cadeira de balanço antiga, Liora no colo. A menina segurava um livro ilustrado de contos antigos — histórias de lobos e humanos que Mira havia resgatado de uma livraria abandonada na cidade próxima. Liora apontava as figuras com o dedinho, fazendo perguntas sem parar.
“Por que o lobo aqui está sozinho, mamãe? Ele não tem matilha?”
Elara acariciava os cabelos cacheados da filha, respondendo com paciência infinita.
“Porque às vezes o lobo escolhe ficar sozinho. Mas ele não precisa. Sempre pode voltar para casa.”
Liora franziu a testa, pensativa.
“Eu nunca vou ficar sozinha. Eu tenho você. E o papai. E a tia Mira. E o tio Jax. E todo mundo.”
Elara sorriu, beijando o topo da cabecinha.
“Exatamente. Você nunca vai ficar sozinha.”
Mas o ar mudou de repente.
Um cheiro estranho chegou com o vento — não da matilha, não da floresta. Era metálico, oleoso, misturado com tabaco velho e couro curtido. Um cheiro humano, mas carregado de intenção. Elara sentiu o laço pulsar — alerta, não pânico ainda, mas advertência.
Ela ergueu o olhar. Do outro lado da clareira, na trilha que levava à estrada principal, um homem caminhava devagar. Alto, magro, casaco longo de couro preto apesar do calor que começava a subir. Barba grisalha mal aparada, olhos escondidos por óculos escuros mesmo na luz fraca da manhã. Ele parou na borda da clareira, mãos nos bolsos, observando.
Elara sentiu um frio na espinha. Não era medo imediato. Era reconhecimento distante — como se o corpo lembrasse de algo que a mente ainda não identificara.
Kael apareceu segundos depois, saindo da floresta com Jax ao lado. Ele parou ao ver o homem. O corpo inteiro dele mudou: músculos tensionados, olhos âmbar escurecendo, postura de Alfa puro.
“Liora,” chamou ele, voz baixa mas firme. “Vem aqui.”
A menina desceu do colo da mãe e correu para o pai, abraçando a perna dele. Kael a ergueu no colo com um movimento fluido, mantendo-a protegida contra o peito.
O homem tirou os óculos devagar. Olhos cinzentos, frios, marcados por rugas profundas. Ele sorriu — um sorriso que não chegava aos olhos.
“Kael Thornwood,” disse o homem, voz rouca de anos de cigarros. “Ou devo dizer… Alfa?”
Kael não respondeu de imediato. Apenas entregou Liora para Elara, que já havia se aproximado. A menina se agarrou ao pescoço da mãe, olhos grandes fixos no estranho.
“Quem é você?” perguntou Kael, dando um passo à frente. A matilha já começava a se reunir — silenciosa, atenta, formando um semicírculo atrás dele.
O homem ergueu as mãos — gesto de paz falsa.
“Meu nome é Harlan Voss.”
Elara sentiu o mundo parar.
Voss.
Seu sobrenome de solteira.
O sobrenome dos pais que ela perdera em um acidente que nunca fora acidente.
Kael sentiu o choque dela através do laço. Virou-se ligeiramente, tocando o braço dela.
“Fale,” ordenou ele ao homem.
Harlan deu um passo à frente — devagar, sem ameaça aparente.
“Eu sou o irmão mais velho do pai dela.” Ele olhou diretamente para Elara. “Seu tio, Elara. O que sobreviveu.”
Elara sentiu as pernas fraquejarem. Kael a sustentou com um braço firme ao redor da cintura.
“Você… desapareceu,” disse ela, voz baixa. “Depois do acidente. Ninguém sabia para onde você foi.”
Harlan deu de ombros.
“Eu fui caçar. Caçar os responsáveis. E encontrei. Mas quando cheguei… já era tarde. Você já tinha sumido. Levada por eles.” Ele apontou para Kael com o queixo. “Pelo mesmo monstro que matou meus irmãos.”
Kael rosnou baixo — um som que fez Liora se agarrar mais forte ao pescoço da mãe.
“Eu não matei os pais dela,” disse Kael, voz controlada mas letal. “Foi antes de eu ser Alfa. Foi guerra. E eu carrego essa culpa desde então. Mas não vou deixar você trazer mais sangue para minha família.”
Harlan riu — um som seco, sem humor.
“Família? Você chama isso de família? Uma humana marcada como cadela de um lobo assassino? E agora… isso?” Ele olhou para Liora. “Uma aberração híbrida que já uiva antes de falar direito.”
Elara sentiu a raiva subir como fogo.
“Saia daqui,” disse ela, voz firme apesar do tremor nas mãos. “Você não tem direito de falar dela. Não tem direito de falar de nós.”
Harlan inclinou a cabeça.
“Eu tenho todo o direito. Sou sangue. Sou o último Voss vivo. E vim buscar o que é meu.”
Kael deu um passo à frente, colocando-se entre Harlan e sua família.
“Ela é minha filha. Nossa filha. E se você der mais um passo… eu termino o que começou há vinte anos.”
Harlan não recuou. Em vez disso, abriu o casaco devagar. Sob ele, um colete tático cheio de facas de prata, balas especiais, uma pistola com silenciador. Armas feitas para caçar lobos.
“Eu não vim sozinho,” disse ele calmamente. “Meus homens estão na estrada. Armados. E eles sabem exatamente onde atirar.”
A matilha rosnou — baixo, ameaçador. Jax já estava ao lado de Kael, olhos prateados brilhando.
Elara sentiu Liora tremer em seus braços.
“Papai…” sussurrou a menina, voz pequena.
Kael não desviou o olhar de Harlan.
“Você acha que pode entrar no meu território e ameaçar minha filha? Minha companheira? Minha matilha?”
Harlan sorriu de novo.
“Eu acho que posso. Porque eu sei o que vocês são. E sei o que ela é.” Ele apontou para Liora. “Uma aberração que não deveria existir. E eu vim consertar isso.”
Elara sentiu o laço pulsar — raiva de Kael, medo dela, confusão da filha. Mas também força. Uma força nova.
Ela entregou Liora para Mira, que aparecera silenciosamente atrás deles.
“Leve ela para dentro,” sussurrou Elara. “Agora.”
Mira assentiu e desapareceu com a menina.
Elara deu um passo à frente, ficando ao lado de Kael.
“Você não vai tocar nela,” disse ela, voz baixa mas carregada. “Você não vai tocar em ninguém aqui. Porque se tentar… eu mesma arranco sua garganta.”
Harlan riu — mas o riso morreu quando viu os olhos dela. Não eram mais só verdes. Havia um brilho âmbar neles — sutil, mas real. O laço completo, fortalecido por anos de amor e luta, havia despertado algo nela também.
Kael sentiu. Tocou o braço dela — não para contê-la, mas para apoiá-la.
“Você tem uma escolha, Harlan,” disse Kael. “Vá embora. Agora. E nunca mais volte. Ou fique… e morra aqui.”
Harlan olhou ao redor — para a matilha que se aproximava devagar, olhos brilhando, presas à mostra. Para Elara, que não recuava. Para Kael, que já começava a mudar — músculos engrossando, pelo negro surgindo nas costas.
Então Harlan deu um passo atrás.
“Vocês acham que isso acabou,” disse ele, voz baixa. “Mas caçadores nunca esquecem. E eu tenho tempo.”
Ele virou-se e começou a caminhar de volta para a trilha.
Mas antes de desaparecer na neblina, olhou por cima do ombro.
“Eu volto, Elara. E da próxima vez… não vou pedir.”
Ele sumiu.
A matilha ficou em silêncio por longos segundos.
Então Kael se virou para Elara.
“Ele não vai tocar nela,” disse ele, voz rouca. “Nem nela. Nem em você. Nem em ninguém.”
Elara assentiu, mas seus olhos ainda brilhavam — não de medo, mas de determinação.
“Então vamos nos preparar,” respondeu ela. “Porque se ele voltar… vamos mostrar que a ponte não quebra. Ela corta.”
Liora apareceu na porta, escapando dos braços de Mira. Correu até os pais, abraçando as pernas dos dois.
“Papai? Mamãe? O homem mau foi embora?”
Kael a ergueu no colo, beijando a testa dela.
“Foi. E se voltar… nós cuidamos dele. Juntos.”
Liora assentiu, séria demais para uma criança.
“Juntos.”
Elara abraçou os dois, sentindo o laço pulsar — forte, unido, inquebrável.
Lá fora, a neblina se dissipava devagar.
Mas a sombra havia voltado.
E a matilha — agora com uma filhote que já caçava, já uivava, já escolhia — estava pronta.
Porque o passado não morria fácil.
Mas o futuro… o futuro tinha dentes.
E garras.
E amor.
Capítulo 25: O Chamado do Sangue Antigo
Liora tinha cinco anos quando o chamado veio pela primeira vez de verdade.
Era uma noite de lua nova — escura, sem estrelas visíveis, o tipo de noite em que a floresta parecia engolir a luz e o som. A reserva dormia sob um silêncio pesado, quebrado apenas pelo crepitar distante da lareira na casa principal e pelo ronco suave de Kael ao lado de Elara. A menina dormia no quarto ao lado, em uma cama que já era pequena demais para ela — pernas longas penduradas na borda, cabelos cacheados espalhados no travesseiro como uma coroa selvagem.
Então ela acordou.
Não com choro. Não com medo. Com um movimento súbito, como se algo dentro dela tivesse sido puxado por uma corda invisível. Liora sentou-se na cama, olhos abertos no escuro, pupilas dilatadas até o limite. Seu coração batia rápido — não de pavor, mas de reconhecimento. Ela ouvia. Não com os ouvidos. Com o sangue.
Um uivo baixo, distante, ecoou na mente dela. Não era da matilha. Era mais antigo. Mais fundo. Como se a terra mesma chamasse.
“Liora?”
A voz de Elara veio da porta. Ela entrara silenciosamente, sentindo o laço familiar pulsar com algo novo — alerta, curiosidade, um puxão que não era dela.
A menina virou o rosto para a mãe. Seus olhos brilhavam — não âmbar-verde como de costume, mas com um brilho dourado no fundo, quase prateado.
“Tem alguém me chamando, mamãe,” sussurrou Liora. “Lá fora. Longe. Mas perto também.”
Elara atravessou o quarto em dois passos. Sentou-se na beira da cama, puxando a filha para o colo. O corpinho de Liora estava quente — febril, mas não doente. Era o calor do chamado.
“Conte para mim,” pediu Elara, voz baixa e calma apesar do coração acelerado.
Liora encostou a cabeça no ombro da mãe.
“É uma voz. Não fala palavras. Fala com sangue. Diz que eu preciso ir. Que tem algo esperando. Algo meu.”
Elara sentiu um frio descer pela espinha. Ela conhecia aquele tipo de chamado — não exatamente, mas parecido. Era o mesmo que a levara para a floresta anos atrás, quando ainda era só uma fotógrafa curiosa e órfã. Era o chamado do sangue antigo, do legado híbrido que corria nas veias dela e agora na filha.
Kael apareceu na porta, já alerta. Ele não precisava ouvir a conversa — sentia tudo através do laço. Entrou devagar, ajoelhando-se ao lado da cama.
“O que você sente, pequena?”
Liora olhou para o pai. Seus olhos voltaram ao normal — âmbar com verde —, mas o brilho dourado ainda pairava como uma lembrança.
“É como… uma avó. Ou uma bisavó. Ela não fala. Só chama. Diz que eu preciso ver. Antes que seja tarde.”
Kael e Elara trocaram um olhar. Não havia medo nos olhos dele — apenas determinação quieta.
“Então vamos ver,” disse ele simplesmente.
Elara hesitou só um segundo.
“É perigoso. Se for o que eu acho… pode ser um eco do passado dela. Dos meus pais. Ou de algo mais antigo.”
Kael tocou o rosto da filha com a palma grande.
“Ela já mudou aos treze meses. Já caçou aos dois anos e meio. Já uivou para a matilha inteira. Se há algo chamando… vamos descobrir juntos. Mas não vamos deixar ela ir sozinha.”
Liora sorriu — um sorriso pequeno, mas feroz.
“Eu não tenho medo, papai. Só quero saber quem está chamando.”
Eles saíram naquela mesma noite.
Não levaram a matilha inteira — seria perigoso demais expor todos a um chamado desconhecido. Apenas Jax e Mira foram junto. Jax como proteção. Mira como conhecedora das ervas antigas e dos rituais que podiam acalmar ou afastar ecos do passado.
Eles seguiram o instinto de Liora — a menina caminhava na frente, mão na mão de Kael, narinas dilatadas, olhos fixos na escuridão. Não havia trilha visível. Apenas o chamado. O vento parecia guiá-los — frio, insistente, carregando um cheiro antigo de terra úmida, ervas queimadas e algo metálico, como sangue seco.
Depois de uma hora de caminhada silenciosa, chegaram a uma clareira que Elara nunca vira antes — embora tivesse vivido anos na reserva. Era pequena, cercada por árvores antigas cujos troncos pareciam entrelaçados como mãos em oração. No centro, uma pedra alta e lisa, coberta de musgo, com marcas antigas gravadas na superfície — runas que pareciam pulsar fracamente sob a luz da lua nova.
Liora parou na borda da clareira.
“Aqui,” sussurrou ela. “Ela está aqui.”
Elara sentiu um arrepio descer pela espinha. Aquele lugar tinha cheiro de memória. De dor. De segredo.
Kael soltou a mão da filha, mas ficou ao lado dela.
“Mostre para nós, pequena.”
Liora deu um passo à frente. Depois outro. Quando chegou perto da pedra, o ar mudou. Um vento frio subiu do chão, levantando folhas secas em redemoinho. As runas na pedra brilharam — não forte, mas o suficiente para iluminar o rosto da menina.
Então ela tocou a pedra.
O mundo piscou.
Não foi transformação. Não foi visão. Foi memória.
Eles sentiram todos — através do laço.
Uma mulher alta, cabelos castanhos ondulados como os de Elara, olhos verdes penetrantes. Vestia roupas antigas — couro e linho, botas gastas de caçadora. Ao lado dela, um homem forte, barba cheia, olhos âmbar que lembravam os de Kael. Eles estavam na mesma clareira, mas anos antes — décadas, talvez séculos. A mulher segurava uma criança pequena nos braços — uma menina de olhos dourados.
“Ela é a ponte,” dizia a mulher, voz baixa e firme. “Sangue humano e sangue lobo. Se sobreviver… vai mudar tudo.”
O homem assentia.
“Mas os caçadores sabem. Eles vêm.”
A visão mudou. Fogo. Gritos. Sangue na pedra. A mulher caía, mão estendida para a criança. O homem lutava — feroz, mas em menor número. Um último olhar para a filha antes de ser derrubado.
Então escuridão.
A memória terminou.
Liora afastou a mão da pedra como se queimasse. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
“Eles eram… meus avós?” perguntou ela, voz pequena.
Elara caiu de joelhos ao lado da filha, abraçando-a forte.
“Eram meus pais,” sussurrou ela. “E a criança… era eu.”
Kael se ajoelhou também, envolvendo as duas.
“Eles sabiam,” disse ele, voz rouca. “Sabiam que você existia. Que você seria a ponte. E morreram protegendo isso.”
Mira se aproximou, tocando a pedra com reverência.
“Este é um lugar de memória. De sangue antigo. O chamado não era ameaça. Era adeus. E bênção.”
Liora olhou para a pedra. Depois para os pais.
“Eles queriam que eu soubesse,” disse ela. “Que eu não tenho que ter medo de ser diferente. Que ser ponte é bom.”
Elara beijou a testa da filha.
“É mais que bom. É necessário.”
Kael ergueu Liora nos braços.
“Eles nos deram um presente. A verdade. E agora… agora sabemos que o passado não quer nos destruir. Quer nos lembrar de quem somos.”
Eles voltaram para casa em silêncio — não pesado, mas cheio. Liora dormiu no colo do pai, mãozinha agarrando a camisa dele. Quando chegaram, a matilha já esperava — sentindo o laço, sentindo a mudança sutil no ar.
Jax foi o primeiro a falar.
“O que foi?”
Kael olhou para a filha adormecida.
“Foi família,” respondeu simplesmente. “E agora sabemos que ela sempre esteve aqui. Nos esperando.”
Naquela noite, Liora dormiu entre os pais — como fazia quando era bebê. Mas agora, o laço era maior. Mais profundo. Incluía ecos de vozes antigas que sussurravam proteção.
E sob a lua nova, a matilha uivou baixo — não de alerta.
De gratidão.
Porque o chamado do sangue antigo não viera para destruir.
Viera para completar.
E a pequena ponte — com olhos âmbar-verdes e coração de loba — estava pronta para carregar o peso.
E para voar.
Capítulo 26: A Primeira Lição de Escolha
Liora tinha seis anos quando entendeu, de verdade, o peso da palavra “escolha”.
Era o fim do verão, o ar ainda quente mas já carregado com o cheiro seco de folhas que começavam a morrer. A clareira estava cheia de vida: as crianças da matilha corriam em grupos, brincando de “caçada sem morte” — uma versão que Jax inventara para os mais novos, onde o objetivo era rastrear, cercar e “tocar” o alvo sem machucar. Risadas altas misturavam-se a rosnados falsos e uivos infantis. No centro de tudo, Liora estava parada, de pé sobre uma pedra baixa que usava como palco improvisado.
Ela usava um vestido simples de algodão verde-musgo, descalço, cabelos cacheados soltos e embaraçados pelo vento. Nas mãos, segurava um filhote de coruja que encontrara caído de um ninho baixo naquela manhã. O pássaro era pequeno, penas ainda cinzentas e fofas, asa esquerda pendendo em ângulo errado. Não piava mais — apenas olhava para ela com olhos enormes e amarelos, respirando rápido.
A matilha parou de brincar aos poucos. As crianças se aproximaram em círculo silencioso. Os adultos — Kael, Elara, Jax, Mira e alguns betas mais velhos — observavam da borda, sem interferir. Era uma regra não dita: quando Liora encontrava algo ferido ou perdido, ela decidia sozinha o que fazer. Era assim que aprendia.
Liora sentou-se na pedra, colocando o filhote com cuidado no colo. Ele tremia, mas não tentava fugir. Ela acariciou as penas da cabeça com um dedo leve.
“Você caiu,” sussurrou para o pássaro. “Mas não morreu. Isso significa que ainda tem escolha.”
Uma das crianças mais novas — Theo, sete anos, irmão mais novo de Lila — se aproximou.
“O que você vai fazer, Liora? Ele não vai voar nunca mais. A asa está quebrada feio.”
Liora ergueu o olhar. Seus olhos âmbar-verdes estavam sérios — sérios demais para uma menina de seis anos.
“Ele pode escolher morrer. Ou escolher viver. Mas eu não escolho por ele.”
Ela olhou ao redor, para a matilha que a observava.
“Vocês sempre dizem que caçar é escolher: matar rápido ou deixar ir. Mas e quando não é comida? Quando é só… vida?”
Jax se aproximou devagar, ajoelhando-se ao lado dela.
“Então você cuida,” respondeu ele, voz baixa. “Ou deixa a natureza cuidar. Ou termina o sofrimento, se for rápido e gentil. Mas nunca por raiva. Nunca por medo. Sempre por escolha.”
Liora assentiu devagar. Olhou para o filhote. Depois para o céu — a lua crescente já aparecia, pálida contra o azul que escurecia.
“Eu escolho cuidar,” decidiu ela.
Elara sentiu o laço pulsar — orgulho misturado a uma pontada de preocupação. Cuidar significava responsabilidade. Significava tempo. Significava risco.
Kael se aproximou também. Sentou-se do outro lado da filha.
“Então vamos cuidar,” disse ele simplesmente. “Mas você sabe que pode não sobreviver. A natureza nem sempre deixa.”
Liora olhou para o pai.
“Eu sei. Mas eu escolho tentar.”
A matilha ficou em silêncio. Depois, um uivo baixo começou — não de celebração, mas de aprovação. Um por um, os adultos e crianças se aproximaram, tocando a testa de Liora com dois dedos — o gesto antigo de bênção e apoio.
Mira trouxe uma caixa de madeira forrada com musgo macio e ervas calmantes. Elara ajudou a imobilizar a asa quebrada com uma tala fina de madeira e tiras de linho. Liora segurava o filhote com mãos firmes, mas gentis, sussurrando palavras que ninguém entendia direito — uma mistura de sons humanos e ronronares lupinos.
Naquela noite, Liora dormiu com a caixa ao lado da cama. O filhote sobreviveu à primeira noite — respirando, mesmo fraco. Ela acordava a cada poucas horas para pingar água com mel na boca dele usando um conta-gotas que Mira preparara.
Os dias seguintes viraram rotina. Liora levava a caixa para todo lugar: para as aulas improvisadas na escola da reserva, para as brincadeiras na clareira, para as refeições em família. Ela dava nome ao filhote — Estrela, porque “ele caiu do céu e ainda brilha”. Alimentava com pedaços minúsculos de carne moída misturada com ovo, limpava as penas, falava com ele como se fosse da matilha.
Kael e Elara observavam sem interferir — apenas apoiavam quando necessário. Jax trouxe minhocas vivas para ensinar Liora como oferecer comida natural. Mira preparou pomadas para a asa e ensinou como massagear o músculo sem machucar.
Duas semanas depois, Estrela começou a mexer a asa — não muito, mas o suficiente para mostrar que estava se curando. Liora chorou de alegria na frente de todos, abraçando o filhote contra o peito.
“Você escolheu viver,” sussurrou ela para o pássaro. “Obrigada por escolher.”
Naquela noite, sob a lua crescente que crescia devagar, Liora levou Estrela para o alto da colina onde os pais costumavam se deitar. Kael e Elara foram atrás, em silêncio.
Ela colocou o filhote no chão — agora mais firme, penas mais definidas, olhos brilhantes. Estrela abriu as asas devagar, testando. A esquerda ainda pendia um pouco, mas segurava o peso.
Liora se ajoelhou na frente dele.
“Você pode ficar,” disse ela. “Ou pode voar. Eu cuido de você se quiser ficar. Mas se quiser ir… eu deixo.”
O filhote olhou para ela por longos segundos. Depois bateu as asas — uma, duas vezes. Subiu desajeitado, voou em círculo baixo sobre a cabeça dela, depois pousou no ombro da menina. Roçou o bico no rosto dela — um gesto de gratidão.
Então bateu as asas de novo. Subiu mais alto. Voou em direção à floresta — não fugindo, mas explorando. Parou em um galho próximo, virou-se e soltou um pio baixo, quase como um agradecimento.
Liora não chorou. Apenas sorriu — um sorriso grande, maduro demais para a idade.
“Ele escolheu voar,” disse ela, olhando para os pais. “Mas sabe onde eu estou. Vai voltar se precisar.”
Kael se ajoelhou ao lado dela, passando o braço ao redor dos ombros pequenos.
“Você deu a ele a escolha. E isso… isso é mais forte que qualquer caçada.”
Elara se juntou ao abraço, beijando a testa da filha.
“Você ensinou hoje, Liora. Não só para ele. Para todos nós.”
Liora olhou para a floresta onde Estrela desaparecera.
“Escolher é difícil,” disse ela, voz baixa. “Mas é bom. Porque quando você escolhe… você fica livre.”
Naquela noite, a matilha uivou mais suave que o normal — um uivo de gratidão, de aprendizado, de orgulho por uma menina que, aos seis anos, já entendia o que muitos Alfas levavam décadas para aprender.
Liora dormiu entre os pais, sorrindo no sono, mãozinha aberta como se ainda segurasse o filhote que escolhera soltar.
E sob a lua crescente, a pequena ponte não só carregava o peso do passado.
Ela começava a ensinar o futuro como voar.
Capítulo 27: A Primeira Tempestade
Liora tinha sete anos quando a primeira grande tempestade chegou à reserva — não uma de chuva e vento, mas uma de verdade que não se vê no céu.
Era o início do outono, quando as folhas começavam a mudar de cor e o ar ganhava aquele cheiro seco e doce de coisas morrendo para renascer. A matilha estava em plena atividade: as patrulhas haviam sido reforçadas desde o aparecimento de Harlan Voss dois anos antes, e embora o tio distante não tivesse retornado fisicamente, seus ecos ainda pairavam — rumores de caçadores solitários avistados nas estradas próximas, armadilhas encontradas nas bordas do território, olhares humanos demais em cidades vizinhas.
Naquela manhã, Liora acordou antes do sol. Não foi um despertar comum. Foi como se algo dentro dela tivesse sido cutucado por uma garra invisível. Ela sentou-se na cama, olhos arregalados no escuro, ouvindo um som que ninguém mais parecia notar: um zumbido baixo, quase elétrico, vindo do leste. Não era uivo. Não era vento. Era chamado — mas diferente do que sentira na clareira das memórias antigas. Esse era urgente. Agressivo. Faminto.
Ela desceu da cama sem fazer barulho, pés descalços tocando o chão frio de madeira. Vestiu o suéter grande de lã que Kael usava para patrulhas noturnas — ainda cheirava a ele, a pinho e almíscar — e saiu do quarto. A casa estava silenciosa. Seus pais dormiam no quarto ao lado; ela podia sentir o laço deles: respiração calma, sonhos tranquilos. Não queria acordá-los. Ainda não.
Liora abriu a porta dos fundos com cuidado. O ar da madrugada a envolveu — frio, úmido, carregado de algo que fez os pelos de seus braços se arrepiarem. Ela inalou fundo. O cheiro estava lá: metal, pólvora, tabaco velho, couro curtido. E sangue. Não muito. Apenas o suficiente para saber que alguém estava ferido — ou havia ferido.
Ela começou a andar. Não correu. Não chamou. Caminhou como Kael a ensinara: passos leves, respirando pelo nariz, deixando o instinto guiar. A floresta parecia abrir caminho para ela — galhos se curvando ligeiramente, folhas silenciosas sob os pés. O chamado ficava mais forte a cada passo.
Depois de vinte minutos, chegou à borda leste da reserva — o limite que Kael reforçara com marcas de urina, runas de proteção entalhadas em árvores e patrulhas constantes. Ali, entre duas árvores grandes, havia uma clareira pequena que ela nunca explorara sozinha.
E lá estava ele.
Harlan Voss.
Mais velho. Mais magro. Barba grisalha agora quase branca, olhos fundos, cicatrizes novas no rosto e nas mãos. Ele estava ajoelhado, respirando pesado, uma mão pressionando o flanco esquerdo onde sangue escuro encharcava a camisa. Ao redor dele, três corpos — humanos, armados com rifles de precisão e facas de prata. Mortos. Gargantas rasgadas. Olhos abertos em choque.
Harlan ergueu o olhar quando sentiu a presença dela. Não pareceu surpreso. Apenas cansado.
“Você veio,” disse ele, voz rouca. “Sabia que viria.”
Liora parou a cinco metros. Não tinha medo. Tinha curiosidade. E uma raiva quieta que não sabia de onde vinha.
“Você está machucado,” disse ela simplesmente. “E matou seus próprios homens.”
Harlan riu — um som seco, doloroso.
“Eles não eram meus. Eram dele.” Ele apontou para um dos corpos. “O velho Harlan morreu há dois anos. Eu sou o que sobrou depois que o último caçador me encontrou. Eles me usaram como isca. Queriam ver se o Alfa ainda protegia a híbrida… e a filha dela.”
Liora inclinou a cabeça.
“Por que você veio?”
Harlan olhou para ela — realmente olhou. Não como ameaça. Como alguém vendo algo pela primeira vez.
“Porque eu precisava ver com meus próprios olhos. Precisava saber se o que meu irmão e minha cunhada morreram para proteger… valia a pena.”
Ele tentou se levantar. Cambaleou. Caiu de joelhos de novo. Sangue pingava na terra.
Liora deu um passo à frente.
“Você está morrendo.”
“Sim. E não vim pedir ajuda. Vim entregar isso.”
Ele tirou do bolso interno do casaco um objeto pequeno embrulhado em pano oleado. Jogou aos pés dela.
Liora se abaixou devagar. Desembrulhou. Era um pingente antigo — prata envelhecida, com uma pedra de luar no centro e runas minúsculas gravadas na borda. Era o mesmo pingente que sua mãe usava em algumas fotos antigas. O que Elara nunca encontrara depois do acidente.
“Era da sua avó,” disse Harlan. “Ela me deu antes de morrer. Disse para entregar à ponte quando ela estivesse pronta. Acho que você está pronta.”
Liora segurou o pingente contra o peito. Sentiu um calor sutil — não físico, mas algo mais profundo. Como se o objeto reconhecesse o sangue dela.
“Por quê?” perguntou ela.
Harlan respirou fundo, tossindo sangue.
“Porque eu passei a vida odiando o que matou minha família. E agora vejo que… talvez não tenha sido só ódio. Talvez tenha sido medo. Medo de perder mais. Medo de que o mundo não aceitasse o que minha sobrinha se tornou. Medo de que minha sobrinha-neta fosse caçada pelo que é.”
Ele olhou para a floresta ao redor.
“Eu estava errado. Vocês não são monstros. Vocês são… sobreviventes. E eu não vou mais caçar sobreviventes.”
Liora deu outro passo. Agora estava perto o suficiente para ver as lágrimas nos olhos dele — lágrimas antigas, secas há muito tempo.
“Você pode ficar,” disse ela, voz baixa. “A matilha aceita quem escolhe mudar.”
Harlan riu — um riso fraco, mas genuíno.
“Eu já escolhi tarde demais, pequena. Mas… obrigado. Por me deixar escolher uma morte com menos ódio.”
Ele caiu de lado devagar. O sangue formou uma poça escura na terra.
Liora ficou parada por longos segundos. Depois se ajoelhou ao lado dele. Tocou a mão dele — fria, mas ainda quente de vida por alguns instantes.
“Você escolheu vir,” sussurrou ela. “E escolheu parar. Isso é o suficiente.”
Harlan fechou os olhos. O último suspiro foi quase um suspiro de alívio.
Liora ficou ali até que o peito dele parasse de subir e descer.
Então se levantou. Colocou o pingente no pescoço. Sentiu o calor se espalhar pelo peito — como se o sangue antigo, finalmente, encontrasse paz.
Ela voltou para casa devagar. Quando chegou à clareira, Kael e Elara já estavam lá — sentindo tudo através do laço. Eles não perguntaram. Apenas a abraçaram — forte, silencioso.
“Ele morreu,” disse Liora simplesmente. “Mas escolheu morrer em paz.”
Elara tocou o pingente no pescoço da filha.
“Era da sua avó.”
Liora assentiu.
“Ela queria que eu tivesse. Para lembrar que ponte não é só carregar peso. É também carregar perdão.”
Kael beijou a testa dela.
“Você fez a escolha certa, pequena. De novo.”
Naquela manhã, a matilha enterrou Harlan na borda da clareira — não como inimigo, mas como alguém que, no final, escolheu parar. Não houve uivos de luto. Apenas silêncio respeitoso. E um pequeno monte de terra com uma pedra lisa onde Liora gravou, com a unha afiada, uma única runa: perdão.
Dias depois, quando o outono avançou e as folhas caíram de verdade, Liora levou os pais até a pedra da memória antiga. Colocou o pingente sobre a superfície musgosa.
“Eles podem descansar agora,” disse ela. “Todos eles.”
Elara abraçou a filha por trás.
“E você também. Porque escolheu carregar o melhor do passado. Não o pior.”
Liora sorriu — um sorriso que já tinha traços de mulher.
“Eu escolho os dois. Porque sou ponte.”
Naquela noite, sob a lua crescente que crescia devagar, Liora uivou pela primeira vez sozinha — não para chamar, não para caçar, mas para agradecer.
E a matilha respondeu — não com força, mas com amor.
Porque a pequena ponte não só carregava o sangue antigo.
Ela ensinava o futuro a perdoar.
E a escolher.
Sempre escolher.
Capítulo 28: A Primeira Escolha Difícil
Liora tinha oito anos quando enfrentou a primeira escolha que não tinha resposta certa.
Era o auge do inverno — neve alta cobrindo a clareira como um manto espesso, o ar tão frio que doía respirar fundo. A reserva estava em alerta há semanas: rastros humanos demais nas bordas do território, armadilhas de aço encontradas em trilhas secundárias, o cheiro persistente de pólvora e medo. Harlan Voss não voltara pessoalmente, mas deixara herdeiros — caçadores que não tinham laços de sangue com a família Voss, apenas ódio herdado e contratos pagos por grupos antigos que ainda viam híbridos como abominações.
Naquela manhã cinzenta, Liora acordou com o laço familiar vibrando como corda esticada. Não era perigo imediato. Era dúvida. Ela desceu da cama, vestiu as botas de neve e o casaco grosso que Kael costurara para ela — pele de coelho por dentro, couro resistente por fora —, e saiu sem acordar os pais. Sabia que eles sentiriam. Sempre sentiam.
Foi até o limite sul da reserva — o ponto mais vulnerável, onde a floresta se abria para uma estrada secundária usada raramente por humanos. Ali, sob um pinheiro antigo curvado pelo peso da neve, havia um menino.
Ele não tinha mais que dez anos. Magro, pálido, roupas esfarrapadas encharcadas de neve derretida, tremendo tanto que os dentes batiam audivelmente. Ao redor dele, pegadas adultas — botas pesadas — que paravam abruptamente e voltavam para a estrada. Abandonado. Deixado como isca.
O menino ergueu o olhar quando sentiu a presença dela. Olhos castanhos assustados, mas não hostis. Ele segurava uma faca pequena — não para atacar, mas para se defender. A lâmina tremia na mão dele.
Liora parou a cinco metros. Não se aproximou mais.
“Você está perdido?” perguntou ela, voz calma, baixa, como Kael ensinara para não assustar presas — ou pessoas.
O menino balançou a cabeça devagar.
“Eles me deixaram. Disseram que eu tinha que… trazer você. Ou qualquer um de vocês. Que se eu não fizesse… eles matavam minha mãe.”
Liora sentiu o estômago embrulhar. Não era a primeira vez que ouvia histórias assim — caçadores usavam famílias como moeda. Mas era a primeira vez que acontecia na frente dela.
“Eles estão perto?” perguntou ela.
O menino assentiu.
“Na estrada. Esperando. Disseram que se eu voltasse sem ninguém… era pior.”
Liora olhou ao redor. Sentiu o cheiro deles — cinco adultos, armados, escondidos entre as árvores a duzentos metros. O laço pulsava: Kael já sabia. Estava vindo. Mas não chegaria a tempo de decidir por ela.
Ela olhou para o menino.
“Qual seu nome?”
“Ben.”
“Ben… você quer ir embora daqui? Comigo?”
Ele piscou, confuso.
“Mas… eles vão matar minha mãe.”
Liora respirou fundo. Sentiu o peso da escolha cair sobre os ombros pequenos.
“Se você me levar até eles… eles vão tentar me pegar. E vão matar você também quando descobrirem que não sou só uma criança. Se você vier comigo… minha matilha pode ajudar sua mãe. Mas você precisa escolher agora. Confiar em mim. Ou confiar neles.”
Ben olhou para a faca na mão. Depois para Liora. Depois para a floresta escura onde os caçadores esperavam.
Ele largou a faca na neve.
“Eu quero minha mãe.”
Liora estendeu a mão.
“Então vem.”
Ben hesitou só um segundo. Depois pegou a mão dela. A palma dele estava gelada, trêmula.
Eles começaram a voltar. Liora caminhava devagar, mantendo Ben perto, protegendo-o com o próprio corpo. Sentia os olhares dos caçadores nas costas — raiva, frustração, cálculo. Ouviu o clique distante de um rifle sendo armado.
Então o primeiro tiro veio.
Não para matar. Para assustar. A bala acertou a neve a centímetros do pé de Liora, levantando uma nuvem branca.
Ben gritou. Liora o puxou para baixo, cobrindo-o com o corpo.
“Fica quieto,” sussurrou ela. “Eles não vão acertar. Não enquanto eu estiver aqui.”
Mais tiros — controlados, próximos, mas nunca letais. Queriam forçar pânico. Queriam que ela corresse e se expusesse.
Mas Liora não correu.
Ela fechou os olhos. Chamou o laço — não para pedir ajuda. Para emprestar força.
Sentiu Kael responder imediatamente — uma onda quente de poder, de fúria contida, de amor absoluto. Sentiu Elara — calma, firme, guiando. Sentiu a matilha inteira — um muro invisível de proteção.
Então ela abriu os olhos.
E mudou.
Não completa. Nunca completa — ainda não. Mas o suficiente.
Pelo fino surgiu nos braços e nas pernas. Garras pequenas cresceram nas mãos. Os olhos brilharam âmbar-dourado. Um rosnado baixo subiu da garganta dela — não ameaça infantil, mas aviso de predador.
Ela se levantou devagar, colocando Ben atrás de si.
“Vão embora,” disse ela — voz ainda de criança, mas carregada com algo antigo. “Ou eu mostro o que uma ponte faz quando protege.”
Silêncio do outro lado.
Então um grito humano — não dela. De dor.
Kael surgiu da floresta como sombra viva — lobo negro imenso, olhos ardendo. Jax ao lado, loiro e letal. Mira atrás, já com ervas calmantes na mão para o menino.
Os caçadores recuaram. Não lutaram. Correram.
Kael voltou à forma humana em segundos. Correu até Liora e Ben. Ajoelhou-se na neve, verificando a filha primeiro — mãos tremendo de raiva e alívio.
“Você está bem?”
Liora assentiu. O pelo recuava devagar, garras encolhendo.
“Eu protegi ele, papai. Como você me ensinou.”
Kael abraçou-a forte. Depois olhou para Ben — o menino tremia, mas não chorava.
“Você escolheu vir com ela,” disse Kael, voz grave mas gentil. “Isso significa que agora você é nosso também. Vamos buscar sua mãe.”
Ben piscou, lágrimas escorrendo.
“De verdade?”
Liora pegou a mão dele.
“De verdade. Porque eu escolhi você.”
Eles voltaram para casa — Liora segurando a mão de Ben, Kael carregando os dois nos ombros quando a neve ficou alta demais. A matilha os recebeu com silêncio respeitoso. Mira levou Ben para dentro, enrolou-o em cobertores, deu chá quente e prometeu que encontrariam a mãe dele.
Naquela noite, Liora dormiu entre os pais — como fazia quando precisava lembrar que era segura.
“Eu tive medo,” confessou ela no escuro. “Mas escolhi não correr. Escolhi proteger.”
Elara beijou a testa dela.
“E isso é o que faz de você forte. Não as garras. Não o uivo. A escolha.”
Kael passou o braço ao redor das duas.
“Você salvou uma vida hoje. E deu a ele uma família nova. Isso é maior que qualquer caçada.”
Liora sorriu no escuro.
“Então eu escolho continuar escolhendo. Sempre.”
Na manhã seguinte, a matilha partiu para buscar a mãe de Ben. Encontraram-na viva — assustada, mas intacta — em uma cabana abandonada a vinte quilômetros. Quando ela viu o filho correndo em sua direção, chorou como se o mundo tivesse parado.
Ben olhou para Liora antes de abraçar a mãe.
“Obrigado,” sussurrou ele.
Liora apenas sorriu.
“Eu escolhi.”
E naquela noite, sob a lua crescente que brilhava pálida e fria, a matilha uivou — não por vitória, não por guerra.
Por escolha.
Por uma menina que, aos oito anos, já entendia que proteger não era só força.
Era decidir.
E decidir bem.
Capítulo 29: O Ano da Primeira Caçada Verdadeira
Liora completou nove anos na lua cheia de outono — a mesma lua que, anos antes, testemunhara o nascimento dela sob gritos de dor e uivos de esperança. A reserva estava diferente agora: mais casas de madeira erguidas nas bordas da clareira, uma escola de verdade com paredes de toras e janelas amplas, um pequeno lago artificial cavado por mãos humanas e patas para os dias quentes. A matilha crescera — não só em número, mas em confiança. Os híbridos mais velhos já treinavam patrulhas, os humanos que se juntaram (amigos, parceiros, refugiados de caçadas antigas) aprendiam a conviver sem medo. E no centro de tudo, Liora — alta para a idade, pernas longas, cabelos cacheados que chegavam à cintura quando soltos, olhos que mudavam de cor conforme a luz da lua.
Na véspera do aniversário, Kael a levou para o platô alto — o mesmo onde ele e Elara costumavam se deitar antes dela nascer. O céu estava limpo, estrelas como lascas de gelo sobre o preto profundo. A lua cheia subia devagar, enorme, dourada.
Liora sentou-se na rocha fria, joelhos dobrados contra o peito. Kael sentou-se ao lado, ombro encostando no dela — um gesto que ainda a fazia se sentir pequena, mesmo sendo quase tão alta quanto a mãe.
“Você está pronta?” perguntou ele, voz baixa.
Ela assentiu devagar.
“Estou. Mas… tenho medo de errar.”
Kael passou o braço ao redor dos ombros dela.
“Errar faz parte. Eu errei muitas vezes. Sua mãe errou. A matilha erra. O importante é o que você faz depois do erro.”
Liora olhou para a lua.
“Eu quero caçar de verdade amanhã. Não coelho. Não cervo pequeno. Algo grande. Algo que teste.”
Kael ficou em silêncio por longos segundos.
“Então vamos caçar o javali que ronda o vale norte. Ele é velho, esperto, tem presas que já mataram dois dos nossos anos atrás. Jax o rastreou ontem. Ele está sozinho. Ferido numa pata dianteira. Mas ainda perigoso.”
Liora sentiu o coração acelerar — não de medo, mas de excitação pura.
“Eu quero ir sozinha.”
Kael virou o rosto para ela.
“Não.”
“Papai…”
“Não é não, Liora. Você é forte. É rápida. É esperta. Mas ainda é jovem. E eu não vou arriscar perder você por orgulho.”
Ela baixou o olhar.
“Eu sei que você tem medo. Mas eu também tenho. Medo de não ser suficiente. Medo de a matilha achar que sou só… a filha do Alfa. Que não mereço liderar um dia.”
Kael segurou o queixo dela com delicadeza, erguendo o rosto para que olhassem nos olhos um do outro.
“Você não precisa provar nada para ninguém. Nem para mim. Nem para a matilha. Você já provou. Quando protegeu Ben. Quando cuidou de Estrela. Quando escolheu perdoar Harlan. Você já é mais que suficiente.”
Liora sentiu lágrimas quentes nos olhos.
“Mas eu quero sentir. Quero saber que consigo. Sozinha.”
Kael respirou fundo.
“Então vamos assim: você lidera. Eu e Jax seguimos a distância. Não interferimos a menos que sua vida corra risco real. Você dá o primeiro golpe. Você decide o que fazer depois. Mas nós estaremos lá. Sempre.”
Liora assentiu devagar.
“Combinado.”
Na manhã seguinte, a matilha se reuniu na clareira — não para assistir, mas para despedir. Elara abraçou a filha forte, beijou a testa.
“Volte inteira,” sussurrou. “E volte você mesma.”
Liora sorriu.
“Eu volto.”
Jax deu a ela uma faca pequena — cabo de osso entalhado com runas de precisão e rapidez.
“Primeiro corte limpo,” disse ele. “Depois o resto.”
Kael apenas tocou a testa dela com dois dedos — bênção silenciosa.
Então ela partiu.
Sozinha.
A trilha para o vale norte era conhecida — pedras marcadas, árvores com arranhões antigos. Liora caminhava com passos leves, narinas dilatadas, ouvindo o vento. Sentia o javali antes de vê-lo: cheiro de pelo sujo, sangue seco, raiva antiga. Ele estava perto do riacho, bebendo água com a pata ferida levantada.
Ela se aproximou devagar — agachada, vento a favor, sombra das árvores cobrindo o corpo. O coração batia forte, mas controlado. Ela parou a vinte metros. Observou.
O javali era enorme — mais de cem quilos, presas curvas e amareladas, olhos pequenos e malignos. A pata dianteira esquerda estava inchada, infeccionada. Ele mancava. Mas ainda era letal.
Liora respirou fundo. Chamou o lado lobo — não para mudar completa, mas para emprestar força. Garras cresceram nas mãos, olhos brilharam, sentidos aguçados.
Então atacou.
Não de frente. De lado. Rápida, silenciosa. Saltou de uma pedra alta, caindo sobre o dorso do javali. As garras cravaram no ombro grosso. O animal berrou — som gutural, furioso — e girou o corpo, tentando jogá-la longe.
Liora segurou firme. Rolou com ele. Sentiu uma presa raspar sua coxa — dor aguda, mas superficial. Não soltou.
O javali se debateu. Ela subiu mais alto, cravando as garras no pescoço. Sentiu a artéria pulsar sob a pele grossa. Hesitou só um segundo.
Então cortou.
Limpo. Rápido. Sem crueldade.
O javali caiu de lado, sangue quente escorrendo na terra fria. Liora ficou sobre ele até o último suspiro — não por prazer, mas por respeito. Quando o peito parou de subir, ela desceu devagar.
Sentou-se ao lado do corpo. Tocou o focinho áspero.
“Obrigada,” sussurrou. “Por me ensinar.”
Então chorou — não de tristeza, mas de alívio. De realização. De saber que conseguira.
Kael e Jax surgiram minutos depois. Não correram. Caminharam devagar.
Kael se ajoelhou ao lado dela. Abraçou-a forte, sem dizer nada. Apenas deixou que chorasse no ombro dele.
Jax tocou o ombro dela com dois dedos.
“Primeira caçada verdadeira,” disse ele. “E você escolheu limpo. Escolheu respeitar. Isso é raro, pequena. Isso é Alfa.”
Liora ergueu o rosto, lágrimas molhando as bochechas sujas.
“Eu consegui.”
Kael beijou a testa dela.
“Você sempre conseguiu.”
Eles levaram o javali de volta — Liora carregando a cabeça, orgulhosa, mas quieta. A matilha os recebeu com silêncio reverente. Ninguém uivou alto. Apenas tocaram a testa dela — um por um — com dois dedos. Bênção. Reconhecimento.
Naquela noite, ao redor da fogueira, Liora contou a história — não com exagero, mas com verdade. Como sentiu medo. Como hesitou. Como escolheu terminar rápido. Como chorou depois.
As crianças ouviram de olhos arregalados. Os adultos assentiram — orgulho silencioso.
Elara abraçou a filha quando todos foram dormir.
“Você escolheu hoje,” sussurrou. “E escolheu bem.”
Liora sorriu contra o peito da mãe.
“Eu escolho sempre. Porque aprendi com vocês.”
Kael se juntou ao abraço, envolvendo as duas.
“E nós escolhemos você. Todo dia.”
Sob a lua cheia que brilhava alta, a matilha uivou — não por vitória.
Por crescimento.
Por uma menina que caçara não só um javali.
Mas a dúvida dentro de si.
E vencera.
Com escolha.
Com coração.
Com amor.
Capítulo 30: A Lua que Não Caiu
Liora tinha dez anos quando a lua cheia de verão trouxe a primeira crise que não podia ser resolvida com garras ou escolha rápida.
O calor daquele ano era sufocante — o tipo de calor que grudava na pele, tornava o ar espesso e fazia os lobos mais velhos ficarem irritados, os filhotes inquietos. A reserva parecia menor sob o sol inclemente; o lago artificial evaporava devagar, deixando margens lamacentas, e até as árvores antigas pareciam curvar os galhos como se implorassem por chuva.
Tudo começou com uma tosse.
Primeiro foi Lila — a menina que crescera ao lado de Liora, agora com treze anos, alta e forte, já treinando para patrulhas avançadas. A tosse veio seca no início, depois úmida, depois com sangue. Mira a isolou imediatamente na casa de cura — uma construção pequena e arejada na borda da clareira. Ervas, infusões, compressas frias. Nada funcionava. A febre subia. A respiração ficava rasa.
Depois veio Theo, irmão mais novo de Lila. Depois duas crianças menores. Depois um beta adulto. A tosse se espalhava como fogo em palha seca — rápida, silenciosa, mortal.
Mira chamou Elara e Kael para a casa de cura na terceira noite.
“Não é doença comum,” disse ela, voz baixa para não acordar os doentes. “É algo antigo. Algo que os livros antigos chamam de ‘pó da lua caída’. Uma praga que ataca os híbridos mais fortes. Os puros resistem mais. Os humanos quase não sentem. Mas quem carrega os dois lados… sofre.”
Liora estava na porta — não autorizada a entrar, mas ouvindo tudo. Seus olhos âmbar-verdes brilhavam no escuro.
“É por minha causa?” perguntou ela, voz pequena mas firme.
Elara virou-se rápido.
“Não, meu amor. Não é por você. É por… equilíbrio. O sangue híbrido é forte. Mas às vezes, quando se mistura demais, o corpo não sabe o que defender primeiro.”
Kael se ajoelhou na frente da filha.
“Não é culpa sua. Nunca foi. Mas agora precisamos encontrar a cura. E rápido.”
Mira assentiu.
“Os livros dizem que a cura está no sangue da ponte verdadeira. No sangue que une os dois mundos sem luta. Mas precisa ser voluntário. E puro.”
Liora tocou o próprio braço.
“Meu sangue.”
Elara sentiu o coração parar.
“Não.”
“Sim,” disse Liora simplesmente. “Eu sou a ponte. Eu sou feita para isso.”
Kael fechou os olhos por um segundo.
“Você tem dez anos. Seu sangue ainda está se formando. Se dermos muito… pode te enfraquecer. Pode te matar.”
Liora olhou para os pais. Depois para a porta entreaberta da casa de cura, onde Lila tossia fraco, lutando para respirar.
“Se eu não fizer… Lila morre. Theo morre. Os outros morrem. E um dia… eu morro de culpa. Isso é pior que morrer de verdade.”
Elara caiu de joelhos ao lado dela, abraçando-a forte.
“Você não precisa carregar isso sozinha.”
“Mas eu preciso escolher,” respondeu Liora. “E eu escolho tentar.”
Kael tocou a testa da filha com dois dedos — bênção e despedida ao mesmo tempo.
“Então vamos fazer direito,” disse ele. “Vamos preparar tudo. Vamos chamar a matilha. Vamos fazer o ritual como os antigos faziam. E se houver risco… eu paro. Nem que seja preciso me odiar por isso.”
A matilha se reuniu ao amanhecer — todos, sem exceção. A clareira estava cheia: adultos, crianças, velhos, recém-chegados. Silêncio absoluto. Até o vento parecia prender a respiração.
No centro, uma pedra lisa — a mesma da memória antiga. Mira preparou o ritual: ervas queimando em braseiros, runas traçadas com cinza de lareira, uma tigela de prata contendo água do riacho mais puro.
Liora ficou no centro. Vestia apenas uma túnica branca simples — pés descalços na pedra fria. Kael e Elara ao lado dela, mãos dadas, formando um triângulo.
Mira começou o cântico — baixo, antigo, palavras que misturavam humano e lobo. A matilha respondeu com ronronares baixos, uivos suaves, um coro que vibrava no peito de todos.
Liora estendeu o braço esquerdo. Kael pegou uma faca cerimonial — prata pura, afiada como lua nova. Ele hesitou só um segundo.
“Eu te amo,” sussurrou.
“Eu também te amo,” respondeu ela.
Ele cortou — limpo, rápido, superficial. Sangue escorreu vermelho-vivo na tigela de água. O líquido ficou prateado por um instante — como se a lua tivesse caído dentro dele.
Mira mergulhou um pano na mistura. Levou aos lábios de Lila primeiro. A menina bebeu devagar, tossindo, mas engolindo. Depois Theo. Depois os outros.
A febre caiu em minutos. A tosse diminuiu. A respiração voltou ao normal.
Mas Liora cambaleou.
O corte não era profundo — mas o sangue tirado era muito. Seu corpinho pequeno não aguentava a perda. Ela caiu de joelhos. Kael a pegou antes que tocasse o chão.
“Liora!”
Elara estava ao lado em um segundo, mãos pressionando o corte, lágrimas escorrendo.
“Ela deu demais,” sussurrou Mira. “O corpo dela… ainda é jovem.”
Liora abriu os olhos devagar. Sorriu fraco.
“Eles… estão bem?”
Kael olhou para a casa de cura. Lila estava sentada na cama, pálida mas respirando. Theo ria baixo com as outras crianças.
“Estão,” respondeu ele, voz rouca. “Você salvou todos.”
Liora assentiu. Fechou os olhos.
“Então… valeu.”
Ela desmaiou.
A matilha ficou em silêncio absoluto. Ninguém uivou. Ninguém se moveu.
Kael carregou a filha para casa. Elara ao lado, segurando a mãozinha dela. Mira preparou infusões, compressas, tudo que podia.
Horas se passaram.
Liora acordou ao entardecer — fraca, pálida, mas viva. Olhou para os pais ao lado da cama.
“Eu escolhi,” sussurrou.
Kael beijou a testa dela.
“E salvou todos nós.”
Naquela noite, a matilha se reuniu novamente — não para ritual, mas para vigília. Uivos baixos, canções suaves, fogueiras acesas ao redor da casa. Eles não celebravam vitória. Celebravam escolha.
Liora dormiu entre os pais — mão na mão da mãe, cabeça no peito do pai.
E sob a lua cheia que brilhava alta, a matilha sussurrou seu nome — não como heroína.
Como ponte.
Como filha.
Como escolha viva.
E o mundo, pela primeira vez, pareceu ouvir.