GRÁVIDA DO CEO QUE ME DESPREZOU
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Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares, empresas, acontecimentos e situações apresentados nesta história são fruto de criação literária. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, empresas, locais ou acontecimentos reais é mera coincidência.
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Todos os direitos de texto, personagens, enredo, título e desenvolvimento narrativo pertencem ao titular da obra.
Sumário
Capítulo 1 — A proposta impossível
Capítulo 2 — O homem mais frio que ela já conheceu
Capítulo 3 — As regras do casamento
Capítulo 4 — A noiva de fachada
Capítulo 5 — A primeira humilhação pública
Capítulo 6 — Dormindo sob o mesmo teto
Capítulo 7 — O vestido que mudou tudo
Capítulo 8 — Ciúmes que ele não queria sentir
Capítulo 9 — A ex-noiva aparece
Capítulo 10 — Um beijo que não estava no contrato
Capítulo 11 — Dante perde o controle
Capítulo 12 — A noite que ela tentou esquecer
Capítulo 13 — Frieza na manhã seguinte
Capítulo 14 — O segredo de Helena
Capítulo 15 — Isabela descobre a gravidez
Capítulo 16 — Ela decide desaparecer
Capítulo 17 — Dante encontra o teste
Capítulo 18 — A perseguição começa
Capítulo 19 — O acidente
Capítulo 20 — “Você carrega meu filho”
Capítulo 21 — De volta à mansão
Capítulo 22 — A esposa intocável
Capítulo 23 — O primeiro exame
Capítulo 24 — Dante vê o ultrassom
Capítulo 25 — Helena arma o golpe final
Capítulo 26 — O passado entre as famílias
Capítulo 27 — A mentira do pai de Isabela
Capítulo 28 — Dante se sente traído
Capítulo 29 — Isabela vai embora de novo
Capítulo 30 — O bilionário de joelhos
Capítulo 31 — Ele confessa o que sente
Capítulo 32 — A ameaça contra Isabela
Capítulo 33 — Dante escolhe o amor
Capítulo 34 — Helena é desmascarada
Capítulo 35 — O parto antecipado
Capítulo 36 — O nascimento do herdeiro
Capítulo 37 — A promessa de Dante
Capítulo 38 — Casamento de verdade
Capítulo 39 — Epílogo — Um ano depois
Capítulo 40 — O irmão do CEO
Capítulo 1
A proposta impossível
Isabela Monteiro nunca imaginou que a ruína tivesse cheiro.
Mas tinha.
Cheirava a café frio, papéis antigos e desespero acumulado entre as paredes do escritório do pai.
Ela estava parada no meio da sala, com os dedos apertando a alça da bolsa, enquanto observava Ricardo Monteiro sentado atrás da mesa de madeira escura. O homem que um dia parecera invencível agora parecia menor, curvado, com olheiras profundas e as mãos trêmulas sobre uma pilha de documentos.
— Pai… — a voz dela saiu baixa. — Me diz que isso não é verdade.
Ricardo não respondeu de imediato.
Esse silêncio foi pior do que qualquer confissão.
Isabela sentiu o estômago afundar.
— Quanto? — perguntou.
O pai respirou fundo, desviando o olhar.
— Mais do que conseguimos pagar.
— Quanto, pai?
Ele fechou os olhos por um instante.
— O suficiente para perdermos tudo.
A frase caiu entre os dois como uma sentença.
Isabela olhou ao redor. A empresa da família não era grande, mas era tudo o que eles tinham. Era o legado da mãe dela, o esforço de anos, o nome dos Monteiro. Ali estavam as lembranças de infância, os fins de semana em que acompanhava o pai ao escritório, os sonhos que ela havia herdado sem pedir.
E agora tudo estava prestes a desaparecer.
— Deve existir alguma saída — ela insistiu. — Um empréstimo, uma renegociação, qualquer coisa.
Ricardo soltou uma risada amarga.
— Eu tentei.
— Então tentamos de novo.
— Isabela…
— Eu posso trabalhar mais. Posso vender meu carro, minhas coisas, posso—
— Não é sobre vender um carro! — ele explodiu, batendo a mão na mesa.
Ela se calou.
O pai raramente levantava a voz. Quando fazia isso, era porque a situação estava pior do que ela imaginava.
Ricardo passou as mãos pelo rosto.
— Desculpa. Eu só… eu não queria que você carregasse isso.
Isabela se aproximou devagar.
— Eu sou sua filha. É claro que eu vou carregar.
Os olhos dele ficaram úmidos.
— Não era para ser assim.
Antes que ela pudesse responder, a porta do escritório foi aberta.
Um homem de terno escuro entrou sem pedir licença.
Alto. Impecável. Frio.
A presença dele mudou o ar da sala.
Isabela virou o rosto e o reconheceu imediatamente, embora nunca tivesse estado tão perto dele.
Dante Alencar.
O nome era conhecido em todo o país. CEO do Grupo Alencar. Bilionário. Herdeiro de um império. O tipo de homem que estampava capas de revistas de negócios e fazia investidores tremerem com uma única decisão.
Mas nenhuma foto fazia justiça ao impacto de vê-lo pessoalmente.
Dante era mais jovem do que ela esperava, talvez pouco mais de trinta. Tinha o cabelo escuro perfeitamente alinhado, a mandíbula firme e olhos tão frios que pareciam incapazes de sentir qualquer coisa.
Ele não sorriu.
Não cumprimentou.
Apenas olhou para Ricardo como se tivesse vindo cobrar uma dívida antiga.
— Monteiro — disse Dante, com voz baixa e controlada.
Ricardo empalideceu.
Isabela percebeu.
— O que ele está fazendo aqui? — perguntou, olhando para o pai.
Dante respondeu antes dele.
— Salvando vocês.
Ela ergueu o queixo.
— Não me lembro de ter pedido ajuda.
Pela primeira vez, os olhos de Dante pousaram nela.
Foi rápido, mas suficiente para fazê-la sentir como se tivesse sido avaliada dos pés à cabeça. Não com desejo. Não com gentileza. Mas com uma frieza calculada, quase ofensiva.
— Você deve ser Isabela — ele disse.
— E você deve ser arrogante.
Ricardo se levantou imediatamente.
— Isabela!
Dante não se alterou. Pelo contrário. Um canto de sua boca ameaçou subir, mas não chegou a formar um sorriso.
— Corajosa — murmurou. — Ou imprudente.
— Depende de quem está julgando.
O silêncio que se seguiu foi tenso.
Dante caminhou até a mesa e colocou uma pasta preta sobre os documentos espalhados. O gesto foi simples, mas carregava uma autoridade incômoda.
— Dentro dessa pasta está a solução para os problemas financeiros da sua família.
Isabela olhou para a pasta, depois para o pai.
— Que solução?
Ricardo parecia incapaz de falar.
Dante abriu o botão do paletó e se sentou na cadeira em frente à mesa, como se aquele escritório também lhe pertencesse.
— Eu assumo todas as dívidas da empresa, impeço a falência, mantenho seu pai na diretoria por mais dois anos e garanto que nenhum funcionário seja demitido.
Isabela franziu a testa.
A proposta era boa demais.
Boa demais para ser limpa.
— Em troca de quê? — ela perguntou.
Dante sustentou seu olhar.
— De você.
O mundo pareceu parar.
Isabela piscou, convencida de que havia entendido errado.
— Como é?
Dante cruzou uma perna sobre a outra, perfeitamente calmo.
— Preciso de uma esposa.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Então compre uma aliança. Não uma pessoa.
Os olhos dele endureceram.
— Não estou comprando você, senhorita Monteiro. Estou oferecendo um contrato.
— Um contrato de casamento?
— Exatamente.
Isabela sentiu o sangue ferver.
— Isso é ridículo.
— Concordo.
A resposta a desarmou por um segundo.
Dante continuou:
— Mas é necessário.
— Necessário para quem?
— Para mim, para os seus negócios e, principalmente, para o seu pai.
Isabela olhou para Ricardo.
— Pai, diz alguma coisa.
Ele abaixou a cabeça.
O coração dela apertou.
— Você sabia disso? — perguntou, com a voz mais frágil.
Ricardo não respondeu.
Aquilo foi resposta suficiente.
Isabela deu um passo para trás, como se tivesse levado um tapa.
— Vocês estão negociando minha vida?
— Não é assim — o pai tentou dizer.
— Então é como?
Dante se levantou.
— É simples. Você se casa comigo por dois anos. Aparece ao meu lado em eventos, cumpre o papel de esposa diante da imprensa e da minha família. Em troca, sua família sobrevive.
Isabela encarou aquele homem com nojo.
— E por que eu?
Dante se aproximou lentamente.
Cada passo dele parecia calculado para intimidar.
— Porque seu sobrenome ainda tem valor social. Porque sua imagem é limpa. Porque você é bonita o suficiente para convencer a imprensa. E porque, diferente das mulheres que costumam se aproximar de mim, você precisa desesperadamente dizer sim.
A crueldade da frase fez os olhos dela arderem.
Mas Isabela não chorou.
Não na frente dele.
— Você é desprezível.
Dante parou diante dela.
De perto, ele era ainda mais intimidador. O perfume amadeirado, o olhar escuro, a postura de quem nunca havia sido contrariado.
— Talvez — disse ele. — Mas sou o único homem nesta sala capaz de salvar sua família.
Isabela apertou os punhos.
— E se eu recusar?
Dante inclinou levemente a cabeça.
— Amanhã os bancos executam as dívidas. Em uma semana, a empresa fecha. Em um mês, seu pai perde a casa. E considerando o estado de saúde dele…
— Chega — ela sussurrou.
Dante ficou em silêncio.
Isabela olhou para o pai. Viu vergonha. Medo. Cansaço.
E, por trás de tudo, viu a verdade mais dolorosa: ele precisava dela.
Não como filha.
Como moeda de troca.
Ela respirou fundo, tentando segurar o tremor no peito.
— Dois anos? — perguntou.
Dante ergueu uma sobrancelha.
— Dois anos.
— Depois disso, eu estou livre?
— Completamente.
— E minha família?
— Intocável, desde que você cumpra sua parte.
Isabela sentiu a garganta fechar.
Era absurdo. Humilhante. Cruel.
Mas também era a única saída.
Ela encarou Dante Alencar com toda a força que ainda restava.
— Eu aceito.
Ricardo fechou os olhos, destruído.
Dante, por outro lado, não demonstrou vitória. Apenas pegou a pasta, retirou uma caneta e a estendeu para ela.
— Então assine.
Isabela olhou para a caneta.
Parecia pequena demais para destruir uma vida inteira.
Mesmo assim, pegou.
Antes de assinar, levantou os olhos para Dante.
— Só quero deixar uma coisa clara.
— Estou ouvindo.
— Você pode comprar meu tempo, meu nome e minha presença. Mas nunca vai comprar meu coração.
Dante se aproximou um pouco mais.
A voz dele veio baixa, firme e gelada:
— Ótimo. Porque eu não tenho o menor interesse nele.
Isabela sentiu a dor da frase atravessá-la em silêncio.
Então assinou.
E, naquele instante, deixou de ser apenas Isabela Monteiro.
Tornou-se a futura esposa de Dante Alencar.
O homem que acabara de salvar sua família.
E destruir sua vida.
Capítulo 2
O homem mais frio que ela já conheceu
A caneta ainda estava entre os dedos de Isabela quando ela percebeu que suas mãos tremiam.
Não muito. Apenas o suficiente para que Dante notasse.
E ele notou.
Os olhos escuros dele desceram até os dedos dela, depois voltaram ao seu rosto. Nenhuma palavra. Nenhuma expressão de pena. Nada que lembrasse humanidade.
Isabela odiou isso.
Odiou ainda mais porque, por dentro, estava despedaçada.
— Pronto — ela disse, empurrando os papéis de volta para ele. — Agora você conseguiu o que queria.
Dante pegou o contrato com calma irritante, conferiu a assinatura e fechou a pasta.
— Não exatamente.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Isso foi apenas o primeiro passo.
Ricardo, que permanecia em silêncio desde que a filha assinara, ergueu o rosto.
— Dante, acho que por hoje já basta.
Dante nem sequer olhou para ele.
— O casamento precisa acontecer em até quinze dias.
Isabela sentiu o sangue fugir do rosto.
— Quinze dias?
— A imprensa precisa acreditar que se trata de uma união espontânea. Um noivado longo levantaria perguntas. Uma cerimônia rápida será vendida como paixão impulsiva.
Ela soltou uma risada incrédula.
— Paixão?
— É a palavra que as pessoas gostam de ouvir.
— E você sabe o que ela significa?
Pela primeira vez, algo passou pelo rosto de Dante.
Não era raiva. Não era surpresa.
Era algo mais antigo. Mais escuro.
Mas desapareceu rápido.
— Sei o suficiente para não me deixar enganar por ela.
Isabela sustentou o olhar dele.
— Que triste.
Dante inclinou levemente a cabeça.
— Não tão triste quanto a falência.
A frase atingiu o ponto exato.
Isabela engoliu em seco, recusando-se a demonstrar o quanto aquilo havia doído. Ele sabia onde apertar. Sabia exatamente qual ferida abrir para mantê-la no lugar.
E isso a assustava.
Dante Alencar não era apenas poderoso. Era perigoso de uma forma silenciosa, elegante, quase cruel.
— Você vai se mudar para minha casa amanhã — ele continuou.
— Não.
A resposta saiu automática.
Dante estreitou os olhos.
— Não foi uma pergunta.
— E a minha resposta também não.
O silêncio que tomou a sala foi pesado.
Ricardo se levantou, aflito.
— Isabela, por favor…
Ela olhou para o pai, magoada.
— Por favor o quê? Para eu entregar minha vida inteira sem reclamar?
— Eu não queria isso.
— Mas deixou acontecer.
Ricardo abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Isabela desviou o olhar antes que a culpa dele destruísse o pouco de firmeza que ainda tinha.
Dante deu um passo à frente.
— Você assinou um contrato.
— Eu assinei um casamento de fachada. Não uma prisão.
— Minha esposa não vai morar em outro lugar.
— Eu ainda não sou sua esposa.
— Mas será.
A naturalidade com que ele disse aquilo fez o peito dela apertar.
Será.
Como se o futuro dela já tivesse sido decidido. Como se ela fosse uma negociação bem-sucedida, uma cláusula fechada, uma peça reposicionada no tabuleiro dele.
Isabela cruzou os braços.
— E se eu me recusar?
Dante tirou o celular do bolso, tocou na tela uma única vez e então a virou para ela.
Era uma transferência bancária.
Um valor tão alto que Isabela precisou piscar duas vezes para entender.
— A primeira parte do pagamento já foi feita aos credores da empresa Monteiro — ele disse. — Isso significa que, a partir de agora, qualquer quebra de contrato terá consequências imediatas.
Ela encarou a tela, depois o rosto dele.
— Você já fez isso antes mesmo de eu assinar?
— Eu sabia que você aceitaria.
A certeza dele foi mais humilhante do que a proposta.
— Você não sabia nada sobre mim.
— Sabia o suficiente.
— O quê? Que eu faria qualquer coisa pelo meu pai?
— Sim.
Isabela sentiu os olhos arderem.
Dante guardou o celular.
— Pessoas são previsíveis quando estão desesperadas.
A frase a feriu como uma lâmina.
Ela queria bater nele. Queria gritar. Queria rasgar aquele contrato e dizer que nenhum dinheiro do mundo valia sua dignidade.
Mas então olhou para o pai.
Ricardo estava pálido, uma das mãos apoiada sobre o peito, respirando com dificuldade.
O ódio dela vacilou.
— Pai?
Ele tentou sorrir.
— Está tudo bem.
Não estava.
Isabela se aproximou rapidamente, tocando o braço dele.
— Você tomou o remédio hoje?
— Tomei.
— Mentira.
Ricardo desviou o olhar.
— Eu esqueci.
— Pai…
A voz dela quebrou.
Dante observou a cena em silêncio. Pela primeira vez desde que entrara naquele escritório, ele pareceu realmente enxergar algo além dos contratos e números.
Isabela não percebeu.
Estava ocupada demais tentando impedir que o mundo desabasse de vez.
— Eu levo ele para casa — ela disse, pegando a bolsa.
— Meu motorista levará os dois — Dante respondeu.
— Eu não pedi seu motorista.
— Também não perguntei.
Ela virou-se para ele, furiosa.
— Você sempre fala assim com as pessoas?
— Quando elas insistem em dificultar o óbvio, sim.
— O óbvio para você é mandar e ser obedecido?
— Geralmente funciona.
Isabela deu um passo na direção dele.
— Comigo não vai funcionar.
Dante a olhou por alguns segundos.
Então, para sua surpresa, aproximou-se também.
Não de forma brusca. Não ameaçadora.
Mas o suficiente para que o corpo dela percebesse a presença dele antes da mente conseguir ordenar distância.
Ele era alto demais. Frio demais. Seguro demais.
E, por um segundo absurdo, Isabela percebeu o cheiro dele outra vez. Amadeirado. Sofisticado. Irritante.
— Vai funcionar — Dante disse baixo. — Porque você não vai desafiar a única pessoa que pode manter sua família de pé.
Ela sentiu a garganta apertar.
— Você chama isso de ajuda?
— Eu chamo de acordo.
— Eu chamo de chantagem.
Dante não negou.
E essa foi a pior parte.
Ele apenas sustentou o olhar dela como se a opinião de Isabela fosse irrelevante.
A porta do escritório se abriu novamente, e uma mulher elegante entrou. Devia ter pouco mais de quarenta anos, vestia um conjunto bege impecável e segurava uma agenda de couro nas mãos.
— Senhor Alencar — disse ela. — O carro está pronto.
Dante deu um aceno discreto.
— Obrigado, Marta.
A mulher olhou para Isabela com uma curiosidade contida.
— Senhorita Monteiro.
Isabela não respondeu de imediato.
Ainda estava tentando entender como, em menos de uma hora, sua vida havia passado a incluir motoristas, assistentes, contratos matrimoniais e um homem insuportável decidindo onde ela dormiria.
— Marta coordena minha casa — Dante explicou. — Ela organizará sua mudança.
— Minha mudança? — Isabela repetiu, incrédula.
— Amanhã às nove.
— Eu tenho coisas para resolver.
— Resolva até as nove.
Isabela riu sem humor.
— Você é impossível.
— E você está atrasando minha agenda.
Ela encarou Dante, sem acreditar.
— Minha vida acabou de ser destruída e você está preocupado com sua agenda?
— Sua vida não foi destruída. Foi reorganizada.
Isabela ficou em silêncio.
Por um instante, não encontrou resposta.
Talvez porque uma parte dela tivesse entendido, com uma clareza dolorosa, o tipo de homem que Dante Alencar era.
Ele não via pessoas.
Via funções.
O pai dela era uma dívida. A empresa, uma oportunidade. Ela, uma esposa de fachada.
Nada mais.
Isabela sentiu um frio estranho no peito.
— Eu vou para casa com meu pai — disse, controlando a voz. — Amanhã às nove, sua funcionária pode aparecer. Mas não mande ninguém entrar no meu quarto, tocar nas minhas coisas ou me tratar como propriedade sua.
Dante a observou.
— Você terá privacidade.
— Que generoso.
— Mas terá segurança.
— Segurança ou vigilância?
— Os dois, se necessário.
Os olhos dela se estreitaram.
— Eu não sou uma criminosa.
— Não. Mas agora está ligada ao meu nome. Isso atrai atenção.
— Eu não pedi seu nome.
— Mas aceitou usá-lo.
A resposta morreu na garganta dela.
Dante se virou para Marta.
— Providencie roupas adequadas para os eventos da semana.
Isabela endureceu.
— Eu tenho roupas.
O olhar dele desceu por um instante até a blusa simples que ela usava, a calça jeans escura, o tênis branco.
Não havia deboche explícito.
Mas ela sentiu mesmo assim.
— Não para ser minha esposa.
A humilhação veio quente, rápida, queimando por dentro.
Ricardo deu um passo.
— Dante, isso não é necessário.
Isabela ergueu a mão, impedindo o pai de continuar.
Não queria que ele a defendesse agora.
Tarde demais.
Ela se aproximou de Dante com uma calma que não sentia.
— Escuta bem uma coisa, senhor Alencar. Você pode comprar vestidos, joias, fotógrafos e manchetes. Pode montar uma personagem para a imprensa e me obrigar a sorrir ao seu lado. Mas não se confunda.
Ela parou diante dele.
— A mulher que vai aparecer nas revistas será sua esposa. Eu não.
Dante sustentou o olhar dela por alguns segundos.
Algo brilhou nos olhos dele.
Interesse?
Irritação?
Talvez os dois.
— Cuidado, Isabela.
Foi a primeira vez que ele disse o nome dela sem sobrenome.
E, por algum motivo ridículo, aquilo soou íntimo demais.
Ela odiou também.
— Com o quê?
Dante inclinou o rosto, aproximando-se apenas o bastante para que só ela ouvisse.
— Com essa necessidade de me provocar. Você pode acabar descobrindo que eu tenho menos paciência do que imagina.
O coração dela bateu mais forte.
Não de medo.
Ou talvez não só de medo.
A proximidade dele era sufocante. Havia algo nele que irritava, intimidava e puxava ao mesmo tempo. Como uma chama perigosa demais para tocar, mas impossível de ignorar.
Isabela odiou o próprio corpo por perceber isso.
Ela deu um passo para trás.
— E você pode descobrir que eu não sou tão fácil de quebrar.
Dante a encarou.
Dessa vez, o canto da boca dele subiu quase nada.
— Vamos ver.
Aquelas duas palavras ficaram no ar.
Uma promessa.
Ou uma ameaça.
Marta pigarreou discretamente, quebrando a tensão.
— Senhor, o motorista aguarda.
Dante afastou-se primeiro.
Isabela respirou sem perceber que estava prendendo o ar.
Poucos minutos depois, ela estava no banco traseiro de um carro preto, luxuoso e silencioso demais, ao lado do pai. Dante não veio com eles. Mandou outro carro buscá-lo, como se sua presença física fosse desnecessária depois de ter tomado posse do destino dela.
Durante o trajeto, Ricardo tentou falar várias vezes.
Isabela olhava pela janela.
As luzes da cidade passavam borradas pelo vidro.
— Filha…
— Não.
— Eu preciso explicar.
— Hoje não.
— Eu fiz isso por você.
Ela virou o rosto devagar.
— Por mim?
A mágoa em sua voz fez Ricardo encolher.
— Pela nossa família.
— Não, pai. Você fez isso porque estava desesperado. E eu entendo. De verdade, eu entendo. Mas não peça para eu fingir que isso não me machucou.
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
— Eu nunca quis te entregar a ele.
Isabela sentiu o peito apertar.
Porque, apesar de tudo, sabia que era verdade.
Ricardo não era um monstro. Era um homem quebrado tentando impedir que tudo que amava desaparecesse.
Mas isso não diminuía a dor.
— Então por que aceitou?
O pai ficou em silêncio por tanto tempo que ela pensou que ele não responderia.
Quando respondeu, sua voz estava rouca.
— Porque Dante Alencar não é o tipo de homem que aceita um não.
Isabela ficou imóvel.
Uma sensação estranha subiu por sua espinha.
— O que você quer dizer com isso?
Ricardo olhou para a janela, evitando-a.
— Só tome cuidado com ele.
— Pai.
— Dante tem motivos para odiar nossa família.
O coração de Isabela deu um salto.
— Como assim?
Antes que Ricardo pudesse responder, tossiu forte. A crise veio de repente, violenta, fazendo-o se curvar para frente.
— Pai!
Isabela segurou o braço dele, desesperada.
O motorista olhou pelo retrovisor.
— Senhorita, quer que eu vá para o hospital?
Ricardo balançou a cabeça, tentando respirar.
— Não… casa…
— Hospital — Isabela ordenou.
— Isabela…
— Hospital agora!
O motorista obedeceu imediatamente.
Enquanto o carro mudava de direção, Isabela segurava a mão do pai, sentindo os dedos dele frios contra os seus.
Mas a cabeça dela girava em torno de uma única frase.
Dante tem motivos para odiar nossa família.
Ela olhou para o celular sobre o colo.
Havia uma mensagem nova de um número desconhecido.
Isabela abriu.
Amanhã às nove. Esteja pronta.
— Dante
Ela apertou o aparelho com força.
Quinze dias para o casamento.
Uma mudança forçada.
Um contrato cruel.
Um pai doente.
E agora um passado escondido entre as duas famílias.
Isabela encarou a tela até as letras começarem a embaçar.
Então digitou apenas uma resposta.
Eu vou cumprir o contrato. Mas nunca vou pertencer a você.
A resposta veio menos de um minuto depois.
Ainda.
Isabela sentiu o coração bater contra as costelas.
Uma única palavra.
Fria.
Arrogante.
Perigosa.
E, de alguma forma que ela se recusava a admitir, perturbadora.
Pela primeira vez naquela noite, Isabela entendeu que Dante Alencar não queria apenas uma esposa de fachada.
Ele queria controle.
E talvez, antes que tudo acabasse, ele tentasse controlar até a parte dela que ela jurou jamais entregar.
Capítulo 3
As regras do casamento
Isabela dormiu pouco.
Na verdade, não tinha certeza se havia dormido.
Passou a madrugada sentada na poltrona ao lado da cama do pai, no quarto branco e impessoal do hospital, ouvindo o som constante dos aparelhos e o movimento distante dos enfermeiros no corredor.
Ricardo estava estável.
Foi isso que o médico disse.
Estável.
Uma palavra pequena demais para tranquilizar alguém que tinha acabado de ver o pai quase desmaiar no banco de trás de um carro.
Isabela mantinha os olhos fixos nele. O rosto pálido, os cabelos grisalhos desalinhados, a respiração cansada. Era difícil associar aquele homem frágil ao pai que a carregava no colo quando criança, que ria alto nos almoços de domingo, que dizia que nenhum problema era grande o bastante quando se tinha coragem.
Agora ele parecia vencido.
E ela também.
O celular vibrou em seu colo.
Isabela já sabia quem era antes de olhar.
Dante Alencar.
A mensagem era curta.
Marta chegará à sua casa às nove. Meu motorista a levará do hospital até lá.
Isabela apertou o celular com força.
Ele sabia que ela estava no hospital.
Claro que sabia.
Homens como Dante não perguntavam. Descobriam.
Ela digitou com raiva.
Meu pai está internado. Não vou sair daqui.
A resposta veio quase imediata.
Seu pai será acompanhado por uma equipe particular a partir de hoje. Já providenciei tudo.
Isabela sentiu o peito queimar.
Eu não pedi.
Não precisa pedir o que é necessário.
Ela fechou os olhos, tentando controlar a vontade de jogar o celular contra a parede.
Aquele homem tinha uma capacidade absurda de transformar qualquer gesto em imposição. Até uma ajuda parecia algema quando vinha dele.
Antes que pudesse responder, outra mensagem apareceu.
Esteja pronta em trinta minutos.
Isabela riu sozinha, sem humor.
— Arrogante insuportável — murmurou.
— Está falando de mim?
A voz fraca do pai fez com que ela levantasse o rosto imediatamente.
Ricardo estava acordado.
— Pai… — ela se aproximou da cama. — Como você está se sentindo?
— Como se tivesse sido atropelado por um caminhão.
— Você quase me matou de susto.
Ele tentou sorrir, mas o sorriso morreu rápido.
— Desculpa.
Isabela segurou a mão dele.
— Para de pedir desculpa e melhora logo.
Ricardo observou a filha por alguns segundos. Havia culpa nos olhos dele. Uma culpa tão pesada que ela precisou desviar o olhar.
— Ele mandou mensagem? — perguntou.
Ela não precisou perguntar de quem o pai estava falando.
— Mandou.
— Dante sempre consegue o que quer.
— Não comigo.
Ricardo soltou uma respiração cansada.
— Isabela…
— Eu sei o que você vai dizer.
— Não, não sabe.
Ela ficou em silêncio.
O pai apertou de leve sua mão.
— Você precisa entender uma coisa. Dante não é só um homem rico. Ele é um homem ferido. E homens feridos com poder são perigosos.
Isabela franziu a testa.
— Ontem você disse que ele tinha motivos para odiar nossa família.
O olhar de Ricardo escureceu.
— Eu falei demais.
— Não. Você falou pouco.
— Esse assunto não deve ser tratado agora.
— Meu casamento com ele será em quinze dias. Se existe alguma coisa que eu preciso saber, a hora é agora.
Ricardo fechou os olhos.
Por um instante, Isabela pensou que ele iria responder. Que finalmente explicaria o que havia por trás do ódio silencioso de Dante, da pressa, do contrato, daquela escolha absurda.
Mas ele apenas virou o rosto para a janela.
— Pergunte a ele.
A resposta gelou o sangue dela.
— O quê?
— Se quiser saber por que Dante odeia os Monteiro, pergunte ao próprio Dante.
Isabela se levantou devagar.
— Então é verdade.
Ricardo não respondeu.
O silêncio confirmou.
O celular dela vibrou outra vez.
O motorista está na recepção.
Isabela olhou para a tela e sentiu uma vontade quase infantil de desobedecer apenas para irritá-lo. Mas então olhou para o pai na cama, para os aparelhos, para a fragilidade que ele tentava esconder.
Dante já havia providenciado médicos particulares.
Já havia pagado dívidas.
Já havia colocado o mundo dela dentro das mãos dele.
E Isabela odiava precisar admitir que, por enquanto, não podia simplesmente dizer não.
Ela se inclinou e beijou a testa do pai.
— Eu volto mais tarde.
Ricardo segurou sua mão antes que ela se afastasse.
— Não deixe ele apagar quem você é.
A garganta dela apertou.
— Ninguém vai fazer isso.
Mas, enquanto saía do quarto, Isabela não tinha tanta certeza.
O motorista a esperava na recepção com postura impecável e expressão neutra. Chamava-se Augusto. Foi educado, discreto e abriu a porta do carro como se ela fosse alguém importante.
Isabela não se sentia importante.
Sentia-se transportada.
Como um objeto de valor sendo levado para outro dono.
Durante o trajeto até a casa, ela observou a cidade pela janela. As pessoas caminhavam pelas calçadas, entravam em padarias, esperavam ônibus, conversavam ao telefone. Vidas comuns. Problemas comuns.
Tudo parecia irritantemente normal.
Apenas a vida dela havia virado de cabeça para baixo.
Quando chegou à casa da família, Marta já estava lá.
E não estava sozinha.
Duas mulheres organizavam caixas na sala. Um homem de terno falava ao telefone perto da entrada. Outro subia as escadas com uma prancheta nas mãos.
Isabela entrou e parou no meio da sala.
— O que está acontecendo aqui?
Marta se aproximou com um sorriso profissional.
— Bom dia, senhorita Monteiro. Estamos organizando sua mudança para a residência do senhor Alencar.
Isabela respirou fundo.
— Eu ainda moro aqui.
— Sim, claro. Estamos apenas separando os itens essenciais.
— Ninguém separa nada sem minha autorização.
Marta manteve a calma.
— Entendo. Podemos fazer isso juntas.
Isabela olhou ao redor, sentindo a invasão em cada detalhe. Sua sala, suas fotos, os livros da mãe, o vaso antigo perto da janela. Tudo que antes era lar agora parecia cenário desmontado por estranhos.
— Quero todos fora da minha casa por cinco minutos — ela disse.
Marta hesitou.
— Senhorita…
— Cinco minutos.
A voz de Isabela saiu firme o bastante para surpreender até ela mesma.
Marta a observou, talvez medindo o quanto poderia insistir. Então assentiu.
— Cinco minutos.
Quando a sala ficou vazia, Isabela finalmente respirou.
Subiu para o quarto devagar.
Ali, a sensação foi pior.
A cama ainda desarrumada da noite anterior. O perfume dela sobre a penteadeira. Um porta-retrato com uma foto antiga dos pais. Um vestido simples pendurado na cadeira.
Sua vida cabia em um quarto.
E agora alguém esperava que ela a colocasse em caixas.
Isabela abriu o armário e puxou uma mala.
Colocou poucas roupas. O necessário. Nada que parecesse definitivo.
Porque não era definitivo.
Dois anos, disse a si mesma.
Apenas dois anos.
Depois, estaria livre.
Quando desceu novamente, Marta a aguardava com uma pasta nas mãos.
— O senhor Alencar pediu que eu lhe entregasse isto.
Isabela já estava cansada de pastas.
— Mais um contrato?
— As regras de convivência.
Ela olhou para Marta.
— Você está brincando.
— Receio que não.
Isabela pegou a pasta e abriu.
A primeira página tinha o timbre elegante do Grupo Alencar.
Ela começou a ler.
Residência Alencar — Condições de Imagem, Conduta e Convivência
Isabela sentiu uma risada amarga subir pela garganta.
— Conduta? Ele acha que está contratando uma funcionária?
Marta não respondeu.
Isabela continuou lendo.
1. A senhorita Monteiro deverá residir na mansão Alencar até a formalização do divórcio, ao final do contrato matrimonial.
2. Toda aparição pública deverá ser previamente alinhada com a equipe de comunicação do senhor Alencar.
3. Demonstrações de conflito em público são proibidas.
4. A senhorita Monteiro deverá usar a aliança em tempo integral.
5. O casal deverá dividir a mesma residência e, quando necessário, o mesmo quarto em viagens ou eventos familiares.
Isabela parou.
— Mesmo quarto?
Marta permaneceu impassível.
— Apenas quando necessário para preservar a imagem do casamento.
— Claro. Porque a imagem do casamento é mais importante do que qualquer limite pessoal.
Ela voltou à leitura.
6. Relações extraconjugais públicas ou escândalos serão considerados quebra de contrato.
7. O senhor Alencar compromete-se a manter a segurança, assistência médica e estabilidade financeira da família Monteiro durante o período contratual.
8. Sentimentos pessoais não alteram obrigações assumidas.
Isabela ficou olhando para a última frase.
Sentimentos pessoais não alteram obrigações assumidas.
Tinha a cara dele.
Fria. Direta. Desumana.
— Ele escreveu isso pessoalmente, não escreveu? — perguntou.
Marta baixou os olhos por um segundo.
— O senhor Alencar revisa todos os documentos importantes.
— Que honra ser um documento importante.
Ela fechou a pasta com força.
— Onde ele está?
— Na residência dele.
— Ótimo. Então me leve até lá.
Marta pareceu surpresa.
— Agora?
— Agora.
— A mudança ainda não foi finalizada.
— Então finalize depois.
Isabela pegou a bolsa e saiu antes que alguém tentasse impedi-la.
No carro, ficou em silêncio.
A raiva havia substituído o medo. Era melhor assim. A raiva a mantinha de pé. A raiva impedia que ela chorasse.
A mansão Alencar ficava em um condomínio afastado, cercado por muros altos, árvores perfeitamente podadas e uma segurança tão discreta quanto intimidadora.
Quando os portões se abriram, Isabela tentou não demonstrar reação.
Mas era impossível.
A casa era imensa.
Vidro, pedra, linhas modernas, um jardim impecável e uma entrada que parecia mais um hotel de luxo do que uma residência. Tudo era limpo, caro e frio.
Exatamente como Dante.
Marta a conduziu pela porta principal.
O interior era ainda mais impressionante: pé-direito alto, piso de mármore claro, obras de arte nas paredes, escadas largas e uma sala com vista para uma piscina infinita.
Mas não havia calor.
Não havia cheiro de comida, risadas, objetos espalhados ou sinais de vida real.
Era uma casa feita para impressionar.
Não para acolher.
— O senhor Alencar está no escritório — disse Marta.
— Eu mesma encontro.
— Senhorita, talvez seja melhor—
Isabela já estava andando.
Não foi difícil achar o escritório. A porta dupla de madeira escura no fim do corredor parecia praticamente anunciar: homem arrogante trabalhando aqui.
Ela bateu uma vez.
Não esperou resposta.
Entrou.
Dante estava atrás de uma mesa enorme, falando ao telefone em inglês. Usava camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços, gravata afrouxada, cabelo impecável como se a noite anterior não tivesse existido.
Ele ergueu os olhos ao vê-la.
Não pareceu surpreso.
Isso a irritou ainda mais.
— Retorno em dez minutos — disse ele ao telefone, encerrando a ligação.
Isabela jogou a pasta sobre a mesa.
— Você só pode estar louco.
Dante olhou para a pasta, depois para ela.
— Bom dia para você também.
— Regras de convivência?
— Necessárias.
— Você colocou no papel que talvez eu precise dividir quarto com você.
— Em eventos específicos.
— Eu não vou dormir no mesmo quarto que você.
— Vai, se for necessário.
— Não.
Dante se recostou na cadeira.
— Você tem o hábito de esquecer que assinou um contrato?
— E você tem o hábito de esquecer que eu sou uma pessoa?
A frase ficou no ar.
Por um instante, Dante não respondeu.
Isabela respirava rápido. Tinha os olhos brilhando de raiva, o rosto corado, a postura firme. Não parecia a mulher desesperada da noite anterior. Parecia alguém prestes a incendiar a casa inteira se fosse preciso.
Dante se levantou devagar.
— Eu não esqueci.
— Parece.
— Pessoas fazem escolhas, Isabela. Você fez a sua.
— Eu fui encurralada.
— Todos somos, em algum momento.
— Não tente transformar sua crueldade em filosofia.
Ele caminhou ao redor da mesa.
— Crueldade seria deixar seu pai perder tudo.
— Crueldade é usar a doença dele para me controlar.
Dante parou.
Algo escureceu nos olhos dele.
— Cuidado.
— Não. Você que tome cuidado. Eu aceitei esse casamento porque amo meu pai. Mas não confunda sacrifício com submissão.
Dante ficou imóvel.
Isabela continuou:
— Eu vou cumprir aparições públicas. Vou usar a droga da aliança. Vou sorrir para câmeras quando for preciso. Mas dentro desta casa, eu exijo limites.
— Que limites?
— Quarto separado. Privacidade. Ninguém entra nos meus espaços sem autorização. Ninguém toca nas minhas coisas. E você não decide minha rotina como se eu fosse parte da mobília.
Dante a observou em silêncio.
Depois, para surpresa dela, perguntou:
— Terminou?
Isabela estreitou os olhos.
— Por enquanto.
Ele caminhou até uma pequena mesa lateral, serviu café em uma xícara e tomou um gole com calma.
A calma dele era ofensiva.
— Quarto separado, concedido — disse.
Isabela piscou.
— Como?
— Você terá uma suíte própria.
Ela desconfiou imediatamente.
— E o resto?
— Privacidade, desde que não comprometa segurança. Seus pertences serão respeitados. Quanto à rotina, você terá liberdade dentro dos limites do contrato.
— Isso não significa nada.
— Significa que você não será prisioneira.
— Poderia ter me enganado.
Dante pousou a xícara.
— Mas não será livre.
O estômago dela se contraiu.
Ali estava ele de novo.
O homem frio.
O homem que dava uma concessão com uma mão e apertava a coleira com a outra.
— Você gosta disso? — ela perguntou baixo.
— Disso o quê?
— De controlar as pessoas.
Ele sustentou seu olhar.
— Gosto de evitar surpresas.
— Então deve odiar viver.
Algo passou pelo rosto dele outra vez. Rápido. Quase invisível.
Mas Isabela viu.
— Surpresas destroem impérios — ele disse.
— Ou salvam vidas.
Dante se aproximou um pouco.
— Você fala como alguém que ainda acredita em finais felizes.
— E você fala como alguém que nunca foi amado direito.
O silêncio mudou.
Pesou.
Por um segundo, Isabela soube que tinha tocado em algo que não devia.
O rosto de Dante ficou completamente fechado.
— Não fale sobre o que não sabe.
A voz dele saiu baixa.
Perigosa.
Isabela deveria ter recuado.
Mas não recuou.
— Então me explique.
— Não devo explicações a você.
— Vai se casar comigo e não me deve explicações?
— Vou assinar um contrato com você.
A diferença que ele fez questão de marcar a atingiu.
— Claro — ela disse, tentando disfarçar a dor com desprezo. — Porque casamento, para você, é só uma assinatura.
— Exatamente.
Isabela caminhou até a porta.
— Então vai ser fácil manter distância.
Antes que ela saísse, Dante falou:
— Hoje à noite haverá um jantar.
Ela parou, ainda de costas.
— Que jantar?
— Minha família precisa conhecer minha futura esposa.
Isabela virou-se lentamente.
— Hoje?
— Às oito.
— Meu pai está no hospital.
— E recebendo atendimento melhor do que qualquer hospital público ou particular poderia oferecer sem a minha intervenção.
— Você quer gratidão?
— Quero pontualidade.
Ela soltou uma risada incrédula.
— Você é inacreditável.
— Marta providenciará o vestido.
— Eu escolho o que vou vestir.
— Não para esse jantar.
Isabela cruzou os braços.
— Por quê?
Dante a olhou de cima a baixo, sem pressa.
Dessa vez, havia algo diferente no olhar dele.
Não era apenas avaliação.
Era incômodo.
Como se a presença dela ali, irritada, orgulhosa e viva demais para aquela casa gelada, mexesse com alguma ordem interna que ele havia passado anos construindo.
— Porque minha família observa tudo — ele disse. — E qualquer fraqueza sua será usada contra você.
A resposta pegou Isabela desprevenida.
Não soou como vaidade.
Soou como aviso.
— Contra mim?
— Contra nós.
A palavra escapou entre os dois.
Nós.
Isabela sentiu um arrepio estranho.
Dante pareceu perceber, porque desviou o olhar primeiro.
— Meu avô é o presidente do conselho. Minha tia controla metade dos acionistas minoritários. Meu irmão trata tudo como brincadeira, mas enxerga mais do que demonstra. E Helena estará presente.
O nome acendeu algo nela.
— Helena?
— Minha ex-noiva.
Isabela riu, indignada.
— Você vai me apresentar para sua família em um jantar com sua ex-noiva presente?
— Ela ainda é próxima da família.
— Que conveniente.
— Isso é um problema?
— Para mim? Não. Para sua encenação ridícula, talvez.
Dante caminhou até ela.
— Helena vai tentar provocá-la.
— E você está me avisando por bondade?
— Estou avisando porque não quero escândalos.
— Fique tranquilo. Eu sei me comportar.
Ele parou diante dela.
— Não duvido. Mas também sei que você tem uma língua afiada quando está com raiva.
— Então pare de me deixar com raiva.
O canto da boca dele quase se moveu.
Quase.
— Às oito — repetiu.
Isabela segurou a maçaneta.
— Eu vou ao jantar.
— Ótimo.
— Mas não para agradar você.
— Não me importa o motivo.
Ela abriu a porta.
— E, Dante?
Ele ergueu o olhar.
— O quê?
— Se sua ex-noiva tentar me humilhar, eu não prometo ser educada.
Pela primeira vez, Dante sorriu.
Foi mínimo.
Frio.
Mas real o bastante para transformar o rosto dele por uma fração de segundo.
— Talvez o jantar seja menos entediante do que eu imaginei.
Isabela saiu antes que ele percebesse que aquele sorriso tinha mexido com ela.
Odiou isso.
Odiou cada parte disso.
À noite, às oito em ponto, Isabela desceu as escadas da mansão usando o vestido que Marta havia separado.
Azul-escuro.
Elegante.
Ajustado ao corpo sem ser vulgar, com alças finas e uma fenda discreta que revelava a perna a cada passo. Os cabelos estavam soltos em ondas suaves, a maquiagem leve realçando os olhos castanhos.
Ela não queria admitir, mas a mulher no espelho parecia poderosa.
Não parecia vendida.
Não parecia derrotada.
Parecia perigosa.
Quando chegou ao último degrau, Dante estava no hall.
Ele vestia um terno preto perfeito.
E olhou para ela.
Não como olhara antes.
Dessa vez, o olhar dele parou.
Subiu lentamente.
Da fenda do vestido ao rosto dela.
Um silêncio denso se formou.
Isabela sentiu o coração acelerar, irritada com a própria reação.
— Algum problema com a roupa? — perguntou.
Dante demorou um segundo a mais do que deveria para responder.
— Nenhum.
— Que bom. Porque eu não trocaria.
Ele se aproximou, oferecendo o braço.
— Sorria esta noite.
Ela olhou para o braço dele, depois para seu rosto.
— Mande menos e talvez eu sorria mais.
— Improvável.
— Então se contente com atuação.
Isabela tocou o braço dele.
A sensação foi imediata.
O tecido caro do terno, o calor firme sob a palma dela, o perfume que já começava a se tornar irritantemente familiar.
Dante também pareceu sentir.
Porque seu maxilar endureceu.
— Lembre-se das regras — ele disse baixo.
Isabela ergueu o rosto.
— Quais? As suas ou as minhas?
Antes que ele respondesse, vozes vieram da sala de jantar.
O primeiro jantar com a família Alencar estava prestes a começar.
E, quando Isabela entrou ao lado de Dante, todos os olhares se voltaram para ela.
Mas nenhum foi tão venenoso quanto o da mulher sentada perto da cabeceira.
Loira. Elegante. Sorriso perfeito.
Helena Vasconcelos ergueu a taça de vinho, olhando diretamente para Isabela.
— Então essa é a noiva?
A voz era doce demais para ser sincera.
Isabela sorriu.
Um sorriso bonito.
Calmo.
Afiado.
— E você deve ser a ex.
A mesa inteira ficou em silêncio.
Dante olhou para Isabela.
E, pela primeira vez desde que a conhecera, pareceu genuinamente surpreso.
Helena apertou a taça com força.
Isabela manteve o sorriso.
Naquela noite, ela entenderia uma coisa importante.
Na casa dos Alencar, ninguém sobrevivia sendo fraco.
E ela já estava cansada de parecer presa fácil.
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CAPÍTULO 4
A NOIVA DE FACHADA
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O silêncio que caiu sobre a mesa foi tão perfeito que Isabela conseguiu ouvir o tilintar discreto dos talheres sendo pousados.
Helena continuou com a taça erguida, mas o sorriso bonito havia endurecido nos cantos. A luz do lustre refletia no vinho tinto, fazendo parecer que ela segurava sangue dentro do cristal.
— Direta — Helena disse, sem baixar o olhar. — Gosto disso.
— Que bom — Isabela respondeu, ainda com o braço apoiado no de Dante. — Eu também prefiro quando as coisas ficam claras desde o começo.
Caio Alencar, sentado do outro lado da mesa, soltou uma risada baixa.
— Acho que finalmente alguém animou os jantares dessa família.
Dante lançou ao irmão um olhar de aviso.
Caio apenas ergueu as mãos, fingindo inocência. Era mais novo que Dante, talvez perto dos vinte e oito, com o mesmo cabelo escuro e os mesmos traços marcantes, mas com uma leveza que Dante parecia ter abandonado em algum lugar da vida. Havia ironia em seus olhos, uma espécie de charme irresponsável que contrastava com a tensão pesada da sala.
Na cabeceira, um homem idoso observava tudo com atenção. Otávio Alencar. Isabela o reconheceu de fotos antigas em jornais econômicos. Patriarca da família, fundador do grupo, dono de uma expressão dura e de olhos que pareciam capazes de atravessar qualquer mentira.
Ao lado dele, Celina Alencar, tia de Dante, segurava os talheres com elegância e analisava Isabela como se estivesse avaliando uma peça em leilão.
Dante, por sua vez, manteve a postura impecável.
— Isabela — ele disse, com voz baixa. — Este é meu avô, Otávio. Minha tia Celina. Meu irmão, Caio. E Helena, que você já identificou.
Isabela sentiu a provocação discreta na última frase, mas não reagiu. Apenas sorriu com educação.
— É um prazer conhecê-los.
— O prazer será decidido com o tempo — Otávio respondeu.
A resposta não foi rude. Foi pior. Foi honesta.
Isabela inclinou levemente a cabeça.
— Justo.
Dante puxou a cadeira para ela.
O gesto foi elegante, quase cavalheiresco. Para quem observasse de fora, pareceria cuidado. Mas Isabela sabia a verdade. Era encenação.
Sentou-se com a coluna reta, enquanto Dante ocupava a cadeira ao seu lado.
— Confesso que fomos surpreendidos — Celina comentou, levando o guardanapo aos lábios. — Dante não costuma tomar decisões pessoais tão… repentinas.
— Talvez por isso tenha demorado tanto para ficar noivo — Caio disse. — O coração dele precisa passar por auditoria antes de aprovar qualquer emoção.
— Caio — Dante advertiu.
— O quê? Estou feliz por você, irmão.
Não parecia.
Ou talvez estivesse feliz apenas por testemunhar Dante desconfortável.
Helena pousou a taça na mesa.
— Eu também fiquei surpresa — disse ela. — Não sabia que você estava envolvido com alguém, Dante.
A forma como ela disse o nome dele foi quase íntima.
Isabela sentiu uma pontada absurda de irritação. Não era ciúme. Não podia ser ciúme. Ela mal conhecia aquele homem e, até onde sabia, detestava cada centímetro da arrogância dele.
Mas Helena dizia o nome de Dante como alguém que ainda acreditava possuir algum direito sobre ele.
E isso a incomodou.
Dante não olhou para Helena.
— Nem tudo precisa ser anunciado antes da hora.
— Claro — ela respondeu. — Alguns romances preferem nascer no silêncio.
Isabela pegou a taça de água.
— Ou longe de plateia.
Helena virou os olhos para ela.
— E vocês se conhecem há quanto tempo?
A pergunta veio suave demais.
Dante respondeu antes que Isabela pudesse abrir a boca.
— Tempo suficiente.
— Que misterioso — Helena murmurou.
— Dante sempre foi misterioso — Celina disse. — Mas casamento é outra coisa. Exige mais do que desejo e impulso.
Isabela quase riu.
Desejo e impulso.
Se soubessem.
Não havia desejo. Não havia impulso. Havia um contrato, uma dívida e a assinatura dela no fim de páginas frias.
Mas, naquela mesa, sua função era fingir.
Então ela respirou fundo e olhou para Dante.
— Concordo. Casamento exige escolha. E eu escolhi estar aqui.
Dante virou o rosto para ela.
Por um instante, seus olhos se encontraram.
Isabela percebeu que ele não esperava aquela resposta. Talvez esperasse resistência, sarcasmo, ironia. Mas não uma fala perfeita para a encenação.
O olhar dele escureceu, como se dissesse: cuidado.
Ela sustentou.
Como se respondesse: eu sei jogar também.
Otávio foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Escolheu por amor?
A pergunta atingiu o centro da mentira.
Isabela sentiu Dante se tensionar ao seu lado.
Podia responder com uma frase pronta. Podia sorrir como uma noiva apaixonada. Podia repetir qualquer coisa que a equipe de comunicação dele aprovaria.
Mas escolheu algo melhor.
— Escolhi porque, quando Dante entrou na minha vida, tudo estava desmoronando. E, de algum modo, ele me obrigou a enxergar que algumas decisões não esperam a gente estar pronta.
Era verdade.
Não a verdade que eles imaginavam, mas ainda assim verdade.
Dante a olhou por um segundo longo demais.
— E você, Dante? — Otávio perguntou. — Escolheu por amor?
O ar mudou.
Todos na mesa perceberam.
Dante não era o tipo de homem que ficava desconfortável. Mas havia algo naquela pergunta que parecia atravessar sua armadura.
Ele pousou o copo devagar.
— Escolhi porque Isabela é a única mulher que não tentou me agradar desde o primeiro minuto.
Caio ergueu as sobrancelhas.
— Isso é quase romântico.
— Para Dante, é uma declaração de amor — Celina murmurou.
Isabela deveria ter se sentido ofendida. Talvez tivesse sido mesmo um insulto disfarçado. Mas, por algum motivo, a frase a atingiu de outro jeito.
A única mulher que não tentou me agradar.
Ela desviou o olhar.
Helena percebeu.
E sorriu.
— Que curioso — disse a ex-noiva. — Porque, até onde eu sabia, a família Monteiro estava enfrentando algumas dificuldades. Não imaginei que houvesse espaço para um romance no meio de tantos problemas.
A lâmina veio escondida em veludo.
Isabela sentiu o estômago contrair.
Dante endureceu.
— Helena — ele disse, a voz baixa.
— O quê? Apenas comentei. A imprensa já fala tanto, não é? Melhor que tudo seja transparente em família.
Isabela respirou devagar.
Era isso. A primeira tentativa de humilhação. Helena não precisou chamá-la de comprada. Não precisou dizer contrato. Bastou tocar na ruína de sua família diante de todos.
Celina olhou para Isabela com novo interesse.
Otávio permaneceu imóvel.
Caio perdeu o sorriso.
Dante abriu a boca, mas Isabela falou primeiro.
— Minha família enfrentou problemas, sim.
A mesa ficou ainda mais silenciosa.
Ela pousou a taça com cuidado.
— Não tenho vergonha disso. Vergonha seria fingir que dinheiro protege alguém de fracassar. Pelo que sei, até grandes impérios já precisaram ser salvos em algum momento.
Os olhos de Otávio brilharam.
Helena apertou os lábios.
Isabela continuou, agora olhando diretamente para ela.
— A diferença é que algumas pessoas levantam depois da queda. Outras passam a vida tentando empurrar alguém para baixo para se sentirem mais altas.
Caio tossiu para esconder uma risada.
Celina baixou o olhar para o prato.
Dante ficou absolutamente imóvel ao lado dela.
Helena sorriu, mas seus olhos tinham perdido a doçura.
— Você é espirituosa, Isabela.
— E você é observadora.
— Muito.
— Então vai observar rápido que eu não sou fácil de constranger.
Dessa vez, foi Dante quem tocou o braço dela por baixo da mesa.
O contato durou apenas um segundo.
Um aviso.
Mas a mão dele estava quente.
Isabela sentiu o toque como uma faísca irritante sobre a pele.
Retirou o braço discretamente.
O jantar continuou com uma tensão elegante. O tipo de tensão que famílias ricas pareciam saber sustentar entre garfadas de comida cara e comentários polidos. Falaram sobre negócios, sobre um evento beneficente que aconteceria no fim da semana, sobre a necessidade de anunciar o noivado oficialmente.
Isabela respondeu quando precisava. Sorriu quando era conveniente. Observou mais do que falou.
Percebeu que Celina media cada palavra. Que Otávio parecia não acreditar em nada, mas se divertia quando alguém tinha coragem. Que Caio escondia inteligência atrás do deboche. Que Helena era mais perigosa calada do que falando.
E que Dante, apesar da frieza, acompanhava todos os movimentos dela.
Sempre.
Como se esperasse uma falha.
Ou como se estivesse surpreso por ela ainda não ter cometido nenhuma.
Quando o jantar terminou, Dante conduziu Isabela até o jardim externo. A noite estava fria, e as luzes embutidas no chão iluminavam as árvores de forma teatral.
Assim que ficaram sozinhos, ele soltou o braço dela.
— Você gosta de correr riscos?
Isabela cruzou os braços.
— Você gosta de deixar sua ex-noiva me atacar em família?
— Eu ia interromper.
— Depois que ela terminasse de me cortar em pedaços?
— Você não pareceu precisar de ajuda.
— Porque eu não preciso.
Dante deu um passo na direção dela.
— Precisa, sim. Só ainda não entendeu.
— Da sua ajuda?
— Da minha proteção.
Isabela riu, baixa.
— Você tem uma ideia muito estranha de proteção.
— Helena não vai parar.
— Ótimo. Eu também não.
Dante a encarou com aquele olhar escuro e indecifrável.
— Você acha que isso é uma disputa de orgulho. Não é.
— Então é o quê?
— Sobrevivência.
A palavra veio pesada.
Isabela perdeu parte da ironia.
— O que ela quer?
— O que perdeu.
— Você?
— O nome Alencar.
A resposta deveria aliviar alguma coisa. Não aliviou.
— E você? — Isabela perguntou. — O que quer de mim além do contrato?
Dante ficou em silêncio.
Por tempo demais.
O vento moveu uma mecha do cabelo dela, e ele olhou para o movimento antes de voltar aos seus olhos.
— Quero que cumpra seu papel.
— Só isso?
— Só.
A palavra saiu firme demais.
Como se ele precisasse convencer a si mesmo.
Isabela se aproximou um passo.
— Então pare de olhar para mim como se eu fosse um problema que você ainda não sabe resolver.
O maxilar dele travou.
— Você é um problema.
— E você é um homem acostumado demais com soluções compradas.
Dante inclinou o rosto.
— Cuidado, Isabela.
Ela sentiu o arrepio antes de conseguir impedir.
— Você sempre diz isso quando não sabe o que responder?
Os olhos dele desceram por um segundo até sua boca.
Foi rápido.
Quase nada.
Mas Isabela viu.
E o ar entre os dois mudou.
O coração dela bateu mais forte, traindo-a.
Dante percebeu.
Claro que percebeu.
Ele deu um passo para trás primeiro.
— Amanhã anunciaremos o noivado.
Isabela demorou um segundo para recuperar a voz.
— Tão rápido?
— Já está tudo preparado.
— Você preparou antes de eu aceitar?
— Eu disse que sabia que você aceitaria.
A raiva voltou, salvando-a do desconforto.
— Você é insuportável.
— E você tem um jantar beneficente na sexta.
— Mais uma ordem?
— Um compromisso.
— Com sua ex-noiva presente?
— Provavelmente.
Isabela sorriu sem humor.
— Que maravilha. Minha vida virou um teatro com vilã fixa.
— Então aprenda a atuar melhor do que ela.
Dante passou por ela em direção à porta.
Antes de entrar, parou e olhou por cima do ombro.
— Hoje você foi bem.
Isabela ficou imóvel.
A frase não deveria significar nada.
Mas, vindo dele, pareceu quase um elogio.
— Não fiz por você — ela respondeu.
— Eu sei.
Ele entrou.
Isabela ficou no jardim, sentindo o frio da noite contra a pele e o calor estranho do toque dele ainda marcado em seu braço.
Ela olhou para as janelas enormes da mansão.
Por trás do vidro, a família Alencar parecia intocável.
Mas agora ela sabia.
Havia rachaduras.
Segredos.
Feridas antigas.
E, por algum motivo, ela estava bem no meio de todas elas.
Naquela noite, antes de dormir na suíte que Marta havia preparado, Isabela encontrou uma pequena caixa sobre a penteadeira.
Dentro, havia uma aliança.
O diamante era discreto, elegante, impossível de ignorar.
Ao lado, um cartão.
Use amanhã. Não tire em público.
Sem assinatura.
Não precisava.
Isabela pegou a aliança e a observou sob a luz.
Era linda.
E parecia uma algema.
Mesmo assim, colocou no dedo.
Não porque Dante mandou.
Mas porque, no dia seguinte, o mundo inteiro começaria a acreditar naquela mentira.
E Isabela decidiu que, se teria que ser a noiva de fachada de Dante Alencar, ninguém a veria pequena.
Muito menos Helena.
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CAPÍTULO 5
A PRIMEIRA HUMILHAÇÃO PÚBLICA
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A notícia explodiu antes das nove da manhã.
Isabela soube porque seu celular começou a vibrar sem parar ainda na cama. Mensagens de colegas antigas, parentes distantes, conhecidos que nunca haviam demonstrado tanto interesse em sua existência.
“É verdade?”
“Você vai casar com Dante Alencar?”
“Menina, que reviravolta!”
“Você está em todos os sites!”
Ela abriu uma das notícias com os dedos frios.
A manchete ocupava a tela.
DANTE ALENCAR ANUNCIA NOIVADO SURPRESA COM ISABELA MONTEIRO, HERDEIRA DE TRADICIONAL FAMÍLIA EMPRESÁRIA.
A foto usada era antiga, tirada anos antes em algum evento da empresa do pai. Isabela sorria ao lado de Ricardo, usando um vestido simples e o cabelo preso. Ao lado, uma imagem de Dante saindo de um prédio comercial, óculos escuros, terno impecável, expressão indecifrável.
A montagem parecia vender um conto de fadas corporativo.
Herdeira tradicional.
Bilionário reservado.
Noivado surpresa.
Mentiras embaladas com palavras bonitas.
Isabela largou o celular sobre a cama e cobriu o rosto com as mãos.
— Bom dia.
Ela se assustou e olhou para a porta.
Marta estava parada ali, segurando uma bandeja com café.
— Desculpe. Bati, mas a senhorita não respondeu.
Isabela respirou fundo.
— Tudo bem.
Não estava.
Marta entrou e pousou a bandeja sobre uma mesinha.
— O senhor Alencar pediu que a senhorita esteja pronta ao meio-dia. Haverá uma reunião com a equipe de imagem.
— Equipe de imagem — Isabela repetiu, sentando-se na cama. — Claro. Porque até minha respiração precisa ser aprovada.
Marta não sorriu, mas seus olhos suavizaram.
— O começo costuma ser a parte mais difícil.
Isabela olhou para ela.
— Você fala como alguém que já viu isso acontecer antes.
Marta baixou os olhos por um segundo.
— Eu trabalho para a família Alencar há muitos anos.
— Então deve saber por que Dante odeia minha família.
O rosto de Marta se fechou.
Foi sutil.
Mas Isabela percebeu.
— Esse não é um assunto que me cabe.
— Mas existe um assunto.
— Senhorita…
— Todo mundo reage assim quando eu pergunto. Meu pai, você, Dante. Isso só me faz querer saber mais.
Marta suspirou.
— Algumas verdades, quando chegam cedo demais, machucam mais do que esclarecem.
— E algumas mentiras destroem porque ninguém teve coragem de contar antes.
As duas se encararam.
Marta foi a primeira a desviar.
— Seu café vai esfriar.
Isabela entendeu que não arrancaria nada dali.
Ao meio-dia, estava sentada em uma sala da mansão com duas mulheres da equipe de comunicação, um stylist e Dante.
Ele parecia impecável, como sempre. Terno cinza, expressão fria, atenção dividida entre os papéis da reunião e a tela do celular.
Isabela usava a aliança.
Sentia o peso dela a cada movimento da mão.
— A narrativa será simples — explicou uma das assessoras, Paula. — Vocês se reaproximaram em um evento privado há alguns meses. A relação cresceu longe da mídia. O noivado foi uma decisão íntima, mas agora inevitável de anunciar devido aos compromissos públicos do senhor Alencar.
Isabela ergueu a mão.
— “Reaproximaram” implica que nós nos conhecíamos.
Paula sorriu profissionalmente.
— É melhor do que dizer que se conheceram ontem.
Caio, sentado no sofá lateral sem ter sido convidado, riu.
— Ponto para a comunicação.
Dante nem olhou para ele.
— Caio, você não deveria estar aqui.
— Vim apoiar o casal.
— Você veio se divertir.
— Também.
Isabela quase sorriu.
Quase.
Paula continuou:
— Hoje à noite vocês farão a primeira aparição pública no coquetel da Fundação Alencar. Haverá imprensa. Poucas perguntas. Fotos na chegada. Um breve discurso do senhor Alencar.
— E eu? — Isabela perguntou.
— Você sorri.
A resposta veio simples demais.
Isabela sentiu a velha raiva subir.
— É só isso que esperam de mim?
Dante levantou os olhos.
— Hoje, sim.
— Que conveniente.
— Hoje não é sobre provar inteligência, Isabela. É sobre evitar ruído.
— Ruído é o nome elegante para minha opinião?
— É o nome elegante para qualquer coisa que possa virar manchete.
Ela se levantou.
— Então talvez devessem ter contratado uma atriz.
Dante também se levantou.
A sala percebeu a tensão e ficou imóvel.
— Eu escolhi você.
— Não me lembro de ter me candidatado.
— Mas assinou.
Caio murmurou:
— Essa parte vocês repetem bastante. Já virou voto de casamento?
Dante lançou ao irmão um olhar mortal.
Isabela respirou fundo. Não podia explodir. Não ali. Não com quatro pessoas assistindo.
Sentou-se novamente.
— Tudo bem. Eu sorrio.
Dante sustentou seu olhar, desconfiado da rendição fácil.
Isabela sorriu para ele.
Doce.
Falso.
Perfeito.
— Viu? Sou ótima nisso.
A equipe se ocupou com roupas, horários e instruções. Isabela ouviu tudo com atenção, mesmo quando fingia desinteresse. Sabia que o evento daquela noite seria a primeira prova real.
E Helena estaria lá.
Ela apareceu antes mesmo da imprensa.
Quando Isabela chegou ao coquetel ao lado de Dante, usando um vestido champagne elegante e discreto, Helena já estava no salão, conversando com Celina. Parecia saída de uma revista: vestido preto, joias pequenas, cabelos loiros presos com perfeição.
Ao ver Isabela, sorriu.
— Noiva linda — disse, aproximando-se. — Dante sempre teve bom gosto.
Isabela sorriu de volta.
— Então fico aliviada por ele ter melhorado depois de você.
A taça de Caio quase escapou de sua mão.
Dante colocou a mão na parte baixa das costas de Isabela.
O gesto parecia íntimo.
Mas os dedos dele pressionaram de leve.
Aviso.
Ela manteve o sorriso.
Helena também.
— Espero que esteja preparada para a exposição — a ex-noiva disse. — A imprensa pode ser cruel quando encontra rachaduras.
— Então é melhor você tomar cuidado — Isabela respondeu. — Parece conhecer bem o assunto.
Dante inclinou-se próximo ao ouvido dela.
— Controle-se.
A voz baixa dele deslizou pela pele de Isabela de um jeito que a irritou mais do que a ordem.
— Controle sua convidada — ela murmurou sem virar o rosto.
Ele não respondeu.
Câmeras começaram a piscar quando o casal entrou no tapete discreto montado na lateral do salão.
Isabela sentiu o braço de Dante envolver sua cintura.
Seu corpo reagiu antes da mente.
Tensionou.
— Relaxe — ele disse entre os dentes, sorrindo para os fotógrafos.
— Fácil para você dizer. Não é você que foi vendido como romance nacional da noite para o dia.
— Sorria.
— Estou sorrindo.
— Parece que quer matar alguém.
— Talvez porque eu queira.
O canto da boca dele se moveu.
A câmera capturou o instante exato.
No dia seguinte, pareceria cumplicidade.
Naquele momento, era guerra.
Os jornalistas fizeram perguntas rápidas.
— Dante, quando será o casamento?
— Isabela, como foi ser pedida em casamento por um dos homens mais disputados do país?
— Vocês pretendem ter filhos?
A última pergunta fez Isabela quase engasgar.
Dante respondeu com frieza elegante.
— Vamos viver uma etapa por vez.
Helena observava à distância.
E então aconteceu.
Uma jornalista de cabelo curto se aproximou, segurando o microfone com firmeza.
— Isabela, há comentários de que a empresa da sua família estava em situação financeira delicada antes do anúncio do noivado. Algumas pessoas estão sugerindo que a união teria motivações econômicas. O que você responde?
O salão pareceu diminuir.
Isabela sentiu a mão de Dante se firmar em sua cintura.
Agora sim, pensou. A primeira humilhação pública.
A pergunta não havia surgido do nada.
Helena estava imóvel, com um sorriso quase invisível.
Dante abriu a boca para responder, mas Isabela tocou a mão dele.
Pela primeira vez, ela pediu silêncio.
E ele concedeu.
Isabela olhou para a jornalista.
Seu coração batia rápido, mas sua voz saiu estável.
— Eu responderia que pessoas adoram reduzir mulheres a interesses. Se uma mulher se casa com um homem simples, dizem que falta ambição. Se se casa com um homem poderoso, dizem que foi comprada. No fim, sempre encontram uma forma de tirar dela o direito de escolher.
Os flashes aumentaram.
A jornalista tentou interromper, mas Isabela continuou:
— Minha família, como muitas empresas, enfrentou dificuldades. Isso não é segredo nem vergonha. Mas meu relacionamento com Dante não precisa ser explicado por quem prefere acreditar que uma mulher só entra em uma sala se alguém abriu a porta por dinheiro.
Dante virou o rosto para ela.
Isabela sentiu o olhar dele, mas não o encarou.
— Eu estou aqui porque escolhi estar. E quem se incomodar com isso talvez precise perguntar por que a minha presença causa tanto desconforto.
Silêncio.
Então os flashes explodiram.
Dante aproximou-se dela, pousando um beijo leve em sua têmpora.
Isabela congelou.
Para as câmeras, o gesto foi protetor.
Para ela, foi inesperado demais.
A boca dele tocou sua pele por menos de um segundo, mas deixou um calor absurdo ali.
— Excelente — ele murmurou, baixo o suficiente para só ela ouvir.
Ela virou o rosto lentamente.
— Não fiz por você.
— Eu sei.
Mas havia algo diferente na voz dele.
Não orgulho. Não exatamente.
Reconhecimento.
A noite seguiu, mas a tensão tinha mudado. Pessoas se aproximavam de Isabela agora com curiosidade respeitosa. Celina a observava como se revisasse uma primeira impressão. Otávio, de longe, ergueu a taça para ela em um gesto discreto.
Helena, por outro lado, parecia mais fria.
No fim do evento, quando Isabela foi ao banheiro para respirar longe das câmeras, Helena a seguiu.
— Belo discurso — disse a ex-noiva, entrando atrás dela.
Isabela olhou pelo espelho.
— Obrigada.
— Quase convincente.
— Quase é melhor do que o seu sorriso.
Helena riu.
Dessa vez, sem doçura.
— Você acha que venceu alguma coisa hoje?
Isabela virou-se.
— Não sabia que estávamos competindo.
— Estamos desde o momento em que você colocou essa aliança.
Helena olhou para o dedo dela.
— Aproveite enquanto brilha. Dante se cansa rápido das coisas que compra.
A frase atingiu.
Isabela odiou o pequeno golpe de dor.
— Você fala por experiência?
Os olhos de Helena se estreitaram.
— Eu conheço Dante melhor do que você jamais conhecerá.
— Então sabe que ele não gosta de cenas. Melhor voltar para o salão antes que ele perceba seu desespero.
Helena se aproximou.
— Você não faz ideia de onde se meteu, garotinha.
— Engraçado. Todo mundo me diz isso, mas ninguém explica.
Helena sorriu.
— Pergunte ao seu pai o que ele fez com a família Alencar. Talvez então entenda por que Dante escolheu justamente você.
O sangue de Isabela gelou.
— O que isso significa?
Helena caminhou até a porta.
— Significa que você não é uma noiva, Isabela. É vingança com vestido bonito.
E saiu.
Isabela ficou parada diante do espelho.
Por alguns segundos, não conseguiu respirar direito.
Vingança.
A palavra se encaixou com tudo: o ódio silencioso, o contrato, o desprezo, a pressa, o passado que todos evitavam.
Quando voltou ao salão, Dante percebeu imediatamente que algo havia mudado.
Ele se aproximou.
— O que aconteceu?
Isabela olhou para ele.
O homem que a beijara na têmpora diante das câmeras. O homem que pagara as dívidas da família. O homem que talvez tivesse escolhido destruir sua vida não por necessidade, mas por acerto de contas.
— Nada — ela respondeu.
Dante estreitou os olhos.
— Isabela.
— Estou cansada. Quero ir embora.
Ele a observou por um instante, desconfiado. Depois assentiu.
No carro, o silêncio entre eles foi quase insuportável.
Dante olhava para a frente. Isabela encarava a cidade pela janela.
A palavra continuava batendo dentro dela.
Vingança.
Ao chegarem à mansão, ela saiu do carro antes que o motorista abrisse a porta.
Dante a seguiu até o hall.
— Pare.
Ela parou, mas não se virou.
— Quem foi?
Isabela riu baixo.
— Sempre tão controlador.
— Quem falou com você?
Ela virou-se então.
— Por que me escolheu, Dante?
Ele ficou imóvel.
— Já respondi isso.
— Responda de novo.
O rosto dele fechou.
— Não esta noite.
— Foi por causa do meu pai?
O silêncio dele foi resposta.
Isabela sentiu a dor atravessar o peito.
— Então é verdade.
Dante deu um passo.
— O que Helena disse?
— O suficiente.
Os olhos dele escureceram de raiva.
Não contra ela.
Contra Helena.
Mas Isabela estava cansada demais para diferenciar.
— Você me escolheu para puni-lo? — perguntou. — Para punir minha família?
— Isabela—
— Eu sou vingança com vestido bonito?
A frase atingiu Dante como um golpe.
Pela primeira vez, ela viu algo rachando nele.
Mas ele não respondeu.
E o silêncio foi pior do que uma confissão.
Isabela recuou.
— Entendi.
— Você não entendeu nada.
— Então explique!
A voz dela ecoou no hall.
Dante ficou parado, os punhos cerrados.
— Não.
Isabela sentiu os olhos arderem.
— Claro. Porque homens como você preferem destruir a contar a verdade.
Ela subiu as escadas sem esperar resposta.
Dante não a seguiu.
Mas, naquela noite, Isabela trancou a porta da suíte e tirou a aliança pela primeira vez.
Colocou-a sobre a penteadeira.
E encarou o diamante como quem encara uma mentira.
Do outro lado da casa, Dante permaneceu no escritório até tarde, olhando para uma foto antiga escondida dentro da gaveta.
Na imagem, dois homens apertavam as mãos diante da antiga sede do Grupo Alencar.
Um era Ricardo Monteiro.
O outro, seu pai.
Dante fechou a gaveta com força.
A vingança deveria ser simples.
Mas nada em Isabela estava sendo simples.
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CAPÍTULO 6
DORMINDO SOB O MESMO TETO
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Isabela acordou com batidas na porta.
Três toques leves.
Educados.
Insistentes.
Ela abriu os olhos lentamente, sentindo o peso da noite anterior ainda grudado no corpo. Por um segundo, esqueceu onde estava. Procurou as paredes claras do quarto de sua casa, o som distante da rua, o cheiro familiar dos livros e do perfume antigo da mãe.
Mas viu apenas a suíte ampla da mansão Alencar.
Cortinas pesadas.
Móveis impecáveis.
Silêncio caro.
E a aliança sobre a penteadeira, brilhando como acusação.
As batidas se repetiram.
— Senhorita Monteiro? — chamou Marta do outro lado. — O café será servido em quinze minutos.
Isabela fechou os olhos.
Não queria café.
Não queria mansão.
Não queria noivado falso, imprensa, ex-noiva venenosa ou um homem frio escondendo segredos atrás de ternos caros.
Queria o pai bem.
Queria sua vida de volta.
Queria entender o que Ricardo havia feito para merecer tanto ódio.
— Já vou — respondeu, com a voz rouca.
Levantou-se e caminhou até a penteadeira.
A aliança continuava ali.
Por alguns segundos, pensou em deixá-la.
Mas lembrava das regras. Não tire em público.
Aquela casa inteira parecia público. Funcionários, câmeras, olhos discretos. Talvez até paredes fossem capazes de relatar seus movimentos a Dante.
Colocou a aliança no dedo com raiva.
No espelho, a mulher que a encarava parecia cansada, mas não quebrada.
Ainda não.
Desceu para o café vestindo calça de alfaiataria e uma blusa clara. Encontrou Dante já sentado à mesa, lendo algo em um tablet. Havia café, frutas, pães artesanais e uma organização tão perfeita que até a manteiga parecia alinhada por ordem militar.
Ele ergueu os olhos quando ela entrou.
O olhar desceu rapidamente até a mão dela.
Viu a aliança.
Só então voltou ao rosto.
— Dormiu bem?
Isabela puxou a cadeira.
— Você se importa?
— Pergunta social.
— Então não.
Dante colocou o tablet de lado.
— Marta disse que você trancou a porta.
— Sua equipe informa até isso?
— Minha casa tem protocolos de segurança.
— Eu chamo de vigilância.
— Chame como quiser. A porta da sua suíte pode permanecer trancada.
— Que alívio. Uma liberdade concedida pelo meu carcereiro.
Ele manteve a calma.
— Você pretende transformar cada conversa em ataque?
Isabela pegou a xícara de café.
— Pretendo fazer perguntas até você responder.
— Então teremos manhãs longas.
Ela encarou Dante sobre a borda da xícara.
— Por que odeia meu pai?
A pergunta caiu limpa entre os dois.
Dante não reagiu de imediato.
Apenas a olhou.
— Não é assunto para o café.
— Qual é o horário adequado para descobrir se fui usada como instrumento de vingança?
O maxilar dele endureceu.
— Helena não deveria ter falado com você.
— Mas falou. E você continua não negando.
Dante se levantou, caminhou até a janela e ficou de costas para ela.
A luz da manhã desenhava sua silhueta de forma quase cruel. Ele parecia intocável até quando fugia de uma resposta.
— Seu pai e o meu foram sócios — disse ele enfim.
Isabela ficou imóvel.
Era mais do que qualquer um havia dito até então.
— Sócios?
— Há vinte anos.
— Meu pai nunca falou disso.
— Imagino que não.
— O que aconteceu?
Dante virou-se.
Os olhos dele estavam frios, mas havia algo por baixo. Uma raiva antiga, comprimida por anos.
— O tipo de coisa que destrói uma família.
Isabela sentiu a garganta secar.
— Dante…
— Não hoje.
— Você não pode jogar metade de uma verdade e depois se esconder atrás de silêncio.
— Posso.
— Não comigo.
Ele se aproximou da mesa.
— Principalmente com você.
A frase doeu.
Isabela se levantou também.
— Então Helena estava certa. Você me escolheu por causa dele.
Dante permaneceu em silêncio.
— Responde.
— Eu escolhi você porque precisava de uma esposa com o perfil certo.
— Mentira.
— Cuidado.
— Para de falar cuidado como se eu fosse obedecer só porque você baixou a voz.
Dante se aproximou rápido o bastante para fazê-la prender a respiração, mas parou antes de invadir demais o espaço dela.
— Você quer uma verdade? Ótimo. Sua família está ligada à pior fase da minha vida. Eu deveria manter distância de qualquer Monteiro. Mas aqui estamos.
— Porque você me comprou.
— Porque você aceitou.
A repetição cortou fundo.
Isabela sentiu os olhos arderem.
— Um dia você vai cansar de usar minha necessidade contra mim.
— Talvez. Mas até lá, lembre-se de que eu também coloquei meu nome em risco por você.
Ela riu, amarga.
— Por mim? Ou pelo prazer de ver meu pai devendo até a sua gratidão?
Dante ficou absolutamente imóvel.
A resposta havia acertado.
Marta apareceu na porta antes que a discussão continuasse.
— Senhor Alencar, o senhor Otávio chegou.
Dante respirou fundo, recompondo-se com uma rapidez assustadora.
— Leve-o ao escritório.
Marta saiu.
Isabela pegou a bolsa.
— Vou ao hospital.
— Augusto a levará.
— Eu posso ir sozinha.
— Não enquanto houver imprensa na porta.
Ela parou.
— Imprensa?
— Desde cedo.
Isabela caminhou até uma janela lateral.
Lá fora, perto dos portões do condomínio, dois carros estavam parados. Homens com câmeras conversavam com seguranças.
Seu estômago afundou.
— Isso não vai acabar, vai?
— Não tão cedo.
A dimensão da prisão ganhou novas paredes.
Não era apenas a mansão. Era o mundo lá fora, faminto por fotos, por rumores, por uma história que não existia.
Dante aproximou-se, ficando ao lado dela.
— Você será acompanhada por segurança quando sair.
— O que acontece se eu disser não?
— Eles acompanham de longe.
Isabela virou o rosto para ele.
— Você é impossível.
— Sou prático.
— É a palavra que usa para não dizer autoritário?
— Entre outras.
Ela odiou o quase humor na voz dele.
Odiou porque, por uma fração de segundo, sua raiva quase vacilou.
No hospital, Ricardo pareceu melhor. A equipe médica particular realmente havia sido organizada. Um cardiologista falava com a enfermeira. O quarto era mais confortável. Havia flores novas sobre a mesa.
Isabela sabia quem tinha providenciado tudo.
E odiava sentir alívio por causa dele.
O pai sorriu quando a viu.
— Você está linda.
— Estou usando roupas escolhidas por uma equipe que acha que minha opinião é um risco de imagem.
Ricardo soltou uma risada fraca.
— Ainda com humor. Bom sinal.
Ela sentou-se ao lado dele e segurou sua mão.
O sorriso desapareceu.
— Pai, Dante me disse que você e o pai dele foram sócios.
Ricardo fechou os olhos.
— Então ele começou a falar.
— Não. Ele começou a sangrar uma ferida e depois fechou a porta na minha cara. Eu quero ouvir de você.
— Isabela, isso é passado.
— Meu presente está sendo destruído por causa desse passado.
Ele abriu os olhos.
A culpa estava ali. Nítida.
— Eu cometi erros.
— Que erros?
— Confiei nas pessoas erradas.
— Isso não é resposta.
Ricardo olhou para a janela.
— O pai de Dante, Henrique Alencar, era meu amigo. Mais que amigo. Era como um irmão.
Isabela sentiu o peito apertar.
— E o que aconteceu?
— Houve uma negociação. Um investimento alto. Documentos foram alterados. Dinheiro desapareceu. Henrique foi acusado de fraude.
— Por sua causa?
Ricardo engoliu em seco.
— Meu nome estava nos documentos.
— Pai…
— Eu juro que não roubei nada. Mas eu assinei papéis que não deveria ter assinado. Fui ingênuo. Covarde. Quando percebi, já era tarde.
Isabela sentiu o quarto girar.
— O que aconteceu com Henrique?
Ricardo fechou os olhos.
— Ele perdeu o cargo. Parte do patrimônio. A confiança do pai. E, pouco depois, morreu em um acidente.
A mão de Isabela ficou gelada.
— Dante culpa você.
— Dante era jovem. Viu o pai ser destruído e depois enterrado. Para ele, eu fui o homem que assinou a sentença.
— E você foi?
Ricardo olhou para a filha.
Havia lágrimas nos olhos dele.
— Eu não sei mais onde termina minha culpa e começa minha omissão.
Isabela não soube o que dizer.
A raiva contra Dante se misturou a algo pior: compreensão.
Não perdão.
Mas compreensão.
Se alguém destruísse Ricardo, ela talvez também passasse a vida odiando.
Quando voltou à mansão no fim da tarde, encontrou a casa em preparação para algo. Funcionários carregavam arranjos, ajustavam iluminação, organizavam a sala principal.
— O que é isso? — perguntou a Marta.
— Jantar de conselho. Pequeno. O senhor Otávio insistiu.
Isabela respirou fundo.
— Pequeno na família Alencar significa quantas pessoas?
— Dezoito.
Ela quase riu.
— Claro.
Subiu para trocar de roupa, mas encontrou sua suíte ocupada por duas mulheres organizando vestidos.
— Não — disse imediatamente. — Hoje, não.
Marta surgiu atrás dela.
— Senhorita, o senhor Alencar pediu—
— O senhor Alencar pede demais.
Virou-se para sair, mas deu de frente com Dante no corredor.
— Algum problema?
— Sim. Sua casa. Suas regras. Seus eventos. Sua ex-noiva. Sua família. Seu passado. Tudo é um problema.
Ele olhou para Marta.
— Deixe-nos.
A governanta e as mulheres saíram rapidamente.
Isabela entrou na suíte, e Dante a seguiu até a porta. Ficou no limite, sem cruzar.
Pela primeira vez, respeitou o espaço dela.
— Falei com seu médico — ele disse.
— Meu médico?
— Do seu pai.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Dante.
— Ele terá alta em alguns dias, se continuar estável.
Isabela sentiu o peito aliviar contra a própria vontade.
— Obrigada — disse, quase sem voz.
Dante pareceu não esperar aquilo.
— Não precisa agradecer.
— Eu sei. Mas agradeço mesmo assim.
O silêncio entre eles mudou.
Menos guerra. Mais algo que nenhum dos dois queria nomear.
Isabela olhou para ele.
— Meu pai me contou.
A expressão de Dante fechou imediatamente.
— Contou o quê?
— Sobre Henrique. Sobre a sociedade. Sobre os documentos.
O rosto dele ficou duro como pedra.
— Então contou a versão conveniente.
— Ele disse que errou.
— Errar é esquecer uma reunião. Assinar papéis que destroem um homem é outra coisa.
A dor na voz dele apareceu antes que pudesse ser escondida.
Isabela deu um passo.
— Eu sinto muito pelo seu pai.
Dante riu baixo, sem humor.
— Não use pena comigo.
— Não é pena.
— Então o quê?
— Eu não sei.
Ele sustentou o olhar dela.
Por um momento, parecia prestes a dizer algo. A abrir a porta. A deixar escapar uma parte do homem que existia por trás do CEO.
Mas então voltou a ser Dante Alencar.
— Vista-se. O jantar começa às oito.
Isabela sentiu a porta se fechar de novo, mesmo sem ele se mover.
— Você sempre foge quando alguém chega perto?
Os olhos dele escureceram.
— Você não chegou perto.
— Não?
— Não.
Mas a voz dele dizia outra coisa.
Dante se afastou.
Naquela noite, depois de mais um jantar cercado por olhares e conversas calculadas, Isabela subiu exausta. Tirou os sapatos no corredor, segurando-os em uma mão, e caminhou até sua suíte.
Parou diante da porta.
Havia um homem parado ali.
Um segurança.
— Boa noite, senhora — ele disse.
Senhora.
A palavra soou absurda.
— O que faz aqui?
— Ordem do senhor Alencar. Haverá vigilância no corredor esta noite devido à presença de convidados na casa.
Isabela virou-se, furiosa, e atravessou o corredor até o quarto de Dante.
Bateu uma vez.
Ele abriu de camisa social aberta no colarinho, sem paletó, expressão cansada.
— O que foi agora?
— Tem um segurança na minha porta.
— Sim.
— Eu pedi privacidade.
— E tem. Ele fica do lado de fora.
— Você é inacreditável.
Ela entrou no quarto dele sem pedir licença.
Dante fechou a porta devagar.
O quarto dele era imenso, escuro, masculino, com vista para o jardim. Diferente da suíte dela, aquele espaço tinha algo de pessoal: livros, uma garrafa de uísque, uma foto virada para baixo sobre a mesa.
Isabela apontou para a porta.
— Mande ele sair.
— Não.
— Dante.
— Há pessoas na casa que não confio.
— Então não as convide.
— Algumas compartilham meu sangue.
— Problema seu.
— Agora é seu também.
A frase a fez parar.
Dante percebeu.
— Você carrega meu nome diante deles.
— De fachada.
— Fachada ou não, qualquer ataque a você será usado contra mim.
— Então é isso. Não é proteção. É reputação.
Ele se aproximou.
— Se fosse apenas reputação, eu teria deixado Helena acabar com você ontem.
Isabela perdeu a resposta.
O silêncio ficou denso.
Ela deveria sair.
Mas não saiu.
Dante estava perto demais. Sem o terno, parecia menos inacessível e mais perigoso. A camisa branca aberta no colarinho revelava um pedaço de pele, o relógio no pulso, os antebraços fortes.
Isabela odiou notar.
— Mande o segurança para o fim do corredor — ela disse, mais baixo. — Não na minha porta.
Dante a observou.
— Concedido.
Ela piscou.
— Você está aceitando?
— Estou escolhendo minhas batalhas.
— Que sábio.
— Não abuse.
Isabela caminhou até a porta.
Antes de sair, viu a foto virada sobre a mesa.
— É ele? — perguntou.
Dante não precisou perguntar quem.
O rosto dele fechou.
— Boa noite, Isabela.
Ela entendeu o limite.
Abriu a porta e saiu.
Mais tarde, deitada em sua suíte, Isabela não conseguiu dormir.
A mansão estava silenciosa demais. Pela primeira vez, percebeu o peso de dormir sob o mesmo teto que Dante Alencar. Não no mesmo quarto. Não na mesma cama. Mas na mesma casa. Separados por paredes, segredos e uma atração indesejada que começava a respirar nos espaços entre as brigas.
Quando finalmente apagou a luz, o celular vibrou.
Uma mensagem dele.
O segurança ficará no fim do corredor. Tranque a porta se isso fizer você se sentir melhor.
Isabela leu duas vezes.
Depois respondeu:
Faz.
A resposta veio pouco depois.
Então tranque.
Ela ficou olhando para a tela.
Não era carinho.
Não era gentileza.
Era Dante tentando ser menos Dante.
E isso talvez fosse ainda mais perigoso.
Isabela trancou a porta.
Mas demorou muito para conseguir dormir.
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CAPÍTULO 7
O VESTIDO QUE MUDOU TUDO
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A sexta-feira chegou com céu cinza e uma agenda que Isabela não havia escolhido.
Às dez da manhã, Marta entrou na suíte com uma equipe de beleza, duas araras de vestidos e uma caixa de sapatos que provavelmente valia mais do que o carro que Isabela pensara em vender para ajudar o pai.
— Não — Isabela disse, antes mesmo que alguém abrisse a boca.
Marta suspirou.
— Bom dia, senhorita.
— Bom dia. E não.
— O evento desta noite é importante.
— Todo evento nessa casa é importante.
— Este especialmente. A Fundação Alencar reúne empresários, imprensa, investidores e membros do conselho.
Isabela, sentada à penteadeira, olhou pelo espelho.
— Traduzindo: mais gente para analisar se eu sei usar garfo e sorrir na hora certa.
— Traduzindo: mais gente tentando descobrir se seu noivado é real.
A honestidade fez Isabela se calar.
Marta se aproximou.
— A senhorita se saiu muito bem até agora. Mas hoje será diferente.
— Por quê?
— Porque Helena ajudou a organizar o evento.
Isabela virou-se lentamente.
— Claro que ajudou.
— E porque ela conhece todos ali.
— Enquanto eu sou a intrusa.
Marta não respondeu.
Não precisava.
Isabela levantou-se e caminhou até a arara. Havia vestidos discretos, elegantes, todos em tons neutros, como se a equipe quisesse transformá-la em uma noiva apagada, educada e segura para a reputação de Dante.
Ela passou os dedos pelos tecidos.
Então viu um vestido no canto, coberto por uma capa preta.
— E esse?
Marta hesitou.
— Não foi selecionado para hoje.
Isabela puxou a capa.
O vestido era vermelho escuro.
Não vulgar. Não chamativo da forma errada. Era sofisticado, com corte reto, decote elegante, costas parcialmente abertas e uma fenda que apareceria apenas em movimento. Um vermelho profundo, quase vinho, que parecia feito para uma mulher que entrava em uma sala sem pedir permissão.
Isabela sorriu.
— Esse.
— Senhorita, talvez seja ousado demais.
— Ótimo.
— O senhor Alencar aprovou o champagne.
— Então ele pode usar o champagne.
Marta pressionou os lábios, talvez segurando um sorriso.
— Vou informar a equipe.
Horas depois, Isabela entendeu que algumas roupas não vestiam apenas o corpo. Vestiam uma decisão.
Quando se olhou no espelho, não viu a filha desesperada de Ricardo Monteiro. Não viu a mulher encurralada por um contrato.
Viu alguém capaz de sobreviver.
Os cabelos estavam soltos, jogados para um lado. A maquiagem destacava os olhos e deixava a boca em tom suave. O vestido moldava sua silhueta com elegância, fazendo-a parecer mais alta, mais firme, mais perigosa.
Marta ficou atrás dela.
— Está perfeita.
Isabela encarou o reflexo.
— Não quero estar perfeita.
— Então?
— Quero estar inesquecível.
Marta não respondeu.
Mas, pela primeira vez, sorriu de verdade.
Dante estava no hall quando ela desceu.
Falava ao telefone, de costas para a escada. Usava smoking preto, postura impecável, uma das mãos no bolso. A imagem era tão absurda de elegante que Isabela quase se irritou antes mesmo que ele a visse.
Então ele virou.
E parou.
Não foi um tropeço. Dante Alencar não tropeçava. Mas houve uma interrupção visível no ritmo dele. A frase ao telefone morreu por um segundo. Os olhos escuros fixaram nela.
Isabela desceu os últimos degraus devagar.
Sentiu o olhar dele como toque.
Não era avaliação de imagem.
Não era crítica de roupa.
Era desejo reprimido com violência.
Ela deveria se sentir vitoriosa.
Sentiu-se quente.
Dante encerrou a ligação sem despedida.
— Esse não era o vestido aprovado.
— Boa noite para você também.
— Isabela.
— Dante.
Ele se aproximou.
Os olhos ainda não haviam decidido se estavam irritados ou fascinados.
— O vestido champagne era mais adequado.
— Para quem?
— Para a ocasião.
— Ou para eu parecer inofensiva?
Ele ficou em silêncio.
Ela sorriu.
— Imaginei.
Dante olhou para as costas parcialmente expostas quando ela se virou para pegar a bolsa. O maxilar dele tensionou.
— Você sabe que haverá imprensa.
— Sei.
— Sabe que Helena estará lá.
— Melhor ainda.
— Isso não é uma guerra de beleza.
Isabela virou-se para ele.
— Não. É uma guerra de controle. E hoje eu decidi controlar como entro naquela sala.
Dante a encarou por alguns segundos.
Depois, lentamente, estendeu a mão.
— Então entre direito.
Isabela olhou para a mão dele.
— Isso foi quase apoio?
— Foi estratégia.
— Claro.
Mesmo assim, aceitou.
O contato entre os dedos deles pareceu mais intenso do que deveria. Dante fechou a mão ao redor da dela com firmeza, e Isabela sentiu um arrepio subir pelo braço.
No carro, ficaram em silêncio.
Mas era um silêncio diferente. Havia palavras demais presas entre eles.
Dante olhava pela janela. Isabela fingia não perceber quando os olhos dele desciam para sua perna revelada pela fenda do vestido a cada movimento.
— Se continuar olhando, vai parecer que gosta — ela disse, sem encará-lo.
Ele virou o rosto.
— Gosto de saber o impacto de uma escolha antes de entrar em uma sala.
— E qual é o impacto?
O olhar dele percorreu o rosto dela devagar.
— Perigoso.
Isabela sentiu o coração falhar uma batida.
— Para quem?
— Ainda estou avaliando.
Ela desviou para a janela antes que ele visse o efeito.
O evento da Fundação Alencar acontecia em um hotel histórico, com salão amplo, lustres antigos e centenas de convidados que pareciam viver no mesmo universo impecável de Dante. Câmeras, taças, vestidos caros, ternos escuros, sorrisos que nunca chegavam aos olhos.
Quando Isabela entrou ao lado dele, a sala virou.
Não literalmente.
Mas ela sentiu.
Olhares pararam. Conversas diminuíram. Flashes surgiram antes mesmo que ela chegasse ao centro do salão.
Dante manteve a mão em sua cintura.
Dessa vez, Isabela não se encolheu.
Pelo contrário.
Aproximou-se um pouco mais dele, como se aquele lugar fosse seu também.
— Está atuando bem — Dante murmurou.
— Quem disse que estou atuando?
Ele olhou para ela.
Havia algo nos olhos dele que a fez se arrepender da provocação.
Helena apareceu usando prata.
Linda.
Fria.
E claramente contrariada.
— Vermelho — disse ela, aproximando-se. — Cor corajosa para uma noiva tão recente.
Isabela sorriu.
— Prata também é uma escolha interessante. Combina com segundo lugar.
Caio, que chegava bem na hora, quase engasgou com o champanhe.
— Eu pagaria ingresso por essas duas.
Helena ignorou Caio.
— Você gosta de chamar atenção, não é?
— Na verdade, eu gosto de não desaparecer.
O olhar de Helena escureceu.
Dante interveio antes que a conversa virasse batalha aberta.
— Helena, a fundação está impecável.
Ela sorriu para ele com doçura ensaiada.
— Fiz pensando em você.
Isabela sentiu Dante tensionar a mão em sua cintura.
— Fez pela fundação — ele corrigiu.
O sorriso de Helena vacilou.
Isabela percebeu.
E, pela primeira vez, viu uma rachadura real na segurança da ex-noiva.
A noite avançou. Isabela foi apresentada a investidores, empresários, mulheres que elogiavam seu vestido com curiosidade afiada e homens que falavam com Dante como se ela fosse decoração de luxo. Ela odiou esses últimos.
Em determinado momento, um empresário grisalho segurou sua mão por tempo demais.
— Dante sempre teve sorte com mulheres bonitas — ele disse.
Isabela tentou puxar a mão, mas o homem apertou de leve.
— E agora escolheu uma jovem. Muito jovem. Esperta, imagino.
Antes que ela respondesse, Dante apareceu ao lado.
Não levantou a voz.
Não fez cena.
Apenas colocou a mão sobre o ombro do homem.
— Solte minha noiva.
O empresário empalideceu.
Soltou.
— Dante, eu só estava—
— Eu não perguntei.
A voz dele era calma. Terrivelmente calma.
O homem recuou.
Isabela olhou para Dante.
— Eu podia lidar com isso.
— Eu sei.
— Então por que interferiu?
Ele olhou para o homem se afastando.
— Porque eu quis.
A resposta foi simples demais.
E possessiva demais.
Isabela deveria reclamar.
Não conseguiu de imediato.
Dante virou-se para ela.
— Está bem?
— Estou.
— Ele apertou sua mão.
— Você observou?
— Eu observo tudo.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Deveria.
Mas não tranquilizou.
Acendeu algo.
No palco, Otávio fez um discurso sobre legado e responsabilidade. Depois chamou Dante para falar. Ele subiu com segurança, agradeceu doadores, apresentou novos projetos da fundação.
Então, inesperadamente, olhou para Isabela.
— Este ano, a Fundação Alencar inicia uma nova etapa. E eu também. Alguns compromissos deixam de ser apenas públicos quando encontramos alguém que nos obriga a olhar para além de números, resultados e controle.
A sala ficou atenta.
Isabela prendeu a respiração.
Dante continuou:
— Minha noiva, Isabela Monteiro, me lembrou recentemente que impérios também precisam aprender a se levantar depois da queda. Essa noite é sobre isso. Reconstrução.
O salão aplaudiu.
Isabela ficou imóvel.
A frase dela.
Ele havia usado a frase dela.
Não como deboche.
Como homenagem.
Dante desceu do palco sob aplausos e voltou para perto dela.
— Você roubou minha fala — ela disse, tentando parecer indiferente.
— Peguei emprestada.
— Sem permissão.
— Coloque na lista de coisas que você me cobra depois.
Ela olhou para ele.
— Por que fez isso?
Dante demorou a responder.
— Porque era uma boa frase.
— Dante.
Ele desviou os olhos.
— Porque era verdadeira.
O peito dela apertou de um jeito estranho.
Naquele instante, sob luzes, câmeras e mentiras, Isabela viu algo que não queria ver.
Dante Alencar podia ser cruel.
Mas não era vazio.
E isso complicava tudo.
Mais tarde, quando deixavam o evento, os fotógrafos pediram uma última foto.
— Um beijo! — gritou alguém.
Isabela congelou.
Dante também.
Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.
Então Dante virou-se para ela, inclinou o rosto e beijou sua testa.
Seguro.
Controlado.
Aceitável.
Os flashes explodiram.
Mas Isabela sentiu uma decepção absurda.
E odiou a si mesma por isso.
No carro, ficou calada.
Dante percebeu.
— Está cansada?
— Não.
— Então?
— Nada.
Ele a observou.
— Você queria que eu tivesse feito?
Ela virou o rosto rapidamente.
— O quê?
— Beijado você.
O calor subiu ao rosto dela.
— Não seja ridículo.
— Não respondeu.
— Porque a pergunta não merece resposta.
Dante se aproximou um pouco no banco.
— Você fica irritada quando está mentindo.
— E você fica arrogante quando acha que está certo.
— Estou?
Isabela sustentou o olhar dele.
O espaço entre eles parecia pequeno demais.
— Não.
A voz dela saiu baixa.
Dante olhou para sua boca.
Dessa vez, sem pressa.
O ar sumiu.
Mas então o carro parou diante da mansão.
O motorista abriu a porta.
Isabela saiu rápido demais.
Dante não disse nada.
Naquela noite, diante do espelho, Isabela tirou o vestido vermelho devagar e ficou olhando para si mesma.
O vestido havia mudado alguma coisa.
Não no contrato.
Não no mundo.
Nela.
Pela primeira vez desde que tudo começou, Isabela não se sentiu apenas presa a Dante Alencar.
Sentiu-se vista por ele.
E talvez esse fosse o começo do maior perigo.
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CAPÍTULO 8
CIÚMES QUE ELE NÃO QUERIA SENTIR
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No sábado de manhã, as fotos estavam por toda parte.
Isabela com o vestido vermelho no salão.
Dante com a mão em sua cintura.
O beijo na testa.
O olhar dele preso nela durante o discurso.
As manchetes eram previsíveis.
A NOIVA QUE ROUBOU A CENA NA FUNDAÇÃO ALENCAR.
DANTE ALENCAR E ISABELA MONTEIRO: O CASAL SURPRESA DO ANO.
ROMANCE OU ALIANÇA DE PODER?
Isabela leu a última em silêncio, sentada na varanda da mansão com uma xícara de café entre as mãos.
Aquela manchete estava mais perto da verdade do que as outras.
Caio apareceu sem avisar, usando camiseta clara e expressão de quem havia dormido bem demais para alguém daquela família.
— Bom dia, cunhada contratual.
Isabela quase engasgou.
— Você sabe?
Ele sentou-se na cadeira ao lado.
— Eu sei muitas coisas. Algumas porque me contam. Outras porque Dante acha que ninguém percebe quando ele está mentindo.
O coração dela acelerou.
— Ele te contou?
— Dante não conta. Dante arquiva verdades em cofres e espera que o mundo respeite a senha.
Isabela olhou para ele, desconfiada.
— Então você deduziu.
— Digamos que um noivado relâmpago com a filha de Ricardo Monteiro, logo depois de movimentações financeiras suspeitosamente generosas, não exige gênio.
Ela baixou os olhos para a xícara.
— Vai contar para alguém?
Caio ficou sério pela primeira vez.
— Não.
— Por quê?
— Porque, contrato ou não, você é a primeira pessoa em anos que faz meu irmão parecer vivo.
Isabela sentiu a frase como um empurrão.
— Dante não parece vivo. Parece programado.
— Exatamente. Você atrapalha o sistema.
Ela não queria sorrir.
Sorriu.
Caio percebeu e sorriu também.
— Cuidado — ele disse. — Se Dante vir, pode achar que estou roubando sua noiva.
— Ele não se importaria.
— Ah, se importaria.
Isabela balançou a cabeça.
— Você gosta de provocar.
— É meu papel na família.
— E qual é o papel de Dante?
Caio perdeu parte do humor.
— Carregar tudo.
A resposta inesperada a fez olhar para ele.
— Tudo?
— A empresa, o nome, o avô, os mortos, os erros dos vivos. Dante tinha vinte anos quando nosso pai morreu. De um dia para o outro, virou homem de pedra porque ninguém mais tinha estrutura.
Isabela ficou em silêncio.
Caio continuou:
— Não estou justificando. Ele pode ser um idiota completo.
— Pode?
— Está bem. Ele frequentemente é. Mas não nasceu assim.
A frase ficou entre eles.
Isabela pensou na foto virada sobre a mesa de Dante. Em Henrique Alencar. Em Ricardo assinando papéis que talvez tivessem destruído um homem inocente.
— Você culpa meu pai? — perguntou.
Caio respirou fundo.
— Culpei por muito tempo.
— E agora?
— Agora eu não sei. Crescer é horrível, Isabela. A gente começa a perceber que os monstros talvez só sejam homens covardes, e que os heróis também mentiam.
Ela engoliu em seco.
— Meu pai disse que errou, mas que não roubou.
— Talvez seja verdade.
— Você acredita?
Caio olhou para o jardim.
— Quero acreditar. Mas Dante não quer.
Antes que Isabela respondesse, uma voz fria veio da porta.
— Interrompo algo?
Ela virou.
Dante estava parado à entrada da varanda, usando roupa de treino, cabelo levemente úmido, expressão fechada.
Caio sorriu.
— Um café entre futuros parentes. Quer participar?
— Não.
Isabela notou o olhar de Dante.
Ele não parecia apenas irritado.
Parecia possessivo.
O que era ridículo.
— Eu estava conversando com seu irmão — ela disse.
— Eu vi.
— Então por que perguntou?
Dante caminhou até a mesa.
— Porque a linguagem corporal dizia mais do que a conversa.
Caio soltou um assobio baixo.
— Lá vem o CEO analisando o mercado emocional.
— Saia, Caio.
— A varanda é comum.
— Agora.
Caio se levantou, ainda sorrindo.
— Claro. Vou deixar os noivos resolverem essa tensão quase conjugal.
Passou por Dante e murmurou alto o suficiente para Isabela ouvir:
— Tente não rosnar. Assusta os convidados.
Dante não achou graça.
Quando ficaram sozinhos, Isabela cruzou os braços.
— Você acabou de expulsar seu irmão porque eu estava tomando café com ele?
— Expulsei porque ele gosta de interferir no que não deve.
— Eu sou o que não deve?
— Você sabe o que eu quis dizer.
— Não, Dante. Com você, quase nunca sei.
Ele ficou à frente dela.
— Caio não é tão inofensivo quanto parece.
— Ninguém nessa família é.
— Incluindo você?
Isabela sorriu.
— Principalmente eu.
O olhar dele desceu para o sorriso dela, e algo mudou.
Raiva. Interesse. Controle tentando se manter de pé.
— Você se diverte com isso?
— Com o quê?
— Me provocar.
— Talvez. É uma das poucas diversões disponíveis na minha prisão de luxo.
Dante se inclinou, apoiando as mãos na mesa.
— Você não é prisioneira.
— Então posso sair sem motorista e sem segurança?
— Não.
— Posso visitar meu pai sem te avisar?
— Não.
— Posso tirar a aliança?
Os olhos dele caíram para a mão dela.
— Não em público.
— Então talvez precise rever sua definição de prisão.
Dante ficou em silêncio.
Isabela levantou-se.
— Vou ao hospital.
— Augusto leva você em vinte minutos.
— Eu mesma vou chamar um aplicativo.
— Não vai.
— Vai me impedir fisicamente?
A pergunta saiu como desafio.
Dante endureceu.
— Não me provoque nesse limite.
Isabela deu um passo para perto.
— Ou o quê?
O ar entre eles esquentou.
Dante olhou para ela como se estivesse dividido entre responder e fazer algo muito pior.
— Ou eu posso esquecer por alguns segundos que esse casamento é um contrato.
O coração dela disparou.
Isabela deveria recuar.
Em vez disso, perguntou:
— E o que aconteceria nesses segundos?
Dante não respondeu.
Mas seus olhos desceram para a boca dela.
Foi a segunda vez em menos de vinte e quatro horas.
Dessa vez, Isabela não fingiu que não viu.
O silêncio ficou perigoso.
Então o celular dela tocou.
O som atravessou o momento como uma lâmina.
Isabela se afastou rápido e atendeu sem olhar.
— Alô?
— Isa?
A voz masculina do outro lado a pegou de surpresa.
— Lucas?
Dante ergueu os olhos imediatamente.
Isabela virou de costas, mais por instinto do que necessidade.
Lucas era um antigo amigo da faculdade. Tinham se aproximado no último ano, saído algumas vezes, mas nada sério havia acontecido. Depois da crise da empresa, ela se afastara de todos.
— Vi as notícias — Lucas disse. — Você está bem?
A preocupação na voz dele apertou algo nela.
— Estou.
— Tem certeza? Esse noivado apareceu do nada. Eu tentei te ligar ontem.
— Eu sei. Desculpa. As coisas estão confusas.
Dante permanecia atrás dela.
Ela sentia.
— Posso te ver? — Lucas perguntou. — Só para conversar.
Isabela hesitou.
Antes que respondesse, Dante falou:
— Diga não.
A voz baixa dele foi perfeitamente audível.
Lucas ficou em silêncio do outro lado.
Isabela virou-se, indignada.
— Dante.
— Diga não.
Ela apertou o celular.
— Lucas, eu te ligo depois.
— Isa, quem está aí?
— Eu ligo depois.
Desligou.
Por alguns segundos, ficou olhando para Dante sem acreditar.
— Você enlouqueceu?
— Quem é Lucas?
— Não é da sua conta.
— Tudo que pode virar problema é da minha conta.
— Ele é meu amigo.
— Ele pareceu íntimo.
Isabela riu, incrédula.
— Você está com ciúme?
Dante não respondeu rápido o suficiente.
E esse foi o erro.
Ela arregalou levemente os olhos.
— Meu Deus. Você está.
— Não seja ridícula.
— Ridícula? Você mandou eu dizer não como se tivesse algum direito.
— Eu tenho. Publicamente, você é minha noiva.
— Publicamente. Não privadamente.
— Para a imprensa, não existe essa diferença.
— Para mim existe.
Dante aproximou-se.
— Esse homem vai entender isso?
— Lucas entende limites melhor do que você.
A frase atingiu algo feio nele.
— Cuidado com comparações.
— Por quê? Não gosta de perder?
— Não entro em disputas que já venci.
Isabela sentiu o rosto esquentar.
— Você não me venceu.
— Não?
— Não. Você me tem em contrato. Só isso.
Dante inclinou o rosto.
— Só isso deveria bastar.
— Para um homem como você, talvez.
— E para você?
Ela sustentou o olhar dele, o peito subindo e descendo rápido.
— Para mim, não basta nada que venha sem escolha.
Dante ficou parado, e pela primeira vez aquela resposta pareceu atravessá-lo de verdade.
No hospital, horas depois, Isabela tentou se convencer de que a discussão não a abalara. Conversou com o pai, ouviu os médicos, respondeu mensagens, fingiu normalidade. Mas continuava lembrando dos olhos de Dante quando ouviu a voz de Lucas.
Não era só controle.
Havia ciúme.
E ciúme em um homem que dizia não se importar era uma rachadura perigosa.
Quando voltou à mansão, encontrou flores na suíte.
Rosas brancas.
Com um cartão.
Por um segundo, pensou que fossem de Dante.
O coração cometeu a idiotice de acelerar.
Mas o cartão dizia:
Isa, fiquei preocupado. Estou por perto se precisar.
Lucas
Ela sorriu de leve.
Um sorriso pequeno, de gratidão.
Então percebeu Dante parado à porta.
O sorriso morreu.
Ele olhou para as flores.
Depois para ela.
— Seu amigo tem iniciativa.
— Ele tem educação.
— Mande retirar.
— Não.
— Isabela.
— São minhas flores. Minha suíte. Minha decisão.
Dante entrou no quarto.
— Não vou permitir que outro homem envie flores para minha noiva dentro da minha casa.
Ela sentiu a raiva subir, mas junto veio algo pior: a consciência do quanto a possessividade dele mexia com ela.
— Sua noiva de fachada — corrigiu.
Dante parou diante dela.
— Fachada não torna a aliança invisível.
— E aliança não torna sentimentos verdadeiros.
Os dois ficaram próximos demais.
As rosas entre eles pareciam uma provocação silenciosa.
Dante pegou o cartão da mão dela, leu novamente e devolveu.
— Ele gosta de você.
— Talvez.
O olhar dele escureceu.
— Você gosta dele?
Isabela poderia dizer não.
Seria simples.
Mas Dante não merecia simplicidade.
— Talvez.
A mandíbula dele travou.
— Não brinque comigo.
— Então não me trate como posse.
Dante deu um passo tão perto que o perfume dele invadiu tudo.
— Você não faz ideia do que significa ser tratada como minha.
A voz dele saiu baixa.
Rouca.
Isabela sentiu a pele arrepiar.
— E você não faz ideia do quanto eu odeio quando fala assim.
— Odeia?
— Odeio.
— Tem certeza?
A pergunta foi quase sussurrada.
O silêncio que veio depois respondeu por ela.
Dante olhou para sua boca.
Ela deveria empurrá-lo.
Deveria mandar que saísse.
Mas ficou imóvel, presa entre a raiva e uma atração que começava a ser impossível de negar.
Então ele se afastou abruptamente.
Como se tivesse se lembrado de quem era.
— Tire as flores daqui — disse, frio outra vez. — Ou eu tiro.
Saiu antes que ela respondesse.
Isabela ficou no meio do quarto, com o coração descompassado e as rosas brancas ao lado.
Pegou o cartão de Lucas e o guardou na gaveta.
Não porque queria provocá-lo.
Mas porque, pela primeira vez, entendeu que Dante Alencar não era indiferente.
E homens como ele, quando começavam a sentir, podiam se tornar ainda mais perigosos.
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CAPÍTULO 9
A EX-NOIVA APARECE
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Helena apareceu na mansão no domingo à tarde como se ainda pertencesse àquele lugar.
Não pediu licença. Não demonstrou constrangimento. Entrou pelo hall principal usando óculos escuros, vestido claro e um sorriso calculado, cumprimentando funcionários pelo nome.
Isabela a viu da escada.
Por um segundo, ficou parada observando.
Helena parecia confortável demais. Como alguém que conhecia cada canto da casa, cada regra não escrita, cada memória que Isabela jamais teria.
A sensação foi desagradável.
Não era ciúme.
Era invasão.
Marta caminhou até Helena com a postura educada, mas Isabela percebeu uma rigidez em seus ombros.
— Senhora Helena. O senhor Alencar não informou que a receberia hoje.
Helena retirou os óculos devagar.
— Dante está?
— No escritório.
— Então não preciso que ele informe.
Ela passou por Marta.
Isabela desceu os últimos degraus.
— Na verdade, precisa.
Helena parou.
Olhou para Isabela como se só então percebesse sua presença.
— Isabela. Não sabia que estava em casa.
— Engraçado. Eu moro aqui agora.
O sorriso de Helena endureceu.
— Por enquanto.
Isabela chegou ao hall e parou diante dela.
— Veio lembrar isso pessoalmente?
— Vim falar com Dante.
— Tem horário?
Helena soltou uma risada baixa.
— Querida, eu frequentei essa casa por anos.
— E ainda assim não aprendeu a bater?
Marta ficou imóvel ao lado, mas Isabela teve certeza de que a governanta gostou.
Helena aproximou-se um passo.
— Você está se sentindo muito segura para alguém que chegou ontem.
— E você está se sentindo muito à vontade para alguém que foi embora.
Os olhos da ex-noiva brilharam.
Antes que respondesse, a porta do escritório se abriu.
Dante surgiu no corredor.
Ao ver Helena e Isabela frente a frente, seu rosto fechou.
— Helena.
Ela virou-se para ele, o sorriso imediatamente mais suave.
— Dante. Precisamos conversar.
— Poderia ter ligado.
— Você não atenderia.
— Exatamente.
O golpe foi seco.
Isabela sentiu um prazer pequeno e vergonhoso.
Helena também sentiu. O sorriso vacilou.
— É sobre a fundação.
— Marta pode agendar com minha equipe amanhã.
— Não é assunto para equipe.
Dante olhou para Isabela.
— Vá para sua suíte.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Como é?
— Preciso falar com Helena.
— Então fale. Eu não estou impedindo.
— Isabela.
A ordem veio baixa.
E, por algum motivo, machucou mais do que deveria.
Não porque ela quisesse participar da conversa. Mas porque ele acabara de colocá-la para fora como se Helena tivesse mais direito àquele espaço do que ela.
Helena percebeu.
Claro que percebeu.
— Não se preocupe — disse a ex-noiva com falsa gentileza. — É um assunto antigo. De antes de você.
Isabela sorriu.
— Quase tudo em você parece ser de antes, Helena.
A boca de Dante pressionou uma linha, talvez segurando uma reação.
— Isabela, por favor.
O “por favor” a desmontou um pouco.
Não era ordem.
Era pedido.
Ainda assim, ela odiou ceder.
— Cinco minutos — disse, olhando para Dante. — Depois disso, se ela continuar na minha casa, vou considerar visita.
Helena riu.
— Sua casa?
Isabela olhou para ela.
— Minha aliança diz que sim.
Virou-se e subiu.
Mas não foi para a suíte.
Parou no corredor superior, onde parte da porta do escritório podia ser vista pelo vão da escada. Não conseguia ouvir tudo. Apenas fragmentos.
Helena entrou primeiro. Dante fechou a porta, mas não completamente.
— Você a está deixando confortável demais — Helena disse.
— Isso não é da sua conta.
— Tudo que envolve sua reputação é da minha conta enquanto eu estiver ligada à fundação.
— Sua função na fundação não inclui opinar sobre minha noiva.
— Noiva? — Helena riu. — Você quase parece acreditar.
Isabela prendeu a respiração.
Dante ficou em silêncio.
Helena continuou:
— Cuidado, Dante. Ela não é como você pensa.
— E como eu penso?
— Que é corajosa, honesta, diferente. Você sempre teve essa fraqueza por mulheres que parecem precisar ser salvas.
— Saia.
— Ainda não.
Houve um som de papel sendo jogado sobre a mesa.
— Recebi isso hoje.
Silêncio.
Quando Dante falou, sua voz estava mais baixa.
— Onde conseguiu?
— Importa?
— Helena.
— Importa que Ricardo Monteiro está mentindo. E sua doce noiva talvez também esteja.
Isabela sentiu o coração acelerar.
Que papel?
Dante respondeu:
— Isabela não sabe de nada.
— Tem certeza? Ou está começando a desejar que ela não saiba?
Mais silêncio.
Então a voz de Dante, dura:
— Cuidado com o que insinua.
— Eu conheço você. Conheço esse olhar. Vi no evento. Vi no carro. Vi quando aquele empresário tocou nela. Você está confundindo contrato com desejo.
Isabela gelou.
— Isso não é problema seu — Dante disse.
— É quando você esquece por que começou tudo isso.
A frase caiu como uma pedra.
Isabela segurou o corrimão.
— Você queria justiça — Helena continuou. — Queria fazer Ricardo Monteiro sentir o que sua família sentiu. Queria tomar o que ele mais amava.
O ar saiu dos pulmões de Isabela.
Tomar o que ele mais amava.
Ela.
A escada pareceu desaparecer sob seus pés.
Dentro do escritório, Dante falou algo baixo demais para ela ouvir.
Helena respondeu:
— Não minta para mim. Você olhou nos olhos daquele homem e ofereceu salvar a empresa em troca da filha dele. Isso não foi estratégia empresarial. Foi vingança.
Isabela recuou.
Cada palavra abria um buraco.
Ela sabia.
Já desconfiava.
Mas ouvir daquela forma, tão crua, tão impossível de negar, era diferente.
Virou-se para ir embora antes que as pernas falhassem, mas esbarrou em um vaso decorativo no aparador.
O som do objeto balançando foi pequeno.
Mas suficiente.
A porta do escritório abriu imediatamente.
Dante apareceu.
Os olhos encontraram os dela no alto da escada.
Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.
Helena surgiu atrás dele.
E sorriu.
— Que falta de sorte — murmurou.
Isabela desceu os degraus devagar.
Não chorou.
Não ainda.
Dante caminhou até a base da escada.
— Isabela.
Ela parou diante dele.
— Era isso?
— Você ouviu só uma parte.
— A parte em que você comprou a filha de Ricardo Monteiro para puni-lo?
Ele fechou os olhos por uma fração de segundo.
Dor.
Ela viu dor.
Mas não importava.
— Responde — ela exigiu.
Helena cruzou os braços, satisfeita.
Dante abriu os olhos.
— No começo, sim.
A sinceridade a atingiu pior do que uma mentira.
Isabela sentiu o peito se partir, mas manteve a postura.
— No começo.
— Isabela—
— Que alívio. Talvez agora você só me use por hábito.
— Não faça isso.
— Isso o quê? Dizer a verdade? Você deveria tentar.
Ele deu um passo.
— Eu queria atingir seu pai. Sim. Queria que ele soubesse como era perder o controle sobre algo que amava.
Isabela sentiu as lágrimas queimarem, mas não caírem.
— E conseguiu.
— Mas não é mais assim.
Ela riu.
Foi um som quebrado.
— Que conveniente.
— Eu estou dizendo a verdade.
— Agora?
— Sim.
— Depois de eu ouvir atrás da porta?
Dante ficou sem resposta.
Helena aproveitou.
— Isabela, querida, não seja dramática. Você sabia que não era amor.
Isabela virou-se para ela.
— E você sabia que não era escolhida. Mesmo assim continua aparecendo.
O rosto de Helena endureceu.
— Cuidado.
— Não. Hoje chega de cuidado.
Isabela olhou para Dante novamente.
— Eu quero sair.
— Não.
A resposta veio automática.
Ela riu, incrédula.
— Claro. A vingança precisa ficar na prateleira certa.
— Você está alterada. Não vou deixar sair assim.
— Não vai deixar?
— A imprensa está lá fora.
— Não use a imprensa para esconder que você não suporta me ver indo embora.
O silêncio que se seguiu foi brutal.
Helena olhou para Dante.
E viu.
Isabela também.
Dante ficou imóvel, os olhos presos nela, a respiração controlada demais.
Ele não suportava.
A constatação atingiu os três ao mesmo tempo.
Helena empalideceu de raiva.
— Dante…
— Vá embora, Helena — ele disse.
Ela piscou.
— O quê?
— Agora.
— Você vai me expulsar por causa dela?
— Vou expulsar você porque entrou na minha casa, provocou minha noiva e esqueceu seu lugar.
A palavra noiva saiu diferente.
Não como teatro.
Como posse.
Como defesa.
Helena pareceu levar um tapa.
— Você vai se arrepender.
— Provavelmente. Mas não hoje.
Ela pegou os óculos da bolsa, lançou a Isabela um olhar venenoso e saiu.
A porta se fechou com força.
O silêncio restante era pior.
Isabela passou por Dante.
— Vou ao hospital.
Ele segurou seu pulso.
Não com força.
Mas o toque foi suficiente para fazê-la parar.
— Não assim.
Ela olhou para a mão dele.
— Me solta.
Dante soltou imediatamente.
Aquilo a atingiu de um jeito inesperado.
— Isabela, eu não queria que você ouvisse daquela forma.
— Mas queria que fosse verdade?
Ele passou a mão pelo cabelo, perdendo por um segundo a postura perfeita.
— Eu queria vingança. Antes de você.
— Antes de mim? Você me conheceu ontem, Dante.
— E mesmo assim tudo mudou.
A frase veio rouca.
Quase desesperada.
Isabela queria não sentir nada.
Mas sentiu.
E isso a deixou ainda mais furiosa.
— Não use sentimento agora para deixar sua crueldade mais bonita.
— Eu não estou tentando embelezar nada.
— Então o que está tentando?
Dante aproximou-se devagar.
— Impedir que você me odeie antes de saber tudo.
— Talvez eu já saiba o suficiente.
Os olhos dele escureceram.
— Não sabe.
— Então fala.
Ele abriu a boca.
Nada saiu.
Isabela balançou a cabeça.
— Exatamente.
Passou por ele e saiu para o jardim, precisando de ar.
Dante a seguiu, mas manteve distância.
O fim da tarde deixava tudo dourado. Era quase ofensivo que o mundo parecesse bonito enquanto o peito dela doía.
— Meu pai errou — ela disse, olhando para a piscina. — Ele me contou. Eu não estou defendendo o que ele fez.
Dante parou alguns passos atrás.
— Você não deveria carregar a culpa dele.
Ela virou-se.
— Mas você me fez carregar.
O golpe foi certeiro.
Dante fechou os olhos por um instante.
— Sim.
A confissão simples quebrou algo no ar.
Isabela sentiu uma lágrima escapar antes que pudesse impedir. Limpou rapidamente, odiando-se por chorar diante dele.
Dante viu.
E a expressão dele mudou.
Não pena.
Culpa.
Ele deu um passo, mas ela recuou.
— Não.
Ele parou.
— Eu vou consertar isso.
— Você não conserta pessoas como conserta contratos.
— Eu posso tentar.
— Por quê?
Dante a encarou.
A resposta parecia prender sua garganta.
— Porque quando pensei em usar você para ferir seu pai, eu não sabia quem você era.
— E agora sabe?
— Sei o suficiente para entender que você não merecia isso.
A dor dela vacilou.
A raiva continuava ali, mas dividida.
Contra ele.
Contra o pai.
Contra Helena.
Contra si mesma por ainda querer acreditar em alguma parte daquele homem.
— Eu vou dormir na minha casa hoje — disse.
— A imprensa—
— Não me importa.
— Isabela.
— Eu preciso ficar longe de você.
Dante ficou imóvel.
Pela primeira vez, ele não ordenou. Não ameaçou. Não usou contrato.
Apenas assentiu.
— Augusto leva você.
— Sozinha.
Ele respirou fundo.
— Um carro discreto. Segurança à distância. É o máximo que consigo ceder sem colocar você em risco.
Ela queria brigar.
Mas estava cansada.
— Tudo bem.
Mais tarde, no quarto antigo de sua casa, Isabela deitou-se sem conseguir dormir.
A cama tinha seu cheiro. As paredes tinham suas memórias. Mas nada parecia igual.
À meia-noite, o celular vibrou.
Dante.
Ela quase não abriu.
Mas abriu.
Você tem direito de me odiar. Só não deixe Helena contar uma versão incompleta antes de eu ter coragem de contar a verdadeira.
Isabela encarou a mensagem até os olhos arderem.
Não respondeu.
Do outro lado da cidade, Dante ficou olhando para a tela sem receber resposta.
E, pela primeira vez em anos, sentiu medo de perder algo que nunca deveria ter querido.
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CAPÍTULO 10
UM BEIJO QUE NÃO ESTAVA NO CONTRATO
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Isabela voltou à mansão na manhã seguinte por causa do contrato.
Foi o que disse a si mesma.
Não por causa da mensagem de Dante.
Não porque passara a noite inteira tentando imaginar qual era a versão verdadeira.
Não porque, mesmo magoada, uma parte irritante dela queria ouvir a voz dele dizendo algo que fizesse sentido.
Era por causa do contrato.
A mentira funcionou até ela atravessar o hall e encontrá-lo esperando ao lado da escada.
Dante parecia não ter dormido.
Ainda estava impecável, claro. Homens como ele talvez sangrassem em silêncio e ainda assim ajustassem a gravata antes de cair. Mas havia sombras sob os olhos e uma tensão diferente nos ombros.
Ao vê-la, ele se levantou.
— Você voltou.
— Eu moro aqui, lembra? Condição de imagem, conduta e convivência.
A ironia saiu fraca.
Ele percebeu.
— Precisamos conversar.
— Eu sei.
Marta apareceu discretamente ao fundo, mas Dante fez um gesto para que ela se afastasse.
— No escritório — ele disse.
Isabela pensou em recusar só por orgulho.
Mas estava cansada de pedaços.
Seguiu-o.
No escritório, a foto que antes ficava virada sobre a mesa agora estava de pé.
Isabela viu antes que ele falasse.
Dois homens mais jovens, sorrindo diante de um prédio. Ricardo Monteiro e Henrique Alencar. Pareciam amigos. Verdadeiros. Havia confiança naquele aperto de mão.
Isso doeu de um jeito estranho.
Dante percebeu seu olhar.
— Meu pai acreditava no seu.
Isabela se aproximou da mesa devagar.
— Meu pai disse que eram como irmãos.
— Eram.
A voz dele tinha algo áspero.
— O que aconteceu de verdade?
Dante ficou em silêncio por alguns segundos, como se cada palavra exigisse atravessar anos de orgulho.
— O Grupo Alencar passava por uma expansão internacional. Meu pai queria abrir uma subsidiária fora do país. Seu pai intermediou investidores. Havia documentos, garantias, contratos. Tudo parecia legítimo.
Isabela ouviu sem interromper.
— Então dinheiro começou a desaparecer. Assinaturas surgiram em papéis que meu pai jurava nunca ter visto. Contas foram abertas. Transferências feitas. Quando a fraude veio à tona, os documentos apontavam para Henrique Alencar e Ricardo Monteiro.
— Os dois?
— Sim. Mas seu pai desapareceu por três dias quando a investigação começou.
Isabela sentiu o estômago contrair.
— Ele disse que foi ameaçado.
Dante olhou para ela.
— Ele disse isso?
— Não com essas palavras. Disse que confiou nas pessoas erradas.
— Pessoas erradas têm nomes.
— Você sabe quais?
— Um deles era Álvaro Vasconcelos.
O sobrenome a atingiu.
— Vasconcelos? Como Helena?
Dante assentiu.
— Pai dela.
Isabela ficou sem ar por um instante.
— Helena sabe?
— Sabe o suficiente para usar quando convém e esconder quando a prejudica.
— O pai dela estava envolvido?
— Meu pai acreditava que sim. Mas morreu antes de provar.
Isabela olhou para a foto.
— Acidente?
A expressão de Dante endureceu.
— Oficialmente.
A palavra gelou o ambiente.
— Você acha que não foi?
— Eu acho que meu pai estava prestes a expor algo grande demais.
Isabela levou a mão à boca.
Tudo parecia maior. Mais sujo. Mais perigoso.
— E meu pai?
— Ricardo assinou documentos. Talvez por ingenuidade. Talvez por medo. Talvez por culpa. Depois fez um acordo silencioso para não ser destruído junto.
A dor subiu nos olhos dela.
— Ele deixou seu pai sozinho.
Dante não respondeu.
Não precisava.
Isabela sentou-se na cadeira à frente da mesa, como se as pernas tivessem perdido força.
— Por que não me contou antes?
— Porque eu não queria que você entendesse.
Ela ergueu o olhar.
— Como assim?
Dante ficou de pé diante da janela.
— Era mais fácil se você me odiasse sem saber. Mais fácil se eu odiasse você por extensão. Mais fácil se todos continuassem nos papéis certos.
— E quais eram os papéis?
— Seu pai culpado. Eu vingador. Você consequência.
A honestidade machucou, mas também abriu espaço para algo novo.
— E agora?
Ele virou-se.
— Agora você é Isabela.
O modo como disse seu nome foi diferente.
Sem sobrenome.
Sem contrato.
Sem defesa.
Ela sentiu.
— Isso deveria resolver? — perguntou.
— Não.
— Bom.
— Mas é a verdade.
Isabela respirou fundo.
— Eu não sei o que fazer com isso.
— Nem eu.
Pela primeira vez, Dante parecia tão perdido quanto ela.
A vulnerabilidade dele era breve, mas real. E talvez por isso fosse tão perigosa.
Antes que ela respondesse, o telefone do escritório tocou. Dante atendeu, ouviu por alguns segundos e fechou a expressão.
— Quando?
Pausa.
— Mande para mim.
Ele desligou.
— O que foi? — Isabela perguntou.
— Vazaram uma foto sua entrando na casa ontem à noite.
— E?
— Estão dizendo que você deixou a mansão depois de uma briga e que o noivado está em crise.
Isabela riu sem humor.
— Pela primeira vez, acertaram.
Dante olhou para ela.
— Precisamos aparecer juntos hoje.
— Não.
— Isabela—
— Não. Você acabou de me contar que minha vida foi usada como vingança em uma guerra de vinte anos e sua primeira reação é pensar em aparição pública?
— Minha primeira reação é impedir que Helena use isso contra você.
— Contra você.
— Contra nós.
Ela se levantou.
— Não existe nós.
Dante deu a volta na mesa.
— Existe, goste ou não.
— Para a imprensa.
— Para Helena. Para meu avô. Para qualquer pessoa que descubra uma fraqueza.
— Minha fraqueza foi aceitar seu contrato.
— Sua fraqueza é achar que pode enfrentar todos sozinha.
A frase a atingiu.
— E sua fraqueza é achar que mandar é o mesmo que proteger.
Dante parou diante dela.
— Talvez.
A resposta a surpreendeu.
— Talvez?
— Talvez eu não saiba proteger sem controlar.
O silêncio ficou pesado de outro jeito.
Isabela olhou para ele, tentando conciliar aquele homem com o Dante que ela conhecera no primeiro dia. O arrogante. O implacável. O homem que dizia “assine” como quem decreta uma sentença.
Agora ele estava ali, admitindo uma falha.
Pequena.
Mas dele.
— Isso não apaga o que fez — ela disse.
— Eu sei.
— Eu ainda estou com raiva.
— Eu sei.
— E ainda não confio em você.
— Também sei.
— Então por que continua se aproximando?
Dante olhou para ela.
A resposta veio baixa:
— Porque não consigo parar.
Isabela sentiu o chão sumir.
Era uma frase simples.
Mas em Dante, soava como confissão arrancada à força.
Ele pareceu se arrepender assim que falou. O rosto fechou, a postura endureceu, como se tentasse recolher a vulnerabilidade antes que ela pudesse tocá-la.
Mas era tarde.
Isabela ouviu.
E alguma coisa nela respondeu.
— Dante…
— Esqueça.
— Você não pode dizer isso e mandar eu esquecer.
— Posso tentar.
— Não sou um dos seus funcionários.
— Eu sei muito bem disso.
O olhar dele desceu para sua boca.
O ar mudou.
De novo.
Mas dessa vez não havia câmeras. Não havia jantar, imprensa, Helena ou família.
Apenas os dois.
E isso era infinitamente mais perigoso.
Isabela deveria dar um passo para trás.
Deu um passo para frente.
Dante percebeu.
A respiração dele mudou.
— Não faça isso — ele disse baixo.
— Isso o quê?
— Me desafiar quando eu estou tentando ser correto.
Ela riu, quase sem som.
— Você? Correto?
— Estou fazendo um esforço inédito.
— Então talvez eu queira ver até onde vai.
Os olhos dele escureceram.
— Isabela.
O nome dela saiu como aviso.
Como pedido.
Como rendição.
Ela estava perto demais agora. Conseguia sentir o perfume dele, o calor do corpo, a tensão nos músculos que ele mantinha imóveis por pura força de vontade.
— O beijo na testa foi para as câmeras — ela disse.
— Sim.
— E se não houvesse câmeras?
Dante fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, o homem controlado já não estava inteiro ali.
— Você não sabe o que está perguntando.
— Sei.
— Não. Você está magoada. Confusa.
— Estou furiosa — ela corrigiu. — E lúcida.
Ele quase sorriu, mas o desejo pesou mais.
— Esse contrato não inclui isso.
— Finalmente uma regra que você quer respeitar?
— Por incrível que pareça, sim.
Isabela tocou o peito dele com a ponta dos dedos.
Foi um gesto pequeno.
Mas Dante reagiu como se tivesse sido atingido.
— Por quê? — ela perguntou.
— Porque se eu beijar você agora, não vai ser atuação.
O coração dela bateu forte.
— Ótimo.
A palavra mal saiu.
Dante avançou.
Uma das mãos dele segurou a cintura dela, a outra subiu até sua nuca, e então sua boca tomou a dela.
Não houve delicadeza no primeiro segundo.
Houve fome.
Raiva.
Alívio.
Desejo acumulado em todas as provocações, brigas e silêncios desde a assinatura daquele contrato.
Isabela deveria odiar.
Mas seu corpo se inclinou contra o dele antes que a mente pudesse impor distância. Suas mãos agarraram a camisa de Dante, sentindo o calor, a força, o tremor contido que ele tentava esconder.
Ele a beijava como um homem que perdera uma guerra contra si mesmo.
E ela retribuía como uma mulher cansada de fingir que não sentia nada.
Dante a puxou mais perto, e Isabela sentiu a mesa atrás de si. O beijo ficou mais lento, mais profundo, ainda intenso, mas agora cheio de algo que assustava mais do que desejo.
Reconhecimento.
Como se cada um estivesse descobrindo uma parte do outro que não cabia no contrato.
Quando finalmente se afastaram, a respiração dos dois estava irregular.
Dante manteve a testa próxima à dela.
Os olhos dele estavam escuros.
Perdidos.
— Isso não deveria ter acontecido — ele disse.
Isabela ainda segurava a camisa dele.
— Eu sei.
— Vai complicar tudo.
— Já estava complicado.
Ele quase riu, sem humor.
— Você sempre precisa responder?
— Sim.
Dante fechou os olhos por um instante, como se aquilo o destruísse e o salvasse ao mesmo tempo.
Então se afastou.
A ausência do corpo dele deixou frio.
Isabela soltou a camisa devagar.
O silêncio voltou, mas não era o mesmo.
Nunca mais seria.
O telefone dela vibrou em cima da mesa.
Ela pegou, ainda tentando estabilizar a respiração.
Era uma mensagem de número desconhecido.
Você acha que ele está se apaixonando. Mas Dante só sabe destruir mulheres. Pergunte a Helena o que aconteceu quando ela perdeu o filho dele.
Isabela leu uma vez.
Depois outra.
O sangue sumiu de seu rosto.
— O que foi? — Dante perguntou.
Ela ergueu os olhos para ele.
O beijo ainda ardia em seus lábios.
Mas agora havia outra coisa entre eles.
Uma sombra.
— Você e Helena tiveram um filho?
Dante ficou imóvel.
A expressão dele mudou tão rápido que Isabela soube, antes mesmo da resposta, que a mensagem não era apenas uma mentira.
A voz dele saiu baixa.
— Quem te disse isso?
Isabela apertou o celular com força.
E o mundo, que por alguns segundos parecia ter parado no calor de um beijo, voltou a desabar.
Fim do Capítulo 10
CAPÍTULO 11
DANTE PERDE O CONTROLE
Dante ficou imóvel.
Por alguns segundos, Isabela ouviu apenas a própria respiração irregular e o som distante da cidade além das janelas de vidro. O calor do beijo ainda estava em sua boca, mas a pergunta que acabara de fazer havia transformado tudo em gelo.
— Quem te disse isso? — Dante repetiu.
A voz dele não tinha mais o tom arrogante de antes.
Era baixa.
Perigosa.
Ferida.
Isabela ergueu o celular, mostrando a mensagem. Dante pegou o aparelho de sua mão sem pedir permissão. Seus olhos percorreram a tela uma vez. Depois outra. A mandíbula travou.
— Responda — ela exigiu. — Você e Helena tiveram um filho?
Dante devolveu o celular com tanta calma que aquilo pareceu ensaiado.
— Esse assunto não é da sua conta.
A frase a atingiu pior do que uma confirmação.
Isabela deu um passo para trás.
— Não é da minha conta? Eu estou prestes a me casar com você.
— Por contrato.
— Ah, claro. O grande escudo de Dante Alencar. Sempre o contrato. Sempre as cláusulas. Sempre essa desculpa conveniente para não agir como um ser humano.
Os olhos dele escureceram.
— Cuidado com o que diz.
— Por quê? Vai me processar também? Vai colocar no contrato que eu não posso fazer perguntas?
Dante avançou um passo.
— Helena está tentando manipular você.
— Então me diga a verdade.
— A verdade não muda nada.
— Muda para mim.
— Você não deveria se importar.
Isabela riu, mas a risada saiu quebrada.
— Você me beijou há dois minutos.
O silêncio que veio depois foi mais íntimo do que o beijo.
Dante desviou o olhar primeiro.
Aquilo doeu de uma forma absurda.
Isabela odiou o quanto doeu.
— Foi um erro — ele disse.
A frase entrou nela como uma lâmina fina.
Por um instante, Isabela não conseguiu reagir. O rosto continuou firme, mas por dentro algo se encolheu.
Erro.
Claro.
Para ele, ela era contrato, imagem, obrigação. Um beijo que fugia disso só podia ser erro.
Ela pegou a bolsa em cima da mesa.
— Então fique tranquilo. Não vai se repetir.
Dante segurou seu pulso antes que ela passasse por ele.
O toque foi firme, mas não machucou. Ainda assim, a sensação fez o corpo dela lembrar do que a mente tentava expulsar.
— Isabela.
— Solta.
— Não deixe Helena entrar na sua cabeça.
Ela olhou para a mão dele em seu pulso.
— Você já entrou o suficiente.
Dante soltou devagar.
Mas não se afastou.
— Helena sabe usar dor como arma. Tudo que ela te disser terá um objetivo.
— E tudo que você esconde também.
Os dois se encararam.
Havia raiva entre eles. Desejo também. Mas agora havia uma terceira coisa, mais perigosa: desconfiança.
Dante passou a mão pelos cabelos, quebrando por um segundo a imagem impecável de homem inabalável.
— Houve uma gravidez — disse, enfim.
Isabela sentiu o chão sumir sob os pés.
— De Helena?
— Sim.
— Era seu filho?
Dante fechou o rosto.
— Na época, eu acreditei que fosse.
A resposta abriu mais perguntas do que fechou.
— Na época?
Ele ficou em silêncio.
— Dante.
— Chega.
— Não. Você não pode jogar metade da verdade e depois mandar eu esquecer.
— Posso quando a outra metade não pertence a você.
Isabela sentiu os olhos arderem.
— Você não entende, não é? Eu vou entrar numa família que me odeia, numa casa que não é minha, num casamento que não escolhi, e ainda preciso lidar com sua ex-noiva mandando mensagens anônimas sobre uma criança perdida. Mas, claro, nada disso pertence a mim.
Dante respirou fundo, como se estivesse prestes a perder a paciência.
— Eu não pedi que você se importasse comigo.
— Eu também não pedi para me importar.
A frase escapou antes que ela pudesse impedir.
Dante ficou parado.
E Isabela se arrependeu imediatamente.
Não porque fosse mentira.
Mas porque era verdade demais.
Ela virou o rosto, tentando recuperar algum orgulho.
— Esquece.
— Isabela.
— Não. Você disse que foi um erro. Vamos agir como se fosse.
Ela caminhou até a porta.
Dante foi mais rápido.
Antes que ela tocasse a maçaneta, ele estava atrás dela, uma mão apoiada na madeira, impedindo sua saída sem encostar nela.
— Eu disse que foi um erro porque deveria ter sido — ele falou baixo.
Isabela sentiu o calor dele às suas costas.
— Isso não muda nada.
— Muda tudo.
Ela virou-se devagar.
O espaço entre os dois era pequeno demais.
Dante a encarava como se lutasse contra algo que odiava admitir. A máscara fria estava rachada. Por trás dela havia um homem que parecia furioso não com Isabela, mas consigo mesmo.
— Você acha que eu não sei o que Helena está fazendo? — ele perguntou. — Ela quer transformar você em mais uma pessoa desconfiando de mim. Quer que você fuja antes mesmo do casamento. Quer provar que ainda consegue destruir qualquer coisa que se aproxime de mim.
— E consegue?
Dante ficou em silêncio.
A resposta estava nos olhos dele.
Conseguiu antes.
Isabela sentiu a raiva diminuir, substituída por algo que não queria sentir: compaixão.
— O que aconteceu com a criança? — ela perguntou, mais baixo.
O rosto dele endureceu.
— Ela perdeu.
— Como?
— Um acidente.
— Dante…
— Eu disse chega.
Dessa vez, a voz dele saiu cortante.
Isabela recuou.
Aquilo pareceu atingi-lo também. Dante fechou os olhos por um segundo.
— Não faça isso — ele disse.
— Isso o quê?
— Não olhe para mim como se eu fosse um monstro.
Isabela engoliu em seco.
— Então pare de agir como um.
Dante abriu os olhos.
Havia dor neles.
Dor real.
E isso foi mais perigoso do que qualquer arrogância.
Ele se aproximou outra vez, devagar. Isabela sabia que deveria sair. Sabia que deveria manter distância. Mas ficou.
— Você quer a verdade? — ele perguntou.
— Quero.
— A verdade é que eu não confio em mulheres que dizem amar quando precisam de alguma coisa.
Ela sentiu a frase atravessá-la.
— E eu não confio em homens que usam dinheiro para esconder covardia.
Dante agarrou a borda da mesa ao lado dela, os dedos ficando brancos de tensão.
— Você não sabe nada sobre covardia.
— Sei. Estou olhando para ela.
O controle dele quebrou.
Não em violência.
Em desejo.
Dante tomou o rosto dela entre as mãos e a beijou de novo.
Diferente do primeiro beijo, este veio com desespero. Como se ele quisesse calar a verdade, apagar o passado, vencer Helena, vencer a si mesmo. Como se a boca de Isabela fosse a única coisa no mundo capaz de fazê-lo esquecer.
Por um segundo, ela resistiu.
Por orgulho.
Por dor.
Por medo.
Então cedeu.
Porque também queria esquecer.
Queria esquecer o contrato, o pai no hospital, Helena, as mensagens, a palavra erro. Queria apenas sentir, mesmo que sentir fosse a pior escolha.
Dante a levantou pela cintura e a sentou sobre a mesa. Isabela prendeu os dedos em sua nuca, e ele soltou um som baixo, quase um gemido contido, que fez o coração dela disparar.
— Isso continua sendo um erro — ela sussurrou contra a boca dele.
— Eu sei.
— Então para.
Dante parou.
Imediatamente.
Afastou-se o suficiente para olhá-la.
A respiração dele estava pesada, os olhos escuros, o autocontrole destruído pela metade.
— Manda eu parar de verdade — ele disse.
Isabela abriu a boca.
Mas não conseguiu.
A porta do escritório se abriu sem aviso.
— Dante, o velho quer saber se você vai… — Caio parou no meio da frase.
O olhar dele foi de Dante para Isabela sentada sobre a mesa, com o vestido amassado e os lábios vermelhos.
Um sorriso lento apareceu em seu rosto.
— Acho que interrompi uma reunião importante.
Isabela desceu da mesa rapidamente, tentando recuperar a compostura.
Dante virou-se para o irmão com expressão assassina.
— Saia.
— Com prazer. Só um aviso: Helena está na sala e parece feliz demais. Isso nunca é bom.
O nome dela caiu como água fria.
Caio saiu, fechando a porta atrás de si.
Isabela ajeitou o vestido, evitando olhar para Dante.
— Eu preciso ir.
— Isabela.
— Não.
Ela respirou fundo.
— Antes eu achava que precisava me proteger de você. Agora acho que preciso me proteger de mim quando estou perto de você.
Dante ficou imóvel.
Isabela saiu do escritório sem olhar para trás.
No corredor, encontrou Helena encostada perto da escada, segurando uma taça de vinho e sorrindo como se já soubesse tudo.
— Cuidado, querida — Helena disse docemente. — Dante sempre beija como se fosse salvar uma mulher.
Isabela parou.
Helena se aproximou.
— Mas, no final, ele só sabe deixá-la sangrando.
Isabela sustentou o olhar dela.
— Você fala por experiência?
O sorriso de Helena desapareceu por uma fração de segundo.
— Falo por aviso.
Então ela colocou algo pequeno na mão de Isabela.
Um cartão.
Com um endereço.
— Vá até lá amanhã, se quiser conhecer a verdade sobre o homem com quem vai se casar.
Helena se afastou.
Isabela ficou olhando para o cartão.
E, pela primeira vez desde que conhecera Dante, teve medo de descobrir que talvez a verdade fosse pior do que a mentira.
Fim do Capítulo 11
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CAPÍTULO 12
A NOITE QUE ELA TENTOU ESQUECER
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Isabela não foi ao endereço no dia seguinte.
Pelo menos foi isso que disse a si mesma durante a manhã inteira.
Não iria.
Não daria a Helena o prazer de vê-la correr atrás de migalhas de uma verdade cuidadosamente envenenada. Não permitiria que a ex-noiva de Dante decidisse o ritmo dos seus pensamentos, suas dúvidas ou seus medos.
Mas o cartão continuava dentro da bolsa.
Pesado como chumbo.
A mansão Alencar parecia ainda mais fria à luz do dia. Marta havia mostrado sua suíte pela manhã: um quarto enorme, com varanda para o jardim, closet maior do que o antigo quarto de Isabela e um banheiro de mármore que parecia feito para uma revista. Tudo era perfeito.
E nada parecia dela.
As malas estavam abertas sobre a cama quando Dante apareceu na porta.
Não bateu.
Claro que não.
— Temos um evento hoje à noite.
Isabela ergueu os olhos da mala.
— Bom dia para você também.
Ele estava de terno, telefone em uma das mãos, expressão fechada. O homem da noite anterior, com a respiração descontrolada e as mãos trêmulas de desejo, havia desaparecido. No lugar dele estava o CEO impecável, frio, blindado.
Aquilo deveria trazer alívio.
Trouxe raiva.
— Que evento? — perguntou.
— Um jantar beneficente. A imprensa estará presente.
— Achei que minha mudança já fosse humilhação suficiente para um dia.
— A imprensa precisa ver você ao meu lado antes do anúncio oficial do casamento.
— Então é mais uma apresentação.
— É parte do acordo.
Isabela fechou a mala com força.
— Você sempre volta para essa frase quando não quer lidar com o resto.
Dante a observou por um segundo.
— O resto não deveria existir.
Ela riu baixo.
— Mas existe.
O olhar dele desceu brevemente até a boca dela.
Foi rápido.
Mas Isabela viu.
E odiou ter visto.
— Marta vai ajudá-la com o vestido — ele disse.
— Eu posso me vestir sozinha.
— Não duvido.
— Então por que insiste?
Dante apoiou a mão na maçaneta.
— Porque, esta noite, todos estarão olhando para você. E alguns estarão torcendo para que erre.
Isabela cruzou os braços.
— Helena?
— Entre outros.
— Você se importa com isso por mim ou pelo seu precioso sobrenome?
Ele ficou em silêncio por tempo demais.
— No nosso caso, uma coisa afeta a outra.
Isabela assentiu devagar.
— Resposta covarde, mas esperada.
Dante não reagiu.
— Esteja pronta às sete.
Quando ele saiu, Isabela pegou o cartão de dentro da bolsa.
O endereço era de uma clínica particular.
Não o visitou.
Ainda.
À noite, Marta escolheu um vestido preto de corte elegante e discreto. Isabela quase recusou apenas por ter sido escolhido por outra pessoa, mas ao se olhar no espelho, ficou em silêncio.
O vestido a deixava bonita.
Mais que bonita.
Forte.
Os cabelos estavam presos em um coque baixo, com algumas mechas soltas no rosto. A maquiagem destacava seus olhos. No pescoço, uma joia simples de diamantes que Marta disse ser da família Alencar.
— Eu não quero usar isso — Isabela falou.
Marta ajeitou o fecho.
— O senhor Dante pediu.
— O senhor Dante pede muita coisa.
— Essa joia pertenceu à mãe dele.
Isabela parou.
O peso no pescoço mudou.
— À mãe?
Marta encontrou seus olhos pelo espelho.
— Ela morreu quando ele tinha dezessete anos.
A informação atingiu Isabela de surpresa.
Dante nunca mencionara a mãe. Claro que não. Dante não mencionava nada que pudesse torná-lo humano.
— Por que ele me daria algo dela?
Marta demorou a responder.
— Talvez porque, mesmo quando tenta agir apenas com a razão, o senhor Dante revele mais do que imagina.
Isabela tocou a joia, inquieta.
No hall, Dante a esperava.
Quando a viu descendo, ficou imóvel.
Desta vez, não tentou disfarçar rápido o suficiente.
O olhar dele parou nela com uma intensidade que fez o peito de Isabela apertar.
— A joia — ele disse.
— Marta disse que foi da sua mãe.
A expressão dele mudou.
Ficou mais fechada.
— Foi.
— Se quiser que eu tire…
— Não.
A resposta veio imediata.
Isabela desceu o último degrau.
— Então por quê?
Dante olhou para o colar por um instante antes de encará-la.
— Porque minha família entende símbolos. E minha tia precisa entender que você não é descartável.
— E eu sou?
Ele não respondeu.
Isabela quase sorriu, mas não havia humor.
— Você é péssimo em conversas simples.
— Nunca precisei ser bom nelas.
— Dá para perceber.
No carro, o silêncio foi pesado. Dante revisava algo no celular. Isabela olhava pela janela, tentando ignorar o perfume dele e a lembrança de sua boca.
No jantar beneficente, os flashes começaram antes mesmo que descessem do carro.
Dante ofereceu a mão.
Isabela aceitou.
A encenação começou.
Ele era perfeito diante das câmeras. A mão na cintura dela, o rosto inclinado na medida certa, a expressão séria suavizada o suficiente para parecer devoção contida. Isabela sorria, respondia perguntas com educação e fingia não notar o modo como o corpo dele protegia o seu sempre que alguém se aproximava demais.
— Vocês estão juntos há quanto tempo? — uma jornalista perguntou.
Dante respondeu antes dela.
— Tempo suficiente para saber que ela era inevitável.
Isabela virou o rosto para ele.
A resposta arrancou suspiros dos fotógrafos.
Mas ela viu algo nos olhos dele.
Não parecia atuação.
E isso a desestabilizou mais do que qualquer mentira.
Mais tarde, dentro do salão, Helena apareceu usando um vestido vermelho.
Claro que vermelho.
— Isabela — disse, com sorriso venenoso. — Que linda joia. Não achei que Dante fosse permitir outra mulher usá-la.
Isabela tocou o colar.
— Talvez você não conheça Dante tão bem quanto pensa.
Helena sorriu.
— Ou talvez eu conheça bem demais.
Dante apareceu ao lado de Isabela como se tivesse sentido a aproximação da ex.
— Helena.
— Dante. Estava apenas elogiando sua noiva.
— Então já terminou.
A frieza dele fez o sorriso dela vacilar.
Helena se afastou, mas antes sussurrou perto de Isabela:
— A clínica fecha às cinco. Não perca a chance de descobrir quem ele é.
Isabela fingiu não ouvir.
Dante percebeu.
— O que ela disse?
— Nada que você queira explicar.
Ele segurou seu braço com delicadeza.
— Não vá aonde ela mandar.
— Você está me pedindo ou ordenando?
— Estou avisando.
— Pois eu estou cansada dos seus avisos.
Dante se aproximou.
— E eu estou cansado de ver você brincar com algo que não entende.
— Então me faça entender.
Os dois se encararam no meio do salão iluminado, cercados por música, taças, conversas e olhares curiosos.
Dante baixou a voz.
— Não aqui.
— Nunca é aqui. Nunca é agora. Nunca é nada.
Ela se afastou antes que a raiva virasse lágrimas.
Na varanda do salão, o ar frio a ajudou a respirar. Isabela apoiou as mãos no parapeito e fechou os olhos.
Minutos depois, ouviu passos.
— Eu pedi para ficar sozinha — disse, sem se virar.
— Você raramente faz o que eu peço. Achei justo retribuir.
Dante.
Claro.
Ele parou ao lado dela.
Por um tempo, nenhum dos dois falou.
— Minha mãe usava esse colar em eventos onde precisava parecer mais forte do que se sentia — ele disse, de repente.
Isabela olhou para ele, surpresa.
Dante mantinha os olhos na cidade.
— Ela odiava esse mundo. Mas ficava impecável nele.
— Parece alguém que eu conheço.
O canto da boca dele quase se moveu.
— Talvez.
O silêncio mudou.
Ficou menos agressivo.
— Por que você me deu isso de verdade? — Isabela perguntou.
Dante demorou.
— Porque Helena não suportaria ver.
Ela sentiu uma pontada de decepção.
— Claro.
Dante olhou para ela.
— E porque, quando vi você ontem naquela mesa, enfrentando todos eles como se não estivesse com medo, eu lembrei dela.
Isabela perdeu a resposta.
Dante parecia desconfortável com a própria confissão.
— Não me olhe assim.
— Assim como?
— Como se eu tivesse acabado de fazer algo bom.
Ela sorriu de leve.
— Você fez?
— Provavelmente por acidente.
Isabela riu.
Foi baixo, breve, mas verdadeiro.
Dante a observou como se o som tivesse feito alguma coisa dentro dele.
O sorriso dela morreu devagar.
A tensão voltou.
Mas diferente.
Mais quente.
Dante ergueu a mão e tocou uma mecha solta perto do rosto dela. Não puxou, não dominou, apenas tocou. Com cuidado.
Isabela poderia ter se afastado.
Não se afastou.
— Não deveríamos — ela murmurou.
— Eu sei.
— Você vai dizer que é erro amanhã.
A sombra cruzou o rosto dele.
— Talvez.
— Então por que está aqui?
Dante se aproximou.
— Porque eu não consegui ficar lá dentro.
A honestidade simples a desarmou.
O beijo começou diferente.
Lento.
Quase triste.
Como se os dois soubessem que estavam entrando em uma parte da história da qual talvez não conseguissem sair inteiros.
Quando voltaram para a mansão, ninguém falou.
Dante acompanhou Isabela até a porta da suíte dela.
Ela colocou a mão na maçaneta.
Ele permaneceu atrás.
— Boa noite — disse, rouco.
Isabela abriu a porta.
Entrou.
Parou.
Então virou-se.
Dante ainda estava ali.
Imóvel.
Esperando que a razão vencesse por eles.
Isabela não deixou.
— Dante.
Ele ergueu os olhos.
— Entra.
A palavra ficou entre eles como uma escolha sem volta.
Dante entrou.
A porta se fechou.
E, naquela noite, Isabela tentou esquecer que havia um contrato entre eles.
Tentou esquecer Helena, as regras, a dívida, o medo.
Tentou esquecer até de si mesma.
Mas, quando Dante a beijou como se ela fosse a única coisa real dentro daquela casa fria, Isabela soube que aquela seria justamente a noite que jamais conseguiria esquecer.
Fim do Capítulo 12
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CAPÍTULO 13
FRIEZA NA MANHÃ SEGUINTE
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Isabela acordou com o lado da cama vazio.
Por alguns segundos, não entendeu onde estava.
A luz da manhã entrava suave pelas cortinas claras. O quarto era grande demais, silencioso demais, perfeito demais. O lençol ainda guardava o calor do corpo que havia estado ali durante a noite, mas Dante não estava.
A lembrança veio em fragmentos.
A varanda.
O colar da mãe dele.
A palavra entra.
A porta se fechando.
As mãos de Dante em seu rosto como se ele tivesse medo de quebrá-la e, ao mesmo tempo, medo de soltá-la.
Isabela fechou os olhos.
O peito apertou.
Não se arrependia.
Esse era o problema.
Ela queria se arrepender. Queria acordar com vergonha, raiva, qualquer coisa que a ajudasse a recuperar distância. Mas havia uma parte dela, perigosa e silenciosa, que ainda se lembrava do modo como Dante a olhara no escuro.
Não como contrato.
Não como peça.
Como mulher.
Como alguém.
Ela sentou-se na cama e encontrou uma camisa branca dobrada sobre a poltrona. Ao lado, um bilhete.
Não era romântico.
Não era sequer pessoal.
**Reunião às oito. Marta levará café.**
Sem assinatura.
Isabela riu, sem humor.
— Claro.
Ela vestiu o roupão e caminhou até o banheiro. No espelho, encontrou uma mulher diferente. Cabelos desalinhados, lábios ainda ligeiramente inchados, olhos cansados e brilhantes.
Uma mulher que tinha atravessado uma linha.
O celular vibrou.
Mensagem de Dante.
**Preciso falar com você antes do almoço.**
Isabela encarou a tela.
Talvez ele quisesse explicar.
Talvez quisesse dizer que a noite não tinha sido apenas desejo.
Talvez…
Ela odiou a esperança antes mesmo que ela se formasse por completo.
Digitou:
**Estou na minha suíte.**
A resposta veio segundos depois.
**No escritório. Às onze.**
Isabela apagou a tela com força.
Às onze, entrou no escritório de Dante vestindo uma calça de alfaiataria clara e uma blusa simples. Escolheu a roupa sozinha, por teimosia. Não usava a joia da mãe dele.
Dante estava atrás da mesa.
De terno.
Frio.
Impecável.
Como se a noite anterior tivesse acontecido apenas com ela.
— Feche a porta — ele disse.
Isabela fechou.
— Bom dia para você também.
Dante ergueu os olhos dos documentos.
Havia cansaço neles, mas ele o escondia bem.
— Precisamos conversar sobre ontem.
— Imaginei.
Ele se levantou.
— Não deveria ter acontecido.
Mesmo esperando, a frase doeu.
Isabela cruzou os braços.
— Você ensaiou ou fala isso naturalmente com todas?
— Isabela.
— Não. Continue. Quero ouvir a versão executiva. Ontem foi um desvio operacional? Uma falha de protocolo? Um erro de gestão emocional?
Dante apertou a mandíbula.
— Foi uma imprudência.
— Minha ou sua?
— Nossa.
— Interessante. Na hora de mandar, a decisão é sua. Na hora de assumir, a culpa é nossa.
Ele passou a mão pelo queixo, impaciente.
— Não estou culpando você.
— Está só deixando claro que se arrependeu.
Dante ficou em silêncio.
Isabela assentiu, como se tivesse recebido uma confirmação.
— Ótimo. Mensagem entendida.
Ela virou-se para sair.
— Eu não me arrependi.
A voz dele a prendeu no lugar.
Isabela fechou os olhos por um segundo antes de virar.
— Então por que está agindo como se tivesse?
Dante apoiou as mãos sobre a mesa.
— Porque querer algo não significa que seja certo.
— Certo para quem?
— Para você.
Ela riu baixo.
— Não use meu bem como desculpa para o seu medo.
— Isso não é medo.
— É o quê, então?
— Experiência.
— Com Helena.
O nome dela mudou o ar.
Dante se afastou da mesa.
— Eu não vou discutir Helena.
— Claro que não. Ela pode mandar mensagens, me provocar, me oferecer endereços de clínicas, mas você não vai discutir Helena.
O olhar dele ficou atento.
— Que clínica?
Isabela se arrependeu tarde demais.
Dante deu um passo.
— Que clínica, Isabela?
Ela tirou o cartão da bolsa e jogou sobre a mesa.
— Ela me entregou isso.
Dante pegou o cartão.
O rosto dele perdeu a cor por uma fração de segundo.
Foi tão rápido que outra pessoa talvez não notasse.
Isabela notou.
— Então é verdade — disse.
— Você foi até lá?
— Não.
— Não vá.
— De novo você mandando.
— Desta vez, sim.
A firmeza da voz dele a irritou.
— O que tem nesse lugar?
— Nada que você precise ver.
— Você quer dizer nada que você queira que eu veja.
Dante amassou o cartão na mão.
— Helena está usando uma tragédia para atingir você.
— A tragédia dela ou sua?
— Minha paciência tem limite.
— E a minha dignidade também.
Os dois ficaram frente a frente.
Isabela sentia a dor da manhã se misturar à raiva, formando algo afiado.
— Sabe o que é pior? — ela disse. — Eu não esperava carinho. Não esperava flores na mesa, nem promessa no travesseiro. Mas eu esperava, talvez por burrice, que depois de ontem você tivesse coragem de falar comigo como alguém que esteve nos seus braços. Não como uma funcionária que precisa ser chamada no escritório para receber instruções.
Dante pareceu atingido.
— Eu não sabia como falar com você.
A confissão saiu baixa.
Simples.
Quase humana.
Isabela sentiu a raiva vacilar.
— Então tentou me afastar.
— É o que eu sei fazer.
Por um segundo, ela viu o garoto de dezessete anos que perdera a mãe, o homem traído por Helena, o CEO que transformara controle em armadura.
Então lembrou que homens feridos ainda podiam ferir.
— Aprenda outra coisa — ela disse.
Dante não respondeu.
O telefone dele tocou sobre a mesa. Ele olhou para a tela e recusou a chamada.
Isabela viu o nome antes que a tela apagasse.
Helena.
A dor voltou, misturada a humilhação.
— Atenda — disse.
— Não.
— Por quê? Ela parece ter muito a dizer.
— E você parece determinada a acreditar nela.
— Eu estou determinada a acreditar em quem me conta a verdade.
Dante se aproximou.
— Eu contei parte dela.
— Parte não basta.
— Às vezes, parte é tudo que uma pessoa suporta.
Isabela pegou a bolsa.
— Então talvez você tenha escolhido a esposa errada. Porque eu não nasci para viver de meias verdades.
Dessa vez, ele não a impediu de sair.
No corredor, Marta tentou falar com ela, mas Isabela passou direto. Precisava de ar. Precisava sair daquela casa.
Pegou um carro sem avisar Dante.
O motorista perguntou o destino.
Ela abriu a bolsa.
O cartão que Dante amassara não estava mais com ela, mas Isabela se lembrava do endereço.
Lembrava de cada número.
— Clínica Santa Aurora — disse.
O motorista hesitou.
— Senhorita, o senhor Alencar…
— Eu não perguntei o que o senhor Alencar quer.
Ele obedeceu.
Durante o trajeto, o coração de Isabela batia tão forte que parecia avisá-la para voltar.
Mas ela não voltou.
A clínica ficava em uma rua discreta, arborizada, com fachada clara e janelas espelhadas. Na recepção, uma mulher de cabelo preso a recebeu com cordialidade impessoal.
— Posso ajudar?
Isabela abriu a boca.
Não sabia o que perguntar.
Não tinha autorização. Não tinha documento. Não tinha sequer certeza do que procurava.
Antes que pudesse inventar algo, uma voz veio atrás dela.
— Eu sabia que viria.
Helena.
Isabela virou-se.
A ex-noiva de Dante estava impecável, como sempre, usando óculos escuros e um vestido claro.
— O que é esse lugar? — Isabela perguntou.
Helena tirou os óculos lentamente.
— O lugar onde Dante decidiu que minha dor era inconveniente demais para existir.
Isabela sentiu um frio na nuca.
— Fale claro.
Helena sorriu.
Mas os olhos estavam duros.
— Foi aqui que eu perdi meu bebê.
Isabela ficou imóvel.
— O bebê dele?
Helena se aproximou.
— Pergunte a Dante por que ele nunca conseguiu entrar naquela sala. Pergunte por que ele pagou todos para ficarem calados. Pergunte por que um homem que diz não sentir nada ainda guarda culpa como se fosse amor.
Isabela queria responder.
Não conseguiu.
Helena inclinou a cabeça.
— Você acha que é diferente, querida. Todas acham.
Então entregou um envelope pardo a Isabela.
— Leia quando estiver pronta para deixar de ser ingênua.
Helena saiu.
Isabela ficou com o envelope nas mãos.
E, naquele instante, a noite que ela tentou esquecer voltou inteira.
Não como lembrança de desejo.
Mas como perigo.
Fim do Capítulo 13
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CAPÍTULO 14
O SEGREDO DE HELENA
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Isabela não abriu o envelope na clínica.
Sentou-se no banco traseiro do carro com ele sobre o colo, os dedos pressionando o papel pardo como se pudesse sentir a verdade pulsando ali dentro.
O motorista a observava pelo retrovisor, nervoso.
— Senhorita, devo levá-la de volta à mansão?
Ela pensou em Dante.
No olhar dele ao ver o cartão.
Na ordem para que não fosse.
Na noite anterior.
Na frieza da manhã.
— Não — respondeu. — Me leve ao hospital.
Precisava ver o pai.
Precisava lembrar por que estava naquele casamento. Precisava de algo real antes de abrir mais uma porta para o inferno particular de Dante Alencar.
Ricardo dormia quando ela chegou. A equipe particular contratada por Dante estava ali, discreta e eficiente. Tudo no quarto parecia melhor do que no dia anterior: equipamentos, flores, uma poltrona confortável, até o café sobre a mesinha.
Dante fazia as coisas certas do jeito errado.
Essa era a pior parte.
Isabela sentou-se ao lado do pai e abriu o envelope.
Dentro havia cópias de documentos médicos antigos, uma foto borrada da fachada da clínica e uma notícia impressa de cinco anos antes. O título falava sobre um acidente envolvendo Helena Vasconcelos, então noiva de Dante Alencar. A matéria mencionava ferimentos leves, internação sigilosa e o cancelamento repentino do casamento.
Nada sobre gravidez.
Nada sobre bebê.
Havia também uma folha de exame com partes rasuradas. Isabela tentou entender, mas os termos técnicos se misturavam.
No fim, uma anotação à mão:
**Ele sabia que eu estava grávida. Mesmo assim, me deixou sozinha.**
Isabela sentiu o estômago revirar.
— Não acredite em tudo que Helena entrega.
A voz de Caio veio da porta.
Isabela ergueu o rosto, assustada.
— Você me seguiu?
— Não. Dante me pediu para checar seu pai. Achei você aqui com cara de quem acabou de abrir uma bomba.
Caio entrou devagar, sem o sorriso habitual. Vestia jeans e camisa escura, muito menos formal do que o irmão, mas os olhos tinham a mesma atenção afiada.
— Você sabe o que é isso? — Isabela perguntou.
Caio olhou para os papéis.
A expressão dele mudou.
— Infelizmente.
— Então me diga.
Ele suspirou.
— Dante me mataria.
— Dante quer me casar com ele em duas semanas. Acho que tenho o direito de saber se estou entrando na vida de um homem que abandonou uma mulher grávida.
Caio fechou a porta do quarto.
Ricardo continuava dormindo.
— Dante não abandonou Helena grávida.
Isabela ficou imóvel.
— Ela estava grávida ou não?
— Estava.
— Então…
— Mas a criança não era dele.
A frase caiu entre eles como um choque.
Isabela encarou Caio, tentando absorver.
— O quê?
Caio passou a mão pelos cabelos.
— Helena e Dante estavam noivos. Famílias felizes, jornais felizes, conselho feliz. Tudo perfeito do jeito falso que essa gente gosta. Então ela apareceu dizendo que estava grávida. Dante acreditou. Fez tudo o que um homem como ele faria: médicos, segurança, casamento antecipado, proteção. Ele estava… diferente naquela época.
— Diferente como?
— Menos morto por dentro.
Isabela baixou os olhos para os papéis.
— E depois?
— Depois ele descobriu que Helena mantinha um caso com um executivo de uma empresa rival. Um homem casado. O acidente aconteceu na noite em que ela tentou fugir para encontrar esse cara.
Isabela levou a mão à boca.
— Ela perdeu o bebê.
— Sim.
— E Dante descobriu que não era dele?
— O exame veio depois. Helena tentou esconder. Meu avô tentou abafar. Celina queria manter o casamento mesmo assim, por conveniência. Dante rompeu tudo.
Isabela ficou em silêncio.
A imagem de Helena na clínica, falando de dor, parecia agora envolta em mentira. Mas havia algo ainda pior: mesmo manipuladora, ela realmente perdera uma criança.
— Por que Dante não me contou?
Caio deu um sorriso triste.
— Porque contar essa história exige admitir que um dia ele quis ser pai.
Isabela sentiu o peito apertar.
— Ele quis?
— Muito. Mais do que dizia. Dante é péssimo com amor, mas naquela época ele ainda acreditava em família. A gravidez de Helena, mesmo inesperada, mexeu com ele. Quando perdeu tudo de uma vez — noiva, filho que pensava ser dele, confiança, reputação — ele decidiu que sentimento era uma falha de segurança.
Isabela olhou para o pai dormindo.
— E nossa família? O que temos a ver com isso?
Caio hesitou.
— Essa parte é com Dante.
— Todo mundo diz isso.
— Porque é a parte que ele nunca superou.
Isabela apertou os documentos.
— Caio, por favor.
Ele a observou por alguns segundos.
— Seu pai era amigo do pai de Helena. E tinha participação em uma negociação que envolvia a empresa rival. Dante acredita que Ricardo sabia do caso e ajudou a esconder.
Isabela sentiu o sangue fugir do rosto.
— Meu pai não faria isso.
— Talvez não. Mas Dante acredita que fez.
Ela se levantou.
— Então esse casamento não é só sobre negócios.
Caio não respondeu.
Não precisava.
Isabela sentiu náusea.
— Ele está se vingando.
— Eu acho que começou assim.
— E agora?
Caio olhou para ela com uma seriedade rara.
— Agora eu não sei. E isso é o que me preocupa.
O celular de Isabela tocou.
Dante.
Ela não atendeu.
Tocou de novo.
Caio olhou para a tela.
— Ele sabe que você foi à clínica.
— Como?
— Porque o motorista provavelmente contou. Ou porque Dante Alencar sabe até quando alguém respira perto do nome dele.
Isabela recusou a chamada.
Uma mensagem apareceu.
**Onde você está?**
Ela digitou:
**Descobrindo quantas mentiras cabem dentro de um contrato.**
A resposta veio rápido.
**Não faça isso por mensagem.**
**Você deveria ter pensado nisso antes de me transformar em parte da sua vingança.**
Desta vez, ele não respondeu.
Caio soltou o ar devagar.
— Isso vai ficar feio.
— Já está.
— Isabela, Dante pode ser um idiota, mas…
— Não defenda seu irmão.
— Eu ia dizer que ele não sabe voltar depois que machuca alguém. Ele apenas finge que não se importa.
— Isso não torna a dor menor.
— Eu sei.
Caio caminhou até a porta.
Antes de sair, parou.
— Só mais uma coisa. Helena não te entregou esses documentos para te proteger. Ela quer que você olhe para Dante e veja um monstro. Porque, se você fizer isso, ele vai voltar a ser exatamente o homem que ela sabe manipular.
Isabela ficou sozinha no quarto.
Olhou para o pai.
Depois para o envelope.
Depois para o celular.
Dante não ligou de novo.
E, de alguma forma, o silêncio dele foi pior.
À noite, quando Isabela voltou para a mansão, encontrou Dante no hall.
Ele estava parado diante da escada, ainda de terno, mas sem paletó. O rosto fechado, os olhos escuros.
— Você foi à clínica — ele disse.
— Fui.
— Eu pedi que não fosse.
— Você não pede. Você ordena. E eu cansei de obedecer.
Dante desceu um degrau.
— O que Helena te mostrou?
— O bastante para saber que você me escolheu porque queria atingir meu pai.
A expressão dele não mudou.
Mas Isabela viu o golpe acertar.
— Isso foi no começo — ele disse.
— Que conforto.
— Isabela…
— Você me colocou nesse casamento porque odiava minha família.
— Eu coloquei porque precisava de uma esposa e porque seu pai precisava de salvação.
— E porque seria delicioso ver uma Monteiro presa ao seu sobrenome.
Dante ficou em silêncio.
A confirmação veio sem palavra.
Isabela sentiu os olhos arderem.
— Você é pior do que eu pensei.
Dante subiu o último degrau que os separava.
— Talvez.
— Não tente parecer honesto agora.
— Eu estou sendo.
— Então diga que não quis me usar.
Ele não disse.
Isabela riu, destruída.
— Obrigada. Finalmente uma verdade inteira.
Ela passou por ele, mas Dante segurou seu braço.
— Começou como vingança.
Ela parou.
— Começou? — perguntou sem olhar para ele.
A voz dele veio mais baixa.
— Eu não sei mais o que é agora.
Isabela fechou os olhos.
Por um segundo, aquela frase quase foi suficiente para quebrá-la.
Quase.
Ela puxou o braço.
— Descubra sozinho.
Subiu as escadas sem olhar para trás.
Na suíte, trancou a porta e finalmente chorou.
Não por Helena.
Não pelo contrato.
Mas por perceber que Dante Alencar havia sido capaz de feri-la antes mesmo que ela tivesse coragem de admitir que ele importava.
Fim do Capítulo 14
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CAPÍTULO 15
ISABELA DESCOBRE A GRAVIDEZ
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Três semanas depois, Isabela já sabia sorrir para câmeras.
Sabia segurar o braço de Dante sem parecer tensa. Sabia responder perguntas sobre o noivado com frases vagas e elegantes. Sabia caminhar pela mansão Alencar como se não se sentisse intrusa. Sabia usar vestidos escolhidos por estilistas e joias que pesavam mais pela história do que pelo valor.
Também sabia fingir que não doía quando Dante entrava em um cômodo e o ar mudava.
Depois da noite da clínica, algo entre eles havia se quebrado.
Ou talvez apenas revelado a rachadura que sempre existira.
Dante não tentou se justificar outra vez. Isabela não perguntou. Passaram a conviver com uma educação fria, quase perfeita. Em público, eram o casal do momento. Em casa, eram dois estranhos dividindo segredos demais.
Mas havia instantes em que a mentira falhava.
Como quando Dante a encontrava lendo na sala e diminuía os passos para não assustá-la.
Como quando mandava flores ao quarto do pai dela sem assinar o cartão.
Como quando, em um evento, afastou discretamente uma taça de vinho de suas mãos ao perceber que ela estava enjoada, mesmo sem saber o motivo.
Isabela também não sabia.
No começo, achou que fosse cansaço.
Depois, nervoso.
Depois, o peso de viver em alerta.
Até aquela manhã.
Estava no closet, escolhendo uma roupa para visitar o pai, quando sentiu o enjoo subir de repente. Correu para o banheiro e se ajoelhou diante do vaso, tremendo.
Marta apareceu na porta alguns minutos depois.
— Senhorita? Está tudo bem?
Isabela lavou o rosto, pálida.
— Foi só alguma coisa que comi.
Marta não pareceu convencida.
— Quer que eu chame um médico?
— Não.
A resposta saiu rápida demais.
Marta percebeu.
— Como preferir.
Quando ficou sozinha, Isabela apoiou as mãos na pia e encarou o espelho.
Foi então que a ideia surgiu.
Não como pensamento.
Como medo.
Fez as contas.
Uma vez.
Duas.
O coração começou a bater com violência.
— Não — sussurrou.
Não podia ser.
A noite com Dante. A única noite. A noite que ela tentava esquecer fingindo que não lembrava de cada detalhe.
Isabela pegou a bolsa e saiu da mansão sem avisar.
Desta vez, não usou o motorista de Dante. Caminhou até a portaria do condomínio e chamou um carro por aplicativo. O segurança tentou abordá-la, mas ela apenas disse que iria visitar o pai.
Mentiu.
Na farmácia, comprou três testes.
A atendente sorriu com discrição. Isabela quase chorou.
Fez o primeiro teste no banheiro de uma cafeteria próxima.
Positivo.
O segundo, no banheiro do hospital, antes de entrar no quarto do pai.
Positivo.
O terceiro, horas depois, já de volta à mansão, trancada em sua suíte.
Positivo.
Três linhas.
Três sentenças.
Três provas de que sua vida não pertencia mais apenas a ela.
Isabela sentou-se no chão do banheiro, segurando o último teste com as duas mãos.
Grávida.
De Dante.
A palavra parecia impossível.
Não havia espaço para uma criança naquele contrato. Não havia cláusula que previsse um bebê. Não havia mentira pública capaz de explicar o que aconteceria quando a barriga começasse a crescer.
Pior: não havia confiança.
Isabela fechou os olhos e viu Helena.
**Você acha que é diferente, querida. Todas acham.**
Viu Dante dizendo que não confiava em mulheres que diziam amar quando precisavam de alguma coisa.
Viu o modo como ele havia acreditado numa gravidez e depois descoberto uma traição.
Se ela contasse, o que ele veria?
Uma mulher assustada?
Ou uma nova Helena tentando prendê-lo?
A ideia doeu tanto que Isabela levou a mão à boca para conter um soluço.
Não podia contar.
Ainda não.
Precisava pensar.
Precisava proteger aquela criança antes que Dante a transformasse em herdeiro, cláusula, posse.
Uma batida na porta fez seu corpo inteiro endurecer.
— Isabela?
Dante.
Ela se levantou rápido, enrolou os testes em papel higiênico e os jogou na lixeira do banheiro. Lavou o rosto, respirou fundo e abriu a porta do quarto.
Dante estava do outro lado.
Sem paletó, mangas dobradas, expressão séria.
— Você saiu sem segurança.
— Fui visitar meu pai.
— Não foi só isso.
Isabela sentiu o coração parar.
— Está me seguindo agora?
— Estou tentando manter você segura.
— Que conveniente. Controle com nome bonito.
Dante olhou para ela com atenção.
— Você está pálida.
— Estou cansada.
— Chamo um médico.
— Não.
O tom brusco demais denunciou algo.
Dante estreitou os olhos.
— O que está acontecendo?
Isabela forçou uma risada.
— Nada. Mas obrigada pela preocupação tardia.
Ele entrou no quarto sem esperar convite.
— Isabela.
— Eu disse que não é nada.
— Você está tremendo.
Ela escondeu as mãos atrás do corpo.
Tarde demais.
Dante viu.
Aproximou-se devagar.
— Fale comigo.
A frase quase a quebrou.
Não era ordem.
Não era contrato.
Era pedido.
Por um segundo, Isabela quis contar. Quis deixar que ele soubesse, que ele escolhesse, que talvez, contra toda lógica, fosse diferente.
Mas então lembrou do início: vingança.
Lembrou de Helena.
Lembrou da manhã fria depois da única noite em que se entregara.
— Não tenho nada para falar.
Dante ficou em silêncio.
Depois olhou para o banheiro.
Isabela sentiu o sangue gelar.
Ele percebeu.
Dante deu um passo naquela direção.
Ela entrou na frente.
— Não.
O olhar dele voltou para ela.
— O que você está escondendo?
— Minha privacidade. Aquela que você fingiu conceder.
Dante respirou fundo, lutando contra a própria necessidade de controle.
— Eu não vou invadir seu banheiro.
— Parabéns. Evolução notável.
Ele apertou os lábios.
— Você me odeia tanto assim?
A pergunta veio baixa.
Inesperada.
Isabela sentiu o coração torcer.
— Eu não sei o que sinto por você.
A sinceridade escapou.
Dante pareceu absorvê-la como um golpe.
— Isso é pior?
— Muito.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
Então o celular de Dante tocou. Ele olhou a tela.
— Preciso atender.
Isabela assentiu, aliviada e destruída ao mesmo tempo.
Ele caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
— Seja o que for, eu vou descobrir.
Ela sustentou o olhar dele.
— É exatamente disso que tenho medo.
Dante saiu.
Isabela trancou a porta.
Naquela noite, não dormiu.
Sentada no chão do closet, com uma mochila aberta diante de si, colocou algumas roupas, documentos, dinheiro e os exames do pai que ainda guardava.
No fundo da mochila, colocou um dos testes positivos, embrulhado em tecido.
Não sabia para onde iria.
Só sabia que não podia ficar.
Ao amanhecer, antes que a mansão acordasse, Isabela deixou um bilhete sobre a cama.
**Não procure por mim. Pela primeira vez desde que assinei aquele contrato, estou escolhendo por mim.**
Ela saiu pela porta dos fundos.
Com uma mão sobre o ventre ainda plano.
E um medo enorme de que Dante Alencar descobrisse que, dentro dela, crescia a única coisa que poderia fazê-lo perder completamente o controle.
Fim do Capítulo 15
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CAPÍTULO 16
ELA DECIDE DESAPARECER
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Isabela não levou o carro.
Não usou cartão.
Não ligou para ninguém.
Havia aprendido rápido que tudo ao redor de Dante Alencar deixava rastros. Motoristas, seguranças, câmeras, transações, celulares. Ele encontrava caminhos onde outras pessoas viam paredes.
Por isso, saiu como alguém comum.
A pé.
Com uma mochila no ombro, boné escondendo parte do rosto e óculos escuros comprados em uma loja de conveniência na estrada. Caminhou até um ponto distante do condomínio, pegou um ônibus municipal e só depois chamou um carro com dinheiro emprestado de uma senhora que aceitou receber em PIX de uma conta antiga que Dante não conhecia.
Ou que ela esperava que ele não conhecesse.
O destino era uma cidade pequena no interior, onde a mãe dela tinha uma casa antiga deixada pela avó. Ninguém da família usava havia anos. Era simples, afastada, com móveis cobertos por lençóis e cheiro de madeira fechada.
Perfeita para desaparecer por alguns dias.
Não para sempre.
Isabela sabia que não conseguiria fugir para sempre de um homem como Dante.
Mas precisava de tempo.
Tempo para pensar.
Tempo para fazer um exame de sangue.
Tempo para decidir se teria coragem de contar.
Tempo para entender que tipo de mãe poderia ser quando nem sabia mais que tipo de mulher havia se tornado.
No ônibus rodoviário, sentou-se na janela e manteve a mão sobre a barriga.
Ainda não havia nada para sentir.
Nenhum movimento.
Nenhum sinal externo.
Mas, por dentro, tudo já havia mudado.
— Eu vou proteger você — sussurrou.
A senhora no banco ao lado sorriu, achando talvez que Isabela falasse ao telefone.
Ela virou o rosto para a janela.
Lá fora, a cidade grande ia ficando para trás.
No celular desligado dentro da bolsa, havia dezenas de chamadas que ela não queria ver. Dante descobriria o bilhete. Depois a ausência. Depois os rastros quebrados.
Ele ficaria furioso.
Mais do que isso, ficaria ferido.
E Isabela odiou saber reconhecer essa diferença.
Chegou à cidade no fim da tarde.
O céu estava pesado, anunciando chuva. A casa da avó ficava no fim de uma rua estreita, cercada por um portão baixo e um jardim tomado pelo mato. A chave ainda estava no esconderijo antigo, dentro de um vaso quebrado ao lado da porta.
Ao entrar, o cheiro de passado a envolveu.
Isabela fechou a porta e finalmente chorou.
Chorou de medo, de cansaço, de culpa.
Chorou porque queria que a mãe estivesse viva.
Chorou porque queria que o pai estivesse saudável.
Chorou porque uma parte absurda dela queria que Dante a encontrasse, mas outra rezava para que ele nunca chegasse.
Quando a crise passou, limpou o rosto e começou a abrir janelas. A casa rangeu como se acordasse junto com ela. Havia poeira sobre os móveis, lençóis amarelados, uma cozinha antiga e um quarto pequeno onde ela dormira nas férias quando criança.
Isabela colocou a mochila sobre a cama.
O teste positivo estava no fundo.
Ela o pegou com cuidado.
— Você não é um erro — disse, com a voz falhando. — Não importa o que ele diga.
O telefone fixo da casa tocou.
Isabela quase deixou o teste cair.
O som atravessou a casa vazia como um alarme.
Ninguém tinha aquele número.
Ninguém, exceto talvez registros antigos da família.
O telefone tocou uma vez.
Duas.
Três.
Ela caminhou devagar até a sala.
Atendeu sem falar.
Do outro lado, silêncio.
Então uma voz feminina.
— Foi mais fácil do que imaginei.
Helena.
Isabela gelou.
— Como conseguiu esse número?
— Querida, sua família não é tão misteriosa quanto pensa.
— O que você quer?
— Saber se Dante já descobriu que você fugiu levando o presente mais perigoso que poderia dar a ele.
Isabela sentiu o sangue sumir do rosto.
— Eu não sei do que você está falando.
Helena riu baixo.
— Ah, Isabela. Você comprou três testes de gravidez em uma farmácia a quinze minutos da mansão. Acha mesmo que ninguém veria?
O mundo girou.
— Você me seguiu.
— Eu protejo meus interesses.
— Seu interesse é destruir Dante.
— Meu interesse é impedir que você tome um lugar que não entende.
Isabela apertou o telefone.
— Eu não quero lugar nenhum.
— Mentira. Você quer o que todas querem quando ele olha desse jeito. Quer acreditar que será a exceção.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei que está grávida.
A palavra dita por Helena pareceu profanar algo sagrado.
Isabela levou a mão ao ventre.
— Fique longe de mim.
— Eu ficaria preocupada com Dante, não comigo. Quando ele descobrir, vai achar que você fez exatamente o que eu fiz. Vai pensar que você usou uma gravidez para prendê-lo.
— Eu não sou você.
O silêncio do outro lado ficou afiado.
— Não — Helena disse. — Você é pior. Porque talvez ele acredite em você.
A ligação caiu.
Isabela ficou imóvel, segurando o telefone mudo.
A casa pareceu menor.
A fuga, mais frágil.
Helena sabia.
Se Helena sabia, Dante também saberia em breve.
Isabela correu para o quarto e abriu a mochila. Precisava sair dali. Tinha cometido um erro ao ir para um lugar ligado à família. Dante pensaria nisso. Helena já havia pensado.
A chuva começou de repente, forte contra o telhado.
Enquanto enfiava as roupas de qualquer jeito na mochila, ouviu um carro parando na rua.
O corpo inteiro dela travou.
Luzes atravessaram a janela.
Não era uma viatura.
Não era táxi.
Era um SUV preto.
Isabela apagou a luz do quarto.
O coração batia tão alto que parecia denunciar sua presença.
Passos se aproximaram do portão.
Depois, uma batida na porta.
Firme.
Controlada.
Conhecida.
— Isabela.
A voz de Dante atravessou a madeira.
Ela fechou os olhos.
Ele a encontrara.
Rápido demais.
Assustadoramente rápido.
— Abra a porta.
Isabela segurou a mochila contra o peito.
— Vai embora.
— Não.
— Eu não quero falar com você.
— Pena. Porque eu quero falar com a minha noiva que fugiu da minha casa no meio da madrugada.
A raiva dele estava ali, mas havia outra coisa por baixo.
Medo.
Isabela odiou perceber.
— Eu não sou sua propriedade.
— Abra a porta, Isabela.
— Para quê? Para me levar de volta?
— Para olhar nos seus olhos enquanto você me explica por que fugiu.
Ela apoiou a mão na barriga.
A resposta estava ali.
Viva.
Silenciosa.
A porta balançou com outra batida, mais forte.
— Eu sei que você está aí.
Isabela olhou para a janela dos fundos.
Havia uma saída pela cozinha.
Dante conhecia impérios, contratos, aeroportos, seguranças.
Mas não conhecia aquela casa.
Ela respirou fundo.
— Desculpa — sussurrou, sem saber se falava com ele, com o bebê ou consigo mesma.
E correu para a porta dos fundos.
Fim do Capítulo 16
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CAPÍTULO 17
DANTE ENCONTRA O TESTE
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Dante soube que Isabela havia fugido antes mesmo de encontrar o bilhete.
A mansão parecia diferente naquela manhã.
Não pelo silêncio — a casa sempre fora silenciosa —, mas pela ausência de algo que ele não queria admitir que havia se acostumado a perceber.
A presença dela.
Isabela tinha uma forma irritante de ocupar espaços. Deixar um livro aberto sobre a poltrona. Uma xícara pela metade na varanda. Um perfume leve no corredor. Uma resposta atravessada pronta para feri-lo ou fazê-lo quase sorrir.
Naquela manhã, nada.
A suíte dela estava arrumada demais.
A cama feita.
As gavetas mexidas.
E o bilhete sobre o travesseiro.
**Não procure por mim. Pela primeira vez desde que assinei aquele contrato, estou escolhendo por mim.**
Dante leu uma vez.
Depois outra.
A raiva veio primeiro.
Quente.
Instintiva.
Como ela ousava fugir?
Como ousava desaparecer quando havia riscos, imprensa, inimigos, Helena?
Depois veio o medo.
E esse ele odiou mais.
— Augusto! — chamou.
O motorista apareceu minutos depois, pálido.
— Senhor.
— Quando ela saiu?
— A senhorita não solicitou carro.
— Eu perguntei quando.
— Por volta das seis. A equipe da portaria informou que ela saiu a pé.
Dante fechou os olhos por um instante.
A pé.
Sozinha.
Teimosa demais para entender perigo.
Ou desesperada demais para se importar.
Ele pegou o celular.
— Quero imagens da portaria, câmeras da rua, movimentações de aplicativo, rodoviária, aeroportos. Agora.
Enquanto a equipe de segurança se movia, Dante entrou no quarto dela.
Não deveria procurar.
Sabia disso.
Privacidade tinha sido uma exigência dela.
Mas Isabela havia fugido. Havia algo errado. Havia medo no bilhete.
E Dante, diante de medo, só sabia invadir até encontrar a causa.
Abriu gavetas.
Nada.
Olhou a lixeira do quarto.
Nada.
Entrou no banheiro.
Parou.
A lixeira pequena estava quase vazia, mas havia papel higiênico amassado demais no fundo. Dante o puxou com cuidado.
O teste caiu sobre o mármore.
Por um segundo, ele não entendeu.
Depois viu as linhas.
Duas linhas.
O mundo perdeu som.
Dante ficou parado no banheiro de Isabela, olhando para aquele pequeno objeto branco como se ele tivesse acabado de partir a realidade em duas.
Gravidez.
Isabela.
A noite.
O corpo dela trêmulo na véspera.
A recusa do médico.
O medo nos olhos.
A frase: **É exatamente disso que tenho medo.**
Dante fechou a mão ao redor do teste.
Não com força suficiente para quebrar.
Como se fosse algo frágil.
Como se fosse perigoso.
Como se fosse sagrado.
O passado veio sem permissão.
Helena, pálida em uma cama de hospital.
O sangue.
A notícia do acidente.
O exame.
A mentira.
O alívio cruel por uma criança que ele havia chorado não ser dele.
E a vergonha por ter chorado mesmo assim.
Dante apoiou a mão na pia.
Pela primeira vez em anos, sentiu medo de verdade.
Não de perder uma negociação.
Não de cair na imprensa.
Não de ser traído.
Medo de que Isabela estivesse sozinha, grávida e acreditando que precisava fugir dele.
Caio entrou no banheiro sem bater.
— Dante, a segurança achou… — Ele parou ao ver o teste.
O rosto dele mudou.
— Meu Deus.
Dante ergueu os olhos.
— Ela está grávida.
Não era pergunta.
Caio respirou fundo.
— Você tem certeza?
Dante mostrou o teste.
— Ela fugiu por isso.
— Ou por você.
A frase o acertou.
Dante virou-se para o irmão.
— Não comece.
— Não vou começar. Você já fez isso sozinho.
Dante passou por ele, levando o teste.
— Encontre-a.
— Dante.
— Agora.
Caio o seguiu até o escritório.
— Você precisa pensar antes de chegar nela como um trator.
— Minha noiva está grávida e desaparecida.
— Justamente. Se você aparecer furioso, vai confirmar tudo que ela teme.
Dante bateu a mão na mesa.
— Ela deveria ter me contado!
— E o que você teria feito?
A pergunta ficou no ar.
Dante não respondeu rápido o suficiente.
Caio assentiu, triste.
— Exato.
— Eu nunca machucaria uma criança minha.
— Talvez ela saiba disso. Talvez não saiba se você machucaria a mãe.
Dante fechou os olhos.
Isabela no escritório, dizendo que não sabia o que sentia.
Isabela na escada, acusando-o de vingança.
Isabela na manhã seguinte, com os olhos feridos.
Ele a havia empurrado para longe com tanta eficiência que, quando ela descobriu algo que deveria ter unido os dois em medo e espanto, a primeira reação foi fugir.
O telefone tocou.
Segurança.
Dante atendeu no primeiro toque.
— Fale.
— Senhor, localizamos uma compra de passagem rodoviária em dinheiro. Câmeras indicam que ela embarcou para Santa Aurora do Vale.
Dante franziu a testa.
— A casa da avó dela.
Caio ergueu o olhar.
— Você sabe onde é?
— Ricardo mencionou uma vez.
Dante pegou as chaves do carro.
Caio entrou na frente.
— Eu vou com você.
— Não.
— Sim.
— Caio…
— Você está segurando um teste de gravidez como se fosse uma granada e com cara de quem vai quebrar o mundo para recuperar uma mulher. Eu vou.
Dante quase discutiu.
Não tinha tempo.
No caminho, a chuva começou.
Forte.
Dante dirigia rápido demais, mas com controle. Caio tentava falar, mas desistiu após a terceira resposta monossilábica.
O celular de Dante tocou.
Helena.
Ele recusou.
Tocou novamente.
Recusou.
Na terceira vez, Caio pegou o aparelho do console.
— Atende. Ela sabe alguma coisa.
Dante apertou o volante.
Atendeu no viva-voz.
— O que você quer?
A voz de Helena veio doce.
— Que agressivo. E eu ligando para ajudar.
— Fale.
— Isabela parece frágil. Mulheres grávidas fazem escolhas impulsivas.
O carro ficou em silêncio.
Caio olhou para Dante.
Dante sentiu a visão escurecer nas bordas.
— Como você sabe?
Helena riu baixo.
— Eu sempre sei quando uma mulher está prestes a tomar meu lugar.
— O que você fez?
— Nada que você já não tivesse feito antes, querido. Eu apenas mostrei quem você é.
Dante desligou.
A mão dele tremia no volante.
Caio percebeu.
— Dante.
— Ela falou com Isabela.
— Sim.
— Ela sabe da gravidez.
— Sim.
Dante acelerou.
— Então Isabela está com medo de mim por causa dela.
Caio olhou para o irmão.
— Não só por causa dela.
A frase doeu porque era verdadeira.
Quando chegaram à rua da casa antiga, a chuva caía como cortina. O SUV parou diante do portão baixo. Havia luz acesa dentro da casa.
Dante saiu antes que Caio desligasse o cinto.
Bateu na porta.
— Isabela.
Silêncio.
— Abra a porta.
A voz dela veio de dentro, trêmula, mas firme.
— Vai embora.
O alívio de ouvi-la viva quase o derrubou.
A raiva voltou para esconder.
— Não.
— Eu não quero falar com você.
— Pena. Porque eu quero falar com a minha noiva que fugiu da minha casa no meio da madrugada.
Caio apareceu atrás dele.
— Dante, calma.
Dante ignorou.
— Abra a porta, Isabela.
— Para quê? Para me levar de volta?
— Para olhar nos seus olhos enquanto você me explica por que fugiu.
Houve silêncio.
Depois, um ruído nos fundos.
Caio percebeu primeiro.
— Ela está saindo pela cozinha.
Dante correu.
Deu a volta pela lateral da casa, a chuva encharcando sua camisa em segundos.
Viu Isabela no quintal, mochila no ombro, tentando abrir o portão dos fundos.
— Isabela!
Ela virou-se.
O rosto dela estava pálido. Assustado.
A mão foi imediatamente ao ventre.
Dante viu.
E todo o ar saiu do peito.
Ela sabia que ele sabia.
— Não se aproxime — ela disse.
Dante parou.
Pela primeira vez na vida, obedeceu.
Fim do Capítulo 17
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CAPÍTULO 18
A PERSEGUIÇÃO COMEÇA
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A chuva escorria pelo rosto de Dante, mas ele não se movia.
Isabela estava a poucos metros, debaixo da tempestade, com a mochila encharcada no ombro e os olhos arregalados como os de alguém encurralado.
Ele odiou ser a razão daquele medo.
— Isabela — disse, tentando controlar a voz. — Entra na casa.
— Não.
— Você vai ficar doente.
— Não finja que é preocupação.
A frase o atingiu.
Caio apareceu na lateral da casa, mas parou ao perceber a tensão.
Dante ergueu uma mão, pedindo que o irmão não se aproximasse.
— Eu sei — ele disse.
Isabela ficou imóvel.
— Sabe o quê?
Dante olhou para a mão dela sobre o ventre.
— Sobre o bebê.
A palavra pareceu atravessar a chuva e acertá-la com violência.
Isabela empalideceu ainda mais.
— Você mexeu nas minhas coisas.
— Você fugiu.
— E isso te dá direito de invadir meu banheiro?
— Não.
A resposta a surpreendeu.
Dante engoliu em seco.
— Não dá.
O rosto dela vacilou, mas logo endureceu de novo.
— Então por que fez?
— Porque eu estava com medo.
Isabela riu com amargura.
— Você? Medo?
— Sim.
A honestidade caiu entre eles como algo raro demais.
Dante deu um passo.
Ela recuou.
Ele parou imediatamente.
— Eu não vou te arrastar de volta — disse.
— Como posso acreditar?
— Não sei.
A resposta simples pareceu cansada.
Isabela respirava rápido. A chuva colava os cabelos ao rosto. Ela parecia pequena ali no quintal escuro, mas havia uma força nela que Dante reconhecia e temia.
— Você vai achar que eu fiz de propósito — ela disse.
Dante franziu a testa.
— O quê?
— A gravidez. Vai achar que eu tentei te prender como Helena.
O nome da ex no meio daquela frase fez algo dentro dele se partir.
— Não.
— Não minta.
— Eu não estou mentindo.
— Você disse que não confiava em mulheres que diziam amar quando precisavam de algo.
Dante fechou os olhos por um segundo.
As próprias palavras voltavam como condenação.
— Eu estava falando de Helena.
— Você sempre está falando dela, mesmo quando olha para mim.
Dante não teve resposta.
Porque, de alguma forma, era verdade.
Ele passara anos deixando o passado falar por ele. Agora o passado estava entre ele e Isabela, e dentro dela havia uma criança que não tinha culpa de nada.
— O bebê não é uma arma — Isabela disse, a voz falhando. — Não é vingança. Não é contrato. Não é herdeiro de conselho, nem manchete para sua família controlar. É meu filho.
Dante sentiu o peito apertar.
— Nosso filho.
Ela balançou a cabeça, os olhos cheios de lágrimas.
— Não se você transformar ele em posse.
O trovão estourou longe.
Dante deu outro passo, muito devagar.
— Eu não sei fazer isso direito.
Isabela ficou em silêncio.
— Eu não sei ser… — Ele parou, odiando a vulnerabilidade da palavra. — Eu não sei ser o homem que você espera.
— Eu não espero nada de você.
— Mentira.
A palavra saiu baixa.
Ela piscou.
— Você esperou que eu não te machucasse. Eu machuquei. Esperou que eu contasse a verdade. Eu escondi. Esperou que a noite entre nós significasse algo. Eu tratei como erro.
Isabela fechou os olhos, e uma lágrima se misturou à chuva.
Dante continuou:
— Você esperou o mínimo. Eu falhei até nisso.
O rosto dela se desfez por um segundo.
Foi suficiente para Dante quase atravessar a distância.
Mas então faróis acenderam na rua atrás deles.
Outro carro.
Isabela virou o rosto, assustada.
Dante também.
Um sedã escuro parou diante da casa. A janela baixou.
Helena.
— Que cena tocante — ela disse, protegida da chuva dentro do carro. — Quase dá para acreditar.
Dante sentiu uma fúria fria subir.
— Vá embora.
Helena sorriu.
— Não antes de parabenizar o casal. Afinal, parece que a história se repete.
Isabela deu um passo para trás.
Dante percebeu tarde demais.
Helena olhou diretamente para ela.
— Ele parece preocupado agora, não parece? Também parecia comigo. Até descobrir que uma criança atrapalha quando nasce da mulher errada.
— Cala a boca — Dante rosnou.
Isabela olhou para ele.
A dúvida voltou aos olhos dela.
Helena viu e atacou.
— Pergunte se ele não pensou, nem por um segundo, que você fez de propósito. Pergunte se quando segurou aquele teste ele não lembrou de mim.
Dante avançou na direção do carro.
— Eu disse para ir embora.
Helena não perdeu o sorriso.
— Você pode me expulsar de uma rua, Dante. Mas não pode expulsar o que eu deixei em você.
Isabela começou a se afastar pelo portão dos fundos.
Caio tentou alcançá-la.
— Isabela, espera.
Ela correu.
Dante virou-se.
— Isabela!
Ela saiu pela viela lateral atrás da casa, a mochila batendo contra o corpo, a chuva cegando seus passos.
Não pensava.
Só precisava sair dali.
Longe de Dante.
Longe de Helena.
Longe da história deles ameaçando engolir a vida que crescia dentro dela.
Na rua principal, viu um táxi parado em frente a uma pequena mercearia. Correu até ele.
— Por favor, me leve para a rodoviária.
O motorista olhou assustado para seu estado.
— Moça, está tudo bem?
— Por favor.
Ele abriu a porta.
Isabela entrou.
Dante chegou à esquina no momento em que o táxi arrancou.
A distância entre eles aumentou.
Ele correu até o SUV.
Caio entrou no banco do passageiro, encharcado.
— Não faça loucura.
Dante ligou o carro.
— Ela está em pânico.
— Eu sei.
— Helena fez isso.
Caio olhou para ele.
— Helena acendeu. Você deixou combustível espalhado.
Dante acelerou.
A chuva tornava a estrada estreita quase invisível. O táxi ia alguns carros à frente, descendo pela via que levava à rodoviária. Dante manteve distância, tentando não assustar Isabela ainda mais, mas não podia perdê-la.
No banco de trás do táxi, Isabela olhou pelo vidro traseiro.
Viu os faróis do SUV.
— Mais rápido — pediu.
— A pista está ruim — o motorista respondeu.
— Por favor.
O homem hesitou, mas acelerou um pouco.
O celular dela começou a tocar.
Dante.
Ela recusou.
Tocou de novo.
Recusou.
Mensagem:
**Eu não vou te levar à força. Só pare o carro. A estrada está perigosa.**
Isabela apertou o celular.
Outra mensagem:
**Por favor.**
A palavra a quebrou.
Dante Alencar não pedia por favor.
Ela olhou pela janela, lágrimas quentes misturadas ao frio da chuva.
— Moça? — o motorista chamou.
Um caminhão surgiu na curva contrária.
Os pneus do táxi passaram sobre uma lâmina d’água.
O carro perdeu aderência.
Isabela sentiu o mundo virar.
Houve um grito.
Um impacto.
Vidro.
Metal.
Escuridão.
No SUV, Dante viu o táxi rodar na pista.
— Não! — gritou.
O carro bateu contra a mureta lateral.
Dante freou com violência.
Saiu correndo antes mesmo que o SUV parasse por completo.
A chuva parecia cortar sua pele.
— Isabela!
Ela estava no banco de trás, caída de lado, sangue escorrendo da testa.
Os olhos entreabertos.
A mão ainda sobre a barriga.
Dante abriu a porta amassada com força desesperada.
— Isabela, olha para mim.
Ela piscou, confusa.
Os lábios se moveram.
A voz saiu quase inaudível.
— Meu bebê…
Dante sentiu algo dentro dele se romper.
— Eu estou aqui — disse, segurando o rosto dela com as mãos trêmulas. — Eu estou aqui.
Mas, enquanto as sirenes começavam a soar ao longe, Dante percebeu que talvez tivesse chegado tarde demais.
Fim do Capítulo 18
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CAPÍTULO 19
O ACIDENTE
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O som da chuva desapareceu.
Para Dante, o mundo inteiro se reduziu à respiração fraca de Isabela.
— Fica comigo — ele repetia. — Olha para mim, Isabela.
Ela tentava manter os olhos abertos, mas as pálpebras tremiam. O sangue na testa era pouco, talvez superficial, mas o medo de Dante não era racional. Não havia raciocínio quando a mulher que carregava seu filho estava presa dentro de um carro amassado, com a mão sobre o ventre e a voz quebrada pedindo pelo bebê.
Caio apareceu ao lado dele.
— A ambulância está chegando.
— Está demorando.
— Dante, respira.
— Não me diga para respirar.
Isabela soltou um gemido baixo.
Dante voltou toda a atenção para ela.
— Eu vou tirar você daqui.
— Não… — ela sussurrou.
— O quê?
— Não deixa… tirarem ele de mim.
A frase o destruiu.
Ele segurou a mão dela.
— Ninguém vai tirar nada de você. Eu prometo.
Os olhos dela encontraram os dele por uma fração de segundo.
Havia medo ali.
Medo dele.
Medo do mundo.
Dante queria arrancar cada pedaço daquele medo com as próprias mãos, mas sabia que parte dele carregava sua assinatura.
— Eu prometo — repetiu, mais baixo.
Quando os paramédicos chegaram, Dante tentou assumir o controle da cena como assumia tudo. Falou nomes de hospitais, exigiu equipe obstétrica, ligou para médicos particulares, ordenou que a rodovia fosse isolada.
Um paramédico precisou encará-lo com firmeza.
— Senhor, se quiser ajudá-la, dê espaço.
Dante quase reagiu.
Caio segurou seu braço.
— Dante.
Ele recuou.
Foi uma das coisas mais difíceis que já fizera.
Ver outras pessoas tocarem Isabela, colocarem colar cervical, examinarem sinais vitais, fazerem perguntas que ela mal conseguia responder.
— Quantas semanas? — a paramédica perguntou.
Isabela não conseguiu falar.
Dante respondeu, rouco:
— Poucas. Talvez quatro. Cinco.
A paramédica olhou para ele.
— O senhor é o pai?
A pergunta o atingiu de forma inesperada.
Pai.
A palavra que um dia ele quase teve e perdeu antes mesmo de saber se era real.
A palavra que agora surgia no meio da chuva, sangue e sirenes.
— Sou — respondeu.
A voz não falhou.
Mas algo dentro dele sim.
No hospital, tudo aconteceu rápido e lento ao mesmo tempo.
Isabela foi levada para exames. Dante tentou entrar. Foi impedido. Tentou ligar para o diretor do hospital. Caio arrancou o celular de sua mão.
— Pare.
Dante virou-se com fúria.
— Me devolve.
— Não. Você não vai resolver isso comprando portas.
— Ela está lá dentro.
— E os médicos estão fazendo o trabalho deles.
Dante passou as mãos pelos cabelos molhados. A camisa grudava no corpo, os sapatos deixavam marcas de água no chão branco do corredor. Ele parecia menos um bilionário e mais um homem despedaçado.
— Ela achou que eu tiraria o bebê dela — disse.
Caio ficou quieto.
— Ela achou isso de mim.
— Você quer que eu diga que ela estava louca?
Dante olhou para o irmão.
Caio sustentou o olhar.
— Porque eu não vou dizer.
Dante encostou na parede.
A fúria havia drenado, deixando apenas culpa.
— Eu nunca faria isso.
— Eu sei.
— Ela não sabe.
— Então, quando ela acordar, não grite. Não ordene. Não leve seguranças para a porta. Não fale de contrato. Seja só o homem que ela precisava que você fosse antes de fugir.
Dante riu sem humor.
— E que homem é esse?
— Um que não use medo para esconder amor.
Dante ficou imóvel.
— Eu não disse que…
— Não precisa. Sua cara no asfalto disse por você.
Antes que Dante pudesse responder, o médico apareceu.
Ele se levantou de imediato.
— Como ela está?
— A senhorita Isabela sofreu uma concussão leve e algumas escoriações. Vamos mantê-la em observação pelas próximas horas.
Dante respirou pela primeira vez.
— E a gravidez?
O médico foi cauteloso.
— Fizemos exames iniciais. Há sinais compatíveis com gestação muito recente. Por enquanto, não identificamos hemorragia significativa, mas é cedo para qualquer garantia absoluta. Vamos repetir exames e acompanhar.
— Ela está perdendo o bebê?
— Neste momento, não há indicação disso.
Dante fechou os olhos.
O alívio quase o derrubou.
— Posso vê-la?
— Por alguns minutos. Ela está sedada, mas pode acordar confusa.
Dante entrou no quarto como quem entra em território sagrado.
Isabela estava deitada, pálida, com um curativo pequeno na testa e os cabelos espalhados no travesseiro. Parecia frágil de um jeito que ela odiaria.
Ele se aproximou devagar.
Sentou-se ao lado da cama.
Não tocou nela imediatamente.
Tinha medo de não merecer.
Depois, com cuidado, segurou sua mão.
— Eu sinto muito — disse.
As palavras saíram baixas, inúteis, insuficientes.
— Eu sinto muito por ter feito você achar que precisava fugir de mim.
Isabela não respondeu.
Dante olhou para o ventre ainda plano sob o lençol.
— Eu não sei ser pai — confessou. — Não tive tempo de aprender da primeira vez. Talvez nem fosse para eu aprender. Talvez aquela história tenha me quebrado de um jeito que eu usei como desculpa para quebrar outras pessoas.
Ele engoliu em seco.
— Mas você… você não é Helena. E essa criança não é uma armadilha.
A mão de Isabela mexeu levemente sob a dele.
Dante levantou os olhos.
Ela estava acordando.
Os olhos dela abriram com dificuldade. Confusos. Assustados.
— Dante?
— Estou aqui.
Ela tentou se mexer.
— O bebê…
— Está aqui.
Lágrimas escorreram dos olhos dela.
— Eles disseram?
— Está tudo bem por enquanto. Os médicos vão acompanhar, mas você não está perdendo.
Isabela fechou os olhos, chorando em silêncio.
Dante segurou a mão dela com mais firmeza.
— Ninguém vai tirar ele de você.
Ela abriu os olhos.
A dor ali era maior que o acidente.
— Nem você?
Dante sentiu a pergunta como uma sentença.
— Nem eu.
Isabela olhou para a mão dele segurando a sua.
— Eu fugi porque achei que você fosse me odiar.
— Eu odiei não estar com você quando descobriu.
Ela piscou, surpresa.
Dante respirou fundo.
— Eu fiquei com medo. Depois fiquei com raiva porque era mais fácil. Mas não odiei você. Nem por um segundo.
A expressão dela quebrou.
— Você vai achar que eu planejei.
— Não.
— Dante…
— Não.
Ele se inclinou um pouco.
— Eu preciso que você ouça isso. Eu não acho que você tentou me prender. Não acho que você mentiu. Não acho que essa criança seja uma repetição do meu passado.
Isabela chorou mais.
— Então por que dói tanto?
Dante não soube responder.
A porta se abriu.
Caio entrou com o médico.
— Desculpa interromper, mas precisam fazer novos exames.
Dante soltou a mão dela com relutância.
Isabela agarrou seus dedos antes que ele se afastasse.
— Não deixa Helena chegar perto de mim.
O olhar dele endureceu.
— Nunca mais.
Havia promessa naquela frase.
Mas também havia perigo.
Quando Dante saiu do quarto, Helena estava no fim do corredor.
De vestido claro, cabelos impecáveis, expressão preocupada o bastante para enganar qualquer estranho.
Mas não Dante.
Ela sorriu.
— Como ela está?
Dante caminhou até ela devagar.
Cada passo era controle puro.
— Se você se aproximar de Isabela outra vez, eu destruo tudo o que ainda protege seu nome.
Helena ergueu o queixo.
— Você não faria isso.
Dante inclinou-se, a voz baixa.
— Você não faz ideia do que eu faria por ela agora.
O sorriso de Helena desapareceu.
Pela primeira vez, ela pareceu entender.
Isabela não era mais uma peça no jogo.
E Dante não estava mais jogando para vencer.
Estava jogando para não perdê-la.
Fim do Capítulo 19
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CAPÍTULO 20
VOCÊ CARREGA MEU FILHO
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Isabela acordou no meio da madrugada.
O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca do corredor que entrava pela fresta da porta. Por alguns segundos, não soube onde estava. Depois a dor leve na cabeça, o cheiro de hospital e o bip discreto do monitor trouxeram tudo de volta.
A fuga.
A chuva.
O táxi rodando na pista.
Dante abrindo a porta amassada.
**Meu bebê…**
A mão dela foi imediatamente ao ventre.
Ainda plano.
Ainda silencioso.
Ainda ali.
— Está tudo bem.
A voz veio do canto do quarto.
Isabela virou o rosto.
Dante estava sentado em uma poltrona próxima à janela, sem paletó, mangas dobradas, rosto cansado. Parecia não ter dormido. Havia olheiras sob os olhos e uma tensão quieta nos ombros.
Ele se levantou devagar.
— O médico veio há meia hora. Os exames continuam estáveis.
Ela respirou fundo, tentando controlar o choro.
— Você ficou.
— Sim.
— Por causa do bebê?
Dante parou ao lado da cama.
A pergunta feriu algo nele, mas Isabela estava cansada demais para proteger os sentimentos de ambos.
— Também — ele respondeu.
Ela fechou os olhos.
Claro.
Dante continuou:
— Mas não só.
Isabela abriu os olhos.
Ele parecia procurar palavras que nunca havia usado.
— Eu fiquei porque, quando vi aquele carro, por alguns segundos achei que tinha perdido você.
A voz dele falhou quase nada.
Mas falhou.
— E eu descobri que não sei o que fazer com um mundo onde você não responde quando eu digo seu nome.
Isabela sentiu o peito apertar.
— Não fala assim.
— Por quê?
— Porque eu não sei acreditar em você.
Dante assentiu lentamente.
— Eu sei.
— Você me usou.
— Sim.
A honestidade doeu.
— Você me escolheu para atingir meu pai.
— No começo, sim.
— Você tratou a noite entre nós como erro.
Dante fechou os olhos.
— Sim.
— Então não chega agora dizendo coisas bonitas porque quase me perdeu.
Ele respirou fundo.
— Não são bonitas. São atrasadas.
Isabela desviou o olhar.
Queria odiá-lo de forma simples.
Mas nada em Dante era simples.
— Eu estou com medo — ela confessou.
— De mim?
Ela olhou para ele.
— Também.
A palavra o atingiu visivelmente.
Dante se sentou na cadeira ao lado da cama, mantendo distância.
— Eu não vou levar você de volta à força.
Isabela o observou em silêncio.
— Não vou usar o contrato contra você por causa da gravidez. Não vou transformar essa criança em moeda com o conselho, com a imprensa ou com minha família. Não vou afastar você do bebê.
Ela queria acreditar.
Queria tanto que isso a assustou.
— E Helena?
O rosto dele endureceu.
— Helena não chegará perto de você.
— Ela sabe.
— Eu sei.
— Ela me ligou na casa da minha avó. Disse que você pensaria que eu fiz como ela.
Dante ficou imóvel.
— Ela falou isso?
Isabela assentiu.
— E eu acreditei porque uma parte de mim também pensou.
Dante olhou para as próprias mãos.
Por um instante, não havia CEO, bilionário, homem frio. Havia apenas alguém encarando o estrago que causara.
— Quando encontrei o teste — ele disse —, eu pensei em Helena.
Isabela fechou os olhos, ferida.
— Eu sabia.
— Pensei nela por um segundo. No passado. Na mentira. No acidente. Na forma como eu deixei aquilo definir o que eu esperava de qualquer mulher.
Ele ergueu o olhar.
— Depois pensei em você. Sozinha. Assustada. Achando que eu seria capaz de punir você por carregar meu filho.
A palavra dele pairou no quarto.
**Meu filho.**
Isabela levou a mão ao ventre.
Dante acompanhou o gesto com os olhos, e algo em sua expressão mudou.
Não era posse.
Era reverência.
— Você carrega meu filho — ele disse, a voz baixa. — Mas ele cresce dentro de você. Antes de ser meu herdeiro, antes de ser Alencar, antes de qualquer sobrenome, ele é uma vida que depende de você. E eu deveria ter entendido isso antes de qualquer outra coisa.
Isabela sentiu uma lágrima escapar.
Dante não tentou tocá-la.
Talvez por isso ela não se afastou.
— Eu não sei ser mãe — ela murmurou.
— Eu não sei ser pai.
Ela soltou uma risada fraca, molhada de choro.
— Ótimo começo.
O canto da boca dele se moveu, quase um sorriso.
— Péssimo.
O silêncio que veio depois foi mais calmo.
Não resolvido.
Mas calmo.
Isabela olhou para ele.
— O que vai acontecer agora?
— Você fica no hospital até os médicos liberarem.
— Depois?
Dante respirou fundo.
— Depois você escolhe.
Ela franziu a testa.
— Escolho?
— Se quer voltar para a mansão, eu levo você. Se quiser ir para outro lugar, eu garanto segurança sem invadir sua vida. Se quiser ficar perto do seu pai, providencio. Se quiser distância de mim…
A frase pareceu custar.
— Eu aceito.
Isabela ficou olhando para ele, procurando a armadilha.
— Você está desistindo do controle?
— Estou tentando.
— Não parece você.
— Talvez eu esteja cansado de ser só eu.
A vulnerabilidade daquela frase atravessou as defesas dela.
Antes que pudesse responder, a porta se abriu. Caio apareceu com dois cafés na mão e expressão de quem não sabia se entrava ou recuava.
— Trouxe isso porque ambos parecem cadáveres ricos.
Isabela quase sorriu.
Dante olhou para o irmão.
— Agora não.
— Na verdade, agora sim. Porque tem alguém lá fora querendo falar com você.
A tensão voltou imediatamente.
— Helena? — Isabela perguntou.
Caio balançou a cabeça.
— Ricardo.
Isabela tentou se sentar.
Dante se levantou para ajudá-la, mas parou antes de tocar. Ela percebeu. Depois de um segundo, assentiu. Ele ajeitou os travesseiros com cuidado.
— Meu pai está aqui?
— Veio em ambulância particular quando soube do acidente — Caio explicou. — Não deveria, mas vocês dois são igualmente teimosos.
Isabela ficou pálida.
— Ele sabe da gravidez?
Caio olhou para Dante.
Dante respondeu:
— Ainda não.
— Então preciso falar com ele.
Dante assentiu.
— Eu saio.
Ela o segurou pelo punho antes que ele se afastasse.
O gesto surpreendeu os dois.
— Fica — Isabela disse baixo.
Dante olhou para a mão dela em seu punho.
Depois para seu rosto.
— Tem certeza?
— Não.
A sinceridade quase o fez sorrir.
— Mas fica.
Caio saiu para chamar Ricardo.
Minutos depois, o pai de Isabela entrou em uma cadeira de rodas, acompanhado por uma enfermeira. O rosto dele estava tomado de preocupação.
— Filha.
Isabela abriu os braços, e Ricardo se aproximou o suficiente para segurá-la.
— Eu estou bem — ela disse, chorando.
— Você quase me matou.
— Eu sei.
Ricardo olhou para Dante.
O ar entre os dois mudou.
Havia uma história ali que Isabela ainda não conhecia por completo.
— Alencar — Ricardo disse.
— Monteiro.
Isabela segurou a mão do pai.
— Tem uma coisa que preciso contar.
Ricardo voltou os olhos para ela.
Isabela respirou fundo.
— Eu estou grávida.
O silêncio foi absoluto.
O rosto de Ricardo perdeu a cor. Depois seus olhos se encheram de lágrimas.
— Minha menina…
Ele tocou o rosto dela com cuidado.
— Você está bem? O bebê está bem?
— Por enquanto, sim.
Ricardo fechou os olhos, emocionado.
Dante observava em silêncio.
Então Ricardo olhou para ele.
A emoção deu lugar a algo mais duro.
— Se você fizer com ela o que acha que fizeram com você, Dante, eu juro que…
— Pai — Isabela interrompeu.
Mas Dante ergueu a mão.
— Deixe.
Ricardo respirava com dificuldade.
— Você me odeia há anos por uma mentira que nunca teve coragem de investigar até o fim.
Dante ficou imóvel.
— Não agora — disse.
— Agora sim. Porque minha filha está no meio disso. E agora meu neto também.
Isabela olhou de um para o outro.
— Que mentira?
Dante desviou o olhar.
Ricardo apertou a mão dela.
— Dante acha que eu ajudei Helena a esconder a traição.
— E não ajudou? — Dante perguntou, a voz fria de novo.
Ricardo encarou-o.
— Não. Eu tentei avisar seu pai.
O quarto pareceu inclinar.
Dante ficou completamente parado.
— O quê?
Ricardo respirou fundo, cansado.
— Na noite do acidente, eu estava indo encontrar sua família. Eu tinha provas de que Helena estava usando você. Mas alguém interceptou essa informação antes.
— Quem? — Dante perguntou.
Ricardo olhou para a porta.
Como se temesse que o nome convocasse um fantasma.
— Celina.
Dante empalideceu.
Isabela sentiu o coração acelerar.
A tia de Dante.
A mulher elegante que a observava como peça de tabuleiro.
— Por que ela faria isso? — Isabela sussurrou.
Ricardo fechou os olhos.
— Porque o casamento de Dante com Helena interessava ao conselho. E porque a verdade destruiria uma fusão bilionária.
Dante deu um passo para trás.
Por anos, ele havia odiado a pessoa errada.
Por anos, havia usado a dor como arma contra Isabela.
E agora a verdade chegava tarde demais, dentro de um quarto de hospital, diante da mulher que carregava seu filho.
Isabela olhou para Dante.
Ele parecia destruído.
Pela primeira vez, não havia máscara nenhuma.
Apenas um homem percebendo que sua vingança havia nascido de uma mentira.
E que a mulher que pagara o preço talvez fosse justamente a única que não merecia pagar.
Fim do Capítulo 20
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CAPÍTULO 21
De volta à mansão
Isabela acordou com o cheiro de antisséptico queimando no nariz.
Por alguns segundos, não soube onde estava. A luz branca do teto parecia forte demais, o lençol era áspero contra sua pele e havia um peso estranho no peito, como se alguém tivesse colocado uma pedra ali enquanto ela dormia.
Então a memória voltou.
A fuga.
A estrada molhada.
O farol vindo em sua direção.
O som do impacto.
E a voz de Dante, baixa, rouca, quase irreconhecível:
— Você carrega meu filho.
Isabela levou a mão ao ventre antes mesmo de abrir os olhos completamente.
— O bebê…
A voz saiu fraca.
Uma cadeira arrastou ao lado da cama.
— Está bem.
Ela virou o rosto.
Dante estava ali.
Não de terno. Não impecável como sempre. A camisa branca estava amassada, as mangas dobradas de qualquer jeito, a barba por fazer escurecia o maxilar. Havia olheiras sob os olhos dele. Profundas. Reais.
Por um instante, Isabela quase não o reconheceu.
Aquele não parecia o homem que controlava salas de reunião com uma palavra. Parecia alguém que havia perdido uma batalha silenciosa durante a madrugada.
— O médico confirmou — ele continuou. — O bebê está bem. Você também. Alguns hematomas, um corte no braço e muito susto.
Isabela fechou os olhos, sentindo uma onda de alívio tão intensa que quase virou choro.
Mas não chorou.
Não na frente dele.
— Como você soube? — perguntou.
Dante ficou em silêncio por um segundo.
— Do teste?
Ela abriu os olhos.
— Você mexeu nas minhas coisas.
— Eu encontrei no banheiro depois que você foi embora.
— Então mexeu.
O rosto dele endureceu.
— Você desapareceu grávida, no meio de uma tempestade, depois de um acidente emocional provocado por uma mentira. Eu deveria ter ficado sentado esperando uma ligação da polícia?
Isabela tentou se sentar, mas uma dor no corpo inteiro a obrigou a voltar contra o travesseiro.
Dante se levantou de imediato.
— Não se mexa.
— Não mande em mim.
— Por uma vez na vida, pare de transformar tudo em guerra.
— Você transformou minha vida em guerra.
A frase saiu antes que ela pudesse controlar.
Dante ficou imóvel.
Isabela viu o golpe acertar. Não porque ele demonstrou dor, mas porque o silêncio dele mudou.
Ficou mais pesado.
— Eu não sabia da gravidez — ele disse.
— Mas sabia de todo o resto.
— Isabela…
— Você me comprou com a dívida do meu pai. Me colocou numa casa que não era minha. Me fez sorrir para a sua família. Me obrigou a conviver com sua ex-noiva. E agora quer agir como se eu tivesse te traído por tentar respirar longe de você?
Dante passou a mão pelo rosto, um gesto raro de cansaço.
— Eu não quero discutir agora.
— Claro que não. Você só discute quando sabe que pode vencer.
Ele se aproximou da cama.
— Eu quase perdi vocês dois hoje.
A voz dele saiu baixa.
Tão baixa que Isabela sentiu algo dentro dela vacilar.
Vocês dois.
Não “a criança”. Não “meu herdeiro”.
Vocês dois.
Mas ela se lembrou da mensagem. Do desespero. Da sensação de estar cercada por mentiras.
— Você não pode perder o que nunca quis de verdade.
Dante sustentou seu olhar.
— Você não sabe o que eu quero.
— Sei que você quer controle.
— Queria.
A palavra, no passado, atravessou o quarto.
Isabela desviou o olhar primeiro.
O médico entrou minutos depois, acompanhado de uma enfermeira. Explicou tudo com calma: repouso, acompanhamento pré-natal, evitar estresse, retorno em poucos dias. Usou palavras técnicas. Disse que a gestação parecia inicial. Falou que o susto fora maior do que o dano.
Isabela escutou apenas uma coisa.
O bebê estava vivo.
Quando ficaram sozinhos outra vez, Dante pegou o paletó pendurado na cadeira.
— Você vai voltar para a mansão.
Ela riu sem humor.
— Eu acabei de sofrer um acidente fugindo de lá e essa é sua solução?
— Minha solução é manter você segura.
— A mansão não é segurança. É prisão com mármore.
— Então faremos diferente.
Isabela olhou para ele.
— Diferente como?
— Você terá sua própria ala. Equipe médica, motorista à disposição, liberdade para receber quem quiser. Não vou entrar no seu quarto sem ser convidado. Não vou tocar em você. Não vou forçar conversas.
Ela ficou em silêncio.
Dante continuou:
— Mas não vou deixar você sozinha em um apartamento qualquer, com Helena rondando e metade da minha família tentando descobrir como usar essa gravidez contra nós.
— Contra nós ou contra você?
— Contra o bebê.
A resposta a calou.
Pela primeira vez, ele não parecia preocupado com imagem. Parecia preocupado com algo pequeno demais para se defender.
Isabela levou a mão ao ventre.
— Eu não confio em você.
Dante assentiu devagar.
— Eu sei.
— Então por que acha que eu devo voltar?
Ele se aproximou, mas parou antes de chegar perto demais.
— Porque, mesmo que você me odeie, sabe que eu posso proteger vocês.
Ela quis negar.
Quis dizer que não precisava dele.
Mas o bebê em seu ventre mudava tudo.
Agora sua coragem precisava ser maior que seu orgulho.
— Eu volto — disse por fim. — Mas não por você.
Dante não sorriu.
— Eu sei.
— E não aceite isso como perdão.
— Não estou pedindo perdão.
Isabela o encarou.
— Ótimo.
Ele pegou a pasta com os documentos médicos.
— Ainda não.
Aquelas duas palavras ficaram no ar.
Ainda não.
Dessa vez, não soaram como arrogância.
Soaram como promessa.
Naquela noite, Isabela voltou à mansão Alencar em silêncio. O carro atravessou os portões altos, a fachada iluminada surgiu à frente e, por um instante, ela sentiu que estava entrando novamente na boca de um monstro.
Mas sua mão permanecia sobre o ventre.
Ela não estava mais sozinha.
E, quando Dante abriu a porta do carro e estendeu a mão para ajudá-la, Isabela olhou para ele por longos segundos antes de aceitar.
Os dedos dele fecharam ao redor dos dela com cuidado.
Cuidado demais para um homem que dizia não sentir.
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CAPÍTULO 22
A esposa intocável
A suíte que Dante mandou preparar para Isabela ficava no segundo andar, no extremo oposto ao quarto dele.
Era ampla, clara e absurdamente bonita. Havia flores brancas sobre a mesa, cortinas leves, uma poltrona perto da janela e uma cama enorme com lençóis impecáveis. A varanda dava para o jardim lateral, onde árvores altas escondiam parte da propriedade dos olhares externos.
Tudo era perfeito.
E, ainda assim, Isabela sentiu vontade de sair correndo.
Marta abriu a porta do closet.
— Suas roupas foram organizadas aqui. Mantivemos seus pertences pessoais exatamente como estavam nas malas. O senhor Alencar pediu que nada fosse descartado ou substituído sem sua autorização.
Isabela olhou para ela.
— Ele pediu isso?
— Sim.
A resposta a incomodou.
Preferia quando Dante era apenas cruel. Era mais fácil odiá-lo assim.
— Também há uma linha direta com a enfermaria no corredor — Marta continuou. — A doutora Lorena virá amanhã cedo para avaliá-la.
— Enfermaria?
— O senhor Alencar mandou adaptar uma sala no andar inferior.
Isabela fechou os olhos por um instante.
— Ele não sabe fazer nada em escala normal?
Marta sorriu de leve.
— Não, senhorita.
A sinceridade arrancou de Isabela uma risada pequena, inesperada. Durou pouco, mas foi o primeiro som leve que saiu dela em dias.
Depois que Marta saiu, Isabela ficou sozinha.
Caminhou pelo quarto devagar, tocando os móveis, as cortinas, a madeira fria da porta. Tudo tinha cheiro de novo. Nada ali carregava história. Nada era dela.
Ela tirou os sapatos e sentou-se na beira da cama.
O silêncio era grande demais.
Pouco depois, uma batida soou na porta.
O corpo dela se tensionou.
— Quem é?
— Dante.
A voz do outro lado da porta pareceu atravessar a madeira.
Isabela hesitou.
— O que você quer?
— Falar por dois minutos.
Ela quase recusou.
Mas precisava saber até onde iam as novas promessas dele.
— Entra.
A porta se abriu.
Dante ficou no limiar, como se esperasse permissão para cruzar.
Aquilo era novo.
— Posso? — perguntou.
Isabela ergueu as sobrancelhas.
— Você está mesmo pedindo autorização?
— Estou tentando aprender.
A resposta foi simples. Direta. Sem ironia.
E, por isso, perigosa.
Ela desviou o olhar.
— Pode entrar.
Dante entrou, mas manteve distância. Trazia um envelope nas mãos.
— Alterei o contrato.
Isabela sentiu o estômago se fechar.
— De novo?
— Removi cláusulas.
Ela olhou para ele, desconfiada.
Dante colocou o envelope sobre a mesa.
— Nenhuma regra de convivência será aplicada sem sua concordância por escrito. Sua suíte é sua. Ninguém entra aqui sem permissão. Nem eu. Especialmente eu.
Isabela se levantou devagar.
— Por quê?
— Porque você pediu limites.
— E desde quando você respeita limites?
O maxilar dele endureceu.
— Desde que percebi o que acontece quando eu não respeito.
A lembrança do acidente passou entre eles como um fantasma.
Isabela abaixou os olhos.
— Isso não apaga o que você fez.
— Eu sei.
— Então não aja como se uma folha nova consertasse tudo.
— Não estou consertando. Estou começando por onde deveria ter começado.
Ela caminhou até o envelope, mas não o abriu.
— Você sempre fala como se tudo fosse uma negociação.
— É o que eu sei fazer.
— Talvez esse seja o problema.
Dante não respondeu.
O silêncio entre eles era diferente agora. Antes, parecia duelo. Agora, parecia algo mais difícil: duas pessoas feridas tentando não tocar exatamente onde doía.
— A doutora virá amanhã — ele disse. — Você pode escolher outro médico se preferir.
— Posso?
— Pode.
— E se eu quiser sair?
— Me avise.
Ela riu baixo.
— Permissão disfarçada.
— Segurança combinada.
— Você tem resposta para tudo.
— Não para tudo.
A forma como ele olhou para o ventre dela fez Isabela perder a fala.
Havia medo ali.
Dante Alencar, o homem que parecia feito de gelo, estava com medo.
Ele desviou o olhar rapidamente, como se tivesse revelado demais.
— Boa noite, Isabela.
— Dante.
Ele parou na porta.
— Você… — ela hesitou, odiando a própria curiosidade. — Você quer esse bebê?
A pergunta mudou tudo.
O rosto dele ficou sério de uma maneira quase dolorosa.
— Quero.
A resposta veio sem pausa.
Sem cálculo.
Sem estratégia.
Isabela sentiu o peito apertar.
— Porque é seu herdeiro?
Dante respirou fundo.
— Porque é meu filho.
O silêncio que veio depois foi tão íntimo que ela precisou desviar o olhar.
— Boa noite — disse ela.
Dante saiu.
Isabela ficou parada por alguns segundos, encarando a porta fechada.
Uma parte dela queria acreditar que havia algo real naquele homem.
Outra parte, a parte que ainda lembrava de cada humilhação, sussurrava para não ser idiota.
Mais tarde, já deitada, ela ouviu passos no corredor.
Pararam diante de sua porta.
Nenhuma batida.
Nenhuma tentativa de entrar.
Apenas presença.
Como se Dante estivesse ali do outro lado, guardando distância, mas incapaz de ir embora.
Isabela fechou os olhos.
— Eu não vou me apaixonar por você — murmurou para o silêncio.
Do lado de fora, os passos se afastaram.
Mas ela não sabia que Dante havia ouvido.
E que, pela primeira vez em anos, aquela frase tinha doído mais do que qualquer ameaça.
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CAPÍTULO 23
O primeiro exame
A doutora Lorena chegou às oito da manhã.
Era uma mulher de fala calma, cabelos presos e olhar atento. Diferente dos funcionários da mansão, não parecia intimidada pelo sobrenome Alencar. Cumprimentou Dante com educação, mas tratou Isabela como a única pessoa realmente importante no quarto.
Isso fez Isabela gostar dela imediatamente.
— Antes de qualquer coisa — disse a médica, abrindo a maleta —, preciso deixar claro que a paciente é você. Tudo que for conversado aqui depende da sua autorização para ser compartilhado.
Dante, parado perto da janela, franziu levemente a testa.
Isabela quase sorriu.
— Gostei dela.
Lorena sorriu de volta.
— Ótimo começo.
Dante permaneceu em silêncio.
A consulta foi simples. Pressão, sinais vitais, perguntas sobre dor, enjoo, sangramento, sono, alimentação. Lorena falava com firmeza, mas sem pressa. Explicou que, por causa do acidente, Isabela deveria reduzir esforços por alguns dias e marcar uma ultrassonografia o quanto antes.
— Você tem se alimentado bem? — perguntou.
Isabela hesitou.
Dante respondeu antes dela:
— Não.
Ela lançou um olhar fulminante para ele.
— Eu sei responder.
— Então responda a verdade.
Lorena ergueu uma sobrancelha.
— Senhor Alencar, posso pedir que aguarde lá fora por alguns minutos?
Dante pareceu não gostar.
Isabela gostou muito.
— Claro — ela disse, antes que ele respondesse. — Excelente ideia.
Dante olhou para as duas, percebeu que havia perdido aquela batalha e saiu.
Quando a porta se fechou, Lorena puxou uma cadeira.
— Ele costuma ser assim?
— Insuportável?
— Eu ia dizer controlador.
— Também.
A médica anotou algo.
— Você se sente segura aqui?
A pergunta pegou Isabela desprevenida.
Não era uma pergunta médica comum.
Ou talvez fosse mais médica do que todas as outras.
— Fisicamente, sim.
Lorena percebeu o resto.
— E emocionalmente?
Isabela olhou para as próprias mãos.
— Eu não sei.
A sinceridade doeu.
— Posso pedir algo? — disse a médica. — Independentemente do que exista entre vocês, gravidez não é moeda de disputa. Nem escudo. Nem arma. Você precisa de paz.
Isabela riu baixinho, sem humor.
— Paz não combina muito com esta casa.
— Então crie um espaço onde combine.
Depois da consulta, Dante voltou ao quarto com uma expressão contida.
— E então?
Lorena fechou a pasta.
— Ela precisa descansar, comer melhor e evitar estresse. A ultrassonografia será marcada para amanhã. E, senhor Alencar, evitar estresse inclui não transformar cada conversa em interrogatório.
Isabela precisou morder o lábio para não rir.
Dante olhou para a médica.
— Entendido.
— Ótimo. Também recomendo que decisões sobre o bebê sejam conversadas, não impostas.
— Mais alguma recomendação? — ele perguntou, seco.
— Sim. Frutas, água e paciência.
Dante ficou imóvel.
Lorena sorriu.
— Principalmente paciência.
Quando ela saiu, Isabela finalmente riu.
Foi breve, mas verdadeiro.
Dante a encarou.
— Está se divertindo?
— Muito.
— Que bom que minha humilhação médica serviu para alguma coisa.
— Não foi humilhação. Foi orientação profissional.
Ele se aproximou da mesa onde Marta havia deixado uma bandeja de café da manhã. Havia frutas cortadas, pães, suco, chá e um prato pequeno com ovos mexidos.
Dante pegou a bandeja e colocou sobre uma mesa perto dela.
— Coma.
Isabela levantou os olhos.
— Isso parece muito com uma ordem.
Ele respirou fundo.
— Por favor, coma.
Ela quase não soube o que fazer com aquela palavra.
Por favor.
Vinda dele, parecia um idioma estrangeiro.
— Melhorou — disse.
Dante sentou-se na poltrona do outro lado do quarto.
— Estou tentando.
Isabela pegou uma fatia de mamão.
— Deve ser difícil para você.
— Você não faz ideia.
Ela o observou em silêncio.
— Por que Helena continua na sua vida?
A pergunta saiu antes que ela pudesse calcular.
Dante ficou sério.
— Porque nossas famílias têm vínculos empresariais antigos.
— Só isso?
— Hoje, sim.
— E antes?
Ele desviou o olhar.
— Antes, eu era mais jovem e mais burro.
Isabela não esperava aquilo.
— Você amou ela?
Dante demorou a responder.
— Achei que sim.
A resposta incomodou mais do que deveria.
— E ela?
— Amou o que eu podia oferecer.
Isabela ficou quieta.
Pela primeira vez, a frieza dele pareceu menos arrogância e mais cicatriz.
— Foi ela que mandou a mensagem? — perguntou.
Dante voltou a olhá-la.
— Sobre o filho?
Isabela assentiu.
— Foi.
— Era mentira?
— Sim.
— Como eu posso saber?
Ele não se ofendeu.
Talvez porque entendesse a pergunta.
— Porque nunca houve filho nenhum. E porque Helena sabe exatamente como ferir uma mulher quando quer expulsá-la de um lugar.
Isabela levou a mão ao ventre.
— Ela vai tentar me expulsar de novo.
Dante se levantou.
— Não vai conseguir.
— Você não pode controlar tudo.
— Posso controlar o acesso dela a esta casa.
— Então por que ela ainda entra?
O silêncio dele respondeu antes da voz.
— Porque existe algo que preciso descobrir.
Isabela sentiu o corpo gelar.
— Sobre ela?
— Sobre a família dela. E sobre a sua.
O ar pareceu diminuir no quarto.
— Meu pai?
Dante sustentou o olhar dela.
— Seu pai sabe mais sobre o passado dos Alencar do que admitiu.
Isabela lembrou da frase no hospital.
Dante tem motivos para odiar nossa família.
— Que passado? — perguntou.
Antes que Dante respondesse, o celular dele vibrou.
Ele olhou a tela.
A expressão mudou.
— O que foi? — Isabela perguntou.
Dante atendeu, ouviu por alguns segundos e ficou completamente imóvel.
— Quando? — perguntou.
Uma pausa.
— Não deixe ninguém tocar nesse arquivo.
Ele desligou.
— Dante?
Ele olhou para ela.
— Encontraram uma cópia de um documento antigo nos arquivos da empresa.
— Que documento?
A voz dele veio baixa.
— Um que tem a assinatura do seu pai.
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CAPÍTULO 24
Dante vê o ultrassom
A ultrassonografia foi marcada para a manhã seguinte.
Isabela não perguntou se Dante iria acompanhá-la. Não queria perguntar. Não queria dar a ele a chance de achar que sua presença era desejada.
Mas, quando desceu as escadas às nove, ele já estava no hall.
Terno escuro. Expressão séria. Mãos nos bolsos.
Como se tivesse passado a noite esperando aquele momento.
— Vou com você — disse.
Isabela parou no último degrau.
— Isso foi uma informação ou uma tentativa de ordem?
— Um pedido mal formulado.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você está evoluindo.
— Lentamente, pelo que parece.
A resposta quase arrancou um sorriso dela.
Quase.
No carro, o silêncio entre os dois foi diferente. Não confortável. Ainda havia tensão demais, perguntas demais, mágoas demais. Mas também havia algo novo, algo que nenhum dos dois sabia nomear.
Expectativa.
Na clínica, foram atendidos rapidamente. Dante havia reservado horário com uma das melhores obstetras da cidade, mas, para surpresa de Isabela, não tentou atropelar as decisões. Assinou onde precisava assinar, respondeu quando era chamado e ficou quieto quando a médica falou com ela.
Quando entraram na sala do exame, Isabela sentiu o nervosismo subir.
Era cedo. Muito cedo. Ainda assim, a ideia de ver qualquer sinal de vida dentro dela parecia grande demais.
Ela se deitou, levantou a blusa e sentiu o gel frio no abdômen.
Dante ficou ao lado da maca.
Rígido.
Quase pálido.
Isabela olhou para ele.
— Você está bem?
— Sim.
— Não parece.
— Estou bem.
A médica sorriu, passando o aparelho com delicadeza.
— Pais de primeira viagem costumam mentir muito nessa parte.
Isabela teria rido, se não estivesse prendendo a respiração.
A tela acendeu em tons de cinza.
No começo, ela não entendeu nada. Sombras, formas, movimentos mínimos. A médica ajustou a imagem, aproximou um ponto específico e então sorriu.
— Aqui está.
Isabela parou de respirar.
— Esse…?
— Esse é o saco gestacional. E aqui temos um embriãozinho bem pequeno.
Embriãozinho.
A palavra atravessou Isabela com uma força absurda.
Lágrimas encheram seus olhos antes que ela pudesse impedir.
Dante se inclinou quase imperceptivelmente para a tela.
A médica ajustou mais uma vez.
— Vamos tentar ouvir.
Um som rápido preencheu a sala.
Tum-tum-tum-tum-tum.
Pequeno.
Acelerado.
Vivo.
Isabela levou a mão à boca.
Dante ficou imóvel.
Completamente imóvel.
Mas sua mão, apoiada na lateral da maca, fechou-se com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— É o coração? — ele perguntou.
A voz dele estava diferente.
Rouca.
Desprotegida.
— É — respondeu a médica. — Forte e dentro do esperado.
Isabela olhou para Dante.
E viu.
Não um CEO. Não um homem frio. Não o marido contratual.
Viu um homem sendo atingido por algo maior do que ele.
Dante encarava a tela como se o mundo inteiro tivesse sido reduzido àquele som.
Tum-tum-tum-tum-tum.
Por instinto, Isabela estendeu a mão.
Não pensou. Apenas fez.
Seus dedos tocaram os dele.
Dante olhou para baixo, surpreso.
Ela também.
Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.
Então ele segurou sua mão.
Com cuidado.
Como se tivesse medo de quebrá-la.
Isabela deixou.
Não por perdão.
Não por amor.
Talvez porque, naquele instante, havia uma vida entre os dois que não tinha culpa de nada.
A médica terminou o exame, imprimiu as imagens e explicou os próximos passos. Vitaminas, exames de sangue, repouso relativo. Tudo parecia muito concreto de repente.
No corredor da clínica, Dante parou diante de uma janela.
Isabela guardava a imagem do ultrassom dentro da bolsa como se fosse o documento mais valioso do mundo.
— Posso ver? — ele perguntou.
Ela hesitou.
Depois entregou uma das cópias.
Dante segurou o papel com as duas mãos.
O gesto era tão estranho nele que doeu.
— É minúsculo — ele disse.
— É.
— E já tem batimento.
— Tem.
Dante ficou olhando para a imagem.
— Eu não tive isso.
Isabela franziu a testa.
— Isso o quê?
Ele pareceu se arrepender de ter falado.
Mas continuou, olhando para o papel.
— Meu pai morreu antes de me ver assumir qualquer coisa importante. Minha mãe adoeceu logo depois. A casa dos Alencar sempre teve muita gente, muitos negócios, muita obrigação. Mas família… não muita.
Isabela não sabia o que dizer.
Dante dobrou a imagem com cuidado, mas não a devolveu.
— Posso ficar com esta?
Ela assentiu.
— Pode.
Os olhos dele encontraram os dela.
— Obrigado.
A palavra soou simples.
E, por isso, mais perigosa que qualquer ameaça.
De volta à mansão, Isabela subiu para o quarto e encontrou uma caixa pequena sobre a cama. Dentro havia um porta-retrato de prata, vazio, com espaço para a imagem do ultrassom.
Não havia bilhete.
Não precisava.
Ela desceu horas depois para buscar água e parou ao passar pelo escritório entreaberto.
Dante estava sozinho, sentado à mesa, olhando para a cópia do ultrassom.
A imagem estava apoiada contra o notebook.
Ele não trabalhava.
Não falava ao telefone.
Apenas olhava.
Isabela sentiu algo dentro dela amolecer.
Então o telefone da casa tocou.
Marta atendeu no corredor, falou baixo e empalideceu.
— Senhor Alencar… é a senhora Helena. Ela está no portão e diz que trouxe documentos sobre a criança.
Dante levantou a cabeça.
Isabela sentiu o chão fugir sob seus pés.
Helena havia descoberto.
E, pela expressão de Dante, isso significava que a guerra tinha acabado de começar.
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CAPÍTULO 25
Helena arma o golpe final
— Ela não entra.
A voz de Dante saiu tão fria que Marta apenas assentiu.
Isabela, parada no corredor, ainda tentava entender como Helena havia descoberto sobre a gravidez tão rápido.
Dante pegou o celular.
— Reforce a segurança do portão. Ninguém da família Vasconcelos pisa nesta casa sem minha autorização.
Ele desligou e olhou para Marta.
— Se ela insistir, chame a polícia.
Marta saiu imediatamente.
Isabela cruzou os braços.
— Você acha mesmo que isso resolve?
— Resolve por hoje.
— Helena não veio até aqui para entregar flores.
— Eu sei.
— Então quero ver os documentos.
Dante se virou para ela.
— Não.
A palavra reacendeu tudo que Isabela tentava controlar.
— Não?
— Você acabou de sair de um exame. A médica pediu repouso e menos estresse.
— E você acha que esconder coisas de mim diminui meu estresse?
Dante respirou fundo.
— Isabela…
— Não. Eu estou grávida, não inválida. Se tem algo envolvendo meu filho, eu quero saber.
Meu filho.
A expressão dele mudou ao ouvir aquilo. Como se a posse dela sobre a criança o lembrasse de que ele não mandava em tudo.
— Tudo bem — disse por fim.
Meia hora depois, Caio chegou à mansão com um envelope pardo nas mãos.
Ao contrário do irmão, Caio parecia incapaz de carregar drama sem misturar ironia.
— Antes que alguém grite comigo, eu só trouxe porque a doida da Helena jogou isso pela janela do carro e quase acertou o segurança.
Isabela arregalou os olhos.
— Ela jogou?
Caio deu de ombros.
— Com estilo. Se o inferno tiver marketing, ela vira diretora.
Dante pegou o envelope.
— Saia, Caio.
— Também te amo, irmão.
— Agora.
Caio olhou para Isabela, mais sério.
— Se precisar de uma testemunha menos insuportável, estou pela casa.
Quando ele saiu, Dante abriu o envelope.
Dentro havia cópias de documentos antigos, recortes de jornal e uma folha recente, digitada, sem assinatura.
Isabela viu o nome do pai antes de qualquer outra coisa.
Ricardo Monteiro.
O coração dela falhou.
— Me dá isso.
Dante não entregou.
Ela puxou os papéis da mão dele.
Leu rápido. Depois mais devagar. E então o mundo começou a se desfazer em partes.
Havia um documento de quinze anos atrás. Um parecer financeiro. Nele, Ricardo Monteiro confirmava irregularidades atribuídas a Augusto Alencar, pai de Dante. Segundo as cópias, aquela declaração havia sido usada para afastar Augusto da presidência do grupo dias antes de sua morte.
Isabela sentiu a boca secar.
— Isso não prova nada.
Dante estava muito quieto.
Quieto demais.
— Foi esse documento que destruiu meu pai — ele disse.
— Meu pai não faria isso.
— Ele assinou.
— Então deve ter uma explicação.
Dante soltou uma risada sem humor.
— Sempre existe uma explicação quando a culpa bate à porta dos outros.
Ela ergueu os olhos.
— Não fale assim comigo.
— Você queria ver os documentos.
— Eu queria a verdade.
— A verdade costuma ser menos confortável.
Isabela olhou novamente para os papéis. Entre as cópias havia uma anotação manuscrita.
**Ela precisa saber com quem está dormindo. E ele precisa lembrar de quem está colocando dentro da própria casa. — H.**
O rosto dela queimou.
— Ela quer isso — Isabela disse. — Quer que a gente se destrua.
— Talvez esteja apenas mostrando o que você deveria saber.
A frase a atingiu.
— Você acha que eu sabia?
Dante não respondeu rápido o bastante.
Isabela recuou um passo.
— Você acha mesmo que eu sabia?
— Seu pai nunca contou nada?
— Não.
— Nem quando te entregou a mim?
— Não.
— Conveniente.
A palavra foi cruel.
Isabela sentiu os olhos arderem.
— Você prometeu tentar fazer diferente.
O rosto dele endureceu, mas havia dor ali também.
— E você prometeu que não mentiria.
— Eu não menti!
O grito ecoou pelo escritório.
Por um instante, Isabela levou a mão ao ventre, assustada com a própria explosão.
Dante percebeu. Toda a raiva dele vacilou.
— Sente-se.
— Não manda em mim.
— Então, por favor, sente-se.
Ela odiou o quanto aquilo a desarmou.
Mas não sentou.
— Eu vou falar com meu pai.
— Agora não.
— Agora.
— Ele está se recuperando.
— E eu estou descobrindo que posso ter sido usada por todos os homens da minha vida.
A frase fez Dante ficar imóvel.
Isabela pegou a bolsa.
— Não venha atrás de mim.
— Vou mandar Augusto dirigir.
Ela se virou para recusar, mas a expressão dele a fez parar.
Não era controle naquele momento.
Era medo.
— Tudo bem — ela disse.
No hospital, Ricardo estava acordado quando Isabela entrou.
Ele soube antes mesmo que ela falasse.
Talvez pela expressão dela.
Talvez porque culpados sempre reconheçam o som da verdade chegando.
— Helena mandou os documentos — disse Isabela.
Ricardo fechou os olhos.
Ela sentiu a resposta atravessar o peito.
— Então é verdade.
— Filha…
— Você assinou aquilo?
Ele abriu os olhos lentamente.
— Assinei.
O mundo ficou sem ar.
Isabela deu um passo para trás.
— Você ajudou a destruir a família dele?
Ricardo começou a chorar.
E aquela foi a primeira vez que Isabela teve medo de ouvir a verdade inteira.
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CAPÍTULO 26
O passado entre as famílias
— Eu não destruí Augusto Alencar — Ricardo disse.
A voz dele era fraca, mas a frase saiu com um desespero firme, quase urgente.
Isabela ficou parada ao lado da cama, com os documentos apertados contra o peito.
— Você assinou uma acusação falsa.
— Sim.
A resposta, direta, doeu mais.
— Então destruiu.
Ricardo levou a mão ao rosto.
— Eu era diretor financeiro da holding secundária dos Alencar. Na época, o grupo estava se preparando para uma fusão enorme. Havia gente demais querendo aquela cadeira. Gente poderosa demais.
— A família Vasconcelos?
Ele olhou para ela.
O silêncio confirmou.
— Álvaro Vasconcelos era sócio estratégico do grupo. Helena era adolescente ainda, mas o pai dela já se movia como dono de tudo. Ele descobriu uma fraude interna, uma fraude criada por ele mesmo, e precisava de alguém para assinar a versão oficial.
Isabela sentiu náusea.
— E esse alguém foi você.
— Ele ameaçou sua mãe.
A frase caiu no quarto como um objeto pesado.
Isabela ficou imóvel.
— Não use minha mãe.
— Eu não estou usando. Estou confessando.
Ricardo respirou com dificuldade.
— Sua mãe estava em tratamento. Caro, experimental. Eu não tinha mais dinheiro. Álvaro ofereceu pagar tudo se eu assinasse. Quando recusei, ele disse que o tratamento seria interrompido e que eu seria acusado junto com Augusto. Eu fui covarde.
Isabela sentiu os olhos encherem.
— Mãe sabia?
— Não.
— Dante sabe?
Ricardo balançou a cabeça.
— Dante sabe que eu assinei. Sabe que o documento ajudou a afastar o pai dele. Mas não sabe que Álvaro era o verdadeiro responsável.
— Por que você nunca contou?
Ricardo chorou em silêncio.
— Porque depois do escândalo, Augusto tentou expor tudo. Naquela noite, ele sofreu o acidente.
Isabela levou a mão à boca.
— Você está dizendo que…
— Não sei se foi acidente. Nunca consegui provar. Mas sei que Augusto tinha marcado uma reunião comigo. Ele disse que sabia a verdade. Disse que podia limpar o nome dele e destruir os Vasconcelos. Morreu antes de chegar.
O quarto pareceu girar.
Dante tinha perdido o pai. A mãe. A fé em qualquer tipo de lealdade.
E o nome Monteiro estava no documento que iniciou tudo.
Isabela sentou-se na cadeira, sem forças.
— Meu Deus.
— Eu guardei cópias — Ricardo disse. — Provas parciais. Transferências. E-mails antigos. Um áudio.
Ela ergueu o rosto.
— Onde?
— Em um cofre.
— Por que não entregou antes?
— Medo.
A palavra saiu pequena.
Humana.
Patética.
— Medo de quê?
— De Álvaro. De Dante. De você descobrir quem eu era. De perder o pouco que restou de respeito nos seus olhos.
Isabela sentiu uma lágrima descer.
— Você perdeu mais escondendo.
Ricardo fechou os olhos.
— Eu sei.
Ela se levantou.
— Me dá o endereço do cofre.
— Isabela, isso é perigoso.
— Perigoso foi me entregar a um homem que me odiava sem me contar por quê.
A frase feriu os dois.
Ricardo anotou o endereço com mão trêmula e entregou a ela.
— Tem uma senha.
— Qual?
Ele hesitou.
— O aniversário da sua mãe.
Isabela fechou os dedos ao redor do papel.
— Você deveria ter contado a verdade antes.
— Eu sei.
— Não para se salvar. Para salvar a mim.
Ela saiu antes que a própria dor a fizesse voltar para abraçá-lo.
No corredor, encontrou Dante.
Ele estava parado perto da porta, como se tivesse chegado havia pouco.
Mas a expressão dele dizia outra coisa.
— Você ouviu? — ela perguntou.
— O suficiente.
O coração dela falhou.
— Dante…
— Álvaro Vasconcelos.
A voz dele não tinha emoção.
E isso era pior.
— Meu pai disse que tem provas.
— Onde?
Isabela apertou o papel na mão.
— Eu vou buscar.
— Nós vamos.
Ela hesitou.
— Você não confia em mim.
Dante olhou para ela.
— Não é sobre confiança.
— É sempre sobre confiança.
Ele se aproximou.
— Se seu pai está dizendo a verdade, Helena acabou de atacar você para proteger o próprio pai. Isso significa que ela pode tentar impedir que essas provas apareçam.
— Eu sei.
— Então não vá sozinha.
Isabela queria recusar.
Mas estava cansada de lutar contra o óbvio.
— Tudo bem.
No carro, nenhum dos dois falou.
O endereço levava a uma agência bancária antiga no centro. O cofre estava em nome de uma empresa já encerrada. Ricardo havia mantido o aluguel por anos, em segredo.
Quando a caixa metálica foi aberta, Isabela sentiu um arrepio.
Dentro havia um pen drive, envelopes com cópias de transferências e uma foto antiga.
Dante pegou a foto.
Nela, seu pai Augusto aparecia ao lado de Ricardo e de Álvaro Vasconcelos, todos sorrindo em um evento empresarial.
Dante encarou a imagem como se estivesse vendo um fantasma.
— Meu pai confiava nele — disse.
Isabela não sabia se ele falava de Ricardo ou de Álvaro.
Talvez dos dois.
Quando Dante pegou o pen drive, uma mensagem chegou ao celular de Isabela.
Número desconhecido.
**Você deveria ter deixado os mortos enterrados. Agora seu bebê vai pagar pela curiosidade.**
O sangue dela gelou.
Dante viu a expressão em seu rosto.
— O que foi?
Ela entregou o celular a ele.
Dante leu.
E, pela primeira vez, Isabela viu o gelo se transformar em fúria.
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CAPÍTULO 27
A mentira do pai de Isabela
Dante não disse uma palavra durante todo o caminho de volta.
Mas o silêncio dele gritava.
Isabela estava no banco traseiro, uma das mãos sobre o ventre e a outra fechada em punho. A mensagem ainda parecia queimar na tela do celular.
**Agora seu bebê vai pagar.**
Não havia mais espaço para dúvidas.
Helena não estava apenas tentando humilhá-la.
Estava ameaçando.
E Dante, ao seu lado, parecia prestes a destruir o mundo com as próprias mãos.
Quando chegaram à mansão, Caio já esperava no hall.
— Recebi sua mensagem — disse ele, sem ironia dessa vez. — O que aconteceu?
Dante entregou o pen drive.
— Mande copiar tudo, em três lugares diferentes. Quero perícia digital, autenticação e rastreamento da mensagem que Isabela recebeu.
Caio pegou o objeto.
— E Helena?
— Ninguém chega perto dela ainda.
Isabela franziu a testa.
— Como assim ainda?
Dante olhou para ela.
— Se eu agir agora sem provas completas, Álvaro enterra tudo de novo.
— Ele ameaçou nosso filho.
— E por isso eu não vou errar.
Nosso filho.
Dessa vez, nenhum dos dois corrigiu.
Caio saiu rapidamente.
Isabela subiu para o quarto, mas não conseguiu ficar lá. As paredes pareciam se aproximar. O bebê, o passado, o pai, a ameaça, Dante. Tudo se misturava dentro dela.
Minutos depois, desceu até a biblioteca.
Precisava de silêncio.
Encontrou Dante lá.
Ele estava diante da lareira apagada, segurando a foto antiga do pai.
Isabela quase voltou.
Mas ele falou sem se virar:
— Minha mãe nunca acreditou que meu pai fosse culpado.
Ela parou.
— Dante…
— Eu tinha dezoito anos quando ele morreu. Lembro dela na sala, segurando jornal atrás de jornal, dizendo que aquilo era mentira. Eu achava que era luto. Que ela precisava acreditar nele para sobreviver.
Isabela sentiu a dor na voz dele, mesmo quando ele tentava escondê-la.
— Depois ela adoeceu?
— Primeiro ela desistiu. A doença veio depois.
Ele virou a foto nas mãos.
— Eu prometi a mim mesmo que nunca dependeria de ninguém. Nunca confiaria em ninguém o suficiente para ser destruído por uma assinatura.
O peito de Isabela apertou.
— E então eu apareci com o mesmo sobrenome do homem que assinou.
Dante olhou para ela.
— Sim.
A honestidade doeu, mas era melhor que mentira.
— Foi por vingança? — perguntou ela. — O contrato?
Dante demorou.
Demorou demais.
— No começo, sim.
Isabela sentiu como se o ar tivesse sido arrancado.
Mesmo suspeitando, ouvir era outra coisa.
— Você me escolheu para punir meu pai.
— Eu escolhi seu sobrenome.
— Eu vinha junto.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
— Você me olhou, viu uma pessoa, e mesmo assim decidiu me usar.
— Eu não queria ver uma pessoa.
A frase foi quase uma confissão.
— Isso não melhora nada.
— Não era para melhorar.
Isabela riu sem humor, sentindo as lágrimas subirem.
— Eu estava começando a achar que talvez existisse algo diferente em você.
Dante deu um passo em sua direção.
— Existe.
— Não.
Ela recuou.
— Existe culpa. Existe desejo. Existe essa obsessão de proteger agora que eu carrego seu filho. Mas não confunda isso com sentimento.
— Você não sabe o que eu sinto.
— E você sabe?
A pergunta o calou.
Isabela enxugou uma lágrima antes que ela caísse.
— Meu pai mentiu para mim. Você me usou. Helena me ameaça. Eu estou grávida no meio de uma guerra que começou antes de eu nascer. Então me desculpa se eu não tenho energia para descobrir se o homem que me comprou está aprendendo a sentir alguma coisa.
Dante parecia ferido.
Mas Isabela não podia cuidar da dor dele enquanto a dela sangrava.
— Eu vou ficar aqui enquanto for necessário para proteger o bebê — disse. — Mas entre nós, Dante, não existe nada.
Ele sustentou o olhar dela.
— Isso é mentira.
A voz dele saiu baixa.
Ela odiou o quanto o corpo dela reagiu.
— Talvez — respondeu. — Mas é a mentira que eu preciso para sobreviver.
Isabela saiu da biblioteca.
No quarto, encontrou uma mensagem de seu pai.
**Filha, preciso te contar o resto. Eu não assinei só o parecer.**
O coração dela parou.
Outra mensagem chegou.
**Eu também escondi uma cláusula no primeiro contrato com Dante. Uma cláusula sobre a guarda do bebê.**
Isabela leu uma vez.
Duas.
Três.
Então tudo dentro dela congelou.
Guarda do bebê.
Ela desceu as escadas correndo, com o celular na mão.
Dante estava no hall.
— O que aconteceu?
Isabela ergueu o aparelho.
— Você ia tirar meu filho de mim?
A pergunta atravessou a mansão como um tiro.
E o silêncio de Dante foi a pior resposta possível.
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CAPÍTULO 28
Dante se sente traído
— Responde.
Isabela mal reconheceu a própria voz.
Dante olhava para o celular na mão dela, depois para seu rosto. Pela primeira vez desde que ela o conhecera, parecia verdadeiramente pego de surpresa.
— Que cláusula? — perguntou.
Ela riu, sem humor, com os olhos cheios de lágrimas.
— Não faz isso.
— Isabela, eu não sei do que você está falando.
— Meu pai disse que havia uma cláusula no primeiro contrato. Sobre a guarda do bebê.
— Não existia bebê quando o contrato foi assinado.
— Mas existia a possibilidade, não existia?
Dante ficou imóvel.
Aquele segundo de hesitação destruiu qualquer defesa.
— Meu advogado colocou uma cláusula padrão de sucessão familiar — ele disse.
— Padrão?
— Em caso de filhos durante o contrato, a criança seria reconhecida como Alencar e teria proteção patrimonial.
— Proteção patrimonial ou controle?
— Não era sobre guarda.
— Então por que meu pai disse isso?
Dante estendeu a mão.
— Me deixe ver a mensagem.
— Não.
— Isabela.
— Você não toca no meu celular, não toca nos meus documentos e não toca no meu filho.
A última frase atingiu Dante em cheio.
O rosto dele fechou.
— Nosso filho.
— Meu corpo. Minha gestação. Meu filho.
— Eu sou o pai.
— Você é o homem que me escolheu por vingança.
Dante deu um passo para trás, como se a frase tivesse força física.
Nesse momento, Caio entrou apressado pelo hall.
— Dante, temos um problema.
— Agora não — Dante rosnou.
— Agora sim.
Caio olhou para Isabela, depois para o irmão.
— O pen drive foi adulterado.
Isabela gelou.
— Como assim?
— Tem arquivos verdadeiros e arquivos inseridos recentemente. Alguém montou um pacote para parecer prova completa, mas colocou informação falsa no meio.
Dante virou-se lentamente para Isabela.
Ela entendeu antes que ele falasse.
— Não — disse.
— Quem teve acesso ao cofre? — Dante perguntou.
A voz dele era baixa.
Perigosa.
— Meu pai.
— E você.
Isabela sentiu o sangue fugir do rosto.
— Você acha que eu adulterei as provas?
— Eu estou perguntando.
— Não, você está acusando.
Caio tentou intervir:
— Dante, calma. A adulteração pode ter sido feita antes.
— Ou depois que o endereço saiu do hospital.
Isabela olhou para Dante como se não o reconhecesse.
Todo o cuidado, toda a fragilidade do ultrassom, toda a promessa silenciosa parecia ruir em segundos.
Era isso que ele fazia.
Voltava sempre para a desconfiança.
— Você nunca vai confiar em mim — ela sussurrou.
Dante passou a mão pelo cabelo.
— Você recebeu uma mensagem do seu pai falando de uma cláusula que eu desconheço no mesmo dia em que descobrimos provas adulteradas. Como espera que eu reaja?
— Como alguém que diz querer proteger a mãe do próprio filho.
Ele fechou os olhos.
— Eu preciso pensar.
— Não. Você precisa escolher.
Dante abriu os olhos.
— Escolher o quê?
— Se eu sou sua aliada ou mais uma Monteiro para você punir.
O silêncio respondeu.
Isabela deu um sorriso triste.
— Entendi.
Ela subiu as escadas.
Dante foi atrás.
— Não saia desta casa com raiva.
— Você não manda mais em mim.
— Não é seguro.
Ela parou no meio da escada.
— Seguro? Você é o perigo mais constante da minha vida.
Dante empalideceu.
Isabela continuou subindo.
No quarto, trancou a porta e começou a colocar roupas em uma mala pequena. Não muitas. Só o suficiente.
As mãos tremiam.
O ventre parecia pesado, mesmo ainda quase plano.
Ela não podia ficar ali. Não naquela casa onde cada gesto virava prova contra ela, onde amor e controle tinham o mesmo tom de voz.
Bateram na porta.
— Isabela.
Dante.
Ela não respondeu.
— Abra a porta.
— Vai embora.
— Não vou.
— Então fique aí fora. Você é bom nisso.
Silêncio.
Depois, a voz dele veio mais baixa.
— Eu não acredito que você adulterou nada.
Ela parou com uma blusa nas mãos.
— Agora?
— Eu fiquei com medo.
Isabela fechou os olhos.
— Medo não te dá o direito de me ferir sempre no mesmo lugar.
— Eu sei.
— Não sabe. Se soubesse, não faria de novo.
Ele encostou a testa na porta do lado de fora.
— Não vá.
Aquelas duas palavras quase a quebraram.
Não eram uma ordem.
Eram um pedido.
Mas Isabela já havia aprendido que, com Dante, até pedidos podiam virar correntes se ela deixasse.
— Eu preciso respirar.
— Eu vou com você.
— Não.
— Augusto leva você.
— Eu não quero motorista, segurança ou sombra sua.
— Isabela, por favor.
Ela abriu a porta.
Dante estava ali, tão perto que ela quase bateu contra ele.
Os olhos dele desceram para a mala.
— Não faça isso.
— Eu não estou fugindo do bebê. Não estou fugindo das provas. Estou fugindo de você.
Ele ficou imóvel.
— Por quanto tempo?
— Até eu conseguir lembrar quem eu sou longe do seu medo.
Dante parecia querer dizer algo.
Algo grande.
Algo que talvez mudasse tudo.
Mas Caio apareceu no corredor antes.
— Dante. Rastreamos a mensagem. Ela não saiu do celular do Ricardo.
Isabela parou.
Dante virou-se.
— De onde saiu?
Caio respirou fundo.
— De um aparelho registrado no nome de Helena Vasconcelos.
O mundo ficou em silêncio.
Dante olhou para Isabela.
Tarde demais.
A confiança, aquela coisa frágil que talvez estivesse começando a nascer, já tinha sido esmagada.
— Isabela…
Ela pegou a mala.
— Agora você acredita em mim.
Passou por ele sem esperar resposta.
— Que pena que eu precisei provar.
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CAPÍTULO 29
Isabela vai embora de novo
Dessa vez, Isabela não correu.
Não entrou em um carro sob chuva. Não deixou o desespero guiar suas mãos. Não fugiu como quem escapa de um incêndio.
Ela saiu pela porta da frente.
De cabeça erguida.
Com uma mala pequena em uma mão e a outra protegendo o ventre.
Dante veio atrás, mas parou antes dos degraus da entrada.
Talvez porque soubesse que, se insistisse, se transformaria exatamente no monstro que ela acusava.
— Para onde você vai? — perguntou.
— Para um lugar onde eu consiga pensar.
— Posso ao menos saber se você estará segura?
Ela olhou para ele.
A pergunta parecia sincera.
Isso doeu.
— Vou para o apartamento da Laura.
Dante conhecia o nome. Laura era amiga de faculdade de Isabela, a única pessoa que ela havia conseguido manter por perto depois que a vida virou contrato.
— Vou mandar segurança ficar na rua.
— Não.
— Isabela…
— Você pode reforçar a segurança do prédio sem me seguir até a porta. Faça isso se precisar dormir. Mas não me coloque em uma vitrine.
Dante assentiu, derrotado.
— Tudo bem.
Tudo bem.
Outra palavra que parecia nova na boca dele.
Augusto a levou, a pedido dela e por insistência silenciosa do bebê. Isabela não tinha orgulho suficiente para arriscar a própria segurança de novo. Mas se sentou no banco de trás sem olhar para a mansão quando o carro partiu.
Se olhasse, talvez voltasse.
E ela não podia voltar para um homem que ainda a machucava antes de confiar.
Laura abriu a porta do apartamento de moletom, coque bagunçado e uma expressão que misturava sono e pânico.
— Pelo amor de Deus, você está grávida, casada com um bilionário psicopata e só me avisa agora?
Isabela largou a mala no chão.
— Oi para você também.
Laura a puxou para um abraço forte.
Foi ali que Isabela chorou.
Não no hospital. Não diante de Dante. Não diante do pai.
No abraço da amiga, ela finalmente se permitiu quebrar.
— Eu não sei o que fazer — confessou.
Laura a levou até o sofá.
— Primeiro você senta. Segundo você bebe água. Terceiro eu xingo todo mundo por você.
Isabela riu entre as lágrimas.
— Senti falta disso.
— De água?
— De alguém do meu lado sem contrato envolvido.
Laura ficou séria.
— Eu estou do seu lado. Sempre.
Durante horas, Isabela contou quase tudo. O contrato, Helena, a gravidez, o acidente, o ultrassom, as provas, a desconfiança de Dante. Laura ouviu com olhos arregalados, interrompendo apenas para insultar alguém ou buscar mais chá.
Quando Isabela terminou, o céu já estava escuro.
— Posso falar uma coisa que talvez você não goste? — Laura perguntou.
— Depois de tudo isso, acho que aguento.
— Dante é problemático. Muito. Mas ele parece… envolvido.
Isabela olhou para a xícara.
— Envolvimento não basta.
— Eu sei.
— Ele me quer perto quando está com medo. Me protege quando acha que sou dele. Mas quando a dor antiga aparece, ele me coloca do outro lado da sala, junto com todos os culpados.
Laura suspirou.
— Então ele precisa se curar antes de querer te amar.
A palavra amor fez Isabela apertar a xícara.
— Ele não me ama.
— Eu não falei que ama. Falei que ele quer. Tem diferença.
Isabela não respondeu.
Mais tarde, quando foi se deitar no quarto de hóspedes, encontrou o celular cheio de mensagens.
Dante não havia mandado dezenas. Apenas três.
**Laura confirmou que você chegou. Não vou incomodar.**
**A segurança do prédio foi reforçada de forma discreta.**
**O exame de amanhã continua marcado. Irei apenas se você permitir.**
Isabela sentiu o peito apertar.
Permitir.
Ele estava aprendendo a palavra mais difícil.
Ela digitou, apagou, digitou de novo.
Por fim, respondeu:
**Eu vou sozinha.**
A resposta veio minutos depois.
**Tudo bem.**
Dessa vez, ela chorou em silêncio.
Na manhã seguinte, foi ao exame com Laura. O bebê estava bem. Isabela comprou vitaminas, passou na padaria, tentou viver uma manhã comum.
Ao voltar para o apartamento, encontrou um envelope sem remetente sob a porta.
Laura pegou antes dela.
— Nem pensar. Eu abro.
Dentro havia uma foto.
Dante e Helena, juntos, entrando em um prédio comercial naquela manhã.
No verso, uma frase escrita à mão:
**Ele sempre volta para onde pertence.**
Isabela sentiu o estômago revirar.
O celular vibrou.
Era Caio.
**Não acredite em nada que chegar até você hoje. Helena está montando uma armadilha. Dante foi encontrar Álvaro.**
Antes que Isabela pudesse responder, outra mensagem apareceu.
Desta vez, de Dante.
**Preciso te ver. Descobri a verdade sobre a cláusula. Seu pai não mentiu. Mas eu também não sabia de tudo.**
Isabela leu a frase com o coração disparado.
A porta do apartamento tremeu com três batidas fortes.
Laura arregalou os olhos.
— Você está esperando alguém?
Isabela balançou a cabeça.
Outra batida.
Mais forte.
E então uma voz feminina, doce e venenosa, veio do corredor.
— Abra, Isabela. Está na hora de conversarmos como duas mulheres que carregam segredos de Dante Alencar.
Helena.
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CAPÍTULO 30
O bilionário de joelhos
Laura pegou o celular imediatamente.
— Eu vou chamar a polícia.
Isabela segurou o braço dela.
— Espera.
— Esperar? Tem uma vilã de novela psicótica na minha porta.
— Justamente por isso. Se ela veio pessoalmente, quer alguma coisa.
Do outro lado, Helena riu.
— Eu sei que você está aí. E sei que sua amiga está com medo. Não se preocupe, querida. Eu não vim machucar ninguém. Ainda.
Laura sussurrou:
— Essa mulher precisa de terapia e tornozeleira eletrônica.
Isabela respirou fundo.
Abriu a porta apenas com a corrente presa.
Helena estava impecável. Vestido claro, cabelo loiro perfeitamente alinhado, óculos escuros na mão. Parecia ter saído de uma reunião de luxo, não de uma ameaça.
— O que você quer? — Isabela perguntou.
Helena sorriu.
— Te oferecer a única chance de sair disso com dignidade.
— Engraçado. Dignidade não combina com você.
O sorriso de Helena vacilou.
— Você aprendeu a responder. Que pena que ainda não aprendeu a vencer.
— Vencer o quê?
Helena se aproximou um pouco da fresta.
— Dante não ama. Ele possui. Hoje ele te protege porque você está grávida. Amanhã ele te tranca em uma mansão com advogados e sobrenome suficiente para transformar você em visita na vida do próprio filho.
Isabela sentiu a frase tocar seu medo mais profundo.
— Foi você que falsificou a mensagem do meu pai.
Helena inclinou a cabeça.
— Eu apenas acelerei uma verdade.
— Que verdade?
— A cláusula existia. Não com as palavras que você imagina, talvez. Mas existia. O contrato dizia que qualquer criança nascida durante a união teria residência principal definida pelo conselho familiar Alencar em caso de separação antes do prazo.
O coração de Isabela afundou.
— Você está mentindo.
— Gostaria de estar.
Helena tirou um papel da bolsa e passou pela fresta.
Isabela não pegou.
Laura pegou com um guardanapo, como se o documento tivesse veneno.
— Dante não leu tudo — Helena continuou. — Homens como ele assinam o que seus advogados garantem ser seguro. Mas segurança, na família Alencar, sempre significa posse.
Isabela sentiu a respiração falhar.
Aquela era a verdade que Dante dizia ter descoberto.
Ele talvez não soubesse.
Mas o contrato sabia.
E contratos tinham sido a arma preferida dele desde o começo.
— Por que está me contando isso? — Isabela perguntou.
Helena tirou os óculos escuros, revelando olhos frios.
— Porque eu quero Dante longe de você. E porque meu pai quer as provas que Ricardo escondeu. Entregue tudo, desapareça e eu garanto que você cria essa criança em paz.
— Você não garante nem a própria mentira.
O rosto de Helena endureceu.
— Cuidado, Isabela. Mulheres como você sempre acham que amor muda homens como Dante. Não muda. Só dá a eles uma razão mais bonita para destruir.
Isabela fechou a porta.
As pernas quase falharam.
Laura trancou tudo.
— Eu liguei para o porteiro. Ela já saiu. E mandei mensagem para o Caio.
Isabela pegou o papel.
A cópia parecia real.
A cláusula estava ali.
Fria.
Jurídica.
Absurda.
Residência principal da criança vinculada ao núcleo familiar Alencar em caso de dissolução antecipada por descumprimento contratual.
Ela levou a mão ao ventre.
— Eu não posso deixar eles tirarem meu bebê de mim.
— Ninguém vai tirar — Laura disse.
Mas a voz dela tremia.
Meia hora depois, Dante chegou.
Não com seguranças invadindo o prédio. Não com ordens. Não com arrogância.
Ele veio sozinho.
Laura abriu a porta com expressão assassina.
— Se você fizer ela chorar, eu juro que jogo café quente em você.
Dante assentiu.
— Justo.
Isabela estava na sala, segurando a cópia da cláusula.
Quando o viu, levantou-se.
— Você sabia?
Dante olhou para o papel.
— Descobri hoje.
— Não foi isso que eu perguntei.
Ele sustentou o olhar dela.
— Eu não sabia que estava no contrato final. Meu advogado incluiu a pedido do conselho. Quando revisei, foquei nas dívidas, prazos e imagem pública. Não havia bebê. Eu não procurei essa parte porque não imaginava que fosse existir.
— Mas assinou.
— Assinei.
A honestidade não salvava.
Só impedia outra mentira.
Isabela sentiu as lágrimas subirem.
— Tudo ao seu redor vira uma jaula. Até quando você não percebe.
Dante deu um passo, mas parou quando ela recuou.
— Eu já mandei anular a cláusula.
— Mandou?
— Sim. E registrei um termo renunciando qualquer tentativa unilateral de guarda, residência ou afastamento seu do bebê.
Ela piscou, surpresa.
— O quê?
Dante tirou uma pasta fina de dentro do paletó e colocou sobre a mesa.
— Está assinado. Reconhecido digitalmente. Meus advogados vão protocolar amanhã. Caio também tem cópias.
Isabela olhou para o documento.
Suas mãos tremiam.
— Por que está fazendo isso?
Dante respirou fundo.
— Porque eu não quero que você fique por medo.
A frase entrou nela devagar.
Dolorosa.
— E quer que eu fique por quê?
Ele pareceu perder o chão por um segundo.
Dante Alencar, o homem das respostas afiadas, ficou sem defesa.
Então fez algo que Isabela jamais imaginou.
Ajoelhou-se diante dela.
Laura, na cozinha, soltou um palavrão baixo.
Isabela ficou imóvel.
Dante olhou para cima.
Não havia teatro em seu rosto. Nem cálculo. Nem orgulho.
Só um homem quebrado o bastante para finalmente entender o tamanho do estrago.
— Eu comecei isso por vingança — ele disse. — Escolhi seu nome antes de enxergar você. Usei sua dor, usei sua família e chamei de acordo porque era mais fácil do que admitir crueldade.
Isabela não conseguia respirar.
— Dante…
— Mas eu não estou mais naquele dia. E sei que isso não apaga nada. Sei que talvez você nunca me perdoe. Mas eu preciso que saiba: eu não vou tirar seu filho de você. Eu não vou usar a gravidez para prender você. E, se for preciso escolher entre o império Alencar e a segurança de vocês dois, eu escolho vocês.
As lágrimas desceram pelo rosto dela.
— Você diz isso agora.
— Eu provo amanhã, depois de amanhã e quantas vezes forem necessárias.
Ela olhou para o homem ajoelhado à sua frente.
O bilionário que todos temiam.
O CEO que comprava empresas, arruinava inimigos e controlava qualquer sala.
Ali, no apartamento simples de sua amiga, ele parecia apenas Dante.
E isso era o mais perigoso.
Porque Isabela poderia resistir ao CEO.
Mas talvez não soubesse resistir ao homem.
— Eu não posso voltar com você — ela sussurrou.
A dor atravessou o rosto dele, mas ele assentiu.
— Eu sei.
— Ainda não.
Dante fechou os olhos por um instante.
Aquelas duas palavras, que um dia haviam sido ameaça na boca dele, agora eram limite na boca dela.
— Eu vou esperar — disse.
Isabela quase acreditou.
Então o celular de Dante tocou.
Ele atendeu sem se levantar.
A voz de Caio veio alta o bastante para todos ouvirem.
— Dante, temos um problema. Helena sumiu. E o pai dela acabou de convocar uma reunião extraordinária do conselho para amanhã cedo.
Dante levantou devagar.
O CEO voltou aos olhos dele.
Mas agora havia algo mais.
Uma promessa.
Ele olhou para Isabela.
— Eles vão tentar me tirar da presidência.
— Por causa das provas?
— Por causa de você.
Isabela sentiu o sangue gelar.
Dante guardou o celular.
— Amanhã, Álvaro Vasconcelos vai descobrir que ameaçar minha família foi o maior erro da vida dele.
E, pela primeira vez, Isabela não se perguntou se fazia parte da família Alencar.
Perguntou-se apenas quanto custaria sobreviver a ela.
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CAPÍTULO 31
ELE CONFESSA O QUE SENTE
Isabela não voltou para a mansão naquela noite.
Depois de deixar Dante parado no meio da sala, com os olhos cheios de uma dor que ela jamais imaginou ver nele, pediu a Augusto que a levasse para o antigo apartamento de sua mãe, um imóvel pequeno que Ricardo mantivera fechado por anos.
O lugar cheirava a madeira antiga, lençóis guardados e lembranças que doíam.
Não havia luxo.
Não havia mármore frio, funcionários silenciosos ou câmeras nos portões.
Só havia silêncio.
E naquele silêncio, Isabela chorou.
Chorou pelo pai, por tudo que ele escondera. Chorou por Dante, por descobrir que parte do ódio dele vinha de uma tragédia mal explicada. Chorou por si mesma, por ter se apaixonado pelo homem que jurou nunca entregar seu coração.
Porque agora ela sabia.
Não adiantava negar.
Ela amava Dante Alencar.
Amava o homem frio que aos poucos aprendera a tocar sua barriga com cuidado. O homem arrogante que perdia a compostura quando ela ameaçava desaparecer. O homem ferido que escondia a dor atrás de contratos, regras e comandos.
E justamente por amá-lo, não sabia se podia continuar.
Na manhã seguinte, Isabela acordou com batidas na porta.
Não eram fortes.
Eram firmes.
Ela colocou uma das mãos sobre a barriga, levantou-se com dificuldade e caminhou até a entrada.
Quando abriu, encontrou Dante.
Ele não estava de terno.
Usava camisa escura, sem gravata, o rosto marcado por uma noite mal dormida. Os cabelos estavam desalinhados de um jeito que o deixava menos intocável. Menos CEO. Mais homem.
— Como me encontrou? — ela perguntou.
— Eu sempre vou encontrar você.
Isabela cansou de fingir raiva.
— Isso deveria me assustar?
— Talvez. Mas hoje eu não vim para te levar à força.
Ela o observou, desconfiada.
Dante respirou fundo.
— Vim pedir para você me ouvir.
A frase pareceu estranha saindo da boca dele.
Pedir.
Não ordenar.
Isabela abriu a porta um pouco mais, mas não se afastou.
— Cinco minutos.
Dante assentiu.
Entrou no apartamento e olhou ao redor. Havia algo quase deslocado nele, como se aquele espaço simples revelasse uma parte da vida dela que ele nunca havia tentado conhecer de verdade.
— Era da minha mãe — Isabela disse.
— Eu sei.
— Claro que sabe.
Ele aceitou a acusação em silêncio.
Isabela cruzou os braços.
— Fale.
Dante ficou diante dela.
Por alguns segundos, não conseguiu.
Aquele era um homem acostumado a discursos, reuniões milionárias, decisões capazes de mover empresas inteiras. Mas diante dela, naquele apartamento silencioso, parecia perdido.
— Eu odiei sua família por anos — ele começou. — Quando meu pai morreu, eu precisava culpar alguém. Seu pai estava lá. Ele era sócio, amigo, conselheiro. Para mim, isso significava que ele sabia de tudo.
Isabela engoliu em seco.
— E sabia?
— Não como eu pensei.
— Então por que me envolveu nisso?
Dante fechou os olhos por um instante.
— Porque quando vi seu nome entre os documentos da empresa Monteiro, pensei que era uma chance de recuperar o controle.
— Controle sobre quê?
— Sobre a dor.
A resposta desmontou algo dentro dela.
Dante continuou:
— Eu disse a mim mesmo que era apenas estratégia. Que seu sobrenome ajudaria o conselho. Que sua imagem seria útil. Que eu podia usar aquele casamento como qualquer outro acordo. Mas a verdade é que eu queria punir alguém.
Isabela sentiu os olhos arderem.
— E eu paguei por isso.
— Sim.
Ele não tentou se defender.
Talvez fosse isso que mais doesse.
— Eu machuquei você — Dante disse. — Te humilhei. Usei sua família, sua culpa, seu medo. Transformei ajuda em prisão. E mesmo depois que percebi que você era a única coisa viva dentro daquela casa, continuei fingindo que não sentia nada.
Isabela desviou o olhar.
— Por quê?
A voz dele saiu mais baixa.
— Porque sentir por você me deixava vulnerável.
— E isso é tão terrível assim?
Dante se aproximou um passo.
— Para mim, era. Até eu entender que o pior não era amar você. Era imaginar uma vida em que você me olhasse como olhou ontem. Como se eu fosse igual a tudo que te feriu.
Isabela apertou os lábios.
Dante tirou algo do bolso.
Era o contrato.
O contrato de casamento.
O mesmo que começara tudo.
Ele o abriu diante dela.
Depois rasgou a primeira página.
Isabela ficou imóvel.
— O que você está fazendo?
Dante rasgou outra.
E outra.
O som do papel se rompendo preencheu o apartamento.
— Acabando com a única coisa que me mantinha perto de você sem precisar admitir a verdade.
Ele deixou os pedaços caírem sobre a mesa.
— Você está livre, Isabela.
Ela sentiu o coração falhar.
— Dante…
— Livre de mim, se é isso que quiser. Livre da minha casa, do meu nome, das minhas regras. As dívidas da sua família continuarão pagas. Seu pai continuará assistido. Nada muda para ele.
Ela o encarou, atordoada.
— Por quê?
Dante sustentou o olhar dela.
E, pela primeira vez, não havia arrogância.
Só verdade.
— Porque eu amo você.
Isabela ficou sem ar.
As palavras chegaram simples.
Sem ornamento.
Sem defesa.
Mas carregavam o peso de tudo que ele jamais conseguiu dizer.
— Eu amo você — ele repetiu, como se precisasse enfrentar a própria sentença. — Amo sua coragem, sua raiva, sua teimosia, o jeito como você me desafia quando todos me obedecem. Amo o modo como protege quem ama, mesmo quando isso te quebra por dentro. Amo o nosso filho antes mesmo de conhecê-lo. E odeio ter demorado tanto para entender que amar você não me enfraqueceu. Me tornou humano outra vez.
Isabela levou a mão à boca.
As lágrimas caíram antes que ela pudesse impedir.
Dante não se aproximou.
Não tocou nela.
Apenas ficou ali, oferecendo a única coisa que nunca oferecera: escolha.
— Eu não estou pedindo que volte hoje — ele disse. — Nem que me perdoe agora. Só estou pedindo a chance de provar, sem contrato, que eu posso ser o homem que você e nosso filho merecem.
Isabela olhou para os pedaços de papel sobre a mesa.
Depois para Dante.
— Eu não sei se consigo confiar em você.
A dor passou pelo rosto dele.
— Eu sei.
— Você me feriu muito.
— Eu sei.
— E eu não quero voltar a ser uma peça no seu mundo.
— Então me ensine a construir outro.
A frase atingiu Isabela em cheio.
Por um segundo, ela viu diante de si não o bilionário implacável, não o homem que a comprara em uma sala sufocante, mas alguém disposto a derrubar o próprio império para não perdê-la.
Ela deu um passo em direção a ele.
Dante prendeu a respiração.
Isabela tocou o peito dele com a ponta dos dedos.
— Eu preciso de tempo.
Ele assentiu, mesmo com os olhos dizendo que aquilo doía.
— Eu espero.
— E se eu decidir não voltar?
Dante fechou a mão sobre a dela, com delicadeza.
— Então eu vou amar você de longe. Mas nunca vou usar nosso filho para te prender.
Isabela fechou os olhos.
Por um momento, deixou a testa encostar no peito dele.
Dante ficou imóvel, como se aquele pequeno gesto fosse mais precioso do que qualquer vitória que já tivera.
Mas antes que qualquer um dos dois dissesse algo, o celular dele tocou.
Dante olhou para a tela.
Seu rosto endureceu.
— O que foi? — Isabela perguntou.
Ele atendeu sem tirar os olhos dela.
— Fale.
A voz do outro lado era urgente, alta o bastante para Isabela ouvir fragmentos.
Hospital.
Ricardo.
Interrogatório.
Helena.
Dante desligou.
— Seu pai sumiu do hospital.
O chão pareceu desaparecer sob os pés de Isabela.
— O quê?
Dante segurou sua mão.
— E Helena foi a última pessoa vista entrando no quarto dele.
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CAPÍTULO 32
A AMEAÇA CONTRA ISABELA
Isabela esqueceu o tempo que havia pedido.
Esqueceu a mágoa, o orgulho, o medo de confiar.
No instante em que ouviu o nome de Helena ligado ao desaparecimento do pai, agarrou a bolsa e saiu do apartamento antes mesmo de Dante terminar de falar com a segurança.
O caminho até o hospital pareceu infinito.
Dante dirigia com o maxilar travado, uma das mãos no volante e a outra segurando o celular, dando ordens curtas para homens que Isabela não conseguia ouvir. A voz dele era controlada, mas ela conhecia aquele controle. Era o tipo que vinha antes de algo quebrar.
— Ela machucou meu pai? — Isabela perguntou, a voz falhando.
— Ainda não sabemos.
— Não fala assim.
Dante olhou para ela rapidamente.
— Vou encontrá-lo.
— Você promete?
Ele sustentou o olhar dela por um segundo.
— Prometo.
Isabela quis acreditar.
Quando chegaram ao hospital, Augusto já os aguardava na entrada. O rosto normalmente calmo do motorista estava tenso.
— As câmeras do corredor foram apagadas por dezessete minutos — ele informou.
Dante parou.
— Apagadas?
— Sim, senhor. Mas conseguimos uma gravação externa da saída de serviço. Ricardo Monteiro saiu em uma cadeira de rodas, acompanhado por uma mulher loira usando máscara.
Isabela sentiu náusea.
— Helena.
Dante olhou para Augusto.
— Para onde?
— Um carro sem placa saiu pela lateral. Estamos rastreando pelas câmeras da rua.
Isabela levou a mão à barriga, tentando respirar.
— Por que ela faria isso?
Dante não respondeu.
Mas ela viu a resposta no rosto dele.
Helena não queria apenas provocar.
Queria destruir.
Dentro do quarto vazio de Ricardo, Isabela encontrou a cama arrumada, os remédios sobre a mesa lateral e um único objeto fora do lugar.
Um envelope branco.
Seu nome estava escrito na frente.
Com mãos trêmulas, ela abriu.
Dentro havia uma foto antiga.
Ricardo, mais jovem, ao lado de Álvaro Alencar, pai de Dante. Atrás deles, uma mulher que Isabela não reconheceu.
No verso da foto, uma frase:
**Seu pai sabe quem realmente matou Álvaro. E Dante vai odiar você quando descobrir.**
Isabela entregou a foto a Dante.
Ele olhou.
Todo o sangue pareceu fugir do rosto dele.
— Quem é essa mulher? — ela perguntou.
Dante ficou em silêncio tempo demais.
— Minha mãe.
Isabela gelou.
— Sua mãe?
Ele apertou a foto com força.
— Ela morreu três meses depois do meu pai.
— Eu sinto muito.
Dante não pareceu ouvir.
Os olhos dele estavam presos ao passado.
— Meu pai caiu de uma sacada durante uma discussão. Foi tratado como acidente. Depois surgiram documentos provando desvio de dinheiro e traição empresarial. Seu pai foi apontado como o último homem que falou com ele antes da queda.
— Meu pai nunca mataria alguém.
— Eu sei disso agora.
— Mas Helena quer fazer você acreditar no contrário.
Dante ergueu os olhos.
— Não. Ela quer me fazer acreditar que seu pai sabe algo pior.
O celular de Isabela vibrou.
Número desconhecido.
Uma mensagem de vídeo.
Ela hesitou.
Dante pegou o telefone dela e abriu.
A imagem tremida mostrava Ricardo sentado em uma cadeira, pálido, mas consciente. Estava em uma sala escura, com as mãos amarradas.
Isabela soltou um grito sufocado.
Então a câmera se virou.
Helena apareceu.
Perfeitamente maquiada.
Sorrindo.
— Olá, Isabela — disse ela no vídeo. — Desculpe interromper seu momento romântico com Dante. Imagino que ele tenha feito alguma cena patética de arrependimento. Homens culpados ficam tão previsíveis.
Dante ficou imóvel ao lado dela, mas Isabela sentiu a fúria que emanava dele.
Helena continuou:
— Seu pai sabe a verdade sobre a noite em que Álvaro Alencar morreu. E essa verdade vale mais do que qualquer empresa, qualquer contrato e qualquer bebê que você esteja carregando.
Isabela levou a mão à barriga instintivamente.
O sorriso de Helena aumentou.
— Sim, eu sei. Todo mundo sabe agora. Afinal, um herdeiro Alencar é uma notícia difícil de esconder.
Dante murmurou algo baixo, uma ameaça que Isabela não conseguiu entender.
— Se quiser seu pai de volta — Helena disse — venha sozinha ao endereço que vou enviar. Sem polícia. Sem seguranças. Sem Dante. Caso contrário, Ricardo Monteiro vai contar sua última verdade para uma sala vazia.
O vídeo terminou.
Isabela ficou paralisada.
Segundos depois, chegou uma localização.
Dante pegou o celular dela.
— Você não vai.
— É meu pai.
— Exatamente por isso você não vai.
— Dante, ela está com ele!
— E quer você também.
— Eu não posso ficar parada.
— Você está grávida.
— E sou filha.
A discussão explodiu entre eles como fogo em pólvora.
Dante deu um passo à frente.
— Helena está tentando te atrair. Não é sobre Ricardo. É sobre você.
— E se ela matá-lo?
— Eu tenho homens suficientes para cercar o lugar.
— Ela disse sem polícia, sem seguranças.
— E você pretende obedecer uma mulher que sequestrou seu pai?
— Eu pretendo salvar ele!
A voz dela ecoou pelo quarto.
Dante ficou em silêncio.
Isabela tremia. Não de medo apenas. De impotência.
— Você não entende — ela disse, com lágrimas nos olhos. — Meu pai errou. Escondeu coisas. Me colocou nesse contrato. Mas ele é tudo que eu tenho da minha vida antes de você. Antes dessa casa, dessa família, desse passado que todo mundo usa como arma. Eu não posso perdê-lo.
Dante se aproximou lentamente.
— Eu entendo mais do que você imagina.
Ela respirou fundo, tentando se acalmar.
— Então me deixa ir.
— Não.
— Dante—
— Eu perdi meu pai sem poder fazer nada. Não vou perder você fazendo a mesma coisa.
A frase a atingiu.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos.
— Escuta. Eu vou buscar Ricardo. Eu vou descobrir a verdade. Mas você precisa ficar segura.
— Eu não confio nos seus planos quando o assunto é controlar minha vida.
— Então confie nisso.
Dante abaixou a cabeça e tocou a testa na dela.
— Eu amo você. E amar você significa não deixar que sua coragem te coloque na mira de uma louca.
Isabela fechou os olhos.
Queria ceder.
Queria acreditar que ele resolveria tudo.
Mas então pensou no pai amarrado. No rosto pálido. Na voz de Helena.
E soube que não conseguiria esperar.
Dante recebeu outra ligação e se afastou para atender.
Foi o suficiente.
Isabela olhou para Augusto, que estava na porta.
Ele percebeu antes que ela dissesse qualquer coisa.
— Senhorita…
— Me dê a chave de um carro.
— O senhor Dante me mataria.
— Meu pai pode morrer antes.
Augusto hesitou.
Era leal a Dante.
Mas havia algo no olhar de Isabela que fez sua resistência ruir.
— Três ruas atrás há um carro de apoio — ele disse baixo. — Cinza. Placa final 72. A chave está no quebra-sol.
Isabela apertou o braço dele.
— Obrigada.
Saiu antes que Dante se virasse.
Quando ele percebeu, já era tarde.
Isabela atravessava o corredor do hospital com o coração disparado e a mão protegendo a barriga.
Seu celular vibrou.
Mensagem de Dante.
**Não faça isso.**
Ela engoliu o choro.
Digitou apenas:
**Eu preciso.**
Ao chegar ao carro, uma nova mensagem apareceu.
Dessa vez, de Helena.
**Boa menina. Venha conhecer a verdade.**
Isabela entrou no veículo.
Ligou o motor.
E seguiu para o endereço.
Sozinha.
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CAPÍTULO 33
DANTE ESCOLHE O AMOR
Dante nunca sentira medo daquele jeito.
Conhecia o medo como lembrança antiga. O grito da mãe ao receber a notícia da morte do pai. O som do próprio silêncio no enterro. A sensação de ver o império Alencar se tornar grande demais para um rapaz que ainda não havia aprendido a chorar.
Mas aquilo era diferente.
Aquilo tinha o rosto de Isabela.
Tinha a mão dela sobre a barriga.
Tinha a possibilidade absurda de perdê-la depois de finalmente ter dito a verdade.
— Onde ela está? — Dante perguntou, a voz baixa.
Augusto ficou imóvel diante dele.
— Senhor…
— Onde?
O motorista respirou fundo.
— Ela pegou o carro de apoio.
Dante avançou um passo, e todos no corredor pareceram prender a respiração.
— Você deixou?
Augusto abaixou os olhos.
— Eu escolhi obedecer a ela.
Por um segundo, Dante pareceu prestes a destruí-lo com uma palavra.
Mas então parou.
A frase ecoou dentro dele.
**Obedecer a ela.**
Dante passou anos cercado de pessoas que obedeciam a ele. Criou regras, muros, contratos, protocolos. Acreditou que controlar tudo era o mesmo que proteger.
Mas Isabela nunca quis ser controlada.
Queria ser respeitada.
E, pela primeira vez, Dante entendeu que amar aquela mulher não significava prendê-la longe do perigo. Significava ir atrás dela sem transformar seu medo em algema.
Ele pegou o celular.
— Rastreie o carro.
— Já estamos fazendo — Augusto disse. — Ela seguiu para a antiga fábrica Vasconcelos, na estrada norte.
Dante gelou.
— A fábrica da família de Helena?
— Sim, senhor.
Dante caminhou para a saída.
— Reúna todos. Sem polícia por enquanto. Quero a entrada cercada sem que ela perceba.
Augusto o acompanhou.
— E a senhorita Isabela?
Dante abriu a porta do carro.
— Eu vou buscá-la.
A estrada norte estava quase vazia.
Dante dirigia como se cada segundo perdido fosse uma faca.
No banco ao lado, Caio Alencar permanecia em silêncio. Havia insistido em ir quando soube do desaparecimento de Ricardo e da fuga de Isabela. Pela primeira vez em muito tempo, não havia ironia no rosto dele.
— Você sabe que isso é armadilha — Caio disse.
— Sei.
— Helena quer te colocar diante de alguma verdade editada. Ela sempre fez isso.
Dante apertou o volante.
— Eu deveria ter enxergado antes.
— Todos nós deveríamos.
Dante não respondeu.
Caio o observou de lado.
— Você ama mesmo ela.
Não foi pergunta.
Dante olhou para a estrada.
— Mais do que consigo suportar.
Caio soltou uma respiração curta.
— Então suporte. É isso que pessoas normais fazem.
Dante quase riu.
Mas não conseguiu.
A imagem de Isabela entrando sozinha naquele lugar esmagava qualquer vestígio de leveza.
Enquanto isso, Isabela chegava à fábrica.
O prédio abandonado se erguia no fim da estrada como um animal morto. Janelas quebradas, paredes manchadas, portões enferrujados. A família Vasconcelos havia sido poderosa décadas atrás, antes de se aproximar demais dos Alencar, antes de negócios obscuros, antes de Helena aprender que beleza e veneno podiam abrir as mesmas portas.
Isabela parou o carro perto da entrada.
Desceu devagar.
O vento frio levantou seus cabelos.
— Helena! — chamou.
A resposta veio por alto-falantes antigos espalhados pelo pátio.
— Pontual. Quase admiro isso em você.
Isabela apertou a bolsa contra o corpo.
— Onde está meu pai?
— Entre.
A porta lateral se abriu.
Isabela hesitou apenas um segundo.
Depois entrou.
O interior da fábrica estava escuro, iluminado por lâmpadas improvisadas. O cheiro de poeira e metal velho fez seu estômago revirar.
Ela caminhou até o salão principal.
Ricardo estava ali.
Amarrado a uma cadeira.
— Pai!
Isabela correu até ele, mas Helena surgiu de trás de uma coluna segurando uma arma pequena.
— Eu não faria isso.
Isabela parou imediatamente.
O coração batendo tão forte que quase doía.
— Solta ele.
Helena sorriu.
— Você fica tão bonita tentando ser corajosa.
— Isso é entre você e Dante. Meu pai não tem nada a ver.
— Pelo contrário. Seu pai tem tudo a ver.
Ricardo ergueu o rosto, exausto.
— Isabela, vai embora.
— Não sem você.
Helena riu.
— Que família comovente. Uma pena que tenha sido construída sobre mentiras.
Isabela olhou para ela.
— Que verdade você acha que sabe?
Helena caminhou em círculos, saboreando a cena.
— Álvaro Alencar não morreu por acidente. Ele foi empurrado.
Ricardo fechou os olhos.
Isabela sentiu o sangue gelar.
— Mentira.
— Não. A mentira foi deixar Dante acreditar que seu pai era culpado.
Isabela olhou para Ricardo.
— Pai?
Ele estava pálido.
— Eu tentei impedir.
Helena se aproximou dele.
— Conte a ela, Ricardo. Conte como você viu a mãe de Dante naquela sacada.
Isabela perdeu o ar.
— A mãe de Dante?
Helena sorriu.
— Cecília Alencar descobriu que Álvaro pretendia entregar documentos que provariam o envolvimento dos Vasconcelos em desvios milionários. Minha família teria sido destruída. Sua mãe, Dante, achou que estava protegendo o filho de um escândalo.
— Você está mentindo — Isabela sussurrou.
— Estou?
Ricardo chorava em silêncio.
— Cecília não queria matá-lo — ele disse, a voz quebrada. — Eles discutiram. Álvaro tentou sair. Ela segurou o braço dele. Houve um empurrão. Ele caiu. Eu cheguei segundos depois.
Isabela sentiu o mundo girar.
— Por que você nunca contou?
— Porque Cecília implorou. Disse que Dante perderia a mãe também. E depois… depois ela tirou a própria vida. Eu achei que a verdade só destruiria mais uma criança.
Helena inclinou a cabeça.
— Que nobre. E conveniente.
Isabela levou a mão à barriga.
— Dante precisa saber.
— Ah, ele saberá — Helena disse. — Mas do meu jeito.
Um som de passos ecoou no salão.
Helena virou a arma.
Dante entrou sozinho.
O rosto dele era uma máscara de fúria e dor.
— Então diga — ele falou. — Estou aqui.
Isabela sentiu o coração parar.
— Dante, não—
Ele não tirou os olhos de Helena.
— Diga tudo.
Helena sorriu, vitoriosa.
— Sua mãe matou seu pai.
O silêncio que veio depois pareceu partir o mundo ao meio.
Dante olhou para Ricardo.
— É verdade?
Ricardo abaixou a cabeça.
— Sinto muito.
Isabela viu algo dentro de Dante quebrar.
Não foi um grito.
Não foi explosão.
Foi pior.
Foi um vazio súbito nos olhos dele.
Helena se aproximou, doce como veneno.
— Agora entende? Você odiou a família errada. Dormiu com a filha do homem que escondeu a verdade. Colocou um filho nela. Que ironia linda.
Dante olhou para Isabela.
Por um segundo terrível, ela temeu vê-lo recuar. Vê-lo se fechar. Vê-lo escolher o ódio outra vez.
Mas Dante caminhou até ela.
Ficou diante de Isabela, colocando o próprio corpo entre ela e a arma.
— Não — ele disse.
Helena franziu a testa.
— Não?
— Você não vai usar minha dor contra ela.
— Dante, ela é filha dele.
— E é a mulher que eu amo.
Isabela sentiu as lágrimas caírem.
Helena perdeu o sorriso.
— Você é patético.
— Talvez. Mas pela primeira vez na vida, estou escolhendo alguém, não uma vingança.
Helena ergueu a arma com raiva.
— Então escolha morrer por ela.
O disparo ecoou.
Isabela gritou.
Dante a puxou para o chão.
E, no mesmo instante, os homens de segurança invadiram o salão.
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CAPÍTULO 34
HELENA É DESMASCARADA
O som do disparo continuou ecoando nos ouvidos de Isabela mesmo depois que tudo virou movimento.
Homens correram.
Vidros se partiram.
Helena gritou ordens que ninguém mais obedecia.
Dante mantinha Isabela protegida sob o corpo, uma mão firme em sua nuca e a outra apoiada no chão. Ela sentia o peso dele, o calor dele, a respiração acelerada contra seus cabelos.
— Você foi atingido? — ela perguntou, desesperada.
— Não.
— Dante—
— Fica abaixada.
Mas Isabela já estava procurando sangue.
Não encontrou.
O tiro acertara uma coluna de concreto atrás deles.
Helena recuava lentamente, a arma ainda na mão, cercada pelos seguranças de Dante. Mesmo encurralada, não parecia derrotada. Parecia furiosa por ter perdido o controle da própria cena.
— Abaixe a arma — Dante ordenou, levantando-se.
Sua voz voltou a ser aquela que fazia salas inteiras obedecerem.
Só que agora havia algo diferente nela.
Não era frieza.
Era limite.
Helena riu, ofegante.
— Você realmente vai me entregar? Depois de tudo que nossas famílias construíram juntas?
— Suas mentiras não construíram nada.
— Mentiras? — ela gritou. — Minha família sustentou os Alencar quando seu pai estava ocupado bancando o santo! Meu pai pagou campanhas, comprou silêncio, limpou sujeiras que o grande Álvaro fingia não ver!
Caio entrou pelo lado oposto, acompanhado de dois homens.
— Continua falando, Helena. Está ficando excelente.
Ela olhou para ele.
— O que você está fazendo aqui?
Caio ergueu o celular.
— Gravando desde “sua mãe matou seu pai”. Confesso que o roteiro ficou pesado, mas a atuação está impecável.
Helena empalideceu.
Dante olhou para o irmão.
— Você gravou tudo?
— Áudio, vídeo e a confissão parcial dos esquemas Vasconcelos. Também mandei para o jurídico antes que alguém tente fazer esse celular desaparecer.
Pela primeira vez, Helena pareceu realmente assustada.
Isabela aproveitou a distração e correu até o pai. Ricardo estava consciente, mas fraco.
— Pai, olha pra mim.
— Você está bem? — ele perguntou.
— Estou. O bebê também.
Ela soltou as amarras das mãos dele com dificuldade. Dante se aproximou rapidamente e terminou de cortar as cordas com um canivete entregue por um segurança.
Ricardo olhou para ele.
— Dante…
— Não agora.
A resposta foi seca, mas não cruel.
Havia dor demais para qualquer perdão apressado.
Helena observava os três com ódio.
— Que cena linda. O órfão, a grávida e o traidor. Deviam tirar uma foto.
Dante virou-se para ela.
— Acabou.
— Não para mim.
Antes que alguém reagisse, Helena apontou a arma para Isabela.
Dante avançou, mas Helena recuou dois passos, mantendo o dedo firme.
— Chega! — ela gritou. — Vocês acham que eu vou sair daqui algemada enquanto ela fica com tudo que era meu?
Isabela ficou imóvel.
Dante parou à frente dela novamente.
— Helena, me olha.
— Não fale comigo como se eu fosse uma funcionária histérica!
— Abaixa a arma.
— Você era meu! — ela gritou. — Antes dessa mulher aparecer com seus olhos tristes e essa barriga maldita, você ia casar comigo. Eu seria a senhora Alencar. Eu teria o filho que garantiria meu lugar.
Isabela sentiu um arrepio.
— O filho…
Helena sorriu de forma quebrada.
— Ah, sim. Minha pequena obra-prima.
Dante estreitou os olhos.
— Que obra-prima?
Caio deu um passo.
— Dante…
Helena riu.
— O teste de DNA. A ameaça. O suposto filho. Tudo falso. Eu nunca estive grávida de você. Nunca houve criança nenhuma.
O silêncio foi brutal.
Dante não pareceu surpreso.
Pareceu enojado.
— Você inventou a morte de um filho?
— Inventei uma possibilidade. Era o suficiente para te prender.
Isabela levou a mão ao peito.
A crueldade era tão grande que parecia irreal.
Helena continuou, já sem controle:
— Eu falsifiquei exames, comprei uma enfermeira, plantei mensagens. Se Isabela não tivesse engravidado de verdade, você ainda estaria duvidando dela, duvidando de si mesmo, duvidando de tudo. Era perfeito.
Dante deu um passo.
— Você quase destruiu a mulher que carrega meu filho.
— Ela roubou a minha vida!
— Não. Você perdeu a sua tentando roubar a dos outros.
Helena gritou e moveu a arma.
A ação foi rápida demais.
Um segurança atirou contra a mão dela.
A arma caiu no chão com um estrondo metálico.
Helena desabou de joelhos, gritando de dor, enquanto dois homens a imobilizavam.
Isabela fechou os olhos, tremendo.
Dante voltou-se imediatamente para ela.
— Acabou.
Mas Isabela não sabia se tinha acabado.
Ricardo foi levado para uma ambulância particular. Helena, escoltada pela polícia que finalmente chegara ao local. Caio cuidou das gravações, dos advogados e da imprensa antes que qualquer boato ganhasse forma.
No pátio da fábrica, sob o céu escuro, Isabela ficou parada ao lado de Dante.
Havia tanta coisa entre eles que nenhuma palavra parecia suficiente.
— Você acreditou nela? — ela perguntou.
Dante demorou a responder.
— Por um segundo, eu senti o velho ódio tentando voltar.
Isabela abaixou os olhos.
— E depois?
Ele tocou o rosto dela com cuidado.
— Depois eu olhei para você.
Ela respirou fundo.
— Isso não apaga tudo.
— Eu sei.
— Meu pai escondeu a verdade. Sua mãe causou a morte do seu pai. Helena usou isso para destruir todo mundo. Nada disso desaparece porque você me escolheu hoje.
— Eu não quero que desapareça. Quero enfrentar.
Isabela olhou para ele.
— Você consegue?
Dante pareceu ferido pela pergunta, mas não desviou.
— Não sei. Mas, pela primeira vez, eu não quero enfrentar sozinho.
Ela tocou a mão dele sobre seu rosto.
O bebê se mexeu.
Um movimento pequeno, mas forte o bastante para fazê-la prender o ar.
Dante sentiu.
A expressão dele mudou imediatamente.
— Ele mexeu?
Isabela assentiu, emocionada.
Dante abaixou os olhos para a barriga dela. Todo o caos, toda a dor, toda a noite pareceu desaparecer por um instante.
Ele ajoelhou-se diante dela no meio do pátio frio.
Colocou a mão sobre sua barriga.
— Oi, pequeno — sussurrou.
Isabela chorou em silêncio.
Dante fechou os olhos, a testa quase encostada nela.
— Eu vou proteger vocês. Não como antes. Não com correntes. Com verdade.
Ela passou os dedos pelos cabelos dele.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, permitiu-se acreditar que talvez o amor não fosse a prisão.
Talvez fosse a única saída.
Mas então uma dor aguda atravessou sua barriga.
Isabela perdeu o ar.
Dante levantou o rosto no mesmo instante.
— Isabela?
Outra dor veio.
Mais forte.
Ela segurou o ombro dele.
— Dante…
O rosto dele empalideceu.
— O que foi?
Ela tentou responder, mas sentiu algo quente escorrer por suas pernas.
O pânico tomou seus olhos.
— O bebê.
Dante se levantou de uma vez.
— Ambulância!
Isabela agarrou sua camisa.
— Está cedo demais.
Dante a pegou nos braços.
A voz dele quebrou pela primeira vez.
— Fica comigo.
Mas Isabela só conseguia ouvir uma coisa.
O som acelerado do próprio coração.
E o medo terrível de que, depois de sobreviverem a tantas mentiras, pudessem perder o único amor que ainda não havia nascido.
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CAPÍTULO 35
O PARTO ANTECIPADO
O hospital parecia diferente quando era Isabela quem estava na maca.
As luzes do teto passavam rápido demais sobre seu rosto. Vozes se misturavam. Médicos davam ordens. Uma enfermeira dizia algo sobre pressão, outra perguntava quantas semanas de gestação ela tinha.
Isabela tentava responder, mas a dor vinha em ondas.
E entre uma contração e outra, só conseguia procurar Dante.
Ele estava ali.
Caminhava ao lado da maca, segurando sua mão com tanta força que parecia disposto a ancorá-la no mundo.
— Não solta — ela pediu.
— Nunca.
A palavra saiu rouca.
Dante Alencar, o homem que nunca demonstrava medo, parecia à beira de perder o controle. O rosto estava pálido, os olhos fixos nela, a respiração irregular. Um médico tentou afastá-lo na entrada do centro obstétrico.
— Senhor, o senhor precisa aguardar—
— Eu sou o pai.
— Entendo, mas—
— Eu entro.
O médico ia insistir, mas Isabela apertou a mão de Dante.
— Por favor.
Aquilo bastou.
Minutos depois, Dante estava vestido com roupa cirúrgica, ao lado dela, segurando sua mão enquanto os médicos avaliavam o bebê.
— Está muito cedo? — Isabela perguntou, com lágrimas nos olhos.
A médica, Dra. Laura, falou com calma.
— É um parto prematuro, sim, mas nós temos estrutura. O bebê está em sofrimento, precisamos agir rápido.
A palavra sofrimento atingiu Dante como um golpe.
— Façam tudo que for necessário.
Dra. Laura olhou para ele com firmeza.
— É o que estamos fazendo.
Isabela virou o rosto para Dante.
— Eu estou com medo.
Ele encostou a testa na dela.
— Eu também.
Ela quase riu, mesmo chorando.
— Você admitiu?
— Você me tornou um homem cheio de defeitos novos.
— Medo não é defeito.
Dante fechou os olhos.
— Para mim sempre foi.
— Então aprende agora.
Ele beijou a testa dela.
— Eu estou aprendendo.
A dor aumentou.
Isabela gritou, apertando a mão dele.
Dante ficou ao lado dela em cada segundo. Não tentou controlar médicos. Não deu ordens inúteis. Não transformou o pânico em arrogância. Apenas ficou.
Pela primeira vez, seu amor não veio como domínio.
Veio como presença.
Horas pareceram se condensar em minutos. Isabela perdeu a noção do tempo. Havia esforço, dor, lágrimas e a voz de Dante repetindo que ela era forte, que estava ali, que ela não estava sozinha.
Então, de repente, o mundo parou.
Um choro pequeno cortou a sala.
Frágil.
Agudo.
Vivo.
Isabela virou o rosto, os olhos arregalados.
— Ele chorou?
Dante não conseguiu responder.
Tinha os olhos fixos no bebê minúsculo nas mãos da médica, o rosto completamente desfeito.
— É um menino — Dra. Laura disse. — Ele vai precisar ir para a UTI neonatal, mas está respirando.
Isabela começou a chorar de verdade.
Dante levou a mão à boca, como se tentasse conter algo grande demais.
A médica aproximou o bebê por poucos segundos, enrolado em um tecido claro.
Pequeno.
Vermelho.
Perfeito.
Isabela tocou o rostinho dele com a ponta do dedo.
— Oi, meu amor.
Dante se inclinou.
O menino abriu a boquinha, soltando outro som frágil.
Dante chorou.
Sem esconder.
Sem virar o rosto.
Uma lágrima correu pela face dele e caiu sobre o lençol.
— Ele é tão pequeno — sussurrou.
— Mas é forte — Isabela disse.
Dante olhou para ela.
— Como a mãe.
Os médicos levaram o bebê para os cuidados intensivos.
Isabela tentou segui-lo com os olhos, mas o cansaço a venceu. Dante percebeu o pânico dela.
— Eu vou com ele.
— Não me deixa.
— Eu volto. Eu juro. Mas alguém precisa estar com nosso filho.
Nosso filho.
Isabela assentiu, exausta.
— Cuida dele.
Dante beijou sua mão.
— Com a minha vida.
Na UTI neonatal, Dante ficou diante da incubadora como se estivesse diante de algo sagrado.
O bebê parecia pequeno demais para o mundo. Tubos, sensores, luzes suaves. Uma enfermeira explicou tudo com paciência, mas Dante ouviu apenas partes. Peso. Saturação. Observação. Evolução.
— Ele pode me ouvir? — perguntou.
— Pode. Fale com ele.
Dante aproximou-se da incubadora.
Colocou a mão no vidro.
— Eu sou seu pai.
A frase saiu quebrada.
Ele respirou fundo.
— Eu sei que a gente começou do jeito errado. Antes de você nascer, eu já tinha cometido muitos erros. Machuquei sua mãe. Tentei controlar o que devia ter cuidado. Mas você precisa saber de uma coisa: eu vou passar o resto da vida consertando isso.
O bebê se mexeu de leve.
Dante sorriu com lágrimas nos olhos.
— Seu nome vai ser Theo. Se sua mãe concordar. Significa presente de Deus. E é isso que você é. Mesmo para um homem que passou tempo demais achando que não merecia presente nenhum.
Atrás dele, Caio parou na porta da UTI.
Não disse nada por alguns segundos.
Depois falou baixo:
— Nunca imaginei ver você assim.
Dante não virou.
— Assim como?
— Humano.
Dante soltou uma respiração trêmula.
— Nem eu.
Caio se aproximou.
— Isabela está estável. Ricardo também. Helena está presa. O conselho já recebeu o material. Os Vasconcelos acabaram.
Dante fechou os olhos.
Tudo que antes importaria — poder, empresa, vingança, controle — agora parecia distante diante daquele bebê respirando com dificuldade.
— E minha mãe? — ele perguntou.
Caio ficou em silêncio.
— Vamos descobrir tudo oficialmente. Sem versões convenientes. Sem mentiras de família.
Dante assentiu.
— Pela primeira vez, eu quero a verdade, não um culpado.
Caio tocou o ombro dele.
— Isso já é um começo.
Horas depois, Dante voltou ao quarto de Isabela.
Ela estava acordada, fraca, mas alerta.
— Theo — ele disse antes que ela perguntasse.
Isabela piscou.
— Theo?
— Foi o nome que pensei. Mas só se você quiser.
Ela sorriu, cansada.
— Eu gosto.
Dante se aproximou da cama.
— Ele é forte.
— Você viu?
— Vi.
— E chorou?
Dante hesitou.
Isabela ergueu uma sobrancelha.
— Chorou.
Ele pegou a mão dela.
— Muito.
Ela riu baixinho, emocionada.
— Queria ter visto.
— Você verá muitas coisas daqui para frente.
O sorriso dela suavizou.
— Nós veremos?
Dante ficou imóvel.
A pergunta era simples.
Mas continha tudo.
Perdão.
Medo.
Possibilidade.
Ele se sentou ao lado da cama.
— Só se você quiser.
Isabela estudou o rosto dele por um longo tempo.
Então entrelaçou seus dedos aos dele.
— Eu não prometo esquecer.
— Eu não quero que esqueça.
— Não prometo que vai ser fácil.
— Nada importante foi.
Ela respirou fundo.
— Mas eu quero tentar.
Dante fechou os olhos.
Abaixou a cabeça até a mão dela e beijou seus dedos.
— Então eu também vou tentar. Todos os dias.
Do lado de fora do quarto, a madrugada começava a clarear.
E pela primeira vez desde que aquele contrato fora assinado, o futuro não parecia uma sentença.
Parecia uma chance.
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CAPÍTULO 36
O NASCIMENTO DO HERDEIRO
A notícia se espalhou antes que Dante pudesse controlar.
**Nasce prematuro o primeiro filho de Dante Alencar.**
**Herdeiro do Grupo Alencar vem ao mundo após noite de escândalo envolvendo família Vasconcelos.**
**Helena Vasconcelos presa: sequestro, falsificação de exames e tentativa de homicídio.**
As manchetes explodiram nas telas, nos sites, nas redes sociais. Pela primeira vez, o império Alencar não conseguia esconder suas rachaduras.
Mas Dante não estava em reunião de crise.
Estava sentado ao lado da cama de Isabela, segurando uma xícara de chá que ela ainda não havia bebido.
— Você precisa comer — ele disse.
— E você precisa parar de repetir isso a cada três minutos.
— Faz quatro.
Ela tentou parecer irritada, mas o sorriso escapou.
O quarto do hospital estava cheio de flores que ela não pedira. Algumas enviadas por empresários, outras por membros da família Alencar tentando demonstrar apoio, outras por pessoas que Isabela nem conhecia.
Dante mandou retirar metade.
— Parece velório de luxo — ele comentou.
Isabela riu pela primeira vez em dias.
— Você sabe ser delicado quando quer.
— Estou tentando.
Ele realmente estava.
E talvez fosse isso que mais mexesse com ela.
Dante não havia se transformado magicamente em um homem perfeito. Ainda tinha impulsos de mandar, controlar, antecipar problemas e resolver tudo com dinheiro. Mas agora se policiava. Parava. Perguntava. Escutava.
Naquela manhã, pediu permissão antes de ligar para o médico do pai dela.
No dia anterior, perguntou se Isabela queria que ele estivesse presente quando ela tentasse amamentar pela primeira vez.
E, quando uma assessora entrou no quarto com uma sugestão de comunicado à imprensa chamando Theo de “herdeiro Alencar”, Dante corrigiu a frase com uma firmeza que fez Isabela prender a respiração.
— Ele não é manchete. É nosso filho.
A assessora saiu quase correndo.
Isabela olhou para ele depois.
— Você sabe que ele é mesmo o herdeiro, não sabe?
Dante sentou-se ao lado dela.
— Ele é um bebê. O resto o mundo colocou em cima dele antes da hora.
Ela ficou em silêncio.
— Eu não quero que Theo cresça como eu — Dante disse. — Achando que amor precisa ser merecido por desempenho, silêncio ou obediência.
Isabela sentiu o peito apertar.
— Você não mereceu isso.
Ele olhou para ela.
— Nem você.
A frase ficou entre os dois como um pedido silencioso de perdão.
No fim da tarde, os médicos autorizaram Isabela a visitar Theo por mais tempo.
Dante a levou em uma cadeira de rodas, apesar de ela reclamar que conseguia andar.
— Eu não sou de vidro — ela disse.
— Não. Mas acabou de passar por um parto prematuro.
— E você acabou de voltar a ser mandão.
Dante parou.
Ela olhou para ele.
Ele soltou a cadeira.
— Quer ir andando?
Isabela o encarou por dois segundos.
Depois sorriu.
— Agora pode empurrar.
Dante fechou os olhos, respirando fundo.
— Você faz isso de propósito.
— Sempre.
Na UTI, Theo estava estável.
Ainda pequeno, ainda cercado por aparelhos, mas melhor. A enfermeira abriu a lateral da incubadora para que Isabela pudesse tocar nele.
O dedo minúsculo dele se fechou ao redor do dedo dela.
Isabela chorou em silêncio.
Dante ficou atrás, uma mão pousada no ombro dela.
— Oi, meu amor — ela sussurrou. — Eu sou sua mãe. Desculpa se o mundo estava barulhento quando você chegou. Eu prometo tentar deixar ele mais calmo para você.
Dante engoliu em seco.
Ela olhou para ele.
— Fala com ele.
Dante inclinou-se.
— Seu tio Caio disse que eu pareço assustador perto da incubadora. Não acredite nele. Ele é dramático.
Isabela riu baixo.
— Dante.
— O quê? Estou criando vínculo.
A enfermeira sorriu discretamente.
Theo se mexeu.
Dante ficou sério.
— Eu vou te ensinar muitas coisas erradas sobre negócios, carros caros e como não confiar em homens de terno. Sua mãe vai te ensinar o que importa.
Isabela virou o rosto para ele.
— Você também vai ensinar o que importa.
Dante a olhou como se ainda não acreditasse.
— Vou?
— Vai. Porque você sabe o que acontece quando uma criança cresce sem ouvir a verdade.
Ele respirou fundo.
— Então começaremos por ela.
Naquela noite, Ricardo pediu para vê-los.
Ele estava em outro andar, monitorado, fraco, mas consciente. Quando Dante entrou no quarto ao lado de Isabela, o silêncio pesou.
Ricardo olhou para ele.
— Eu deveria ter contado.
Dante ficou parado.
Isabela segurou sua mão.
— Sim — Dante respondeu.
Ricardo aceitou a condenação.
— Achei que estava protegendo você.
— Todos sempre acham isso quando escondem uma verdade.
O velho abaixou os olhos.
— Sua mãe estava destruída. Álvaro descobriu tudo sobre os Vasconcelos. Ela acreditou que, se a verdade viesse à tona, você perderia o nome, a empresa, a segurança. Tentou impedir que ele entregasse os documentos. Não foi assassinato planejado, Dante. Mas foi culpa. E eu vivi com isso todos os dias.
Dante fechou a mandíbula.
Isabela esperou a explosão.
Ela não veio.
— Eu passei anos odiando você — Dante disse.
— Eu sei.
— Passei anos transformando sua família em símbolo de tudo que perdi.
— Eu mereci parte disso.
— Talvez.
Ricardo ergueu os olhos.
— Mas Isabela não.
Dante apertou a mão dela.
— Eu sei.
Ricardo chorou.
— Cuida dela.
Dante olhou para Isabela antes de responder.
— Não. Eu vou amar ela. Cuidar sem ouvir foi o erro que todos nós cometemos.
Isabela sentiu as lágrimas subirem.
Ricardo assentiu lentamente.
— Então ame direito.
Dante não respondeu.
Apenas inclinou a cabeça.
Era o mais próximo de um acordo de paz que aqueles dois homens poderiam alcançar naquele momento.
Ao saírem do quarto, Isabela encostou-se na parede do corredor.
— Você está bem?
Dante soltou uma risada sem humor.
— Não.
Ela tocou seu rosto.
— Quer ficar sozinho?
Ele segurou a mão dela contra a própria face.
— Não mais.
Isabela ficou com ele no corredor, em silêncio.
Às vezes, reconstruir uma história não começava com grandes promessas.
Começava com duas pessoas cansadas, machucadas, escolhendo não fugir.
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CAPÍTULO 37
A PROMESSA DE DANTE
Theo ficou vinte e três dias na UTI neonatal.
Dante contou todos.
Anotava ganhos de peso, horários de visita, orientações médicas e pequenas vitórias como se fossem aquisições bilionárias.
Quando Theo respirou sem ajuda por algumas horas, Dante comprou uma torta inteira para a equipe de enfermagem.
Quando Isabela conseguiu segurá-lo no colo pela primeira vez, Dante chorou de novo e fingiu que era alergia.
— Alergia a quê? — ela perguntou, com Theo dormindo contra seu peito.
— À iluminação do hospital.
— Claro.
— É uma condição rara.
— Muito rara. Afeta principalmente CEOs emocionalmente reprimidos?
Caio, sentado no canto do quarto, levantou a mão.
— Posso confirmar. Na família Alencar é quase genético.
Dante olhou para o irmão.
— Você não tem uma empresa para administrar?
— Tenho. Mas é mais divertido assistir sua queda moral.
Isabela sorriu.
A presença de Caio havia se tornado inesperadamente confortável. Ele aparecia com cafés, fazia piadas ruins para aliviar o clima e, quando achava que ninguém percebia, ficava parado diante da incubadora de Theo com uma ternura quase tímida.
— Ele vai ser mimado demais por esse tio — Isabela comentou.
Caio se levantou, ofendido.
— Eu? Jamais. Só vou ensinar o garoto a fugir de reuniões e escolher ternos melhores que os do pai.
— Fora — Dante disse.
Caio beijou a testa de Isabela com carinho fraternal.
— Qualquer coisa, me chama. Principalmente se ele ficar insuportável.
— Eu ainda estou aqui — Dante avisou.
— Infelizmente.
Quando Caio saiu, o quarto ficou mais silencioso.
Isabela olhou para Theo em seu colo. O bebê ainda era pequeno, mas já parecia mais forte. Tinha os cabelos escuros de Dante e a boca delicada dela, embora Caio jurasse que ele tinha “cara de quem vai julgar todo mundo em silêncio”.
Dante sentou-se ao lado dela.
— Eu comprei uma casa.
Isabela levantou o rosto devagar.
— Você o quê?
Dante percebeu o tom e corrigiu imediatamente:
— Não comprei. Separei opções. Quer dizer, visitei uma. Talvez tenha feito uma proposta que pode ser cancelada. Totalmente cancelável.
Ela estreitou os olhos.
— Dante.
— Eu não estou impondo nada.
— Parece que está tentando.
Ele respirou fundo.
— Eu pensei que talvez você não quisesse voltar para a mansão. Depois de tudo. Ela tem muita história ruim. Muitas lembranças do contrato, das brigas, de Helena, de tudo que eu fiz errado.
Isabela ficou em silêncio.
Ele continuou:
— A casa é menor. Ainda segura, mas não parece um museu sem alma. Tem jardim, luz, um quarto para Theo virado para o sol da manhã. E um escritório para você.
— Para mim?
— Você deixou seus projetos de lado por minha causa, pela gravidez, por todo o caos. Pensei que talvez quisesse retomar sua vida também.
Isabela sentiu algo quente no peito.
— Você pensou nisso?
— Tenho pensado em muitas coisas.
— Perigoso.
— Concordo.
Ela olhou para o filho.
— Eu não quero que você ache que basta comprar uma casa bonita para consertar tudo.
— Eu sei.
— Mas também não quero viver presa ao lugar onde tudo começou errado.
Dante assentiu.
— Então visitamos juntos. Se você não gostar, procuramos outra. Se não quiser sair da mansão, ficamos. Se quiser morar no apartamento da sua mãe, eu aprendo a caber lá.
Isabela riu.
— Você não cabe naquele apartamento.
— Eu me curvaria.
Ela sorriu, mas seus olhos ficaram úmidos.
— Quem é você e o que fez com Dante Alencar?
Ele tocou o rosto dela.
— Você fez.
A frase saiu baixa.
Não como elogio vazio, mas como reconhecimento.
Naquela noite, quando Theo voltou para a incubadora, Isabela e Dante caminharam até a pequena capela do hospital. Nenhum dos dois era especialmente religioso, mas o lugar oferecia silêncio.
Dante ficou de pé diante dos bancos, as mãos nos bolsos.
— Eu fiz uma promessa quando era adolescente — ele disse.
Isabela olhou para ele.
— Que promessa?
— Que nunca dependeria de ninguém. Que nunca imploraria amor, nunca seria vulnerável, nunca deixaria outra pessoa ter poder sobre mim.
— Funcionou?
Ele soltou uma risada curta.
— Funcionou o suficiente para me transformar em alguém insuportável.
— Um pouco.
— Só um pouco?
— Estou sendo gentil.
Dante se virou para ela.
— Quero fazer outra promessa.
Isabela sentiu o coração acelerar.
— Dante…
— Não é um pedido de casamento. Ainda.
Ela prendeu a respiração.
— Ainda?
Ele se aproximou.
— Eu quero casar com você de verdade um dia. Não por contrato, não por imprensa, não por conselho. Mas só quando você puder olhar para mim sem lembrar da caneta que te obriguei a segurar.
As lágrimas vieram devagar.
Dante segurou as mãos dela.
— Hoje eu prometo outra coisa. Prometo não usar medo para te manter. Prometo não decidir sua vida em nome da proteção. Prometo ouvir antes de agir. E prometo que, quando eu errar, porque eu vou errar, não vou esconder atrás do orgulho.
Isabela apertou os dedos dele.
— Você sabe que isso é mais difícil do que comprar uma empresa?
— Estou começando a suspeitar.
— E sabe que eu também vou errar?
— Sei.
— Eu tenho medo de depender de você. Medo de perdoar rápido demais. Medo de amar alguém que já me feriu.
Dante aproximou a mão dela do próprio peito.
— Então não perdoe rápido. Me cobre. Brigue comigo. Me mande embora quando eu merecer. Só não desapareça sem me deixar lutar direito.
Isabela fechou os olhos.
— Eu amo você.
Dante ficou imóvel.
Apesar de tudo, apesar da aproximação, apesar do “tentar”, ela ainda não tinha dito aquelas palavras desde que ele se declarara.
Ele pareceu receber a frase como quem recebe o primeiro ar depois de se afogar.
— Diz de novo — pediu.
Isabela sorriu entre lágrimas.
— Eu amo você, Dante Alencar. Mesmo você sendo mandão, arrogante, impossível e tendo uma relação doentia com contratos.
Ele riu baixo, emocionado.
— Eu amo você, Isabela Monteiro. Mesmo você sendo teimosa, provocadora, impossível de controlar e tendo prazer em destruir minha sanidade.
— Alencar — ela corrigiu suavemente.
Dante parou.
— O quê?
— Isabela Monteiro Alencar. Por enquanto no papel. Um dia, talvez, no coração por inteiro.
Dante encostou a testa na dela.
— Eu espero.
E, no silêncio da capela vazia, aquela promessa valeu mais que qualquer aliança.
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CAPÍTULO 38
CASAMENTO DE VERDADE
Três meses depois, Theo recebeu alta definitiva.
Isabela carregou o filho para fora do hospital em uma manhã clara, com Dante ao lado segurando a bolsa do bebê como se transportasse um artefato sagrado.
— Você colocou fraldas suficientes? — ela perguntou.
— Para três dias.
— Vamos para casa, Dante. Não para uma expedição.
— Bebês são imprevisíveis.
— Você está com medo de uma fralda?
— Tenho respeito estratégico.
Isabela riu.
A nova casa os esperava no fim de uma rua arborizada, discreta, elegante sem ser fria. Havia segurança, claro, porque Dante ainda era Dante, mas os muros não pareciam uma fortaleza. O jardim tinha flores brancas, uma jabuticabeira antiga e uma varanda onde Isabela imaginou Theo aprendendo a andar.
Ela havia escolhido cada detalhe.
Dante opinara pouco, por esforço consciente. Às vezes quase mordia a língua para não decidir por ela. Isabela percebia e se divertia.
— Você quer falar alguma coisa sobre a cor do quarto? — ela perguntou em uma das visitas.
— Quero.
— E vai falar?
— Não.
— Estou orgulhosa.
— Estou sofrendo.
O quarto de Theo ficou em tons claros, com madeira, cortinas leves e uma poltrona confortável perto da janela. No escritório de Isabela, Dante colocou apenas uma coisa sem pedir: uma foto dela segurando Theo pela primeira vez.
Ela não reclamou.
Na primeira noite em casa, Theo chorou por quase duas horas.
Dante andava com ele no colo pela sala, murmurando promessas, acordos e talvez uma proposta de aquisição de chupetas melhores.
— Ele não é acionista — Isabela disse, sonolenta no sofá.
— Ainda não.
— Dante.
— Estou brincando.
— Espero.
Ele olhou para o filho, que finalmente se acalmava.
— Acho que ele gosta da minha voz.
— Ou ficou entediado e dormiu.
— Cruel.
Isabela sorriu.
A vida deles não ficou perfeita.
Ficou real.
Havia noites sem dormir, consultas médicas, visitas de Ricardo em recuperação, Caio aparecendo com presentes absurdos, advogados finalizando processos contra os Vasconcelos e manchetes que insistiam em transformar tudo em novela pública.
Helena foi formalmente acusada por sequestro, tentativa de homicídio, falsificação de documentos e extorsão. Sua família perdeu influência no conselho. Documentos antigos provaram os desvios que Álvaro Alencar tentara expor antes da morte. A verdade, completa e feia, finalmente saiu das sombras.
Cecília Alencar não era inocente.
Mas também não era o monstro que Helena tentou pintar.
Era uma mulher desesperada, presa em uma rede de chantagens, medo e manipulações. Sua culpa existia. Sua dor também.
Dante visitou o túmulo dela sozinho.
Depois voltou para casa e chorou no colo de Isabela.
Foi uma das noites mais difíceis.
E uma das mais importantes.
Porque ele não tentou esconder.
Meses se passaram.
Dante continuava indo ao grupo empresarial, mas diminuíra viagens. Delegava mais a Caio, que reclamava em voz alta e trabalhava melhor do que admitia. Isabela começou a desenvolver um projeto próprio ligado à recuperação de pequenas empresas familiares em crise, usando sua experiência como ponto de partida.
— Você quer ajudar empresas falidas? — Dante perguntou.
— Quero ajudar pessoas antes que elas virem contratos na mesa de alguém como você.
Ele colocou a mão no peito.
— Merecido.
— Totalmente.
— Posso investir?
— Pode. Sem mandar.
— Isso fere minha natureza.
— Evolua.
E ele evoluía.
Devagar.
Com tropeços.
Mas evoluía.
Seis meses depois do nascimento de Theo, Dante convidou Isabela para jantar no jardim.
Ela desconfiou imediatamente.
— Você está estranho.
— Estou normal.
— Você nunca está normal quando diz que está normal.
— Isso parece ilógico.
— Você pediu para Marta não trabalhar hoje, mandou flores, colocou velas no jardim e está usando o terno que eu gosto.
Dante olhou para o próprio terno.
— Você gosta deste?
— Não muda de assunto.
Ele sorriu.
A mesa estava posta sob pequenas luzes penduradas na jabuticabeira. Theo dormia no berço eletrônico perto da porta de vidro, monitorado pela babá eletrônica e por um pai exageradamente atento.
Depois do jantar, Dante levantou-se.
Isabela sentiu o coração acelerar.
— Dante…
— Eu esperei.
Ele tirou uma pequena caixa do bolso.
Não se ajoelhou imediatamente.
Primeiro, ficou diante dela.
— Esperei até você rir dentro de uma casa comigo. Até me mandar calar a boca sem medo. Até nosso filho dormir no quarto ao lado e você não parecer pronta para fugir. Esperei até conseguir olhar para você sem lembrar apenas do que fiz de errado, mas também do que ainda posso fazer certo.
Isabela levou a mão à boca.
Dante se ajoelhou.
— Da primeira vez, eu coloquei um contrato na sua frente e chamei aquilo de casamento. Hoje não tenho contrato. Não tenho ameaça. Não tenho condição. Só tenho uma pergunta.
Ele abriu a caixa.
A aliança era delicada. Elegante. Sem ostentação absurda. No interior, uma pequena gravação:
**Sem correntes. Só escolha.**
Isabela chorou.
— Isabela Monteiro Alencar, você aceita se casar comigo de verdade?
Ela olhou para Theo dormindo ao longe.
Para a casa que escolheram.
Para o homem ajoelhado diante dela.
O mesmo que um dia disse que não tinha interesse em seu coração.
Agora, ele oferecia o próprio.
— Aceito — ela sussurrou.
Dante fechou os olhos, como se a palavra o atravessasse.
Ela se ajoelhou diante dele também, segurando seu rosto.
— Mas sem cláusulas escondidas.
Ele riu, emocionado.
— Nenhuma.
— Sem decidir tudo sozinho.
— Prometo.
— E sem chamar nosso filho de acionista.
— Isso eu não posso garantir.
Ela bateu de leve no ombro dele.
Dante a beijou.
Não havia plateia.
Não havia imprensa.
Não havia mentira.
Só duas pessoas que haviam começado por obrigação e, contra todas as probabilidades, escolheram ficar.
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CAPÍTULO 39
EPÍLOGO — UM ANO DEPOIS
Theo Alencar completou um ano em uma tarde de sol.
O jardim da casa estava decorado com balões claros, brinquedos espalhados e uma mesa pequena demais para a quantidade absurda de doces que Caio insistira em encomendar.
— Ele tem um ano — Isabela disse, olhando para a torre de cupcakes. — Não uma empresa para inaugurar.
Caio apareceu atrás dela, usando óculos escuros e segurando Theo no colo.
— Meu sobrinho merece padrão premium.
Theo bateu palminhas sem entender nada.
Dante surgiu logo atrás.
— Você deu chocolate para ele?
Caio arregalou os olhos, ofendido.
— Eu jamais faria algo que a mãe dele proibiu.
Isabela cruzou os braços.
— Caio.
— Talvez ele tenha lambido a cobertura. Foi um acidente supervisionado.
Dante tirou Theo do colo dele.
— Você está banido da mesa de doces.
— Crueldade familiar.
Isabela riu.
Era estranho pensar que, um ano antes, ela estava em um hospital, com medo de perder o filho. Agora Theo gargalhava no colo do pai, tentando puxar sua gravata.
Dante deixava.
Aquele pequeno detalhe ainda emocionava Isabela.
O homem que antes não permitia um fio de cabelo fora do lugar agora entrava em reuniões com marcas de mãozinhas na camisa e brinquedos esquecidos no bolso do paletó.
— Ele está destruindo sua imagem de CEO implacável — Isabela comentou.
Dante olhou para o filho.
— Melhor aquisição da minha vida.
— Dante.
— Brincadeira. Melhor escolha.
Ela sorriu.
O casamento verdadeiro acontecera seis meses antes, em uma cerimônia pequena, no jardim da casa. Ricardo levou Isabela até Dante com passos lentos, ainda se recuperando, mas vivo. Caio foi padrinho e chorou discretamente, negando depois com violência. Marta organizou tudo com precisão militar e emoção escondida.
Dante chorou ao vê-la de branco.
Dessa vez, ninguém fingiu alergia.
Depois da cerimônia, Isabela guardou a primeira aliança do contrato em uma caixa fechada. Não por saudade da dor, mas para lembrar de onde tinham saído.
A segunda aliança, a verdadeira, ela nunca tirava.
Ricardo aproximou-se, apoiado em uma bengala elegante.
— Minha neto está sendo corrompido pelo tio? — perguntou.
— Desde cedo — Isabela respondeu.
Ricardo olhou para Dante.
Entre os dois ainda havia cicatrizes. Algumas conversas difíceis. Perdões incompletos. Mas havia também esforço.
Dante estendeu Theo ao avô.
— Quer segurá-lo?
Ricardo se emocionou.
— Quero.
Theo foi para o colo dele, curioso com a bengala.
Isabela observou a cena em silêncio.
Dante passou o braço por sua cintura.
— Está feliz?
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
— Estou.
— Mesmo com o caos?
— Principalmente porque agora o caos parece nosso.
Ele beijou seus cabelos.
Do outro lado do jardim, Caio conversava com uma mulher que Isabela não conhecia.
Alta, cabelos castanhos presos em um coque desarrumado, postura firme, vestido simples e olhar de quem não se impressionava facilmente. Ela segurava uma pasta contra o peito e parecia discutir algo com ele.
Caio sorria daquele jeito irritante.
A mulher não sorria de volta.
— Quem é ela? — Isabela perguntou.
Dante seguiu seu olhar.
— Lara Ferraz. Nova consultora jurídica do conselho.
— Ela parece querer matar seu irmão.
— Muitas pessoas querem.
— Ele parece interessado.
Dante estreitou os olhos.
— Caio parece interessado em qualquer mulher que o ignora.
Isabela observou melhor.
Lara disse alguma coisa. Caio colocou a mão no peito, dramaticamente ofendido. Ela virou-se para sair. Ele a seguiu, ainda falando. Ela parou, voltou-se e apontou um dedo para ele com uma expressão tão afiada que até Dante ergueu as sobrancelhas.
— Gostei dela — Isabela disse.
— Eu também. Talvez ela finalmente coloque Caio no lugar.
— Você fala como se não tivesse sido colocado no seu.
Dante olhou para ela.
— Fui muito bem colocado.
— Humilde.
— Apaixonado.
Ela sorriu.
Theo começou a bater palmas quando todos se reuniram para cantar parabéns. Dante ficou ao lado de Isabela, uma mão nas costas dela e outra pronta para impedir o filho de enfiar a mão inteira no bolo.
Quando a vela foi acesa, Isabela fechou os olhos por um segundo.
Não pediu luxo.
Não pediu perfeição.
Pediu apenas que aquela paz imperfeita durasse.
Dante percebeu.
— O que pediu?
— Não pode contar.
— Eu poderia negociar.
— Nem tente.
Ele sorriu.
Theo apagou a vela com ajuda dos dois.
Todos bateram palmas.
E naquele instante, entre risadas, bolo, família reconstruída e um amor que sobrevivera ao pior de ambos, Isabela soube que algumas histórias não começam bonitas.
Algumas começam com dor, orgulho, mentiras e contratos.
Mas, quando duas pessoas escolhem reescrever o final, até uma sentença pode virar promessa.
Mais tarde, quando a festa acabou, Isabela encontrou Dante no quarto de Theo. Ele estava sentado na poltrona, o filho dormindo contra seu peito.
A luz suave do abajur desenhava sombras no rosto dele.
— Ele apagou — Dante sussurrou.
— Igual ao pai depois de uma reunião com o conselho.
— Difamação.
Ela se aproximou e beijou a testa de Theo.
Depois beijou Dante.
— Obrigada por escolher ficar.
Ele segurou sua mão.
— Obrigado por me ensinar que ficar não é prender.
Isabela sentou-se no braço da poltrona, encostando a cabeça na dele.
Lá fora, a casa estava silenciosa.
Dentro, o amor respirava pequeno, quente e vivo no colo de Dante.
E, pela primeira vez, o homem que um dia desprezou o coração de Isabela sabia exatamente o que tinha nas mãos.
Tudo.
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CAPÍTULO 40
O IRMÃO DO CEO
Caio Alencar sempre soube sair de festas antes que as conversas ficassem sérias.
Era uma habilidade.
Talvez um mecanismo de sobrevivência.
Enquanto Dante enfrentava dores familiares como quem entrava em uma guerra, Caio preferia o caminho elegante da fuga: um sorriso, uma piada, uma desculpa sobre ligação urgente e, quando todos percebiam, ele já estava do lado de fora.
Naquela noite, depois do aniversário de Theo, fez exatamente isso.
Ou tentou.
— Indo embora sem se despedir?
A voz feminina veio da varanda lateral.
Caio parou com a mão na chave do carro.
Lara Ferraz estava encostada na parede, segurando uma taça de água com gás. O vestido simples que usara na festa contrastava com o olhar firme, quase jurídico, que parecia capaz de revisar a alma de alguém e encontrar cláusulas abusivas.
— Eu ia me despedir mentalmente — ele disse.
— Educado.
— Sou conhecido por isso.
— Não no conselho.
Caio sorriu.
— Então você anda pesquisando minha reputação.
— Infelizmente, ela aparece mesmo quando ninguém procura.
Ele colocou a mão no peito.
— Isso feriu.
— Duvido.
Lara se afastou da parede e caminhou até ele. Não parecia intimidada pela casa, pelo sobrenome, pelo carro importado ou pelo sorriso que normalmente abria portas antes que ele precisasse bater.
Isso era novo.
E irritantemente interessante.
— Você saiu no meio da conversa sobre a reorganização das ações Vasconcelos — ela disse.
— Era uma festa infantil.
— E você estava usando a mesa de doces para evitar uma reunião importante.
— Estratégia de contenção emocional.
— Preguiça.
— Também.
Lara segurou o riso, mas não o deixou nascer.
Caio notou.
Gostou mais do que deveria.
— Você sempre fala com membros do conselho nesse tom? — ele perguntou.
— Só com os que se comportam como adolescentes em férias.
— Específico.
— Necessário.
Caio se aproximou um passo.
— Cuidado, doutora Ferraz. Meu ego é sensível.
— Seu ego tem segurança particular, cobertura de imprensa e provavelmente offshore.
Ele riu.
De verdade.
Lara desviou o olhar para o jardim vazio.
— Dante mudou.
Caio acompanhou seu olhar. Pela janela distante, era possível ver o irmão no quarto de Theo, sentado com o filho no colo, Isabela ao lado. Uma cena simples. Impossível de imaginar um ano antes.
— Mudou — Caio disse. — O amor fez um estrago.
— Você fala como se fosse doença.
— Na família Alencar, quase é.
Lara olhou para ele.
— E você? Também pretende ser curado?
Caio ergueu as sobrancelhas.
— Isso foi uma proposta?
— Foi uma avaliação de risco.
— Devo me preocupar?
— Homens que brincam com tudo normalmente escondem alguma coisa séria demais.
O sorriso de Caio diminuiu.
Foi rápido.
Mas Lara viu.
Ele percebeu que ela viu.
Por um segundo, a noite ficou menos leve.
— Você sempre analisa as pessoas assim? — ele perguntou.
— Só quando elas tentam me distrair.
— E eu estou tentando?
— Desde a primeira frase.
Caio guardou a chave no bolso.
— Talvez eu só goste de conversar.
— Talvez você goste de controlar o tom da conversa para ninguém chegar perto demais.
Ele ficou em silêncio.
Aquilo era perigoso.
Lara Ferraz não deveria conseguir lê-lo tão rápido.
Caio era o irmão fácil. O divertido. O irresponsável charmoso. Aquele que entrava em uma sala pesada e fazia todos respirarem melhor. Ninguém perguntava o que havia por trás disso.
Ele gostava assim.
— Você é sempre desagradável ou hoje está se esforçando? — ele perguntou.
Lara finalmente sorriu.
Pequeno.
Vitorioso.
— Hoje estou sendo gentil.
— Estou com medo da versão cruel.
— Deveria.
O celular de Lara tocou.
Ela olhou para a tela e a expressão mudou imediatamente.
Caio percebeu.
— Problema?
— Trabalho.
— Às onze da noite?
— Problemas jurídicos não respeitam horário comercial.
Ela recusou a chamada, mas uma mensagem apareceu em seguida.
Mesmo tentando disfarçar, Lara empalideceu.
Caio deixou a brincadeira de lado.
— Lara.
Ela travou ao ouvir o próprio nome na voz dele. Sem ironia. Sem charme. Só atenção.
— Não é nada.
— Você é péssima mentindo.
— E você é péssimo respeitando limites.
— Verdade. Mas às vezes isso ajuda.
Lara hesitou.
Antes que pudesse responder, outro carro parou do lado de fora do portão.
Um carro preto, sem identificação.
Caio olhou para os seguranças, que também perceberam.
Lara deu um passo para trás.
— Eu preciso ir.
— Conhece aquele carro?
— Não.
— Outra mentira ruim.
Ela apertou a bolsa.
— Caio, não se envolva.
Ele riu baixo, mas sem humor.
— Essa frase quase sempre significa que eu vou me envolver.
O portão menor abriu para um dos seguranças verificar a entrada. Um homem desceu do carro preto.
Mesmo à distância, Lara ficou rígida.
Caio notou o medo.
E algo dentro dele, algo que normalmente escondia atrás de piadas, se acendeu.
— Quem é ele?
Lara não respondeu.
O homem falou com o segurança e entregou um envelope.
Depois olhou diretamente para Lara.
Sorriu.
Entrou no carro e foi embora.
Caio caminhou até o segurança antes que ela pudesse impedir.
Pegou o envelope.
Na frente, apenas duas palavras:
**Lara Ferraz.**
Ela estendeu a mão.
— Me dá.
— Não até você me dizer o que está acontecendo.
— Isso não é da sua conta.
— Você está na casa da minha família. Recebendo ameaça no aniversário do meu sobrinho. Acabou de virar um pouco da minha conta.
Lara o encarou, furiosa.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Então me diga.
Ela pegou o envelope das mãos dele.
Por um instante, Caio achou que ela iria embora.
Mas Lara abriu.
Dentro havia uma foto.
Ela mais jovem, ao lado de um homem de terno. O mesmo homem que acabara de aparecer.
No verso, uma mensagem:
**Você pode trocar de sobrenome, de cidade e de cliente. Mas ainda pertence a mim.**
Caio leu antes que ela escondesse.
Seu rosto mudou.
A leveza desapareceu por completo.
— Quem é ele? — perguntou.
Lara fechou o envelope com mãos tensas.
— Meu ex-marido.
A palavra caiu pesada.
Caio não fez piada.
Não sorriu.
Não recuou.
— Ele te ameaçou?
— Ele gosta de lembrar que pode.
— Lara—
— Eu resolvo sozinha.
— Tenho certeza que sim.
A resposta a desarmou.
Caio continuou:
— Mas sozinha não significa desprotegida.
Ela olhou para ele, desconfiada.
— Você não me conhece.
— Ainda não.
— E mesmo assim quer se meter?
Caio inclinou a cabeça.
— Talvez eu tenha uma queda por mulheres que me mandam ficar longe.
Lara soltou uma risada curta, nervosa.
— Você é impossível.
— Já ouvi isso de gente confiável.
Pela janela, Isabela apareceu ao longe, observando os dois com curiosidade. Dante surgiu atrás dela, com Theo no colo. Caio percebeu e suspirou.
— Ótimo. Agora minha família vai achar que estou criando um escândalo.
Lara guardou o envelope na bolsa.
— Você cria escândalos até parado.
— Isso foi um elogio?
— Foi uma advertência.
Ela caminhou em direção ao próprio carro.
Caio a acompanhou.
— Eu vou pedir para um segurança te seguir até em casa.
— Não vai.
— Vou sim.
Ela parou.
— Caio Alencar, eu não sou uma donzela perdida esperando um homem rico me salvar.
Ele ficou sério.
— Eu sei. Mas também sei reconhecer quando alguém está com medo e fingindo que não está. Sou especialista nisso.
Lara perdeu a resposta.
Os dois ficaram se olhando sob a luz baixa da garagem.
Algo começou ali.
Não amor.
Ainda não.
Era atrito.
Desafio.
Perigo.
O tipo de encontro que prometia problemas antes mesmo de prometer desejo.
Lara entrou no carro.
Antes de fechar a porta, olhou para ele.
— Fique longe de mim.
Caio sorriu devagar.
— Você sabe que isso soou como convite, não sabe?
Ela fechou a porta.
O carro partiu.
Caio ficou parado, olhando as luzes desaparecerem na rua.
Dante aproximou-se alguns minutos depois, Theo dormindo em seu colo.
— Problema?
Caio colocou as mãos nos bolsos.
— Ainda não.
Dante observou o irmão.
— Você está com aquela cara.
— Que cara?
— A cara de quem vai fazer uma besteira.
Caio sorriu, mas os olhos continuaram presos ao portão.
— Talvez.
Isabela surgiu ao lado de Dante.
— Ela é bonita.
— Também é irritante, agressiva e acha que eu sou um idiota — Caio disse.
Isabela sorriu.
— Entendi. Você gostou dela.
Caio olhou para o céu, como se pedisse paciência.
— Vocês dois ficaram insuportáveis depois do amor.
Dante beijou a cabeça de Theo.
— Pode acontecer com você.
Caio riu.
— Nem sob ameaça.
Mas, no bolso de sua calça, o cartão que Lara deixara cair parecia queimar.
Ele o pegou quando ninguém viu.
No verso, havia um endereço escrito à mão.
E uma frase:
**Não procure por mim.**
Caio sorriu sozinho.
Era exatamente o tipo de aviso que um Alencar nunca soube obedecer.
FIM
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Epílogo
Theo Alencar completou um ano em uma tarde de sol.
O jardim da casa estava decorado com balões claros, brinquedos espalhados e uma mesa pequena demais para a quantidade absurda de doces que Caio insistira em encomendar.
— Ele tem um ano — Isabela disse, olhando para a torre de cupcakes. — Não uma empresa para inaugurar.
Caio apareceu atrás dela, usando óculos escuros e segurando Theo no colo.
— Meu sobrinho merece padrão premium.
Theo bateu palminhas sem entender nada.
Dante surgiu logo atrás.
— Você deu chocolate para ele?
Caio arregalou os olhos, ofendido.
— Eu jamais faria algo que a mãe dele proibiu.
Isabela cruzou os braços.
— Caio.
— Talvez ele tenha lambido a cobertura. Foi um acidente supervisionado.
Dante tirou Theo do colo dele.
— Você está banido da mesa de doces.
— Crueldade familiar.
Isabela riu.
Era estranho pensar que, um ano antes, ela estava em um hospital, com medo de perder o filho. Agora Theo gargalhava no colo do pai, tentando puxar sua gravata.
Dante deixava.
Aquele pequeno detalhe ainda emocionava Isabela.
O homem que antes não permitia um fio de cabelo fora do lugar agora entrava em reuniões com marcas de mãozinhas na camisa e brinquedos esquecidos no bolso do paletó.
O casamento verdadeiro acontecera seis meses antes, em uma cerimônia pequena, no jardim da casa. Ricardo levou Isabela até Dante com passos lentos, ainda se recuperando, mas vivo. Caio foi padrinho e chorou discretamente, negando depois com violência. Marta organizou tudo com precisão militar e emoção escondida.
Dante chorou ao vê-la de branco.
Dessa vez, ninguém fingiu alergia.
Depois da cerimônia, Isabela guardou a primeira aliança do contrato em uma caixa fechada. Não por saudade da dor, mas para lembrar de onde tinham saído.
A segunda aliança, a verdadeira, ela nunca tirava.
Ricardo aproximou-se, apoiado em uma bengala elegante.
— Meu neto está sendo corrompido pelo tio?
— Desde cedo — Isabela respondeu.
Ricardo olhou para Dante.
Entre os dois ainda havia cicatrizes. Algumas conversas difíceis. Perdões incompletos. Mas havia também esforço.
Dante estendeu Theo ao avô.
— Quer segurá-lo?
Ricardo se emocionou.
— Quero.
Theo foi para o colo dele, curioso com a bengala.
Isabela observou a cena em silêncio.
Dante passou o braço por sua cintura.
— Está feliz?
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
— Estou.
— Mesmo com o caos?
— Principalmente porque agora o caos parece nosso.
Ele beijou seus cabelos.
Quando a vela foi acesa, Isabela fechou os olhos por um segundo.
Não pediu luxo.
Não pediu perfeição.
Pediu apenas que aquela paz imperfeita durasse.
Dante percebeu.
— O que pediu?
— Não pode contar.
— Eu poderia negociar.
— Nem tente.
Ele sorriu.
Theo apagou a vela com ajuda dos dois.
Todos bateram palmas.
E naquele instante, entre risadas, bolo, família reconstruída e um amor que sobrevivera ao pior de ambos, Isabela soube que algumas histórias não começam bonitas.
Algumas começam com dor, orgulho, mentiras e contratos.
Mas, quando duas pessoas escolhem reescrever o final, até uma sentença pode virar promessa.
Mais tarde, quando a festa acabou, Isabela encontrou Dante no quarto de Theo. Ele estava sentado na poltrona, o filho dormindo contra seu peito.
A luz suave do abajur desenhava sombras no rosto dele.
— Ele apagou — Dante sussurrou.
— Igual ao pai depois de uma reunião com o conselho.
— Difamação.
Ela se aproximou e beijou a testa de Theo.
Depois beijou Dante.
— Obrigada por escolher ficar.
Ele segurou sua mão.
— Obrigado por me ensinar que ficar não é prender.
Isabela sentou-se no braço da poltrona, encostando a cabeça na dele.
Lá fora, a casa estava silenciosa.
Dentro, o amor respirava pequeno, quente e vivo no colo de Dante.
E, pela primeira vez, o homem que um dia desprezou o coração de Isabela sabia exatamente o que tinha nas mãos.
Tudo.