Capítulo 1: O Preço da Salvação
O ar no escritório do pai de Isabella estava carregado de um cheiro metálico de desespero, misturado ao aroma amadeirado do uísque envelhecido que ele tanto apreciava. A sala, outrora um santuário de poder e decisões empresariais, agora parecia um túmulo de sonhos desfeitos. As paredes forradas de mogno escuro absorviam a luz fraca da lâmpada de mesa, projetando sombras longas que dançavam como fantasmas sobre os livros contábeis espalhados. Isabella Rossi sentou-se na poltrona de couro rachado, suas mãos tremendo ligeiramente enquanto folheava as pilhas de documentos que seu pai, Marco Rossi, havia deixado sobre a mesa. Cada página era uma sentença de morte: faturas não pagas, empréstimos com juros exorbitantes, e ameaças veladas de credores que não eram bancos comuns, mas figuras sombrias do submundo.
“Isabella, minha filha, você não deveria estar aqui”, murmurou Marco, sua voz rouca pelo cansaço e pelo álcool. Ele estava encostado na janela, olhando para o jardim escuro da mansão nos subúrbios de Nova York, onde as luzes da cidade piscavam ao longe como estrelas caídas. Seus cabelos outrora pretos agora estavam salpicados de cinza, e as rugas em seu rosto pareciam sulcos cavados pela culpa. “Isso é problema meu. Eu conserto isso.”
“Consertar? Pai, olhe para isso!” Isabella ergueu um maço de papéis, sua voz ecoando com uma mistura de raiva e medo. Seus olhos castanhos, herdados da mãe italiana, brilhavam com lágrimas não derramadas. Ela vestia um suéter simples de cashmere cinza, que contrastava com a elegância natural de sua figura esguia, marcada por curvas suaves que ela raramente destacava. Aos 28 anos, Isabella era uma arquiteta talentosa, mas havia abandonado projetos promissores para voltar para casa quando soube da crise. “Esses empréstimos… eles não são de bancos. São da família Moretti. Você pegou dinheiro da máfia? Como pôde?”
Marco virou-se lentamente, seu rosto pálido sob a luz amarelada. Ele se aproximou da mesa, apoiando as mãos trêmulas na superfície polida. “Eu não tinha escolha, Bella. O negócio estava afundando. Seus irmãos… sua mãe… eu não podia deixar que perdêssemos tudo. Dante Moretti ofereceu o empréstimo. Ele disse que era um investimento.”
“Investimento?” Isabella riu amargamente, o som cortando o ar como uma lâmina. Ela se levantou, caminhando pelo tapete persa desgastado, sentindo o tecido macio sob seus pés descalços. O cheiro de chuva recente entrava pela janela entreaberta, misturando-se ao odor de cigarro velho que pairava no ar. “Pai, Dante Moretti não investe. Ele possui. Ele destrói. Eu ouvi as histórias – ele é o rei da máfia em Nova York, controla tudo de drogas a imóveis. E agora ele controla nós?”
Marco baixou a cabeça, seus ombros curvados como se carregasse o peso do mundo. “Eles vieram ontem. Seus homens. Disseram que o prazo acabou. Se não pagarmos, vão… vão tomar medidas.” Sua voz falhou, e ele engoliu em seco, os olhos evitando os dela. “Eu não posso perder vocês. Sua mãe está doente, Bella. Seus irmãos são jovens demais para isso.”
Isabella sentiu um nó apertar em sua garganta. Ela pensou na mãe, Sofia, deitada no quarto upstairs, frágil após anos lutando contra uma doença autoimune que drenava suas forças. Seus irmãos gêmeos, Luca e Matteo, de 18 anos, ainda na faculdade, sonhando com futuros que agora pareciam ilusórios. A família Rossi, outrora próspera com importações de vinhos italianos, havia sido arruinada por maus investimentos e a pandemia que fechara mercados. Mas recorrer à máfia? Isso era um abismo sem fundo.
Ela se aproximou do pai, tocando seu braço. A pele dele estava fria, como se o sangue houvesse fugido. “Quanto devemos exatamente?”
“Três milhões”, sussurrou Marco, como se as palavras fossem veneno.
Isabella recuou, o coração martelando no peito. Três milhões. Uma quantia impossível. Ela sentiu o ar ficar mais pesado, o tique-taque do relógio antigo na parede ecoando como um countdown para o desastre. “E o que eles querem agora? Tempo? Mais juros?”
Marco balançou a cabeça. “Eles querem tudo. A casa, o negócio… ou pior.” Ele hesitou, então continuou, sua voz baixa. “Mas há uma saída. Moretti mencionou… uma aliança. Um casamento. Ele disse que se uma Rossi se casasse com ele, a dívida seria perdoada. Seria uma união de famílias, fortalecendo sua posição contra rivais.”
Isabella congelou, o mundo girando ao seu redor. Casamento? Com Dante Moretti? O nome evocava imagens de um homem sombrio, com olhos negros como a noite e uma reputação de impiedoso. Ela o vira uma vez, em uma gala de caridade anos atrás – alto, com ombros largos, terno impecável que não escondia a aura de perigo. Seu sorriso era uma arma, charmoso e letal.
“Eu? Casar com ele?” Ela sussurrou, a ideia se instalando como um veneno lento. Mas então, uma determinação feroz surgiu em seu peito. Seus medos – de perder a família, de ser engolida pela escuridão – colidiam com seu desejo profundo de protegê-los. Ela havia perdido a irmã mais velha, Elena, em um acidente de carro suspeito ligado à máfia anos antes, um trauma que a deixara com pesadelos recorrentes. Não perderia mais ninguém.
“Sim, você”, disse Marco, os olhos implorando. “Mas eu não posso pedir isso. É loucura.”
Isabella endireitou os ombros, sentindo uma resolução se formar. “Então eu me ofereço. Marque o encontro. Eu salvo essa família, pai. Custe o que custar.”
A transição para a segunda cena veio com o nascer do sol do dia seguinte, mas para Isabella, a noite havia sido um vórtice de insônia. Ela se vestiu com cuidado, escolhendo um vestido preto simples que abraçava suas curvas sem exageros, o tecido sedoso roçando sua pele como um lembrete de sua vulnerabilidade. Seus cabelos castanhos caíam em ondas soltas sobre os ombros, e ela aplicou uma maquiagem mínima, destacando os lábios cheios e os olhos expressivos. O espelho refletia uma mulher confiante, mas por dentro, seu estômago revirava com ansiedade.
O encontro foi marcado em um restaurante discreto no centro de Manhattan, um lugar chamado La Scala, conhecido por sua clientela exclusiva e salas privativas onde negócios obscuros eram selados. Isabella chegou cedo, o motorista da família a deixando na porta sob uma garoa fina que molhava as calçadas. O ar cheirava a asfalto úmido e café fresco das padarias próximas. Ela entrou, o sino da porta tilintando suavemente, e foi guiada por um maître até uma sala nos fundos.
A sala era opulenta: paredes vermelhas como vinho, candelabros de cristal lançando luzes dançantes, e uma mesa longa coberta por uma toalha branca imaculada. No centro, uma garrafa de Chianti decantava, o aroma frutado preenchendo o ar. Isabella sentou-se, as mãos cruzadas no colo, sentindo o couro da cadeira fria contra suas pernas. Seu coração acelerava, cada batida ecoando o medo e a determinação.
Minutos depois, a porta se abriu, e Dante Moretti entrou. Ele era ainda mais imponente do que ela se lembrava: 1,90m de altura, corpo atlético moldado por anos de disciplina rigorosa, vestindo um terno cinza escuro feito sob medida que acentuava seus ombros largos e cintura estreita. Seus cabelos pretos estavam penteados para trás, revelando um rosto anguloso com mandíbula forte e olhos negros que pareciam poços sem fundo. Uma cicatriz fina cortava sua sobrancelha esquerda, um lembrete de batalhas passadas. O ar ao seu redor parecia carregado, como se ele trouxesse uma tempestade consigo.
“Senhorita Rossi”, disse ele, sua voz grave e aveludada, com um sotaque italiano sutil que enviava arrepios por sua espinha. Ele se sentou à frente dela, seus movimentos fluidos e controlados, como um predador se acomodando. “É um prazer finalmente conhecê-la formalmente.”
Isabella ergueu o queixo, forçando um sorriso educado. “Senhor Moretti. Ou devo chamá-lo de Dante? Afinal, estamos aqui para discutir um… acordo pessoal.”
Ele sorriu, um curvatura lenta dos lábios que não chegava aos olhos. “Dante está bom. E você é Isabella, correto? Seu pai mencionou que você é a mais velha agora, desde… o incidente com sua irmã.” Ele serviu o vinho, o líquido vermelho escorrendo como sangue na taça.
Isabella sentiu um aperto no peito ao mencionar Elena, mas não demonstrou. “Sim, sou eu. Vamos ao ponto, Dante. Meu pai deve a você três milhões. Você propôs um casamento para quitar isso. Eu aceito, em nome da minha família.”
Dante inclinou a cabeça, estudando-a como se ela fosse uma peça de arte intrigante. Seus olhos percorreram seu rosto, descendo pelo decote sutil do vestido, e Isabella sentiu um calor traiçoeiro subir por sua pele. “Aceita? Tão rápido? Sem perguntas sobre o que isso implica?”
Ela pegou a taça, girando o vinho antes de sorver um gole. O sabor era rico, com notas de cereja e especiarias, mas amargo em sua língua. “O que implica? Um casamento de conveniência. Você ganha uma aliança com os Rossi, expande seu território. Eu ganho a salvação da minha família. Simples.”
“Simples?” Dante riu baixinho, o som reverberando na sala. Ele se inclinou para frente, os antebraços apoiados na mesa, suas mãos grandes e marcadas por anéis de ouro. “Nada é simples no meu mundo, Isabella. Casamento significa compartilharmos uma vida. Uma cama. Segredos. Você está preparada para isso? Para ser a esposa de um homem como eu?”
As palavras pairaram no ar, carregadas de insinuação. Isabella sentiu um formigamento em sua pele, uma mistura de repulsa e algo mais perigoso – curiosidade. “Eu não sou ingênua, Dante. Sei quem você é. Um mafioso. Um homem que construiu um império no sangue. Mas eu sou forte o suficiente para lidar com isso. O que eu não posso lidar é ver minha família destruída.”
Ele a observou por um longo momento, o silêncio estendendo-se como uma corda tensa. Então, ele estendeu a mão sobre a mesa, pegando a dela. Seu toque era quente, elétrico, os dedos callosos roçando sua palma macia. “Forte? Sim, eu vejo isso em você. Mas força sozinha não basta. Há desejo no meu mundo, Isabella. Obsessão. Você acha que pode resistir?”
Ela retraiu a mão devagar, mas o calor permaneceu. “Resistir ao quê? Isso é um negócio, não uma paixão.”
Dante se recostou, os olhos brilhando com diversão sombria. “Talvez. Mas negócios podem se tornar pessoais. Vamos discutir os termos. O casamento será em duas semanas. Você se muda para minha mansão imediatamente. Nenhuma traição, de nenhum lado. E em troca, a dívida some.”
Isabella assentiu, mas seu mente girava. “E depois? Como vivemos isso?”
“Ah, Isabella”, disse ele, sua voz baixando para um ronronar. “Vivemos intensamente. Eu protejo o que é meu. E você… você será minha.” Ele ergueu a taça em um brinde. “Ao nosso acordo.”
Eles tilintaram as taças, o som cristalino ecoando como um sino fúnebre. Mas enquanto bebiam, Isabella sentiu os olhos dele sobre ela, devorando-a, e uma faísca de algo proibido acendeu em seu peito. Isso não era só um acordo – era o início de uma guerra interna.
A terceira cena se desenrolou à noite, quando Isabella retornou para casa para embalar suas coisas. A mansão Rossi estava silenciosa, exceto pelo choro abafado da mãe no quarto. Isabella subiu as escadas de madeira rangente, o cheiro de lavanda do difusor da mãe preenchendo o corredor. Ela entrou em seu antigo quarto, as paredes pintadas de azul suave, cheias de memórias: fotos de família, prateleiras com livros de arquitetura, e uma janela que dava para o jardim onde ela brincava com Elena.
Sentando-se na cama, ela pegou uma foto emoldurada das duas irmãs, rindo sob o sol italiano durante uma viagem de família. Elena, com seus cabelos loiros e sorriso radiante, havia sido morta em um “acidente” que todos sabiam ser uma retaliação mafiosa contra o pai. O trauma ainda a assombrava – noites de pesadelos onde via o carro em chamas, o cheiro de borracha queimada misturado ao sangue.
“Por que eu, Elena?” sussurrou Isabella, traçando o rosto da irmã na foto. Lágrimas quentes escorreram por suas bochechas, o salgado em sua língua. Ela se sentia dividida: medo de Dante, raiva do pai, e um desejo profundo de proteção. Mas havia mais – o toque dele no restaurante havia despertado algo adormecido, uma fome que ela negava desde a morte de Elena, quando jurara nunca se envolver com homens perigosos.
Um knock na porta a interrompeu. Era Luca, seu irmão, alto e magro como o pai, com olhos preocupados. “Bella? Posso entrar?”
“Claro”, disse ela, limpando as lágrimas.
Luca sentou-se ao seu lado, pegando sua mão. “Pai me contou. Você não pode fazer isso. Dante Moretti é um monstro. Ele matou gente, Bella. Rumores dizem que ele eliminou o próprio irmão para tomar o poder.”
Isabella balançou a cabeça. “Rumores, Luca. E mesmo se for verdade, o que mais podemos fazer? Perder tudo? Ver mamãe na rua?”
Luca suspirou, passando a mão pelos cabelos. “Eu poderia trabalhar. Matteo também. Encontramos um jeito.”
“Não há tempo”, rebateu ela, sua voz firme. “Eu vou. E vou sobreviver. Sou mais forte do que pareço.”
Eles conversaram por horas, diálogos entrelaçados com memórias. Luca contou histórias da infância, tentando dissuadi-la, mas Isabella contra-argumentava com lógica afiada. “Lembra quando Elena morreu? Eu jurei proteger vocês. Isso é cumprir essa promessa.”
Luca a abraçou, o cheiro de seu colônia juvenil misturando-se ao dela. “Se ele te machucar, eu o mato.”
Ela riu suavemente. “Não diga bobagens. Agora me ajude a embalar.”
Enquanto dobravam roupas – sedas suaves, lãs quentes – Isabella sentiu uma evolução interna: de vítima para guerreira. Mas ao fechar a mala, uma mensagem no celular piscou: “Meu carro te pega amanhã. Durma bem, esposa. – Dante.”
O cliffhanger veio com um arrepio: o que a esperava na mansão Moretti? Uma prisão dourada ou algo mais perigoso – uma obsessão que a consumiria?
Capítulo 2: A Mansão das Sombras
O Bentley preto deslizou silenciosamente pelas ruas arborizadas de Long Island, o ronronar do motor quase inaudível sob o som da chuva fina que tamborilava no teto. Isabella observava pela janela polarizada enquanto a cidade ia ficando para trás, os arranha-céus de Manhattan reduzindo-se a silhuetas distantes. O motorista, um homem de meia-idade com cicatrizes discretas no pescoço e olhos que não sorriam, não havia dito uma palavra desde que a pegara na porta da mansão Rossi. Apenas um aceno curto e a porta traseira aberta.
Ela apertava a alça da mala pequena no colo, os dedos brancos de tensão. Vestia um casaco de lã cinza-escuro sobre um vestido verde-escuro de mangas compridas, o tecido macio roçando sua pele como um conforto frágil. O cheiro do couro novo do carro misturava-se ao perfume sutil que ela escolhera – jasmim e baunilha, algo que a fazia sentir-se mais ancorada em si mesma. Mas nada conseguia dissipar o frio que se instalava em seu estômago.
O portão de ferro da mansão Moretti apareceu como uma sentinela negra contra o céu cinzento. Dois homens armados, vestidos de preto, verificaram o carro com olhares rápidos antes de acionar o mecanismo. Os portões se abriram com um rangido baixo, revelando um caminho de cascalho ladeado por carvalhos antigos cujos galhos se entrelaçavam acima como dedos entrelaçados. A mansão surgiu ao fim da alameda: uma construção neoclássica imponente, de pedra cinza e janelas altas em arco, com torres laterais que pareciam vigiar o horizonte. Não era ostentosa como as mansões dos novos-ricos; era antiga, sólida, carregada de história – e de segredos.
O carro parou diante da escadaria principal. Antes que Isabella pudesse abrir a porta, ela se abriu sozinha. Dante Moretti desceu os degraus com passos deliberados, o casaco de lã preta aberto sobre uma camisa branca impecável, as mangas dobradas revelando antebraços musculosos e tatuagens que desapareciam sob o tecido. A chuva caía sobre ele sem que parecesse incomodá-lo; gotas escorriam por sua testa e pescoço, deixando trilhas brilhantes na pele bronzeada.
“Chegou cedo”, disse ele, a voz grave cortando o som da chuva. Seus olhos a percorreram de cima a baixo, demorando-se um segundo a mais no contorno de suas coxas sob o vestido molhado nas bordas.
“Não gosto de atrasos”, respondeu Isabella, erguendo o queixo. Ela saiu do carro, recusando a mão que ele estendeu. O cascalho rangeu sob seus saltos enquanto subia os degraus, parando a um metro dele. O cheiro dele a atingiu como uma onda: couro, tabaco caro e algo mais selvagem, como madeira queimada após uma tempestade. “Onde fico?”
Dante sorriu de lado, aquele sorriso que não chegava aos olhos, mas que fazia algo perigoso se contorcer dentro dela.
“Na minha cama, eventualmente. Mas por enquanto…” Ele gesticulou para a porta aberta. “Venha. Vou mostrar sua suíte.”
O hall de entrada era vasto, com piso de mármore preto e branco em padrão xadrez, lustres de cristal que refletiam a luz cinzenta do dia como diamantes frios. Uma escadaria dupla subia em curva elegante para o andar superior. Quadros antigos – retratos de homens de olhar severo e mulheres de vestidos pesados – observavam do alto das paredes. Isabella sentiu um arrepio que não era só do frio.
Dante caminhou à frente, os passos silenciosos apesar do tamanho. Ele não olhava para trás; sabia que ela o seguiria. Subiram a escadaria, passando por corredores largos forrados de tapetes persas vermelhos e dourados. Pararam diante de uma porta dupla de carvalho entalhado.
“Esta é sua”, disse ele, abrindo-a com um gesto.
O quarto era maior que o apartamento inteiro que Isabella tivera em Manhattan nos últimos anos. Uma cama king-size dominava o centro, coberta por lençóis de seda preta e almofadas cinza-prateado. Cortinas pesadas de veludo bloqueavam a luz, mas uma lareira já crepitava, lançando sombras dançantes nas paredes forradas de damasco azul-escuro. Havia uma poltrona de couro junto à janela, uma escrivaninha antiga com uma cadeira estofada, e um closet que se abria para um espaço do tamanho de um quarto pequeno. No canto, uma porta levava a um banheiro privativo – Isabella pôde ver o mármore branco e dourado refletindo a luz.
“É… impressionante”, admitiu ela, entrando devagar. Seus saltos ecoavam no piso de madeira polida.
Dante fechou a porta atrás deles. O clique da fechadura soou alto demais no silêncio.
“Você terá tudo de que precisa. Roupas novas no closet – escolhi algumas peças. Se não gostar, peça o que quiser. A cozinheira prepara o que você desejar. Há uma academia no subsolo, piscina coberta, biblioteca. Esta casa é sua agora.”
Isabella virou-se para encará-lo. “Minha? Ou sua prisão dourada?”
Ele deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles. O calor do corpo dele a envolveu antes mesmo que a tocasse.
“Minha casa. Minha esposa. Minha proteção.” Cada palavra era pronunciada com precisão, como se ele estivesse marcando território. “Você não está aqui como prisioneira, Isabella. Está aqui como rainha. Mas rainhas têm responsabilidades.”
Ela cruzou os braços, sentindo o tecido do casaco roçar seus mamilos endurecidos pelo frio – ou talvez por outra coisa.
“Responsabilidades como dormir com você?”
Dante inclinou a cabeça, os olhos escurecendo. “Como me pertencer. Inteiramente. Quando eu quiser. Como eu quiser.”
O ar entre eles pareceu crepitar. Isabella sentiu o pulso acelerar, o calor subir pelo pescoço. Ela odiava a forma como seu corpo reagia a ele – traiçoeiro, faminto.
“Eu aceitei o casamento para salvar minha família, Dante. Não para ser sua… posse.”
Ele estendeu a mão e tocou uma mecha de cabelo molhado que caía sobre o ombro dela, enrolando-a lentamente no dedo. O gesto era quase gentil, mas carregado de posse.
“Você é minha posse agora. Mas também é minha escolha. E eu escolho bem.” Ele puxou a mecha de leve, forçando-a a erguer o rosto. Seus lábios estavam a centímetros dos dela. “Você sente isso, não sente? Esse fogo. Ele não mente.”
Isabella engoliu em seco. O cheiro dele a inebriava. Ela queria empurrá-lo. Queria puxá-lo. O conflito a rasgava por dentro.
“Eu sinto raiva”, sussurrou ela. “E medo. E talvez… curiosidade. Mas não me engane, Dante. Não confunda desejo com rendição.”
Ele soltou o cabelo dela, mas não recuou. Em vez disso, deslizou os dedos pela lateral do pescoço dela, traçando a linha da clavícula até o decote do vestido. O toque era leve, mas incendiário.
“Eu não quero rendição, Isabella. Quero você lutando. Quero você cedendo. Quero você implorando.” A voz dele baixou para um ronronar rouco. “E você vai. Porque no fundo, você também quer.”
Ela deu um passo para trás, quebrando o contato. Seu peito subia e descia rápido demais.
“Você é arrogante demais.”
“E você é orgulhosa demais.” Ele sorriu, dessa vez com um brilho genuíno de diversão. “Vamos ver quanto tempo esse orgulho dura.”
Ele se virou para a porta.
“Jante comigo às oito. Use algo do closet. Quero ver como fica em você.”
A porta se fechou atrás dele, deixando Isabella sozinha com o eco das palavras e o pulsar acelerado entre as pernas.
A tarde passou em uma névoa de exploração e inquietação. Isabella abriu o closet e encontrou fileiras de vestidos, lingeries de renda preta e vermelha, saltos altos, casacos de cashmere – tudo na medida exata. Ele havia escolhido com precisão cirúrgica. Ela experimentou um vestido vermelho escuro, de decote profundo nas costas e saia fluida que abraçava seus quadris. O tecido era como uma carícia constante. Olhando-se no espelho de corpo inteiro, ela mal se reconheceu: sensual, perigosa, vulnerável.
Às sete e meia, tomou um banho longo na banheira de mármore, a água quente relaxando os músculos tensos. O vapor carregava o aroma de sais de banho de lavanda que encontrou na prateleira. Enquanto se ensaboava, seus pensamentos voltaram para Dante – para o jeito como ele a olhava, como se já soubesse cada segredo que ela tentava esconder. Seus dedos deslizaram pela pele molhada, roçando os seios, a barriga, descendo mais… Ela parou, ofegante. Não. Não ia se entregar a isso. Não ainda.
Às oito em ponto, desceu as escadas. O vestido vermelho ondulava a cada passo, o tecido sussurrando contra suas coxas nuas. Ela havia deixado os cabelos soltos, maquiagem leve mas marcante: delineador preto, batom vermelho escuro. Sentia-se armada.
A sala de jantar era iluminada por velas. Uma mesa longa para doze pessoas, mas posta apenas para dois. Dante já estava lá, de pé junto à janela, um copo de uísque na mão. Ele virou-se quando a ouviu entrar, e por um segundo – apenas um segundo – seus olhos traíram algo além de controle: fome crua.
“Isabella.” O nome soou como uma carícia na voz dele. “Você está… devastadora.”
Ela se aproximou da mesa, sentindo o olhar dele como um toque físico.
“Obrigada. Você escolheu bem.”
Ele puxou a cadeira para ela. O gesto era cavalheiresco, mas seus dedos roçaram deliberadamente a pele nua das costas dela ao ajudá-la a sentar. Um arrepio a percorreu.
O jantar começou em silêncio. Entradas leves: carpaccio de filé com rúcula e parmesão, regado a um Barolo encorpado. Dante a observava comer, os olhos acompanhando cada movimento dos lábios dela ao redor do garfo.
“Conte-me sobre você”, disse ele finalmente, girando o vinho na taça. “Não a versão que seu pai me vendeu. A verdade.”
Isabella pousou o garfo.
“O que você quer saber?”
“Tudo. Seus medos. Seus desejos. O que a faz acordar no meio da noite suando frio.”
Ela sustentou o olhar dele.
“Eu tenho pesadelos com o carro da minha irmã pegando fogo. Ouço os gritos dela. Acordo sentindo o cheiro de borracha queimada e sangue. Isso responde?”
Dante ficou imóvel. Algo passou por seus olhos – reconhecimento, talvez dor.
“Eu sei como é carregar fantasmas”, disse ele baixo. “Meu irmão… ele morreu nas minhas mãos. Não diretamente. Mas eu não o salvei. E isso me persegue toda noite.”
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de confissões não ditas.
“Por que me contar isso?” perguntou ela.
“Porque você é minha esposa agora. E porque eu quero que você saiba que não sou só o monstro que dizem. Sou um homem que perdeu muito. E que não pretende perder mais.”
Isabella sentiu um aperto no peito. Pela primeira vez, viu rachaduras na armadura dele.
“E o que você quer de mim, Dante? Além do óbvio.”
Ele se inclinou para frente, os antebraços apoiados na mesa.
“Quero você inteira. Quero sua mente afiada me desafiando. Quero seu corpo se rendendo ao meu. Quero que você me olhe como se eu fosse o único homem no mundo. E quero que você me odeie um pouco – porque o ódio torna tudo mais intenso.”
Ela riu, um som nervoso.
“Você é louco.”
“Talvez. Mas você está aqui. E está vestindo o vestido que eu escolhi. E está molhada só de pensar no que pode acontecer depois do jantar.”
As palavras a acertaram como um soco. Ela sentiu o calor entre as coxas, a umidade traiçoeira.
“Você é presunçoso.”
“Eu sou observador.” Ele se levantou, contornando a mesa devagar até parar atrás dela. Suas mãos pousaram nos ombros nus, os polegares traçando círculos lentos na pele. “Diga que estou errado.”
Isabella fechou os olhos, lutando contra o tremor.
“Você está… parcialmente certo.”
Ele se inclinou, os lábios roçando a concha da orelha dela.
“Então vamos tornar isso real, Isabella. Deixe-me mostrar o que significa ser minha.”
Ela virou o rosto, os lábios a milímetros dos dele.
“Não hoje”, sussurrou. “Ainda não confio em você.”
Dante recuou devagar, mas o brilho nos olhos dele prometia que a espera seria torturante.
“Então durma bem, minha esposa. Porque amanhã… amanhã eu não vou pedir permissão.”
Ele saiu da sala, deixando-a sozinha com o vinho, as velas e o pulsar insistente entre as pernas.
Mais tarde, deitada na cama enorme, Isabella encarava o teto. O quarto estava silencioso, exceto pelo crepitar distante da lareira. Ela deslizou a mão por baixo da camisola de seda preta que encontrara no closet – fina, quase transparente. Seus dedos encontraram o calor úmido, e ela mordeu o lábio para não gemer.
Pensou nele. Nos olhos negros. Na voz rouca. No toque possessivo.
E quando o orgasmo a atravessou como uma onda violenta, foi o nome dele que escapou em um sussurro quebrado.
Do outro lado da parede, no quarto adjacente, Dante ouviu. E sorriu no escuro.
A obsessão já havia começado.
Mas algo mais sombrio se movia nas sombras da mansão: um envelope preto deslizado por baixo da porta do escritório de Dante enquanto ele bebia sozinho. Dentro, uma única foto – Isabella dormindo na cama Rossi semanas antes – e uma mensagem escrita à mão:
“Ela não é sua. Ainda não. Mas se for… eu a destruo.”
O cliffhanger pairou no ar como fumaça: quem estava observando? E quanto tempo levaria para que o passado de ambos os engolisse?
Capítulo 3: O Primeiro Toque
A manhã seguinte amanheceu fria e cinzenta, com uma neblina densa que envolvia a mansão Moretti como um véu de segredos. Isabella acordou antes do sol, o corpo ainda carregado pela tensão da noite anterior. A camisola de seda preta grudava na pele úmida de suor frio — não de medo, mas de um sonho que ela mal ousava admitir ter tido. Nele, Dante a prendia contra a parede do corredor escuro, os lábios dele traçando um caminho lento pelo pescoço dela enquanto sussurrava promessas de prazer e posse. Ela acordara ofegante, os lençóis embolados entre as pernas, o centro do corpo latejando com uma necessidade que a envergonhava.
Levantou-se devagar, os pés descalços tocando o tapete macio. Caminhou até a janela e puxou as cortinas pesadas. A luz pálida invadiu o quarto, revelando detalhes que a noite escondera: uma moldura dourada com uma foto antiga na cômoda — Dante mais jovem, ao lado de um homem que se parecia demais com ele, ambos sorrindo de um jeito que parecia impossível agora. O irmão morto. Isabella sentiu um aperto no peito. Ele havia mencionado a perda na noite anterior, mas de forma tão breve, tão controlada. Como se doesse demais para ser dito em voz alta.
Ela tomou um banho rápido, a água quente batendo contra a pele sensível. Escolheu roupas do closet com cuidado: calça preta de alfaiataria, blusa de seda branca com decote sutil, sapatilhas baixas. Nada provocante. Queria se sentir no controle, mesmo que por dentro estivesse em chamas.
Desceu para o café da manhã na sala de jantar informal — uma varanda envidraçada com vista para os jardins. A mesa já estava posta: croissants quentes, frutas frescas, café forte italiano, suco de laranja recém-espremido. Dante não estava lá. Em vez disso, um homem de uns cinquenta anos, alto, grisalho, com cicatrizes finas no rosto e um terno impecável, servia-se de café.
“Senhorita Rossi”, disse ele com um leve aceno. A voz era rouca, como se tivesse sido danificada por anos de cigarros e gritos. “Sou Vincenzo. Gerencio a casa e… outras coisas para o senhor Moretti.”
Isabella sentou-se, mantendo a postura ereta.
“Outras coisas”, repetiu ela, erguendo uma sobrancelha. “Você quer dizer segurança? Ou algo mais permanente?”
Vincenzo sorriu de lado, sem humor.
“Segurança, sim. E lealdade. O senhor Moretti pediu que eu respondesse qualquer pergunta sua enquanto ele está fora.”
“Fora?”
“Reunião de negócios. Volta à tarde. Enquanto isso, a casa é sua. Pode explorar. Mas…” Ele hesitou, escolhendo as palavras. “Algumas portas estão trancadas. Por segurança.”
Isabella pegou um croissant, partindo-o devagar. O vapor quente subiu, carregando o aroma de manteiga.
“Portas trancadas. Claro. Porque nada diz ‘bem-vinda à família’ como segredos e cadeados.”
Vincenzo a observou por um longo momento.
“Você é diferente das outras”, comentou ele, quase para si mesmo.
“Outras?” Isabella parou com o croissant a meio caminho da boca.
Ele deu de ombros.
“Não se preocupe. Nenhuma ficou. Ele nunca se casou antes. Você é a primeira que ele quis manter.”
As palavras pairaram no ar como fumaça. Isabella sentiu um frio na espinha misturado a algo quente, traiçoeiro. Ela mudou de assunto.
“Posso usar a academia?”
“Claro. Subsolo. Tem tudo que precisa. E se quiser nadar, a piscina coberta está aquecida.”
Ela terminou o café em silêncio, sentindo os olhos de Vincenzo sobre ela. Não era desejo — era avaliação. Como se ele estivesse decidindo se ela era uma ameaça ou um ativo.
A academia ficava em um andar inferior, acessível por uma escada discreta atrás da cozinha. O espaço era impressionante: piso de borracha preta, espelhos do chão ao teto, pesos livres, esteiras, saco de pancadas, ringue de boxe. O cheiro era de couro novo e desinfetante. Isabella tirou as sapatilhas, sentindo o piso frio sob os pés. Colocou fones de ouvido — seu próprio celular ainda funcionava, pelo menos — e começou a correr na esteira.
Correu até os pulmões queimarem, até o suor escorrer pelas costas e entre os seios. Correu como se pudesse deixar para trás o peso do anel invisível que agora carregava. Quando parou, ofegante, viu o reflexo no espelho: cabelos grudados na testa, blusa colada ao corpo, olhos brilhando com algo selvagem. Ela era bonita assim — crua, real, viva.
Foi quando ouviu passos.
Dante apareceu na porta, ainda de terno, mas sem gravata, as mangas da camisa dobradas até os cotovelos. Ele parou no batente, braços cruzados, observando-a como se ela fosse uma pintura que ele acabara de comprar.
“Você corre como se estivesse fugindo”, disse ele, a voz ecoando no espaço amplo.
Isabella desligou a esteira e enxugou o rosto com a toalha que encontrou pendurada.
“Talvez eu esteja.”
Ele entrou devagar, fechando a porta atrás de si. O clique soou definitivo.
“Não vai funcionar. Não aqui.”
Ela virou-se para encará-lo, o peito ainda subindo e descendo rápido.
“Você me trouxe para cá. Não finja que não sabia que eu ia resistir.”
Dante deu mais um passo. A distância entre eles diminuiu para metros, depois centímetros.
“Eu sabia. E quero isso.” Ele estendeu a mão e tocou o queixo dela, erguendo seu rosto. O polegar roçou o lábio inferior, sentindo a umidade do suor e da respiração acelerada. “Quero você suada, ofegante, lutando contra mim. Porque quando você ceder… vai ser lindo.”
Isabella sentiu o corpo inteiro reagir. Os mamilos endureceram sob a blusa fina, o calor se acumulou baixo na barriga. Ela odiava isso. Odiava o quanto queria que ele continuasse.
“Você acha que pode me dobrar com palavras bonitas e toques possessivos?”
“Não.” Ele se aproximou mais, o corpo dele quase colado ao dela. O calor dele a envolveu como uma corrente. “Eu acho que posso te fazer querer se dobrar.”
Ele deslizou a mão pela nuca dela, os dedos enfiando-se nos cabelos úmidos. Puxou de leve, expondo o pescoço. Isabella arfou. Ele baixou o rosto, o nariz roçando a pele sensível logo abaixo da orelha.
“Você cheira a desejo, Isabella. Mesmo quando está brava.”
Ela fechou os olhos, lutando contra o tremor.
“Para.”
“Não.” A boca dele roçou a pele, um beijo leve, quase inocente. Depois outro, mais firme. A língua traçou um caminho quente até a clavícula. “Diga de novo. E eu paro.”
Ela abriu a boca, mas as palavras não vieram. Em vez disso, um gemido baixo escapou quando os dentes dele roçaram a pele.
Dante riu contra o pescoço dela — um som rouco, satisfeito.
“É isso. Deixe sair.”
Ele a empurrou de leve contra o espelho frio. As costas dela colaram no vidro, o contraste com o calor do corpo dele quase insuportável. As mãos dele desceram pela cintura, agarrando os quadris com força possessiva. Ele pressionou o corpo contra o dela, deixando-a sentir exatamente o quanto a queria — duro, insistente, dolorosamente presente.
Isabella agarrou a camisa dele, os dedos cravando no tecido.
“Você é um filho da puta arrogante.”
“Sim.” Ele mordeu de leve o lóbulo da orelha dela. “E você está molhada por causa disso.”
Ela negaria se pudesse. Mas o corpo traía: as coxas se apertaram, buscando alívio.
Dante deslizou uma mão entre eles, os dedos roçando a costura da calça, pressionando exatamente onde ela mais precisava. Isabella arqueou as costas, um gemido escapando sem permissão.
“Olhe para mim”, ordenou ele.
Ela abriu os olhos. Os dele estavam negros de desejo, as pupilas dilatadas.
“Diga que quer que eu pare.”
Ela mordeu o lábio, o orgulho guerreando com o desejo.
“Não consigo.”
“Então diga que quer mais.”
O silêncio se estendeu, quebrado apenas pela respiração pesada dos dois.
“Quero mais”, sussurrou ela, a voz rouca.
Dante sorriu — um sorriso predatório, triunfante.
Ele a beijou então. Não com gentileza. Com fome. A boca dele tomou a dela como se fosse um direito adquirido, a língua invadindo, explorando, dominando. Isabella correspondeu com a mesma ferocidade, mordendo o lábio inferior dele, puxando os cabelos dele com força. Era guerra e rendição ao mesmo tempo.
Ele a ergueu com facilidade, as mãos sob as coxas, pressionando-a contra o espelho. As pernas dela se enroscaram na cintura dele por instinto. O atrito era perfeito, torturante. Cada movimento fazia faíscas subirem pela espinha dela.
Dante interrompeu o beijo apenas para descer a boca pelo pescoço, mordendo de leve a pele sensível acima da clavícula. Ele abriu os botões da blusa dela com uma mão, expondo o sutiã de renda preta. A boca encontrou um mamilo através do tecido, chupando com força. Isabella gritou baixo, as unhas cravando nos ombros dele.
“Você é linda assim”, murmurou ele contra a pele. “Desesperada. Minha.”
Ele a colocou no chão devagar, mas não a soltou. Em vez disso, virou-a de costas, pressionando-a contra o espelho novamente. As mãos dele desceram pela frente da calça, abrindo o zíper com lentidão deliberada. Os dedos deslizaram por baixo da calcinha, encontrando-a encharcada.
“Porra, Isabella…” A voz dele saiu rouca, quase reverente. “Você está pingando por mim.”
Ele circulou o clitóris devagar, depois mais rápido, pressionando com precisão cruel. Isabella apoiou as mãos no espelho, o reflexo mostrando os dois: ele atrás dela, olhos fixos no dela através do vidro, dominando cada movimento.
“Olhe para nós”, ordenou ele. “Olhe o que você faz comigo.”
Ela olhou. Viu o desejo cru no rosto dele, a tensão nos músculos do maxilar, a forma como ele se continha para não ir mais longe ainda.
“Dante…” O nome saiu como uma súplica.
“Goza para mim”, sussurrou ele no ouvido dela. “Quero sentir você apertando meus dedos. Quero ouvir você gemer meu nome.”
Ele acelerou o ritmo, dois dedos agora dentro dela, curvando-se exatamente no ponto certo. O polegar continuava no clitóris, pressionando em círculos implacáveis.
Isabella sentiu o orgasmo se aproximar como uma onda gigante. Tentou segurar — por orgulho, por teimosia. Mas ele sabia. Aumentou a pressão, mordendo o ombro dela com força suficiente para deixar marca.
Ela explodiu.
O grito ecoou na academia vazia, o corpo convulsionando contra o dele. Dante a segurou firme enquanto ondas de prazer a atravessavam, os dedos nunca parando até que ela tremesse, sensível demais para continuar.
Ele a virou devagar, beijando-a com uma ternura inesperada enquanto ela recuperava o fôlego.
“Boa menina”, murmurou contra os lábios dela.
Isabella ainda tremia. O corpo mole, a mente em branco. Mas quando olhou nos olhos dele, viu algo além de triunfo: uma vulnerabilidade fugaz, como se ele também tivesse sido pego desprevenido pela intensidade.
Ela tocou o rosto dele, traçando a cicatriz na sobrancelha.
“Isso não muda nada”, sussurrou ela. “Ainda não confio em você.”
Dante sorriu, mas dessa vez era suave.
“Eu sei. Mas você vai. Porque eu não vou parar até você se entregar inteira.”
Ele a ajudou a se recompor, fechando a calça dela com dedos gentis, abotoando a blusa. Depois a pegou no colo como se ela não pesasse nada e a levou de volta ao quarto.
Deitou-a na cama, cobrindo-a com o edredom.
“Descanse. Eu volto mais tarde.”
Ele se inclinou e beijou a testa dela — um gesto tão inesperado que Isabella sentiu lágrimas quentes nos olhos.
Quando a porta se fechou, ela ficou olhando para o teto, o corpo ainda latejando, a mente em turbilhão.
Ela havia cedido. Não tudo, mas o suficiente para saber que a linha entre ódio e desejo era fina demais.
E do lado de fora, no corredor, Dante encostou na parede, respirando fundo. Pela primeira vez em anos, sentiu o controle escorregar. Não era só desejo. Era obsessão.
E no bolso interno do paletó, o envelope preto com a foto dela ainda estava lá, intocado.
Ele sabia que o perigo estava se aproximando.
Mas agora, com o gosto dela na boca e o cheiro dela na pele, ele não tinha certeza se ainda se importava.
O que viria a seguir seria pior do que qualquer inimigo externo.
Porque o verdadeiro inimigo agora estava dentro dele — e dentro dela.
Capítulo 4: Marcas Invisíveis
A tarde se arrastou em uma lentidão torturante dentro da mansão Moretti. Isabella permaneceu na cama por mais tempo do que pretendia, o corpo ainda vibrando com os ecos do que havia acontecido na academia. Cada músculo parecia lembrar do toque dele — os dedos firmes, a pressão exata, o calor da boca contra sua pele. Ela se sentia exposta, mesmo sozinha no quarto enorme. O edredom pesado sobre ela era ao mesmo tempo conforto e prisão.
Levantou-se finalmente quando o sol começou a baixar, tingindo o quarto de tons alaranjados através das cortinas entreabertas. Caminhou até o banheiro e se olhou no espelho amplo acima da pia dupla de mármore. Os olhos estavam ligeiramente inchados de sono e lágrimas contidas, os lábios vermelhos e inchados do beijo feroz. No pescoço, logo abaixo da orelha, uma marca discreta começava a se formar — um hematoma sutil em forma de mordida. Ela tocou o local com a ponta dos dedos, sentindo um misto de vergonha e excitação ao ver a prova física do que havia permitido.
“Que merda estou fazendo?”, murmurou para o reflexo.
Mas a pergunta não tinha resposta fácil. Porque, por mais que doesse admitir, uma parte dela queria mais. Queria saber até onde Dante a levaria, até onde ela mesma iria se permitir ir.
Tomou outro banho — dessa vez frio, tentando apagar o calor que ainda queimava sob a pele. Vestiu um conjunto simples: legging preta macia e uma blusa larga de moletom cinza que encontrou no fundo do closet. Queria se sentir normal, invisível, protegida. Desceu as escadas descalça, o piso frio acordando seus sentidos.
A cozinha principal era um espaço amplo e moderno, com ilha central de granito preto, eletrodomésticos de aço inox e uma parede inteira de janelas que davam para o jardim dos fundos. Uma mulher de uns sessenta anos, cabelos grisalhos presos em coque apertado, mexia algo em uma panela grande. O aroma de alho, tomate e ervas frescas enchia o ar — ragu clássico, reconfortante.
“Buonasera, signora”, disse a mulher sem se virar. “O senhor Moretti pediu que eu preparasse algo leve para o jantar. Polenta com ragu de carne e um pouco de parmesão. Está quase pronto.”
Isabella parou na entrada, surpresa com a gentileza casual.
“Buonasera. Eu sou Isabella.”
A mulher virou-se, limpando as mãos no avental. Seu rosto era marcado por rugas profundas, mas os olhos castanhos eram quentes.
“Eu sei quem a senhora é. Meu nome é Rosa. Cozinho aqui desde que o menino Dante era pequeno.” Ela sorriu de leve. “Sente-se. Vou servir um chá enquanto espera.”
Isabella sentou-se em um dos bancos altos da ilha, aceitando a xícara fumegante que Rosa colocou à sua frente. O chá era de camomila com um toque de mel — simples, caseiro.
“Você o conhece desde criança?”, perguntou Isabella, soprando o líquido quente.
Rosa assentiu, voltando para o fogão.
“Desde que nasceu. A mãe dele… uma mulher forte, mas frágil ao mesmo tempo. Morreu quando ele tinha doze anos. O pai não durou muito depois. Foi o irmão mais velho, Lorenzo, quem o criou de verdade. Até…” Ela parou, como se as palavras fossem pesadas demais.
“Até o que aconteceu com Lorenzo”, completou Isabella baixinho.
Rosa suspirou, mexendo a panela com mais força do que o necessário.
“Sim. Uma noite ruim. Muita gente perdeu muito naquela noite. Dante mudou depois disso. Ficou mais frio. Mais duro. Mas nunca cruel sem motivo.” Ela olhou para Isabella por cima do ombro. “Ele não traz mulheres para cá. Nunca. Você é diferente.”
Isabella baixou os olhos para a xícara, sentindo o calor subir pelo rosto.
“Ele me trouxe porque era conveniente. Um acordo.”
Rosa riu baixinho, um som rouco e maternal.
“Conveniente? Menina, ele poderia ter apagado a dívida do seu pai com um telefonema e nunca mais olhar na sua cara. Em vez disso, ele quis você aqui. Debaixo do mesmo teto. Na cama dele. Isso não é conveniência. É obsessão.”
As palavras acertaram Isabella como um soco suave. Ela abriu a boca para protestar, mas Rosa continuou.
“Não me entenda mal. Ele não é santo. Fez coisas que eu não aprovo. Mas tem honra. E quando ele escolhe alguém… escolhe de verdade.” Ela desligou o fogo e virou-se completamente. “Cuide do seu coração, Isabella. Porque ele vai cuidar do dele do jeito dele — possessivo, intenso, às vezes brutal. Mas vai cuidar.”
Antes que Isabella pudesse responder, a porta da cozinha se abriu. Dante entrou, ainda vestindo o terno do dia, mas com a camisa agora desabotoada nos primeiros botões, revelando a pele bronzeada e o início de uma tatuagem que descia pelo peito. Seus olhos encontraram os dela imediatamente, como se soubesse exatamente onde ela estava.
“Rosa”, cumprimentou ele com um aceno curto, mas o tom era respeitoso. Depois, para Isabella: “Você sumiu o dia inteiro.”
“Eu precisava de espaço”, respondeu ela, sustentando o olhar.
Ele se aproximou devagar, parando do outro lado da ilha. O ar entre eles pareceu carregar eletricidade novamente.
“Espaço é uma ilusão aqui”, disse ele baixo. “Você sentiu minha falta?”
Isabella sentiu o rosto esquentar.
“Não seja ridículo.”
Rosa pigarreou discretamente.
“O jantar está pronto. Vou servir na sala de jantar ou aqui mesmo?”
“Aqui”, disse Dante sem desviar os olhos de Isabella. “Quero intimidade.”
Rosa serviu dois pratos generosos — polenta cremosa, ragu rico e fumegante, queijo ralado por cima — e desapareceu com um “Buon appetito” discreto.
Eles comeram em silêncio por alguns minutos. A comida era perfeita: reconfortante, caseira, contrastando com a tensão que pairava entre eles.
“Você tem uma marca no pescoço”, observou Dante de repente, os olhos fixos no hematoma que ela tentara esconder com o moletom largo.
Isabella tocou o local instintivamente.
“Você deixou.”
Ele sorriu — lento, satisfeito, perigoso.
“Eu sei. E gosto de ver.”
Ela baixou o garfo.
“Isso não é um jogo, Dante.”
“Não é.” Ele se levantou, contornou a ilha e parou atrás dela. As mãos pousaram nos ombros dela, os polegares traçando círculos lentos na nuca. “É real. E está só começando.”
Ele se inclinou, os lábios roçando a orelha dela.
“Levante-se.”
Isabella hesitou apenas um segundo antes de obedecer. O corpo dela parecia programado para responder a ele agora.
Dante a virou devagar, encostando-a na borda da ilha. As mãos dele desceram pelos braços dela, entrelaçando os dedos nos dela e erguendo-os acima da cabeça dela, prendendo-os contra o granito frio.
“Você pensou em mim o dia inteiro”, murmurou ele, a boca roçando a dela sem beijar. “Admita.”
Ela fechou os olhos, respirando rápido.
“Sim.”
“Boa menina.” Ele soltou uma das mãos dela apenas para deslizar a sua própria por baixo do moletom, encontrando a pele nua da barriga, subindo até os seios. Não havia sutiã. Os mamilos já estavam duros, implorando. Ele os beliscou de leve, arrancando um gemido dela.
“Você está tremendo”, observou ele, satisfeito.
“Porque você me deixa louca”, confessou ela, a voz rouca.
“Eu sei.” Ele a beijou então — devagar dessa vez, explorando, saboreando. A língua dançava com a dela em um ritmo lento, torturante. Quando se afastou, os olhos dele estavam escuros de desejo.
“Vem comigo.”
Ele a puxou pela mão, levando-a para fora da cozinha, pelos corredores silenciosos, até uma porta que ela ainda não havia notado — no final do corredor principal, discreta, quase invisível.
Dante digitou um código na fechadura eletrônica. A porta se abriu para uma escada descendente.
“Subsolo”, explicou ele. “Meu espaço privado.”
Eles desceram. O ar era mais fresco, levemente úmido. No fim da escada, outro corredor curto levava a uma porta dupla de madeira escura. Dante abriu.
O quarto — porque era um quarto — era diferente de tudo que Isabella havia visto na mansão. Paredes de pedra exposta, iluminação baixa em tons quentes de âmbar, uma cama enorme com dossel de ferro negro e lençóis cinza-escuros. Mas o que chamou atenção foram os detalhes: correntes discretas penduradas no dossel, uma cômoda com gavetas que ela imaginava conterem coisas que a fariam corar, uma cruz de São André encostada na parede oposta, almofadas e cordas de seda preta organizadas com precisão militar.
Isabella parou na entrada, o coração disparado.
“Isso é… seu quarto de jogos?”
Dante fechou a porta atrás deles. O clique ecoou.
“É onde eu controlo. Onde eu domino. Onde eu mostro exatamente o que quero.” Ele se aproximou dela por trás, as mãos na cintura, puxando-a contra o peito. “E onde você vai aprender a se entregar.”
Ela virou o rosto para olhá-lo.
“Você acha que eu vou me submeter assim? Como uma… escrava?”
“Não.” Ele beijou o ombro dela, os dentes roçando a pele. “Como minha esposa. Minha rainha. Minha puta particular quando eu quiser. E eu vou te adorar por isso.”
As palavras eram cruas, chocantes, excitantes.
Ele a guiou até a cama, sentando-a na beira. Ajoelhou-se à frente dela — um gesto surpreendente de um homem como ele — e tirou os tênis dela devagar, massageando os pés com mãos firmes.
“Você correu de mim o dia inteiro”, disse ele baixo. “Agora não vai mais correr.”
Ele subiu as mãos pelas pernas dela, puxando a legging para baixo centímetro por centímetro, expondo a pele arrepiada. Quando chegou à calcinha preta simples, parou.
“Levante os quadris.”
Ela obedeceu. Ele removeu a peça, jogando-a de lado.
“Abra as pernas.”
Isabella hesitou.
“Dante…”
“Abra”, repetiu ele, a voz mais firme.
Ela abriu devagar, expondo-se completamente. O ar fresco do quarto roçou a pele úmida, fazendo-a estremecer.
Dante observou por um longo momento, os olhos famintos.
“Você é perfeita”, murmurou. Depois se inclinou, beijando a parte interna da coxa, subindo devagar, torturante. A língua traçou linhas quentes, aproximando-se do centro sem tocar.
Isabella agarrou os lençóis, os quadris se movendo por conta própria.
“Por favor…”
“Por favor o quê?”
“Por favor… me toque.”
Ele sorriu contra a pele dela.
“Onde?”
“Aí… onde eu mais preciso.”
Ele soprou de leve sobre o clitóris inchado, fazendo-a arquejar.
“Diga direito.”
“Dante… por favor, chupe meu clitóris. Me faça gozar com a boca.”
Ele gemeu de satisfação e então atacou.
A língua dele era implacável — lambidas longas, círculos rápidos, sucção firme. Dois dedos entraram nela sem aviso, curvando-se, batendo no ponto certo enquanto a boca trabalhava o clitóris sem piedade.
Isabella gritou, as costas arqueando, os dedos enfiados nos cabelos dele. O prazer veio rápido, violento, explodindo em ondas que a deixaram tremendo, lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos.
Dante continuou lambendo devagar enquanto ela descia, prolongando cada tremor.
Quando finalmente ergueu o rosto, os lábios brilhavam com o prazer dela. Ele subiu na cama, deitando-a de costas e cobrindo o corpo dela com o seu.
“Você gozou lindo”, sussurrou, beijando-a para que ela sentisse o próprio gosto. “Mas ainda não acabou.”
Ele se afastou apenas o suficiente para tirar a camisa, revelando o peito definido, as tatuagens que contavam histórias que ela ainda não conhecia: uma cruz envolta em rosas negras no peitoral, datas gravadas no antebraço, uma frase em italiano no lado das costelas.
Isabella tocou a frase com a ponta dos dedos.
“‘Sangue chiama sangue’”, leu ela em voz baixa.
“Sangue chama sangue”, repetiu ele. “É o que nos define.”
Ele abriu a calça, libertando-se. Isabella arfou ao ver o tamanho, a grossura, a veia pulsante. Ele era impressionante — e intimidante.
Dante pegou uma camisinha na cômoda ao lado da cama, rasgando o pacote com os dentes e vestindo devagar, os olhos nunca deixando os dela.
“Você quer isso?”, perguntou, posicionando-se entre as pernas dela, a cabeça grossa roçando a entrada úmida.
“Sim”, sussurrou ela.
“Então peça.”
“Por favor, Dante… fode-me. Forte. Como se eu fosse sua.”
Ele entrou de uma vez, preenchendo-a completamente. Isabella gritou de prazer e dor misturados, as unhas cravando nas costas dele. Ele parou, permitindo que ela se ajustasse, depois começou a se mover — lento no início, depois mais rápido, mais fundo, mais forte.
Cada estocada era possessiva, reivindicadora. Ele segurava os pulsos dela acima da cabeça com uma mão, a outra no quadril dela, controlando o ritmo.
“Você é minha”, grunhiu ele contra o pescoço dela. “Diga.”
“Sua”, gemeu ela. “Sua… porra, Dante…”
Ele acelerou, o som dos corpos se chocando enchendo o quarto. Isabella sentiu o segundo orgasmo se aproximar, mais intenso que o primeiro.
“Goza comigo”, ordenou ele. “Agora.”
Ela explodiu ao redor dele, os músculos internos apertando com força. Dante grunhiu, enterrando-se fundo uma última vez, o corpo tremendo enquanto gozava dentro dela — mesmo com a camisinha, o calor era palpável.
Eles ficaram assim por longos minutos, ofegantes, suados, entrelaçados.
Dante rolou para o lado, puxando-a contra o peito. Beijou o topo da cabeça dela.
“Você foi perfeita”, murmurou.
Isabella fechou os olhos, o corpo mole de prazer e exaustão.
Mas mesmo no torpor pós-orgasmo, uma sombra pairava.
Porque, no canto do quarto, sobre uma mesa pequena, havia um envelope preto idêntico ao que Dante carregava no bolso.
E ele estava aberto.
Dentro, uma nova foto: os dois na academia, capturados de ângulo impossível — alguém os havia observado.
Dante viu que ela viu.
E pela primeira vez, Isabella sentiu medo de verdade.
Não dele.
Mas do que viria depois.
Capítulo 5: Sombras que Observam
O silêncio no quarto subterrâneo era denso, quase palpável, quebrado apenas pela respiração ainda irregular dos dois corpos entrelaçados nos lençóis cinza-escuros. Isabella permaneceu deitada de lado, o rosto virado para Dante, que a observava com uma intensidade que não se dissipava mesmo depois do clímax. Seus olhos negros pareciam sondar além da pele, como se procurassem rachaduras na armadura que ela tentava reconstruir a cada segundo.
Ela estendeu a mão devagar e tocou o envelope preto sobre a mesinha de cabeceira. Os dedos roçaram o papel grosso, sentindo a textura ligeiramente áspera. Não o abriu — não precisava. A foto já estava gravada na memória: eles na academia, corpos colados contra o espelho, o rosto dela contorcido de prazer, o dele concentrado em dominá-la. Alguém havia estado lá. Alguém havia visto.
“Quem colocou isso aqui?”, perguntou ela, a voz baixa, mas firme. Não havia tremor. Não mais.
Dante não respondeu de imediato. Em vez disso, rolou para o lado, apoiando-se em um cotovelo. A luz âmbar das lâmpadas de parede desenhava sombras duras em seu rosto, acentuando a cicatriz na sobrancelha e a linha tensa do maxilar.
“Eu não sei ainda”, admitiu ele finalmente. “Mas vou descobrir.”
Isabella sentou-se na cama, puxando o lençol para cobrir os seios — um gesto instintivo de proteção que não passou despercebido por ele.
“Você tem inimigos dentro da própria casa, Dante? Ou isso é só mais um truque para me manter assustada e dependente?”
Ele se sentou também, nu e sem pudor, o corpo ainda marcado pelas unhas dela nas costas e nos ombros.
“Se eu quisesse te assustar, usaria métodos mais diretos.” A voz dele era calma, quase fria. “Isso não é meu estilo. E não é coincidência. Alguém está nos vigiando desde antes de você chegar aqui.”
Ela sentiu um frio subir pela espinha.
“Desde antes?”
Dante pegou o envelope e o abriu com calma deliberada. Além da foto da academia, havia outra dentro — mais antiga. Isabella dormindo na cama da mansão Rossi, semanas antes do casamento. A mesma foto que ele havia mostrado a ela no primeiro dia, mas agora com uma legenda escrita à mão no verso, em tinta vermelha:
“Ela vai sangrar por você. E você vai assistir.”
Isabella leu as palavras em silêncio. Quando ergueu os olhos, encontrou os dele fixos nela — não com raiva, mas com algo mais perigoso: determinação absoluta.
“Eu recebi isso há duas semanas”, disse ele. “Antes de aceitar o casamento. Antes de você pisar aqui. Alguém sabia que eu ia te querer. Alguém sabia que eu não ia recusar.”
“Quem?”
“Tenho suspeitas. Mas suspeitas não bastam.” Ele jogou o envelope de volta na mesa. “Vincenzo está investigando as câmeras internas. Quem quer que seja, tem acesso. Isso significa que é alguém próximo. Alguém que eu confio.”
Isabella sentiu o estômago revirar.
“E se for alguém que você confia demais?”
Dante a olhou por um longo momento.
“Então eu mato.”
As palavras caíram pesadas entre eles. Não eram ameaça vazia. Eram promessa.
Ela se levantou da cama, enrolando o lençol no corpo como uma toga improvisada. Caminhou até a parede de pedra, tocando a superfície fria com a palma da mão. Precisava de distância — física, emocional — para pensar.
“Eu não vim aqui para morrer, Dante. Nem para ser usada como isca em uma guerra que nem sei se existe.”
Ele se levantou também, aproximando-se por trás, mas sem tocá-la. O calor do corpo dele a envolveu mesmo assim.
“Você não vai morrer. Eu não vou permitir.”
Ela virou-se devagar, encarando-o.
“E se eu quiser ir embora? Se eu decidir que isso — você, essa casa, essa obsessão — é demais?”
Dante estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar traçando a linha do maxilar.
“Você pode tentar. Mas nós dois sabemos que você não vai.” Ele se inclinou, os lábios roçando a testa dela. “Porque você já sentiu. O que acontece quando eu te toco. O que acontece quando você se entrega. E você quer mais. Mesmo sabendo do risco.”
Isabella fechou os olhos por um segundo, odiando a verdade nas palavras dele.
“Eu odeio você por isso”, sussurrou.
“Eu sei.” Ele beijou a têmpora dela, depois a bochecha, depois o canto da boca. “E eu gosto disso. Porque o ódio te mantém viva. Te mantém lutando. E eu quero você lutando, Isabella. Quero você feroz. Quero você minha.”
Ela abriu os olhos e o empurrou — não com força, mas o suficiente para ganhar espaço.
“Então prove que pode me proteger. Não com palavras. Com ações. Encontre quem está fazendo isso. Antes que eles cheguem mais perto.”
Dante assentiu uma única vez.
“Eu vou.”
Eles subiram de volta ao andar principal em silêncio. O corredor estava vazio, as luzes baixas. Dante a levou até o quarto dela — o quarto “oficial”, o que ela ainda não havia realmente usado. Abriu a porta e a fez entrar.
“Durma aqui esta noite”, disse ele. “Eu fico no meu escritório. Vincenzo vai dobrar a segurança. Ninguém entra sem eu saber.”
Isabella parou no meio do quarto, ainda enrolada no lençol.
“E você? Vai dormir?”
Ele deu um meio sorriso — cansado, mas genuíno.
“Quando souber que você está segura.”
Ele se aproximou uma última vez, beijou-a devagar, profundamente, como se estivesse selando uma promessa. Depois saiu, fechando a porta com cuidado.
Isabella ficou parada por longos minutos, ouvindo os passos dele se afastarem pelo corredor. Quando o silêncio voltou, ela deixou o lençol cair e caminhou até o banheiro. Tomou um banho quente, deixando a água lavar o suor, o prazer, o medo. Vestiu uma camisola longa de cetim preto que encontrou no closet — não era provocante, era confortável. Algo para se sentir humana novamente.
Deitou-se na cama enorme, encarando o teto. Pensou na família. Na mãe doente, nos irmãos jovens, no pai que havia vendido a filha para salvar a própria pele. Pensou em Elena — a irmã que nunca teria aceitado um destino assim sem lutar. E então pensou em Dante. No jeito como ele a olhava como se ela fosse a única coisa no mundo que importava. No jeito como ele a tocava como se quisesse marcá-la para sempre.
Ela adormeceu com o nome dele na mente e o medo no peito.
Acordou de madrugada com um som baixo — um clique quase imperceptível. A porta do quarto se abrindo devagar.
Isabella sentou-se na cama num pulo, o coração disparado. A luz do corredor entrava em uma faixa fina, iluminando uma silhueta alta.
Era Dante.
Ele entrou sem acender a luz, fechando a porta atrás de si. Vestia apenas calça de moletom preta, o peito nu, os cabelos bagunçados como se não tivesse pregado o olho.
“Eu não consegui ficar longe”, disse ele simplesmente.
Isabella não respondeu. Apenas estendeu a mão.
Ele atravessou o quarto em três passos largos e deitou-se ao lado dela, puxando-a contra o peito. Os braços dele a envolveram como correntes — quentes, seguras, possessivas.
“Eu não vou deixar ninguém te tocar”, murmurou contra os cabelos dela. “Ninguém além de mim.”
Ela enterrou o rosto no pescoço dele, inalando o cheiro familiar de couro, tabaco e pele quente.
“Então me prove”, sussurrou ela. “Agora.”
Dante rolou por cima dela com uma lentidão deliberada. As mãos dele percorreram o corpo dela por cima da camisola, traçando curvas, apertando de leve, reacendendo o fogo que nunca havia se apagado de verdade.
Ele puxou o tecido para cima, expondo-a centímetro por centímetro. Beijou cada pedaço de pele revelada — a barriga, os seios, o vale entre eles. Quando chegou ao pescoço, mordeu de leve a marca que já estava lá, renovando-a.
“Você carrega minhas marcas”, disse ele rouco. “E eu carrego as suas.”
Ele desceu mais, abrindo as pernas dela com gentileza firme. A boca encontrou o centro dela novamente, lambendo devagar dessa vez — não para dominar, mas para adorar. Isabella arqueou as costas, os dedos enfiados nos cabelos dele, gemendo baixo enquanto ele a levava ao limite com paciência cruel.
Quando ela gozou, foi silencioso, intenso, as lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos.
Dante subiu, beijando as lágrimas, depois a boca dela. Entrou nela devagar, preenchendo-a completamente, movendo-se em um ritmo lento, profundo, quase reverente.
Eles fizeram amor — não fodiam, não transavam. Faziam amor. Com olhares fixos um no outro, respirações sincronizadas, corpos colados como se fossem uma única entidade.
Quando gozaram juntos, foi quase silencioso — um suspiro longo, um tremor compartilhado, um nome murmurado no escuro.
“Dante…”
“Isabella…”
Eles ficaram abraçados depois, o suor secando na pele, o coração desacelerando aos poucos.
Mas mesmo na paz momentânea, a sombra permanecia.
Porque, no canto do quarto, junto à janela entreaberta, uma brisa fria trouxe o cheiro distante de cigarro — alguém havia estado ali fora, observando.
Dante sentiu Isabella enrijecer nos braços dele.
“Eu sei”, sussurrou ele. “Eu sinto também.”
Ele a apertou mais forte.
“Mas amanhã… amanhã isso acaba. Eu juro.”
Isabella fechou os olhos, querendo acreditar.
Mas no fundo, sabia que as sombras não desaparecem com juras.
Elas esperam. Pacientes. Famintas.
E a próxima foto que chegaria seria pior.
Muito pior.
Capítulo 6: O Veneno da Confiança
A luz da manhã infiltrava-se pelas frestas das cortinas pesadas, desenhando listras douradas no chão de madeira polida do quarto. Isabella acordou primeiro, o corpo dolorido de uma forma prazerosa que ela ainda não sabia se odiava ou adorava. Dante dormia ao seu lado, de bruços, o lençol cobrindo apenas a parte inferior das costas, revelando as marcas vermelhas que as unhas dela haviam deixado na noite anterior. As tatuagens pareciam mais vivas à luz do dia: a cruz envolta em rosas negras no ombro direito, as datas gravadas no antebraço esquerdo — provavelmente as datas de nascimentos e mortes que moldaram a vida dele. Ela estendeu a mão devagar e traçou uma das linhas com a ponta do dedo, sentindo a pele quente e ligeiramente áspera.
Dante abriu os olhos no mesmo instante, como se tivesse sentido o toque mesmo dormindo. Virou o rosto para ela, o olhar ainda enevoado pelo sono, mas já carregado daquela intensidade que a desarmava.
“Bom dia, esposa”, murmurou, a voz rouca de manhã cedo.
Isabella retirou a mão, mas não se afastou.
“Bom dia… marido.”
Ele sorriu — um sorriso lento, quase preguiçoso, que contrastava com a tensão que ainda pairava entre eles desde a descoberta do envelope.
“Você ficou a noite toda me olhando?”
“Não. Só… pensando.”
Dante rolou para o lado, apoiando a cabeça na mão, o corpo inteiro virado para ela.
“No quê?”
“No fato de que eu não sei nada sobre você. Não de verdade.” Ela sentou-se na cama, puxando o lençol para cobrir os seios. “Você sabe tudo sobre mim — minha família, meus medos, meus traumas. Mas eu? Eu só sei o que dizem nas ruas. O que você permite que eu veja.”
Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos nos dela.
“O que você quer saber?”
“Tudo.” A palavra saiu firme. “Comece pelo seu irmão. Lorenzo. O que aconteceu de verdade naquela noite?”
Dante expirou devagar, como se a pergunta doesse fisicamente. Sentou-se também, as costas encostadas na cabeceira entalhada, o lençol caindo até a cintura.
“Lorenzo era o herdeiro natural. Meu pai morreu quando eu tinha dezesseis anos — infarto, dizem. Mas todos sabiam que foi estresse. A família estava em guerra aberta com os Bianchi na época. Lorenzo tinha vinte e oito. Era inteligente, carismático, o tipo de homem que as pessoas seguiam sem questionar. Eu era o caçula problemático — o que brigava nas ruas, o que respondia errado, o que desafiava todo mundo.”
Ele fez uma pausa, passando a mão pelos cabelos.
“Uma noite, em um armazém nos docks, tínhamos um encontro com os Bianchi para negociar uma trégua. Lorenzo insistiu em ir sozinho com dois homens de confiança. Eu queria ir junto. Ele disse não — que eu era impulsivo demais, que ia estragar tudo. Eu fiquei puto. Fiquei em casa bebendo. Quando o telefone tocou às três da manhã, era Vincenzo. Lorenzo tinha sido baleado sete vezes. Os dois homens dele também morreram. Nenhum sobrevivente do lado deles. Foi emboscada.”
Isabella sentiu um aperto no peito.
“E você acha que foi traição interna?”
“Eu sei que foi.” A voz dele endureceu. “Alguém deu o endereço. Alguém que sabia exatamente onde ele estaria e quando. Eu vasculhei tudo — contas, gravações, testemunhas. Cheguei a três nomes. Dois eu eliminei. O terceiro… ainda está vivo. E perto demais.”
Ela engoliu em seco.
“Quem?”
Dante virou o rosto para ela, os olhos escuros como poços.
“Não vou dizer enquanto não tiver certeza absoluta. Porque se eu estiver errado… eu destruo alguém inocente. E se eu estiver certo… eu destruo alguém que eu considerei família por anos.”
Isabella estendeu a mão e tocou o braço dele — o antebraço com as datas gravadas. Uma delas era a de Lorenzo, ela imaginou.
“Você carrega isso todos os dias.”
“Sim.” Ele cobriu a mão dela com a sua. “E agora carrego você também. Não vou deixar que o mesmo aconteça com você.”
Ela se inclinou e beijou-o devagar — não com desejo imediato, mas com algo mais profundo. Gratidão, talvez. Ou compreensão.
“Então me deixa ajudar”, sussurrou contra os lábios dele. “Eu não sou só uma esposa de fachada. Eu vejo coisas que você não vê. Deixa eu entrar de verdade.”
Dante a puxou para o colo, as mãos grandes na cintura dela, segurando-a como se ela fosse algo precioso e perigoso ao mesmo tempo.
“Você já está dentro. Mais do que qualquer um jamais esteve.”
Eles ficaram assim por longos minutos, apenas se abraçando, respirando juntos. Era a primeira vez que o silêncio entre eles não era carregado de tensão sexual ou ameaça — era apenas… paz. Frágil, mas real.
O momento foi interrompido por batidas firmes na porta.
“Dante.” A voz de Vincenzo do outro lado. “Precisamos falar. Agora.”
Dante suspirou, beijou a testa de Isabella e a depositou gentilmente de volta na cama.
“Fica aqui. Eu volto.”
Ele vestiu uma calça de moletom e uma camiseta preta rapidamente, abriu a porta e saiu. Isabella ouviu vozes baixas no corredor, mas não conseguiu entender as palavras.
Minutos depois, voltou. O rosto dele estava tenso, a mandíbula travada.
“Uma das câmeras do subsolo foi sabotada. Alguém desligou o feed por exatos sete minutos na noite em que a foto da academia foi tirada. Quem fez isso sabe exatamente como o sistema funciona.”
Isabella sentiu o estômago gelar.
“Então é alguém de dentro. Alguém que tem acesso ao código.”
“Sim.” Dante sentou-se na beira da cama, passando as mãos pelo rosto. “Eu convoquei uma reunião com os homens de confiança hoje à tarde. Aqui mesmo. Você vai estar lá.”
Ela ergueu as sobrancelhas.
“Eu?”
“Sim. Você é minha esposa agora. Eles precisam ver que você não é só decoração. E eu quero ver as reações deles quando você estiver na sala. Rostos não mentem.”
Isabella assentiu devagar.
“Tudo bem. Mas eu não vou ficar calada se achar que alguém está mentindo.”
Dante sorriu de lado — um sorriso feroz.
“Eu conto com isso.”
A tarde chegou rápida demais. Isabella escolheu a roupa com cuidado: vestido preto de manga longa, decote discreto mas elegante, salto alto. Queria parecer poderosa, não vulnerável. Maquiagem mínima — delineador marcado, batom vermelho escuro. Cabelos soltos em ondas naturais. Quando desceu as escadas ao lado de Dante, sentiu todos os olhares sobre ela.
A sala de reuniões ficava no andar térreo, uma biblioteca convertida com mesa longa de mogno, cadeiras de couro e paredes forradas de livros antigos. Havia sete homens ao redor da mesa quando eles entraram. Vincenzo já estava lá, de pé ao lado da porta. Os outros — rostos duros, cicatrizes discretas, ternos caros — se levantaram quando Dante apareceu.
“Sentem-se”, ordenou Dante. Ele puxou a cadeira à cabeceira para Isabella, sentando-se ao lado dela.
Os homens obedeceram, mas os olhares continuavam nela — curiosos, avaliadores, alguns com um brilho de respeito, outros com algo mais sombrio.
Dante foi direto.
“Alguém está nos vigiando. Fotos minhas e da minha esposa. Alguém com acesso interno. Alguém que sabe como burlar as câmeras. Eu quero nomes. Suspeitas. Agora.”
Silêncio pesado.
Um homem mais velho, com barba grisalha e anel de ouro no dedo mindinho — Marco, o consigliere de longa data —, falou primeiro.
“Eu confio em todos aqui, Don Dante. Mas se há um traidor, pode ser alguém mais baixo na hierarquia. Um soldado. Um motorista.”
Outro homem, mais jovem, tatuagens subindo pelo pescoço — Luca, o responsável pela segurança digital —, balançou a cabeça.
“As câmeras foram desligadas de dentro da casa. Pelo sistema central. Só cinco pessoas têm o código mestre: você, Vincenzo, eu, Marco e… o próprio sistema de backup que só ativa em emergência.”
Dante inclinou a cabeça.
“Então um de vocês cinco. Ou eu.”
Isabella observava cada rosto. Marco parecia genuinamente chocado. Luca nervoso, suando ligeiramente. Vincenzo impassível como sempre. Os outros três — homens que ela não conhecia — trocavam olhares rápidos.
Ela falou pela primeira vez.
“Vocês todos sabiam do casamento antes de acontecer?”
Marco assentiu.
“Sim, senhora. O Don nos informou semanas antes.”
“E algum de vocês questionou a decisão?”
Silêncio.
Então Luca falou, hesitante.
“Eu… eu achei arriscado. Trazer uma Rossi para dentro. Os Bianchi ainda têm ressentimento pelo que aconteceu com Lorenzo. Eles podem usar isso contra nós.”
Dante virou-se para ele devagar.
“Você achou arriscado… ou viu uma oportunidade?”
Luca empalideceu.
“Don, eu juro—”
Dante ergueu a mão. Silêncio.
Isabella se inclinou para frente.
“Luca… você estava na casa na noite em que a foto da academia foi tirada?”
Ele piscou rápido.
“Eu… sim. Estava ajustando o sistema de alarme no subsolo.”
“E você viu alguém?”
“Não. Ninguém.”
Isabella sustentou o olhar dele.
“Você está mentindo.”
A sala congelou.
Luca abriu a boca, mas Dante já estava de pé. Em dois passos, estava atrás dele, a mão no ombro — não apertando, mas firme o suficiente para imobilizar.
“Por quê?”, perguntou Dante baixo. Perigoso.
Luca tremia.
“Eu… eu não queria. Eles me obrigaram. Disseram que se eu não ajudasse, matariam minha irmã. Ela está na Itália, Don. Eu não tive escolha.”
Dante fechou os olhos por um segundo.
“Quem são ‘eles’?”
“Os Bianchi. Um homem chamado Enzo. Ele me contatou há meses. Eu só… desliguei as câmeras. Não tirei as fotos. Juro.”
Isabella sentiu o sangue gelar.
“Enzo Bianchi… irmão mais novo do capo que matou Lorenzo?”
Dante assentiu uma única vez.
“Sim.”
Ele soltou Luca, mas o homem não se moveu.
“Você vai me dar tudo que sabe sobre ele. Endereços, contatos, horários. Tudo. E depois… você vai desaparecer por um tempo. Longe. Até eu decidir o que fazer com você.”
Luca assentiu rápido, lágrimas nos olhos.
“Obrigado, Don.”
Dante virou-se para os outros.
“Alguém mais tem algo a dizer?”
Silêncio absoluto.
“Então está decidido. Luca fica sob vigilância até segunda ordem. Vincenzo, cuida disso. Marco, quero um relatório completo sobre os movimentos dos Bianchi nas últimas semanas. O resto… dispersar.”
Os homens saíram em fila, respeitosos.
Quando ficaram sozinhos, Dante virou-se para Isabella.
“Você foi boa. Muito boa.”
Ela se levantou, aproximando-se dele.
“Eu vi o medo nos olhos dele. E a culpa. Ele não é o cérebro. É só uma peça.”
“Eu sei.” Dante a puxou pela cintura, colando o corpo dela ao seu. “Mas agora sabemos quem está puxando as cordas.”
Ele a beijou — feroz, urgente, como se precisasse afirmar que ela ainda era dele.
“Eu vou acabar com isso”, prometeu contra os lábios dela. “E quando acabar… você e eu vamos ter tempo. Tempo de verdade. Sem sombras.”
Isabella correspondeu o beijo com a mesma intensidade, as mãos no rosto dele.
“Então acabe logo. Porque eu não aguento mais viver olhando por cima do ombro.”
Naquela noite, eles fizeram amor devagar, na cama oficial dela — não no quarto subterrâneo. Foi diferente: terno, quase desesperado. Como se ambos soubessem que o tempo estava se esgotando.
E enquanto Isabella dormia nos braços dele, o celular de Dante vibrou na mesinha de cabeceira.
Uma mensagem de número desconhecido.
Uma única foto: Isabella dormindo, o rosto sereno, os cabelos espalhados no travesseiro.
E a legenda:
“Última chance. Entregue ela. Ou ela morre dormindo ao seu lado.”
Dante apagou a tela, o maxilar travado.
Ele apertou Isabella mais forte contra o peito.
“Não vou entregar”, sussurrou no escuro.
Mas o medo — real, cru — se instalou no peito dele pela primeira vez em anos.
Porque agora não era mais sobre poder.
Era sobre perdê-la.
E isso… isso ele não sobreviveria.
Capítulo 7: A Noite dos Traidores
O celular de Dante permaneceu escuro sobre a mesinha de cabeceira, mas a mensagem invisível queimava na mente dele como brasa. Ele não dormiu mais aquela noite. Ficou deitado de lado, o braço ao redor da cintura de Isabella, o corpo dela encaixado perfeitamente contra o seu como se sempre tivesse pertencido ali. A respiração dela era lenta, profunda, confiante no sono. Ele invejava aquela paz — invejava porque sabia que não duraria.
Ao amanhecer, quando os primeiros raios cinzentos atravessaram as cortinas, Dante se levantou com cuidado para não acordá-la. Vestiu uma camisa preta e calça jeans escura, calçou botas silenciosas e saiu do quarto. O corredor estava vazio, mas ele sentia olhos em todos os lugares — mesmo sabendo que as câmeras haviam sido reforçadas durante a madrugada por Vincenzo.
No escritório no andar de baixo, encontrou o homem já esperando. Vincenzo estava de pé junto à janela, olhando para o jardim envolto em névoa. Um copo de café fumegante na mão, o rosto marcado por noites sem sono.
“Alguma novidade?”, perguntou Dante sem preâmbulos, fechando a porta atrás de si.
Vincenzo virou-se devagar.
“Luca falou. Tudo. Enzo Bianchi o contatou há quatro meses. Primeiro com ameaças à irmã dele em Nápoles. Depois com dinheiro. Luca forneceu o código das câmeras, mas jura que não instalou nenhuma câmera extra. As fotos foram tiradas com celular — alguém esteve fisicamente perto. Muito perto.”
Dante sentou-se na cadeira de couro atrás da mesa, os dedos entrelaçados.
“E o backup? Alguém acessou o sistema de armazenamento externo?”
“Sim. Alguém logou com credenciais antigas — credenciais que só três pessoas tinham: você, eu e Lorenzo.”
O nome caiu como uma pedra no silêncio.
Dante fechou os olhos por um segundo.
“Lorenzo está morto há sete anos.”
“Mas as credenciais nunca foram revogadas. Eu não revoguei. Achei que era desnecessário. Erro meu.”
Dante abriu os olhos. O olhar era gelo puro.
“Então quem usou?”
“Não sei ainda. Mas o login aconteceu de dentro da casa. Do meu próprio laptop, na noite em que Luca desligou as câmeras principais. Alguém entrou aqui enquanto eu dormia. Alguém que tem chave do escritório.”
Dante se levantou devagar, contornando a mesa.
“Você dorme com a porta trancada?”
“Sempre.”
“Então quem tem cópia da sua chave?”
Vincenzo hesitou — uma hesitação mínima, mas suficiente.
“Minha filha. Sofia. Ela mora na casa dos fundos, no anexo. Às vezes vem pegar coisas à noite. Ela tem a chave reserva desde que a mãe morreu.”
Dante parou a centímetros dele.
“Sofia tem vinte e quatro anos. Trabalha na contabilidade da família há três. É leal. Ou era.”
Vincenzo baixou a cabeça.
“Eu juro, Don. Se ela estiver envolvida… eu mesmo cuido dela.”
Dante tocou o ombro do homem mais velho — um gesto que poderia ser de conforto ou de ameaça.
“Você não vai tocar nela. Ainda não. Vamos confirmar primeiro.”
Eles saíram do escritório juntos. O anexo ficava nos fundos da propriedade, uma construção pequena e discreta, quase escondida entre os carvalhos antigos. Sofia morava ali desde os dezoito anos, quando a mãe faleceu de câncer. Vincenzo a criara sozinho, e ela crescera vendo o pai servir os Moretti como se fosse religião.
Bateram na porta. Sofia abriu vestindo moletom cinza e calça de pijama, os cabelos castanhos presos em um coque bagunçado. Ao ver Dante e o pai juntos àquela hora, empalideceu.
“Pai? Don Moretti? Aconteceu alguma coisa?”
Dante entrou sem ser convidado. Vincenzo fechou a porta atrás deles.
A sala era pequena, acolhedora: sofá bege, livros empilhados na mesinha de centro, uma foto da mãe dela na parede. Sofia cruzou os braços, tentando esconder o tremor.
“Vocês estão me assustando.”
Dante foi direto.
“Alguém usou o laptop do seu pai para acessar arquivos confidenciais. Fotos minhas e da minha esposa. Alguém que entrou no escritório dele à noite. Você tem a chave reserva.”
Sofia piscou rápido.
“Eu… sim, eu tenho. Mas eu nunca entrei sem permissão. Eu juro.”
“Mostre o celular”, ordenou Dante.
Ela hesitou.
“Por quê?”
“Porque se você tirou aquelas fotos, elas ainda podem estar na galeria. Ou no lixo. Ou enviadas para alguém.”
Sofia olhou para o pai. Vincenzo assentiu uma única vez, o rosto de pedra.
Com mãos trêmulas, ela pegou o celular na mesinha de cabeceira e o entregou a Dante.
Ele abriu a galeria. Nada. Pasta de apagados: nada. Aplicativos de mensagens: limpos. Mas quando foi para as configurações e verificou os backups recentes no iCloud, encontrou algo.
Uma foto enviada para um número desconhecido há duas semanas. A mesma foto de Isabella dormindo na mansão Rossi.
Dante virou a tela para ela.
“Explique.”
Sofia começou a chorar. Lágrimas silenciosas, grossas.
“Eu não queria… eles me pegaram saindo da faculdade. Dois homens. Disseram que sabiam onde eu morava, onde meu pai trabalhava. Disseram que se eu não ajudasse, iam matar ele. Eu só… tirei uma foto quando fui pegar documentos no escritório. Eu não sabia que era dela. Eu juro.”
Vincenzo deu um passo à frente, a voz rouca.
“Quem são eles?”
“Eu não sei os nomes. Um deles se chamava Enzo. Ele… ele me mandou mensagens. Ameaçou que se eu contasse, mataria vocês dois.”
Dante guardou o celular no bolso.
“Você enviou mais fotos depois?”
“Não. Só aquela. Depois eu bloqueei o número. Eu tinha medo de continuar.”
Ele a observou por um longo momento. Depois olhou para Vincenzo.
“Leve-a para o porão de contenção. Agora. Ninguém entra nem sai sem minha ordem.”
Vincenzo assentiu, os olhos cheios de dor.
“Sofia… vamos.”
Ela chorou mais alto, mas não resistiu quando o pai a pegou pelo braço e a levou para fora.
Dante ficou sozinho na sala pequena. Sentou-se no sofá, as mãos apertando as coxas. Sentia raiva — de Enzo, de Sofia, de si mesmo por não ter visto antes. Mas acima de tudo, sentia medo. Medo real. Porque se Sofia era só uma peça, então Enzo estava mais perto do que nunca.
Quando voltou para o quarto principal, Isabella já estava acordada. Sentada na cama, os joelhos contra o peito, vestindo apenas a camisola de cetim preto. Os olhos dela o encontraram imediatamente.
“O que aconteceu?”
Dante fechou a porta, encostou-se nela por um segundo, respirando fundo.
“Sofia. A filha do Vincenzo. Ela tirou a foto antiga. Foi coagida pelos Bianchi.”
Isabella fechou os olhos.
“E agora?”
“Está contida. Vincenzo está com ela. Eu vou lidar com Enzo pessoalmente.”
Ela se levantou, caminhando até ele. Tocou o rosto dele com as duas mãos.
“Não vá sozinho.”
“Eu não vou.” Ele cobriu as mãos dela com as suas. “Mas eu preciso acabar com isso. Hoje.”
Isabella assentiu devagar.
“Então me leva junto.”
“Não.”
“Sim.” A voz dela era aço. “Eu não sou mais só a esposa que você protege. Eu sou parte disso agora. Se Enzo quer me usar contra você, que venha. Mas eu não vou ficar esperando aqui como uma donzela em perigo.”
Dante a puxou contra si, beijando-a com força — raiva, desejo, desespero misturados.
“Você me mata, Isabella.”
“Então morra comigo”, sussurrou ela contra os lábios dele. “Mas não me deixe de fora.”
Ele a ergueu nos braços, levando-a de volta para a cama. Deitou-a com cuidado, cobrindo o corpo dela com o seu. As mãos dele percorreram as coxas dela, subindo a camisola até a cintura.
“Você quer vir comigo?”, murmurou, mordendo o pescoço dela. “Então prove que aguenta o que vem depois.”
Ele abriu as pernas dela com o joelho, posicionando-se entre elas. Não usou as mãos — só a boca. Desceu beijando o caminho inteiro: clavícula, seios, barriga, até chegar ao centro. Lambeu devagar, torturante, enquanto os dedos entravam nela, curvando-se exatamente onde ela precisava.
Isabella agarrou os lençóis, os quadris se movendo contra a boca dele.
“Dante… por favor…”
Ele ergueu o rosto apenas o suficiente para falar.
“Diga que você é minha. Diga que fica do meu lado. Não importa o que aconteça.”
“Eu sou sua”, gemeu ela. “Sempre. Do seu lado. Sempre.”
Ele voltou a chupá-la com mais força, os dedos acelerando. Quando ela gozou, foi gritando o nome dele, as pernas tremendo ao redor da cabeça dele.
Dante subiu, beijando-a para que sentisse o próprio gosto. Tirou a calça rapidamente, entrando nela de uma vez, fundo, sem barreiras dessa vez — só pele contra pele.
“Você sente isso?”, grunhiu ele, movendo-se devagar, profundo. “Isso é real. Você e eu. Nada mais importa.”
Isabella cravou as unhas nas costas dele, acompanhando o ritmo.
“Então me fode como se fosse a última vez”, sussurrou ela.
Ele obedeceu.
Foi intenso, quase brutal. Estocadas fortes, ritmadas, possessivas. Eles se olhavam nos olhos o tempo todo — sem piscar, sem desviar. Quando gozaram juntos, foi como uma explosão silenciosa: corpos colados, respirações misturadas, lágrimas nos olhos dela, um gemido rouco dele.
Depois, ficaram deitados lado a lado, suados, ofegantes.
“Você vem comigo”, disse ele finalmente. “Mas fica atrás de mim. Sempre.”
Ela assentiu.
“Eu fico.”
Naquela tarde, Dante reuniu uma equipe pequena — Vincenzo, dois homens de confiança e Isabella. Eles saíram em dois carros blindados, rumo a um armazém abandonado nos arredores de Nova Jersey. Era lá que Enzo Bianchi havia marcado o encontro — uma mensagem enviada ao celular de Sofia, interceptada por Vincenzo.
O armazém era um esqueleto de metal e concreto, janelas quebradas, vento uivando pelas frestas. Quando chegaram, Enzo já estava lá: alto, magro, cabelos loiros curtos, sorriso frio. Cinco homens armados ao redor dele.
Dante saiu primeiro, Isabella logo atrás, protegida pelo corpo dele.
Enzo abriu os braços.
“Don Moretti. E a bela Rossi. Que surpresa agradável.”
Dante não sorriu.
“Você tem dez segundos para explicar por que não devo te matar agora.”
Enzo riu.
“Porque eu tenho algo que você quer. Paz. Uma trégua real. Mas com condições.”
“Quais?”
Enzo olhou diretamente para Isabella.
“Ela sai da jogada. Volta para a família dela. A dívida some. E você me devolve o território que tomou depois da morte do meu irmão.”
Dante deu um passo à frente.
“Isso não vai acontecer.”
“Então ela morre”, disse Enzo simplesmente. “E você assiste.”
Isabella sentiu o sangue gelar, mas ergueu o queixo.
“Você acha que eu sou só uma peça? Que ele vai me entregar?”
Enzo sorriu.
“Ele já perdeu um irmão. Não vai querer perder mais ninguém.”
Dante sacou a arma em um movimento fluido.
“Última chance, Enzo.”
O outro ergueu as mãos.
“Então atire. Mas saiba que se eu morrer, meus homens têm ordens. Eles vão atrás dela. E vão atrás dos seus. Um por um.”
O ar ficou pesado.
Isabella tocou o braço de Dante.
“Não atire. Ainda não.”
Ele olhou para ela.
“Por quê?”
“Porque eu quero ouvir a verdade dele. Quero saber por que ele está tão obcecado comigo.”
Enzo riu de novo.
“Porque você é o troféu, querida. O troféu que ele nunca deveria ter ganhado. Lorenzo morreu por causa do seu pai. E agora você é a vingança perfeita.”
Dante apertou a arma.
“Chega.”
Mas antes que pudesse atirar, um tiro ecoou — não dele.
Vindo de trás.
Um dos homens de Enzo caiu, baleado na cabeça.
Caos.
Tiros de todos os lados. Dante puxou Isabella para trás de uma pilha de caixotes, atirando enquanto a protegia com o corpo.
” fica abaixada!”
Ela obedeceu, o coração disparado.
Vincenzo gritou algo, atirando em dois homens.
Minutos que pareceram horas.
Quando o silêncio voltou, o chão estava coberto de corpos.
Enzo estava vivo — ferido no ombro, mas vivo. Dante o arrastou pelo colarinho.
“Quem atirou primeiro?”
Enzo cuspiu sangue.
“Não fui eu.”
Dante olhou ao redor.
Um dos seus homens — um dos dois de confiança — estava morto. O outro sumido.
Traição dupla.
Dante encostou a arma na testa de Enzo.
“Última chance.”
Enzo sorriu, mesmo sangrando.
“Você nunca vai saber quem é o verdadeiro traidor. Porque ele está mais perto do que pensa.”
Dante atirou.
Enzo caiu.
Isabella se levantou devagar, tremendo.
Dante correu até ela, tocando o rosto dela, procurando ferimentos.
“Você está bem?”
Ela assentiu.
“Sim. Mas… quem era o outro atirador?”
Dante olhou para o corpo do seu próprio homem.
“Não sei. Mas vamos descobrir.”
Eles voltaram para casa em silêncio, o carro cheirando a pólvora e sangue.
Naquela noite, deitados na cama, Dante segurou Isabella como se ela pudesse desaparecer.
“Eu quase te perdi hoje”, sussurrou.
“Você não perdeu”, respondeu ela, beijando o peito dele. “Mas isso não acabou.”
“Não acabou.”
E no escuro, o celular vibrou novamente.
Uma mensagem de número desconhecido.
Uma foto: Dante e Isabella no armazém, ele protegendo-a com o corpo.
E a legenda:
“Próxima vez, eu não erro.”
Dante apagou a tela.
Mas o medo agora era mútuo.
E a obsessão — a deles um pelo outro — era a única coisa que os mantinha vivos.
Capítulo 8: O Preço da Verdade
O carro blindado cortava a estrada de volta para Long Island em silêncio absoluto. Isabella estava sentada no banco traseiro ao lado de Dante, o corpo ainda tremendo com a adrenalina do tiroteio no armazém. O cheiro de pólvora grudava nas roupas deles, misturado ao odor metálico de sangue seco — não dela, não dele, mas dos homens que haviam caído. Vincenzo dirigia, o rosto uma máscara de pedra, os nós dos dedos brancos no volante. No banco do passageiro, o único homem que restara da equipe de confiança — um sujeito chamado Marco, o mesmo consigliere grisalho da reunião anterior — olhava fixamente para a estrada, como se o peso do que havia acontecido o esmagasse.
Isabella quebrou o silêncio primeiro.
“Quem atirou primeiro?”
Dante virou o rosto para ela. A luz dos postes piscava intermitente no rosto dele, destacando a linha dura do maxilar e o hematoma que começava a se formar na têmpora — um arranhão de bala que ele nem havia notado na hora.
“Não foi Enzo. Ele estava me encarando quando o primeiro tiro veio. Foi de trás. Do nosso lado.”
Marco engoliu em seco, visivelmente.
“Don… eu juro que não—”
Dante ergueu a mão sem olhar para ele.
“Não agora, Marco. Quando chegarmos em casa.”
Isabella tocou o braço de Dante, os dedos frios contra a pele quente dele.
“E se for ele?”
Dante cobriu a mão dela com a sua, apertando de leve.
“Então ele morre.”
O resto da viagem foi um vazio tenso. Quando os portões da mansão se abriram, a casa parecia mais sombria do que nunca — luzes baixas nas janelas, sombras longas nos jardins. Vincenzo estacionou na entrada lateral, longe dos olhares eventuais dos seguranças. Desceram em silêncio.
Dante segurou Isabella pela mão, puxando-a para dentro. Não para o quarto. Direto para o escritório.
“Tranca a porta”, ordenou para Vincenzo.
O homem obedeceu. Marco ficou parado no centro da sala, as mãos ao lado do corpo, como um condenado esperando sentença.
Dante sentou-se na cadeira atrás da mesa, puxando Isabella para ficar ao lado dele — não atrás, mas ao lado. Um gesto sutil, mas claro: ela era parte daquilo agora. Não mais protegida. Participante.
“Conte”, disse Dante simplesmente.
Marco respirou fundo.
“Eu não atirei em Enzo. Mas… eu sabia que ia acontecer. Eu sabia que alguém ia tentar.”
Isabella sentiu o estômago revirar.
“Você sabia?”
Marco assentiu devagar, os olhos baixos.
“Eu recebi uma ligação ontem à noite. Voz distorcida. Disseram que se eu não cooperasse, minha filha — que mora em Boston com a mãe — ia pagar o preço. Disseram que sabiam onde ela estuda, onde ela trabalha. Eu… eu só tinha que garantir que o Don e a senhora Rossi estivessem no armazém. Que a reunião acontecesse. Não atirei. Mas eu facilitei.”
Dante inclinou a cabeça.
“Quem era a voz?”
“Eu não sei. Mas o sotaque era do sul. Calabrés, talvez. Não era Enzo. Enzo é do norte. Milão.”
Isabella cruzou os braços.
“Então há outro jogador. Alguém que queria Enzo morto e usou você para colocar o Don no meio do fogo cruzado.”
Marco assentiu.
“Sim. E eu acho… eu acho que era alguém que queria o caos. Alguém que se beneficia se o Don cair ou se enfraquecer.”
Dante se levantou devagar. Caminhou até Marco, parando a centímetros dele.
“Você traiu a família. Traiu a mim.”
Marco ergueu os olhos, lágrimas brilhando.
“Eu fiz por ela, Don. Minha filha. Eu não tinha escolha.”
Dante ficou em silêncio por um longo momento. Depois, estendeu a mão e tocou o ombro do homem mais velho — o mesmo gesto que havia feito com Vincenzo horas antes.
“Eu entendo o que é proteger quem se ama. Mas traição tem preço.”
Ele olhou para Vincenzo.
“Leve-o para o porão. Com Sofia. Eles ficam lá até eu decidir.”
Vincenzo assentiu, pegando Marco pelo braço. O consigliere não resistiu. Apenas baixou a cabeça e saiu, os passos pesados.
Quando a porta se fechou, Dante virou-se para Isabella. O rosto dele estava exausto, mas os olhos queimavam.
“Eu não sei mais em quem confiar”, admitiu ele baixo. “Vincenzo? Talvez. Mas até ele tem fraquezas. Sofia. Luca. Marco. Todos têm alguém que podem perder.”
Isabella se aproximou, tocando o peito dele.
“Você confia em mim?”
Dante a olhou como se a pergunta fosse absurda.
“Eu confio em você mais do que em mim mesmo.”
Ela assentiu devagar.
“Então vamos usar isso. Vamos fingir que estamos enfraquecidos. Que o tiroteio nos abalou. Que você está vulnerável. Deixar o verdadeiro traidor se expor.”
Dante franziu a testa.
“Você quer ser isca.”
“Eu já sou isca. Desde o dia que entrei nessa casa. Pelo menos agora eu controlo o jogo.”
Ele a puxou contra si, os braços ao redor dela com força quase dolorosa.
“Eu não aguento a ideia de te perder, Isabella. Se algo acontecer com você…”
“Então não deixe acontecer.” Ela ergueu o rosto, beijando-o devagar. “Mas não me tranque. Me deixa lutar ao seu lado.”
Ele correspondeu o beijo com desespero, as mãos descendo pelas costas dela, apertando-a contra o corpo como se quisesse fundi-los.
“Você me deixa louco”, murmurou contra os lábios dela. “Mas tudo bem. Vamos jogar do seu jeito.”
Eles passaram o resto da noite planejando. Sentados no sofá do escritório, com um mapa da propriedade espalhado na mesa de centro, copos de uísque intocados ao lado. Isabella apontava fraquezas nas câmeras, sugeria armadilhas discretas, propunha usar Sofia e Luca como iscas falsas para atrair o traidor. Dante ouvia tudo, impressionado com a mente afiada dela — a arquiteta que via estruturas, padrões, pontos de falha.
Quando o relógio marcou três da manhã, eles estavam exaustos. Dante a levou para o quarto principal, despindo-a devagar, peça por peça, como se cada botão aberto fosse uma confissão.
Deitaram-se nus, pele contra pele, sem pressa.
Ele a tocou com reverência — dedos traçando as curvas dos seios, a linha da cintura, a parte interna das coxas. Beijou cada centímetro como se estivesse memorizando. Isabella correspondeu, as mãos explorando as costas dele, as cicatrizes antigas, as tatuagens que contavam histórias de dor.
Quando ele entrou nela, foi lento, profundo, olhos nos olhos.
“Eu te amo”, sussurrou ele de repente, as palavras escapando como se não pudesse mais contê-las.
Isabella congelou por um segundo. Depois sorriu, lágrimas nos olhos.
“Eu também te amo. Mesmo sabendo que isso pode nos destruir.”
Ele acelerou devagar, os movimentos se tornando mais urgentes, mais desesperados. Eles gozaram juntos, em silêncio, os corpos tremendo, os nomes um do outro escapando em suspiros quebrados.
Depois, ficaram abraçados, o suor secando na pele.
“Promete que não vai morrer por mim”, disse ela baixo.
“Eu prometo que vou viver por você”, respondeu ele. “E vou matar quem tentar te tirar de mim.”
O dia seguinte amanheceu com uma calmaria enganosa. Dante anunciou para os poucos homens que restavam que estava abalado — que o tiroteio o deixara questionando tudo. Que precisava de tempo para reorganizar. Que Isabella ficaria na mansão, sob proteção mínima, enquanto ele “resolvia assuntos pendentes”.
Era mentira. Tudo mentira.
Eles esperavam.
Naquela noite, enquanto fingiam dormir no quarto principal, as luzes baixas, a porta entreaberta de propósito, ouviram passos leves no corredor.
Isabella apertou a mão de Dante debaixo do lençol.
Ele assentiu quase imperceptivelmente.
A porta se abriu devagar.
Uma silhueta entrou — alta, magra, movimentos cautelosos.
Vincenzo.
Mas não era Vincenzo.
Era Sofia.
A garota parou ao pé da cama, uma faca na mão direita, tremendo.
Isabella sentou-se devagar.
“Sofia?”
A garota engoliu em seco, lágrimas escorrendo.
“Eu… eu não queria. Eles disseram que se eu não fizesse isso, matariam meu pai. Disseram que era a única saída.”
Dante se levantou, nu, sem medo, aproximando-se dela.
“Quem disse, Sofia?”
Ela baixou a faca, o braço tremendo.
“Um homem… ele se chama Carlo. Carlo Rossi. Seu tio, senhora Isabella.”
Isabella sentiu o mundo girar.
“Meu… tio?”
Sofia assentiu.
“Ele disse que o casamento era uma traição à família Rossi. Que o senhor Moretti destruiu tudo. Que eu tinha que… acabar com isso. Acabar com ela.”
Dante pegou a faca da mão dela com cuidado, jogando-a longe.
“Carlo Rossi está morto há anos. Eu mesmo vi o corpo.”
Sofia balançou a cabeça.
“Não. Ele fingiu a morte. Está vivo. Está aqui. Em Nova York. Trabalhando com os Bianchi remanescentes. Ele quer vingança pelo que aconteceu com Elena. Ele culpa o senhor Moretti… e a própria sobrinha por ter se aliado ao inimigo.”
Isabella levantou-se, o lençol enrolado no corpo.
“Ele matou minha irmã?”
Sofia chorou mais forte.
“Ele ordenou. Foi ele quem deu a ordem do acidente. Para punir seu pai por negócios ruins. E agora… agora ele quer punir você.”
Dante abraçou Isabella por trás, segurando-a firme enquanto ela tremia.
“Onde ele está?”
Sofia baixou a cabeça.
“Eu não sei. Mas ele me deu uma hora para fazer isso. Se eu não responder, ele vai atacar a casa. Ele tem homens do lado de fora. Esperando.”
Dante olhou para Isabella.
“Chame ele. Diga que terminou.”
Isabella pegou o celular de Sofia, as mãos firmes apesar de tudo.
Digitou a mensagem:
Está feito. Ela está morta.
Enviou.
Segundos depois, a resposta veio:
Boa garota. Estou chegando. Prepare o corpo.
Dante sorriu — frio, letal.
“Então vamos preparar uma recepção.”
Ele virou-se para Sofia.
“Você fica aqui. Trancada. Se tentar fugir, morre.”
Sofia assentiu, chorando.
Dante e Isabella se vestiram rápido. Chamaram os poucos homens leais que restavam — menos de dez. Posicionaram-se nos pontos estratégicos da mansão.
E esperaram.
Meia-noite.
O primeiro tiro veio do jardim.
Depois outro.
E então o inferno.
Dante e Isabella lutaram lado a lado — ele com a arma, ela com a mente afiada, indicando posições, fraquezas. Eles eram uma unidade. Perfeita. Mortal.
Quando Carlo Rossi finalmente entrou pela porta principal — alto, grisalho, olhos iguais aos do pai de Isabella —, ele parou ao ver os dois de pé no hall, vivos, intactos.
“Vocês…”, murmurou ele.
Isabella deu um passo à frente.
“Tio Carlo. Você matou Elena. Por quê?”
Ele sorriu, amargo.
“Porque seu pai era fraco. Porque os Rossi estavam afundando. Porque eu precisava de um exemplo. E você… você se vendeu para o inimigo.”
Dante ergueu a arma.
“Última chance. Diga quem mais está com você.”
Carlo riu.
“Não importa. Vocês vão morrer mesmo assim.”
Ele sacou uma pistola.
Dante atirou primeiro.
Carlo caiu, um buraco limpo na testa.
Silêncio.
Isabella olhou para o corpo do tio — o homem que havia sido família, que havia destruído tudo.
Ela caiu de joelhos.
Dante a ergueu, abraçando-a forte.
“Acabou”, sussurrou ele.
Mas quando olharam para o corpo, viram o celular na mão dele.
Uma mensagem aberta.
Plano B: detonar.
Dante praguejou.
“Merda. Bombas.”
Eles correram para fora, gritando para os homens evacuarem.
Mas era tarde.
A explosão veio do subsolo — onde Sofia e Luca estavam contidos.
O chão tremeu.
Fogo subiu.
Isabella gritou.
Dante a puxou para longe, protegendo-a com o corpo enquanto a mansão queimava.
Quando o fogo se acalmou, horas depois, eles estavam sentados na grama, cobertos de fuligem, assistindo as chamas devorarem o que restava.
Isabella chorava em silêncio.
Dante a abraçava, o rosto impassível, mas os olhos cheios de dor.
“Eu perdi tudo”, murmurou ele.
“Não”, disse ela, tocando o rosto dele. “Você me tem. E eu te tenho. Isso é o que sobrou. E é suficiente.”
Ele a beijou — salgado de lágrimas, feroz de sobrevivência.
“Então vamos reconstruir. Juntos.”
Mas no fundo, ambos sabiam.
A guerra não havia terminado.
Apenas mudado de forma.
E o próximo golpe viria quando menos esperassem.
Capítulo 9: Cinzas e Promessas
As chamas ainda lambiam o que restava da ala leste da mansão quando o sol nasceu, pálido e indiferente, sobre os destroços. O ar cheirava a madeira queimada, metal derretido e algo mais acre — o cheiro da perda irreversível. Isabella estava sentada nos degraus da entrada principal, que milagrosamente haviam sobrevivido à explosão. O vestido preto que usara na noite anterior estava rasgado na bainha, sujo de fuligem e sangue seco — não dela, mas de um dos homens que tentara protegê-los. Seus cabelos, antes impecáveis, caíam em mechas desgrenhadas sobre os ombros. Ela não chorava mais. As lágrimas haviam secado horas antes, deixando apenas uma sensação oca no peito.
Dante estava de pé a poucos metros, falando baixo com os poucos sobreviventes: Vincenzo, que havia conseguido arrastar Luca para fora do subsolo antes da detonação, e dois seguranças que escaparam por pouco. O rosto dele era uma máscara de controle, mas Isabella conhecia cada linha — a tensão no maxilar, o brilho febril nos olhos, a forma como ele apertava e soltava os punhos como se precisasse de algo para quebrar.
Ele se aproximou dela devagar, os passos pesados sobre o cascalho estalado. Ajoelhou-se à frente dela, ignorando a sujeira, e pegou as mãos dela entre as suas. Estavam frias, tremendo ligeiramente.
“Você está machucada?”, perguntou ele, a voz rouca de fumaça e exaustão.
Isabella balançou a cabeça.
“Não fisicamente.” Ela olhou para os escombros. “Mas isso… isso era sua casa. Sua vida.”
“Era.” Ele apertou as mãos dela com mais força. “Agora é só pedra e madeira. Eu reconstruo casas. O que eu não reconstruo é você. Se eu te perdesse ontem à noite…”
Ele não terminou a frase. Não precisava.
Isabella ergueu uma mão e tocou o corte superficial na têmpora dele, onde o sangue seco formava uma linha escura.
“Você me protegeu. De novo. Mas e agora, Dante? O que resta?”
Ele olhou ao redor — para os homens feridos sendo atendidos por paramédicos que haviam chegado minutos antes, para o corpo de Carlo Rossi coberto por um lençol improvisado, para as viaturas da polícia que se aproximavam ao longe com luzes piscando.
“Resta a gente.” Ele a puxou para ficar de pé, abraçando-a contra o peito. O coração dele batia forte, irregular, vivo. “E a vingança que ainda não acabou. Porque Carlo não agia sozinho. Alguém plantou aquelas bombas. Alguém sabia exatamente onde estávamos.”
Isabella se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele.
“Então vamos descobrir quem. Mas não hoje. Hoje a gente respira. Hoje a gente sobrevive.”
Ele assentiu devagar, como se a ideia de parar, mesmo por um instante, fosse estranha.
“Tudo bem. Hoje a gente sobrevive.”
Eles foram levados para um hotel discreto no centro de Manhattan — um lugar que Dante possuía através de uma empresa de fachada. Suíte presidencial no último andar, janelas blindadas, segurança 24 horas. Quando a porta se fechou atrás deles, o silêncio foi ensurdecedor.
Isabella foi direto para o banheiro. Abriu o chuveiro quente, deixando a água bater no corpo até a pele ficar vermelha. Ficou ali por longos minutos, esfregando a fuligem, o sangue, o cheiro de morte. Quando saiu, enrolada em um roupão branco felpudo, encontrou Dante na sala de estar, sem camisa, limpando um corte no braço com gaze e antisséptico. A tatuagem no peito parecia mais escura contra a pele pálida de exaustão.
Ela se aproximou devagar, pegando o algodão da mão dele.
“Deixa eu fazer isso.”
Ele deixou. Ficou parado enquanto ela limpava o ferimento com cuidado, os dedos leves na pele dele. Quando terminou, ergueu os olhos.
“Você quase morreu por mim ontem.”
“Eu morreria por você.” A voz dele era baixa, crua. “Mas prefiro viver.”
Isabella deixou o roupão deslizar dos ombros, caindo no chão. Ficou nua diante dele, sem pudor, sem medo. Apenas vulnerável.
“Então viva comigo. Agora.”
Dante a ergueu nos braços como se ela não pesasse nada, levando-a para o quarto. Deitou-a na cama king-size, os lençóis brancos contrastando com a sujeira que ainda restava nos dois. Ele não se apressou. Beijou-a devagar — primeiro a testa, depois as pálpebras, o nariz, os lábios. Desceu pelo pescoço, traçando as marcas antigas que ele mesmo havia deixado, renovando-as com mordidas suaves.
As mãos dele percorreram o corpo dela como se estivesse redescobrindo cada curva: os seios, a cintura, os quadris, as coxas. Quando chegou entre as pernas, separou-as com gentileza, beijando a parte interna antes de tocar com a língua — lento, reverente, como se quisesse apagar o terror da noite anterior com prazer.
Isabella arqueou as costas, os dedos enfiados nos cabelos dele.
“Dante…”
Ele ergueu o rosto apenas o suficiente para falar.
“Diga meu nome de novo. Como se fosse a única coisa que importa.”
“Dante.” Ela repetiu, a voz quebrada. “Dante… por favor.”
Ele voltou a lamber, os dedos entrando nela devagar, curvando-se no ponto exato que a fazia tremer. Quando ela gozou, foi silencioso, intenso, lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos enquanto o corpo convulsionava.
Dante subiu, beijando as lágrimas, depois a boca. Tirou a calça, posicionando-se entre as pernas dela. Entrou devagar, centímetro por centímetro, os olhos nunca deixando os dela.
“Você sente isso?”, sussurrou ele, movendo-se com lentidão torturante. “Isso é nosso. Ninguém tira isso de nós.”
Isabella envolveu as pernas ao redor da cintura dele, puxando-o mais fundo.
“Mais forte”, pediu ela. “Me faz esquecer.”
Ele obedeceu. Acelerou, as estocadas profundas, ritmadas, possessivas. As mãos dele seguravam os pulsos dela acima da cabeça, o corpo cobrindo o dela completamente. Eles se moveram juntos — suor, respirações ofegantes, gemidos baixos. Quando gozaram, foi ao mesmo tempo: um grito abafado dela, um grunhido rouco dele, corpos colados em um último tremor.
Ficaram assim por longos minutos, ofegantes, entrelaçados.
Dante rolou para o lado, puxando-a contra o peito.
“Eu te amo”, disse ele de novo, como se precisasse confirmar que as palavras ainda existiam depois de tudo.
“Eu te amo mais do que isso tudo”, respondeu ela, traçando a tatuagem no peito dele. “Mais do que a mansão, mais do que o império. Mais do que a vingança.”
Ele beijou o topo da cabeça dela.
“Mas a vingança ainda vem. Porque quem quer que tenha dado a ordem para explodir aquela casa… vai pagar.”
Isabella assentiu contra o peito dele.
“Eu sei. Mas primeiro… a gente descansa. A gente cura. Depois a gente caça.”
Eles dormiram — um sono pesado, sem sonhos, o primeiro descanso real em dias.
Quando acordaram, era fim de tarde. O celular de Dante vibrou na mesinha. Ele pegou, leu a mensagem de Vincenzo.
Encontrei algo. No celular de Carlo. Uma gravação. Ele falando com alguém. Voz distorcida. Mas reconheci o sotaque. É alguém que trabalhava para nós. Alguém que você confiava.
Dante sentou-se na cama, o corpo tenso.
“Quem?”
Não por mensagem. Venha ao esconderijo seguro. Traga Isabella. Ela precisa ouvir isso também.
Dante olhou para ela.
“Está pronta para mais?”
Isabella se sentou, puxando o lençol para cobrir os seios.
“Estou pronta para acabar com isso.”
Eles se vestiram — roupas simples, escuras, práticas. Saíram do hotel por uma saída secundária, entraram em um carro sem placa que os esperava.
O esconderijo era um apartamento modesto em Brooklyn — nada chamativo, nada que atraísse atenção. Vincenzo os esperava na porta, o rosto marcado por novas rugas de preocupação.
Dentro, uma mesa com laptop aberto. Uma gravação pausada na tela.
Vincenzo apertou play.
A voz de Carlo Rossi, rouca, irritada:
“…sim, as bombas estão no subsolo. Cronometradas para depois da meia-noite. Quando Moretti e a vadia estiverem dormindo. Você garante que ninguém interfira?”
A outra voz — distorcida, mas com um sotaque inconfundível: napolitano pesado, rouco de cigarros.
“Eu garanto. O sistema de alarme vai ficar cego por vinte minutos. Ninguém vai ver nada. Depois… o império Moretti cai. E eu assumo o que sobrar.”
Carlo riu.
“Você sempre foi ambicioso, Marco. Mas cuidado. Moretti não morre fácil.”
A gravação terminou.
Isabella sentiu o chão sumir.
“Marco… o consigliere?”
Vincenzo assentiu.
“Ele sumiu depois do tiroteio no armazém. Ninguém o viu desde então. Mas o celular de Carlo tinha o número dele registrado. Chamadas frequentes nas últimas semanas.”
Dante ficou imóvel, os olhos fixos na tela preta.
“Marco me criou como um filho depois que meu pai morreu. Ele estava lá quando Lorenzo foi assassinado. Ele me ajudou a tomar o poder.”
Isabella tocou o braço dele.
“Ele traiu você. Por poder.”
Dante fechou os olhos por um segundo.
“Então ele morre.”
Mas quando abriu os olhos novamente, havia algo diferente neles — não só raiva. Havia dor. Dor profunda, antiga.
Isabella o abraçou por trás, o queixo no ombro dele.
“A gente encontra ele. Juntos.”
Vincenzo pigarreou.
“Eu tenho um palpite de onde ele pode estar. Um galpão em Staten Island. Ele sempre usava aquele lugar para reuniões discretas. Se ele estiver vivo, está lá.”
Dante assentiu.
“Então vamos.”
Isabella apertou o abraço.
“Mas não hoje. Hoje a gente planeja. Hoje a gente não perde mais ninguém.”
Ele virou-se nos braços dela, beijando-a devagar.
“Tudo bem. Hoje a gente planeja.”
E naquela noite, no esconderijo seguro, eles fizeram amor de novo — não com urgência, mas com uma ternura quase dolorosa. Como se cada toque fosse uma promessa de que sobreviveriam. De que reconstruiriam. De que o amor deles era maior que o sangue, que as traições, que as cinzas.
Mas no fundo, ambos sabiam.
A caçada estava apenas começando.
E Marco — o homem que Dante chamara de tio — era o próximo na lista.
Capítulo 10: A Caçada Começa
O apartamento em Brooklyn era pequeno demais para o peso que carregava. As paredes bege pareciam fechar-se sobre eles, o ar carregado de café frio e tensão não dita. Isabella estava sentada na beirada da cama desarrumada, as pernas cruzadas, o celular de Sofia ainda na mão — agora propriedade de Dante, mas ela não conseguia largá-lo. A gravação de Carlo e Marco ecoava na cabeça dela como um loop infinito. A voz do tio morto. A voz do traidor que havia sido família para Dante.
Dante andava de um lado para o outro na sala minúscula, o corpo uma mola prestes a romper. Vincenzo estava encostado na parede, braços cruzados, olhos fixos no chão. Luca, pálido e com olheiras profundas, sentava-se no sofá puído, como se tentasse se tornar invisível.
“Marco sempre foi o cérebro por trás de tudo”, disse Dante finalmente, parando diante da janela gradeada que dava para um beco escuro. “Ele me ensinou como ler pessoas. Como detectar mentiras. Como sobreviver. E agora… ele usa tudo isso contra mim.”
Isabella levantou-se devagar, aproximando-se dele por trás. Colocou as mãos nas costas dele, sentindo os músculos rígidos sob a camiseta preta.
“Ele não é mais o homem que você conhecia. Ou talvez sempre tenha sido assim. E você só não quis ver.”
Dante virou-se, os olhos escuros encontrando os dela.
“Eu não quis ver muita coisa.” Ele tocou o rosto dela, o polegar traçando a linha do maxilar. “Mas você… você eu vejo. E não vou perder você por causa de um velho ambicioso.”
Ela segurou a mão dele contra o rosto.
“Então não vamos perder tempo. Vincenzo disse que o galpão em Staten Island é o lugar mais provável. Vamos lá. Hoje.”
Vincenzo ergueu a cabeça.
“Don, é arriscado. Se Marco estiver lá, ele não vai estar sozinho. E depois da explosão… a polícia está farejando. Qualquer movimento grande—”
“Não vamos fazer movimento grande”, interrompeu Dante. “Vamos fazer movimento preciso. Eu, Isabella e você. Luca fica aqui. Ele já fez o suficiente.”
Luca abriu a boca para protestar, mas fechou em seguida. Sabia que não tinha direito.
Isabella assentiu.
“Eu dirijo. Vocês dois vão armados. Eu fico no carro até vocês confirmarem que é seguro. Mas eu vou junto. Não discuta isso.”
Dante a olhou por um longo momento. Depois sorriu — um sorriso pequeno, quase triste.
“Você virou uma mafiosa sem nem perceber.”
“Eu virei sua parceira”, corrigiu ela. “E parceiras não ficam esperando.”
Eles saíram uma hora depois. Um SUV preto comum, sem placas chamativas, vidros escuros. Isabella ao volante, Dante no banco do passageiro com uma Glock no colo, Vincenzo atrás com um rifle desmontado no colo. O silêncio no carro era denso, quebrado apenas pelo ronco do motor e pelo GPS indicando o caminho para Staten Island.
A viagem durou quarenta minutos. O galpão ficava em uma área industrial abandonada, perto do porto — prédios de concreto rachado, pilhas de contêineres enferrujados, o cheiro salgado do mar misturado a óleo velho. Eles estacionaram a dois quarteirões de distância, em uma rua lateral escura.
Dante virou-se para Isabella.
“Fica aqui. Se algo der errado, acelera e vai embora. Não discute.”
Ela segurou o braço dele.
“Volta inteiro.”
Ele beijou-a rápido, feroz.
“Sempre.”
Ele e Vincenzo saíram, movendo-se como sombras entre os contêineres. Isabella ficou no carro, o coração batendo tão forte que parecia ecoar no peito. Os minutos se arrastaram. Dez. Quinze.
Então ouviu tiros.
Dois. Três. Silêncio.
Ela apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.
Mais tiros. Gritos abafados.
A porta do passageiro se abriu de repente. Dante entrou, ofegante, sangue no ombro esquerdo — não muito, mas o suficiente para manchar a camiseta.
“Vai!”, ordenou ele.
Isabella pisou no acelerador. O carro disparou pela rua estreita.
“Vincenzo?”
“Está bem. Ficou para trás cobrindo a saída. Marco estava lá. Com quatro homens. Dois mortos. Dois fugiram. Marco escapou. Mas deixou isso.”
Ele abriu a mão. Um pen drive preto, simples.
“Gravações. Documentos. Tudo que ele usou para nos rastrear. E uma mensagem para mim.”
Isabella dirigiu em silêncio por alguns minutos, o sangue de Dante pingando no banco.
“Ele disse o quê?”
Dante encostou a cabeça no encosto, os olhos fechados.
“Que eu sempre fui o erro do Lorenzo. Que eu nunca deveria ter tomado o poder. Que ele só queria corrigir isso. E que… que você era o meu ponto fraco. Que se ele não pudesse me matar, ia me destruir matando você.”
Isabella sentiu um frio subir pela espinha.
“Ele não vai tocar em mim.”
Dante abriu os olhos, olhando para ela com uma intensidade que a fez tremer.
“Não. Ele não vai.”
Eles voltaram ao apartamento em Brooklyn. Vincenzo chegou meia hora depois, ferido no braço, mas vivo. Luca cuidou dos curativos enquanto Isabella e Dante se trancavam no quarto pequeno.
Ela o fez sentar na cama, tirando a camiseta ensanguentada com cuidado. Limpou o ferimento — um arranhão profundo, mas não grave. Enquanto passava antisséptico, Dante a observava em silêncio.
“Você dirigiu como se estivesse fugindo do diabo”, disse ele baixo.
“Eu estava fugindo do diabo.” Ela ergueu os olhos. “Mas o diabo está dentro da gente agora. Marco. Ele conhece você melhor do que ninguém.”
Dante pegou o pen drive da mesa de cabeceira e o conectou no laptop que Vincenzo havia deixado ali.
Arquivos se abriram: planilhas de contas secretas, gravações de conversas, e-mails criptografados. E uma pasta chamada “Isabella”.
Dentro, fotos dela — antigas e recentes. Relatórios sobre a família Rossi. Um dossiê completo sobre Elena, com detalhes que nem Isabella sabia: o acidente não havia sido só uma bomba no carro. Havia sido planejado com precisão. Carlo ordenara. Marco executara.
Isabella leu em silêncio, o rosto pálido.
“Ele matou minha irmã. E depois me entregou para você como se fosse um presente envenenado.”
Dante fechou o laptop com força.
“Ele vai pagar por tudo.”
Ela se levantou, tirando a blusa devagar. Ficou de lingerie preta simples — nada sensual, só prática. Mas quando se aproximou dele, o ar mudou.
“Não hoje”, disse ela. “Hoje não é sobre vingança. Hoje é sobre nós.”
Ela o empurrou de leve para trás, fazendo-o deitar na cama. Subiu em cima dele, as mãos no peito dele, sentindo o coração acelerado.
“Eu quero você. Agora. Sem raiva. Sem medo. Só nós.”
Dante segurou os quadris dela, os olhos escurecendo.
“Então me toma.”
Ela se inclinou, beijando-o devagar — língua explorando, dentes mordendo de leve o lábio inferior. Desceu beijos pelo pescoço, pelo peito, traçando as tatuagens com a língua. Quando chegou à calça, abriu o zíper devagar, libertando-o. Ele já estava duro, latejando.
Isabella o envolveu com a mão, movendo devagar, depois com a boca — lenta, profunda, sem pressa. Dante gemeu baixo, os dedos enfiados nos cabelos dela.
“Porra, Isabella…”
Ela ergueu o rosto, subindo novamente. Tirou a calcinha, posicionando-se sobre ele. Desceu devagar, sentindo cada centímetro preenchê-la. Ficaram imóveis por um segundo, apenas se olhando.
Depois ela começou a se mover — ondulações lentas, circulares, depois mais rápidas. Dante segurava os seios dela, os polegares circulando os mamilos endurecidos. Eles se moveram juntos, ritmados, como se conhecessem cada respiração um do outro.
Quando o orgasmo dela veio, foi intenso, silencioso — o corpo tremendo, a cabeça jogada para trás. Dante a seguiu segundos depois, enterrando-se fundo, o nome dela escapando em um gemido rouco.
Ficaram colados, suados, ofegantes.
“Eu não vou deixar ele te tocar”, sussurrou ele contra o pescoço dela.
“Eu não vou deixar ele te destruir”, respondeu ela.
Na manhã seguinte, Vincenzo trouxe notícias.
“Marco foi visto em um cassino clandestino no Queens. Ele está reunindo homens. Preparando algo grande.”
Dante assentiu.
“Então é lá que acaba.”
Isabella tocou o braço dele.
“Não sozinho.”
Ele a olhou, depois sorriu — um sorriso perigoso, determinado.
“Não sozinho.”
Eles se prepararam.
Armas. Planos. Contatos.
Mas antes de saírem, Dante puxou Isabella para um canto do apartamento, longe dos outros.
“Case comigo de novo”, disse ele de repente.
Ela piscou.
“A gente já é casado.”
“Não daquele jeito frio. De verdade. Quando isso acabar. Em uma igreja. Com flores. Com votos que não sejam sobre dívida ou poder. Só sobre nós.”
Isabella sentiu lágrimas quentes nos olhos.
“Sim.”
Ele a beijou — longo, profundo, como uma promessa.
“Então vamos acabar com isso. E depois… a gente vive.”
Eles saíram juntos.
A caçada continuava.
Mas agora, com um futuro do outro lado.
E Marco — o último traidor — não tinha ideia do inferno que o esperava.
Capítulo 11: O Último Traidor
O cassino clandestino no Queens era um prédio baixo e sem graça por fora — fachada de tijolos sujos, letreiro apagado que outrora anunciava “Lavanderia 24h”, janelas cobertas por persianas enferrujadas. Por dentro, era outro mundo: luzes vermelhas pulsantes, mesas de pôquer lotadas de homens de terno barato, o ar denso de cigarro, uísque barato e suor. O som de fichas tilintando misturava-se a risadas roucas e música eletrônica baixa demais para identificar.
Dante estacionou o SUV a dois quarteirões de distância, em uma rua lateral escura onde o lixo se acumulava contra as paredes. Isabella desligou o motor. O silêncio caiu como uma cortina pesada.
“Você fica no carro”, disse Dante pela terceira vez desde que saíram do esconderijo.
“Não.” A resposta dela foi imediata, sem espaço para negociação. Ela abriu o coldre preso à coxa sob o vestido preto justo — uma Glock compacta que Vincenzo havia insistido que ela aprendesse a usar nos últimos dias. “Eu não vim até aqui para assistir de longe.”
Dante a encarou por um longo segundo. Os olhos dele eram tempestade: raiva, medo, amor misturados em um redemoinho que só ela conseguia ver.
“Então fica atrás de mim. Sempre. Se eu cair, você corre. Não discute.”
Ela tocou o rosto dele, o polegar roçando a barba por fazer.
“Eu não corro sem você.”
Vincenzo, no banco de trás, pigarreou.
“Don, a entrada dos fundos tem dois seguranças. O salão principal tem pelo menos quinze homens armados. Marco está no escritório do andar de cima — segundo o informante. Ele sabe que estamos vindo. Ou suspeita.”
Dante assentiu uma única vez.
“Então a gente entra rápido. Sem hesitação. Sem piedade.”
Eles desceram. O ar da noite estava frio, carregado de umidade e cheiro de rio próximo. Caminharam em formação: Dante na frente, Isabella logo atrás, Vincenzo fechando o grupo. Chegaram à porta dos fundos — uma entrada de serviço enferrujada. Dante forçou a fechadura com uma ferramenta fina; o clique foi quase inaudível.
Dentro, um corredor estreito iluminado por lâmpadas fluorescentes piscantes. Dois seguranças viraram-se ao ouvi-los. Antes que pudessem sacar as armas, Dante atirou duas vezes — silenciadas, precisas. Os corpos caíram sem barulho.
Subiram a escada de metal rangente. No topo, uma porta dupla de madeira escura. Dante parou, encostou a orelha na madeira. Vozes abafadas do outro lado. Risadas. O tilintar de copos.
Ele olhou para Isabella.
“Última chance de voltar.”
Ela balançou a cabeça.
Ele abriu a porta com um chute.
O escritório era amplo, opulento em contraste com o resto do prédio: mesa de mogno maciço, sofás de couro, um bar no canto, paredes forradas de veludo vermelho. Marco estava sentado atrás da mesa, um charuto na mão direita, uma taça de conhaque na esquerda. Três homens armados ao redor dele — seguranças particulares, não da família Moretti.
Marco ergueu os olhos devagar. Não pareceu surpreso. Apenas cansado.
“Dante.” A voz dele era rouca, como sempre. “Eu sabia que você viria. E trouxe a garota. Que romântico.”
Dante apontou a arma para a testa dele.
“Levante-se devagar. Mãos onde eu possa ver.”
Marco obedeceu, mas sem pressa. Os seguranças ergueram as armas.
“Calma, rapazes”, disse Marco, erguendo uma mão. “Vamos conversar como adultos.”
Isabella deu um passo à frente, a Glock firme na mão.
“Não há conversa. Você matou minha irmã. Traiu o homem que te considerava família. Plantou bombas na casa dele. Acabou.”
Marco olhou para ela pela primeira vez. Os olhos dele eram frios, calculistas.
“Sua irmã morreu porque seu pai era fraco. Porque os Rossi estavam afundando e precisavam de um empurrão. Eu dei o empurrão. E quanto a Dante…” Ele virou-se para o homem que o criara. “Você era fraco também. Lorenzo sabia disso. Ele me disse antes de morrer: ‘Cuide do meu irmão. Ele não tem estômago para isso.’ Eu cuidei. Por sete anos. Mas você mudou. Por causa dela.”
Dante deu um passo à frente, a arma nunca vacilando.
“Você não cuidou. Você esperou. Esperou o momento certo para tomar tudo.”
Marco sorriu — um sorriso amargo, sem alegria.
“Tudo? Eu queria o que era meu por direito. Lorenzo me prometeu. Antes de morrer. Ele disse: ‘Se algo acontecer comigo, Marco assume.’ Mas você matou os Bianchi. Tomou o poder. Me deixou como sombra.”
Isabella sentiu o estômago revirar.
“Você inventou isso. Lorenzo nunca diria isso.”
Marco riu baixo.
“Você não o conheceu, menina. Ele era como eu. Pragmático. E Dante… Dante sempre foi o problema. Impulsivo. Emocional. Você o tornou pior.”
Dante apertou o gatilho.
A bala acertou Marco no ombro. Ele caiu para trás na cadeira, o charuto rolando pelo chão. Os seguranças reagiram — tiros ecoaram no escritório.
Caos.
Vincenzo derrubou um com dois tiros no peito. Dante rolou para trás da mesa, puxando Isabella com ele. Balas ricocheteavam na madeira, estilhaçando vidro do bar.
Isabella atirou por cima da mesa — uma, duas vezes. Um dos seguranças caiu.
Marco rastejou para trás da mesa, sangrando, mas ainda vivo. Pegou uma pistola do coldre no tornozelo.
“Você não vai me matar, menino”, grunhiu ele. “Você me deve sua vida.”
Dante se levantou, apontando a arma direto para a testa dele.
“Eu te devo nada.”
Marco sorriu, mesmo com o sangue escorrendo pelo terno.
“Então atire. Mas saiba que eu já ganhei. Os arquivos que você pegou? São cópias. Os originais estão com o FBI. Eles sabem de tudo. Sobre você. Sobre ela. Sobre o casamento. Sobre as bombas. Em vinte e quatro horas, você está preso. E ela… ela vai testemunhar contra você para salvar a própria pele.”
Isabella sentiu o mundo girar.
“Ele está mentindo”, sussurrou ela.
Dante não desviou o olhar de Marco.
“Está?”
Marco riu, tossindo sangue.
“Eu sempre tive um plano B, Dante. Sempre.”
Dante apertou o gatilho.
A bala atravessou a testa de Marco. O corpo caiu para trás, os olhos ainda abertos, o sorriso congelado.
Silêncio.
Os últimos seguranças estavam mortos. Vincenzo ofegava, encostado na parede, o braço sangrando.
Dante abaixou a arma devagar. Olhou para Isabella.
“Ele mentiu”, disse ela, a voz tremendo. “Tem que ter mentido.”
Dante pegou o celular de Marco do bolso interno do paletó. Abriu as mensagens. Uma única mensagem enviada há duas horas para um contato salvo como “Agente Harris”:
Pacote entregue. Moretti cai amanhã. A garota Rossi é testemunha chave.
Dante fechou os olhos.
“Merda.”
Isabella sentiu as pernas fraquejarem. Encostou na mesa, respirando rápido.
“O que a gente faz?”
Dante abriu os olhos. O olhar era aço puro.
“A gente foge. Agora.”
Eles saíram correndo do cassino — Vincenzo mancando, Isabella e Dante cobrindo a retaguarda. Entraram no SUV. Isabella pisou fundo. O motor rugiu enquanto eles desapareciam na noite.
No caminho, Dante pegou o telefone e discou um número que só ele conhecia.
“É Dante. Preciso de saída. Três pessoas. Agora. Aeroporto Teterboro. Jato pronto em uma hora.”
Do outro lado, uma voz calma:
“Considere feito. Para onde?”
Dante olhou para Isabella. Ela assentiu, os olhos brilhando com determinação.
“Itália. Sicília. A casa da família da minha mãe. Ninguém sabe dela.”
A voz respondeu:
“Entendido. Estejam lá em uma hora.”
Dante desligou.
Isabella dirigiu em silêncio por alguns minutos.
“E o império? Os homens? A família?”
Dante tocou a mão dela no câmbio.
“O império pode cair. Os homens vão sobreviver ou não. Mas eu não vou perder você. Não para o FBI. Não para ninguém.”
Ela apertou a mão dele.
“Então a gente começa de novo. Juntos.”
Ele levou a mão dela aos lábios, beijando os nós dos dedos.
“Juntos.”
Eles chegaram ao aeroporto particular exatamente na hora. O jato estava esperando, motores ligados. Subiram a escada correndo. Vincenzo foi o último, mancando, mas vivo.
Quando o avião decolou, Nova York ficou para trás — luzes brilhantes, caos, sangue.
Isabella encostou a cabeça no ombro de Dante, olhando pela janela enquanto a cidade desaparecia nas nuvens.
“Você acha que ele mentiu sobre alguma coisa?”, perguntou ela baixo.
Dante passou o braço ao redor dela.
“Talvez. Talvez não. Mas não importa mais. Acabou.”
Ela ergueu o rosto, beijando-o devagar.
“Então começa agora. Nossa vida. Sem dívidas. Sem sangue. Só nós.”
Ele correspondeu o beijo — longo, profundo, como uma promessa renovada.
“Sim. Só nós.”
Mas no fundo, ambos sabiam.
O FBI não desistia fácil.
E o passado… o passado nunca morria de verdade.
Enquanto o avião cortava o céu em direção à Sicília, uma mensagem chegou ao celular de Dante — número desconhecido.
Vocês podem correr. Mas não podem se esconder para sempre.
Dante apagou a mensagem.
Apertou Isabella mais forte contra si.
E pela primeira vez em semanas, permitiu-se acreditar que talvez — só talvez — o futuro fosse deles.
Mas a obsessão que os unira… ainda queimava.
E o sangue que os ligava… ainda chamava.
Capítulo 12: Terra de Sangue e Promessas
O jato particular cortou o céu atlântico durante a noite inteira, um voo longo e silencioso que parecia esticar o tempo. Isabella dormiu em intervalos curtos, a cabeça no colo de Dante, o corpo dele servindo de âncora contra o ronco constante dos motores. Ele não dormiu. Ficou olhando pela janela oval, o braço ao redor dela como se temesse que ela desaparecesse no ar rarefeito. Vincenzo estava na cabine traseira, o braço enfaixado, tentando descansar. Luca havia ficado para trás — uma decisão rápida, mas necessária: alguém precisava monitorar os resquícios da família em Nova York, mesmo que fosse de longe.
Quando o avião começou a descer, o sol nascia sobre o mar Tirreno, tingindo o horizonte de laranja e ouro. A Sicília apareceu como uma silhueta escura e irregular, montanhas antigas cortadas por vales verdes, vilarejos brancos grudados nas encostas como conchas em rocha. O aeroporto privado era pequeno, quase escondido entre oliveiras antigas. Um carro preto os esperava na pista — um Mercedes antigo, motorista de confiança da família materna de Dante, um homem chamado Salvatore que não fazia perguntas.
A viagem até a casa da família durou quase duas horas. Estradas sinuosas, curvas fechadas, o cheiro de terra seca, sal e ervas selvagens invadindo o carro pelas janelas entreabertas. Isabella observava tudo com olhos famintos — era a primeira vez que pisava na terra dos antepassados de Dante. Ele segurava a mão dela no banco traseiro, os dedos entrelaçados, o polegar traçando círculos lentos na palma dela.
“Essa casa pertenceu à minha avó materna”, explicou ele baixo, a voz rouca de cansaço. “Ela fugiu de Nova York depois que meu avô morreu. Nunca voltou. Ninguém sabe que existe. Nem o FBI. Nem os Bianchi remanescentes.”
Isabella apertou a mão dele.
“Então é segura.”
“Por enquanto.”
A casa surgiu no fim de uma estradinha de terra: uma villa de pedra clara, telhado de telhas vermelhas desgastadas pelo tempo, varanda larga coberta por videiras carregadas de uvas maduras. Jardins em terraços desciam a encosta, oliveiras centenárias, limoeiros carregados. O mar ao fundo, azul profundo, batendo contra as rochas lá embaixo.
Salvatore parou o carro na entrada de cascalho. Uma mulher idosa saiu da porta principal — magra, cabelos brancos presos em coque, vestido preto simples, olhos verdes iguais aos de Dante. A avó dele. Nonna Teresa.
Ela não sorriu. Apenas observou os três descerem do carro, depois caminhou devagar até Dante e o abraçou com força surpreendente para alguém tão frágil.
“Figlio mio”, murmurou ela em italiano. “Você finalmente veio para casa.”
Dante retribuiu o abraço, o rosto enterrado nos cabelos dela.
“Nonna… eu trouxe problemas.”
Ela se afastou, olhando para Isabella.
“Problemas eu conheço. Mas amor… amor eu não vejo há muito tempo.”
Ela estendeu a mão para Isabella. A palma era áspera, marcada por anos de trabalho na terra.
“Bem-vinda, bambina. Você é a razão pela qual meu neto ainda respira.”
Isabella pegou a mão, os olhos marejados.
“Obrigada por nos receber.”
Nonna Teresa sorriu pela primeira vez — um sorriso pequeno, mas genuíno.
“Venham. A casa está pronta. Comida quente. Camas limpas. O resto… o resto vocês resolvem depois.”
Eles entraram. O interior era simples, acolhedor: pisos de terracota, móveis de madeira escura, paredes caiadas de branco com fotos antigas emolduradas. O cheiro de pão fresco, molho de tomate e manjericão preenchia o ar. Nonna Teresa os levou para um quarto no andar superior — uma suíte ampla com varanda que dava para o mar, cama de dossel com lençóis de linho branco, cortinas leves balançando na brisa.
“Descansem”, disse ela, fechando a porta com cuidado. “Amanhã a gente fala de verdade.”
Quando ficaram sozinhos, Isabella caminhou até a varanda. O sol batia quente na pele, o mar rugia lá embaixo. Ela sentiu lágrimas quentes escorrerem antes mesmo de perceber.
Dante apareceu atrás dela, os braços ao redor da cintura, o queixo no ombro.
“O que foi?”
Ela virou o rosto para encará-lo.
“Eu sinto falta da minha família. Dos meus irmãos. Da minha mãe. Mas ao mesmo tempo… eu nunca me senti tão em casa quanto agora. Com você. Aqui.”
Ele a virou devagar, encostando-a na grade da varanda. As mãos subiram pelo rosto dela, limpando as lágrimas com os polegares.
“Eu sinto a mesma coisa.” A voz dele era baixa, quase quebrada. “Eu perdi tudo em Nova York. Mas ganhei você. E isso… isso vale mais do que qualquer império.”
Ela o beijou — lento, profundo, salgado de lágrimas. As mãos dela subiram pela nuca dele, puxando-o mais perto. O beijo ganhou urgência, fome acumulada de dias de medo e fuga.
Dante a ergueu, as pernas dela enroscando na cintura dele. Caminhou de volta para dentro do quarto, deitando-a na cama com cuidado. Tirou a roupa dela devagar — cada peça caindo como uma camada de passado sendo descartada. Quando ela ficou nua, ele parou, apenas olhando, como se memorizasse cada centímetro.
“Você é linda”, sussurrou. “Sempre foi. Mas agora… agora você é tudo.”
Ele se despiu rapidamente, cobrindo o corpo dela com o seu. Beijou o pescoço, os seios, a barriga, descendo até o centro dela. A língua dele era lenta, reverente, explorando como se fosse a primeira vez. Isabella arqueou as costas, os dedos enfiados nos cabelos dele, gemendo baixo enquanto o prazer subia devagar, inevitável.
Quando ela gozou, foi silencioso, intenso — o corpo tremendo, lágrimas novas escorrendo. Dante subiu, beijando cada uma delas. Entrou nela devagar, preenchendo-a completamente, os olhos nunca deixando os dela.
“Eu te amo”, disse ele, movendo-se com lentidão torturante. “Mais do que sangue. Mais do que vingança. Mais do que qualquer coisa.”
Isabella envolveu as pernas ao redor dele, puxando-o mais fundo.
“Eu te amo também. E vou te amar aqui. Na Sicília. Em qualquer lugar. Para sempre.”
Eles se moveram juntos — ritmados, profundos, como se o mundo lá fora tivesse desaparecido. Quando gozaram, foi ao mesmo tempo: um suspiro longo, corpos colados, respirações sincronizadas.
Ficaram abraçados depois, o suor secando na pele, o sol entrando pela janela aberta.
“Você quer mesmo casar de novo?”, perguntou ela baixo, traçando a cicatriz na sobrancelha dele.
“Quero. Na igreja da vila. Com Nonna como testemunha. Com flores de limoeiro no altar. Sem contratos. Sem dívidas. Só votos.”
Ela sorriu contra o peito dele.
“Então vamos fazer isso. Logo.”
Ele beijou o topo da cabeça dela.
“Logo.”
Mas naquela noite, enquanto dormiam entrelaçados, o celular de Dante vibrou na mesinha de cabeceira — modo silencioso, mas insistente.
Ele abriu os olhos, pegou o aparelho.
Uma mensagem de número bloqueado.
Vocês acham que a Sicília esconde segredos? Eu sei onde vocês estão. E o FBI também sabe. A oferta ainda vale: entregue a garota. Ou perca tudo de novo.
Dante apagou a mensagem. Apertou Isabella mais forte contra si.
Ela acordou com o movimento.
“O que foi?”
“Nada”, mentiu ele. “Só um pesadelo.”
Ela não acreditou. Mas não perguntou.
Amanhã eles falariam com Nonna. Planejariam o casamento. Planejariam a defesa.
Mas o passado ainda os seguia.
Como uma sombra que o sol da Sicília não conseguia apagar.
E o sangue… o sangue ainda chamava.
Capítulo 13: Flores de Limoeiro
O sol da Sicília entrava pelas janelas abertas da villa como um convidado antigo que não precisava bater na porta. Isabella acordou com o cheiro de café forte e pão assando, misturado ao perfume doce das flores de limoeiro que subia do jardim. Dante ainda dormia ao lado dela — de lado, o braço estendido sobre o espaço onde ela estivera, o rosto relaxado de um jeito que ela raramente via. As linhas de tensão que Nova York havia gravado nele pareciam mais suaves aqui, como se a ilha estivesse apagando, centímetro por centímetro, as marcas do passado.
Ela se levantou devagar, vestindo um robe de linho branco que Nonna Teresa havia deixado dobrado na cadeira. Desceu as escadas descalça, o piso de terracota fresco sob os pés. Na cozinha ampla, a avó de Dante mexia uma panela de molho com uma colher de madeira antiga, o avental florido amarrado na cintura fina.
“Buongiorno, bambina”, disse Nonna sem se virar. “Sente. O café está pronto.”
Isabella sentou-se à mesa de madeira gasta, aceitando a xícara fumegante. O líquido era preto, forte, com um toque de canela que ela nunca provara antes.
“Você sempre acorda cedo assim?”, perguntou Isabella, soprando o vapor.
Nonna virou-se, os olhos verdes brilhando com uma mistura de sabedoria e travessura.
“Quando se viveu o suficiente, o sono vira luxo. E eu tenho muito que fazer antes que meu neto acorde e comece a falar de vingança de novo.”
Isabella baixou os olhos para a xícara.
“Ele não vai esquecer fácil.”
“Não esquece. Mas pode aprender a deixar de lado.” Nonna sentou-se à frente dela, pegando as mãos de Isabella entre as suas. “Você o mudou, sabe? Ele nunca trouxe ninguém aqui. Nem quando era menino. Essa casa era só dele e das memórias. Agora tem você. E isso… isso é maior que qualquer guerra.”
Isabella sentiu um nó na garganta.
“Eu tenho medo de não ser suficiente. De o passado nos alcançar.”
Nonna apertou as mãos dela.
“O passado sempre alcança. A questão é o que você faz quando ele chega. Você corre? Ou enfrenta de frente, de mãos dadas?”
Antes que Isabella pudesse responder, Dante apareceu na porta da cozinha — cabelos bagunçados, camiseta cinza simples, calça de moletom. Ele parou ao vê-las juntas, um sorriso lento se abrindo no rosto.
“Vocês duas conspirando contra mim?”
Nonna riu — um som rouco, genuíno.
“Só falando verdades, figlio. Sente. Coma. Depois vocês dois vão à vila. O padre já sabe que tem um casamento para marcar.”
Dante ergueu as sobrancelhas.
“Você já falou com o padre?”
“Eu falo com todo mundo nessa ilha. E todo mundo sabe que meu neto voltou com uma mulher linda. Eles querem ver o espetáculo.”
Isabella riu baixo, o primeiro riso verdadeiro em semanas.
“Então vamos dar o espetáculo.”
O dia passou em uma calmaria estranha, quase irreal. Dante e Isabella caminharam pela propriedade — mãos dadas, sem pressa. Ele mostrou a ela o pomar de limoeiros onde brincava criança, a oliveira centenária sob a qual a avó contava histórias, o pequeno oratório de pedra onde a mãe dele rezava antes de morrer. Cada lugar carregava uma memória, e ele compartilhava todas — sem filtro, sem vergonha.
À tarde, foram à vila. O vilarejo era pequeno, casas brancas empilhadas na encosta, ruas de paralelepípedo estreitas, varandas cheias de gerânios vermelhos. As pessoas paravam para olhar — algumas acenavam, outras cochichavam. Dante cumprimentava todos pelo nome, como se nunca tivesse saído dali.
A igreja era simples: fachada barroca desgastada, sino antigo na torre. O padre — um homem de uns setenta anos, barba branca, olhos bondosos — os recebeu na sacristia.
“Don Moretti”, disse ele com um sorriso. “Sua nonna me avisou. Quando?”
“Daqui a sete dias”, respondeu Dante sem hesitar. “Se for possível.”
O padre assentiu.
“É possível. E será bonito. As flores de limoeiro estarão no auge. Vocês querem votos tradicionais ou algo próprio?”
Dante olhou para Isabella.
“Próprios.”
Ela sentiu o coração apertar de um jeito bom.
“Próprios.”
Na volta para casa, pararam em uma pequena joalheria na praça. Dante escolheu duas alianças simples de ouro branco — sem pedras, sem ostentação. Apenas duas linhas puras que se encaixavam perfeitamente.
“Não quero nada que lembre o primeiro casamento”, disse ele, colocando a dela no dedo anelar. “Esse é novo. Limpo.”
Ela fez o mesmo com ele. O metal estava quente do toque.
“Então é nosso.”
Naquela noite, depois do jantar — massa fresca, molho de tomate caseiro, vinho tinto da vinícola vizinha —, Nonna Teresa os deixou sozinhos na varanda. O céu estava estrelado, o mar cantando lá embaixo. Isabella sentou-se no colo de Dante, as costas contra o peito dele, a cabeça no ombro.
“Você está feliz?”, perguntou ela baixo.
Ele beijou a têmpora dela.
“Mais do que mereço.”
Ela virou o rosto para beijá-lo — lento, doce, cheio de promessas. As mãos dele subiram pelas coxas dela sob o vestido leve de algodão, encontrando a pele nua. Não havia calcinha. Apenas desejo cru, imediato.
“Você planejou isso?”, murmurou ele contra os lábios dela, os dedos já explorando.
“Talvez.” Ela sorriu, mordendo o lábio inferior dele. “Ou talvez eu só queira você. Agora. Aqui.”
Ele a ergueu nos braços, levando-a para dentro sem esforço. Subiram as escadas, beijando-se a cada degrau. No quarto, ele a deitou na cama, tirando o vestido dela com uma lentidão reverente. Beijou cada centímetro revelado — pescoço, clavícula, seios, barriga, coxas. Quando chegou ao centro dela, lambeu devagar, saboreando, os dedos entrando e curvando exatamente onde ela precisava.
Isabella agarrou os lençóis, os quadris se movendo contra a boca dele.
“Dante… por favor…”
Ele ergueu o rosto, os lábios brilhando.
“Diga o que você quer.”
“Quero você dentro de mim. Quero sentir você. Todo.”
Ele se despiu rápido, posicionando-se entre as pernas dela. Entrou devagar, os olhos fixos nos dela. Moviam-se juntos — profundo, ritmado, como se estivessem dançando uma música que só eles ouviam. As mãos dele seguravam as dela acima da cabeça, os corpos colados, suor misturando-se.
Quando gozaram, foi intenso, quase silencioso — um tremor compartilhado, um gemido baixo, nomes sussurrados no escuro.
Depois, ficaram abraçados, o vento da noite entrando pela janela aberta, levando o cheiro de limoeiro para dentro do quarto.
“Sete dias”, sussurrou ela.
“Sete dias”, repetiu ele.
Mas naquela mesma noite, enquanto dormiam, o celular de Dante vibrou novamente na mesinha.
Ele acordou, pegou o aparelho.
Uma foto: a villa ao entardecer, tirada de longe. Eles na varanda, abraçados.
E a legenda:
Sete dias até o casamento. Ou sete dias até o fim. Escolha.
Dante fechou os olhos, o maxilar travado.
Ele apagou a mensagem.
Beijou a testa de Isabella enquanto ela dormia.
“Não vou escolher”, sussurrou no escuro. “Vou lutar por nós dois.”
Amanhã eles falariam com Nonna. Preparariam defesas. Contratariam proteção local.
Mas o casamento aconteceria.
E o amor deles — obsessivo, intenso, sangrento — seria selado sob as flores de limoeiro.
Mesmo que o mundo tentasse arrancá-los um do outro.
Capítulo 14: Votos Sob as Estrelas
Os sete dias passaram como um sonho febril — lento e acelerado ao mesmo tempo. A villa se transformou em um casulo de preparativos discretos. Nonna Teresa comandava tudo com uma eficiência silenciosa: flores colhidas ao amanhecer, tecidos brancos pendurados para secar ao sol, panelas grandes borbulhando molhos que perfumavam a casa inteira. Não havia convidados além de Vincenzo e Salvatore, o motorista que se revelara também um cozinheiro de mão cheia. Não havia orquestra, nem fotógrafo. Apenas o essencial: amor, testemunhas, e a certeza de que, dessa vez, os votos seriam verdadeiros.
Isabella acordou no dia do casamento com o sol já alto, a luz dourada invadindo o quarto pela janela aberta. Dante não estava na cama. Ela encontrou um bilhete na mesinha:
Encontro você na igreja às 18h. Vista o que Nonna deixou para você. Eu te amo. – D.
Ela sorriu, o coração apertando de um jeito bom. No armário, um vestido simples de linho branco — mangas compridas transparentes, decote sutil, saia fluida que caía até os tornozelos. Ao lado, uma coroa de flores de limoeiro frescas, pétalas brancas misturadas a folhas verdes. Nonna havia pensado em tudo.
Ela tomou banho devagar, deixando a água lavar os últimos resquícios de medo. Vestiu o vestido, calçou sandálias brancas de tiras finas, colocou a coroa. Olhou-se no espelho antigo da cômoda: a mulher que via ali não era mais a filha obediente dos Rossi, nem a esposa de contrato de Dante Moretti. Era Isabella — inteira, feroz, apaixonada.
Nonna Teresa a esperava na sala. Os olhos da idosa se encheram de lágrimas quando a viu.
“Você parece um anjo que caiu na terra errada”, disse ela, ajustando a coroa com dedos trêmulos. “Mas caiu no lugar certo.”
Isabella abraçou-a forte.
“Obrigada por tudo.”
Nonna a beijou nas duas bochechas.
“Vá. Ele está esperando. E não faça esse menino sofrer mais do que já sofreu.”
Vincenzo as levou de carro até a vila. O caminho era curto, mas Isabella sentiu cada curva como se fosse uma despedida e um recomeço ao mesmo tempo. Quando chegaram à igreja, o sino tocava baixo, quase tímido. A porta estava aberta, o interior iluminado por velas e pela luz dourada do fim de tarde que entrava pelos vitrais.
Dante estava no altar, de costas para a entrada. Vestia um terno cinza-claro de linho, camisa branca aberta no primeiro botão, sem gravata. Os cabelos pretos penteados para trás, mas com alguns fios rebeldes caindo na testa. Quando ouviu os passos dela, virou-se devagar.
Seus olhos encontraram os dela e não desviaram mais.
Isabella caminhou pelo corredor curto sozinha — sem pai para entregá-la, sem música dramática. Apenas o som dos próprios passos e o batimento acelerado do coração. Quando chegou ao altar, parou diante dele. Dante estendeu a mão. Ela pegou.
O padre começou a falar em italiano suave, mas eles mal ouviram. Os olhos um no outro eram o único mundo que importava.
Quando chegou a hora dos votos, Dante falou primeiro. A voz grave, baixa, mas firme o suficiente para ecoar nas paredes antigas.
“Isabella… eu te encontrei em um momento em que minha vida era só sangue e estratégia. Eu te tomei como pagamento de uma dívida que não era sua. E você… você me devolveu algo que eu nem sabia que havia perdido: a capacidade de sentir. De amar. De querer viver além do próximo golpe, da próxima traição. Eu prometo te proteger não porque você precisa, mas porque eu preciso de você viva. Prometo te amar mesmo quando o mundo tentar nos separar. Prometo ser o homem que você merece — não o rei da máfia, mas o seu. Para sempre.”
Isabella sentiu as lágrimas escorrerem, mas não as enxugou. Era bom chorar por algo que valia a pena.
“Dante… eu vim para você como moeda de troca. E encontrei um homem que me viu de verdade — não como vítima, não como prêmio, mas como igual. Você me mostrou que força não é só sobreviver, mas escolher lutar ao lado de alguém. Eu prometo te amar mesmo nos dias em que o passado tentar nos puxar para baixo. Prometo te lembrar quem você é quando você esquecer. Prometo ser sua parceira, sua amante, sua casa. Para sempre.”
O padre sorriu, os olhos úmidos.
“Então eu os declaro marido e mulher. De novo. Dessa vez, de coração.”
Dante não esperou permissão. Puxou Isabella pela cintura e a beijou — longo, profundo, como se o mundo inteiro pudesse esperar. Nonna Teresa chorou abertamente no banco da frente. Vincenzo aplaudiu sozinho, um som solitário mas sincero.
Eles saíram da igreja de mãos dadas. O sol estava se pondo, tingindo o céu de rosa e laranja. Na praça, algumas pessoas da vila haviam se reunido — curiosas, sorridentes. Alguém jogou arroz. Alguém gritou “Auguri!”. Eles riram, acenaram, mas não pararam.
Voltaram para a villa a pé, o caminho iluminado por lanternas que Nonna havia pendurado nas oliveiras. A mesa no jardim estava posta para cinco: pratos de cerâmica, velas tremulando, garrafas de vinho tinto. Comida simples, mas feita com amor: caponata, arancini, peixe grelhado com ervas, pão fresco.
Nonna ergueu a taça primeiro.
“A vocês. Que o amor de vocês seja mais forte que o sangue que os trouxe até aqui.”
Eles brindaram. Beberam. Riram. Comeram. Por algumas horas, o mundo lá fora desapareceu.
Quando a noite caiu de verdade, Dante pegou a mão de Isabella e a levou para a varanda do quarto. A lua cheia refletia no mar, prateada e calma. Ele a encostou na grade, beijando o pescoço dela devagar.
“Esposa”, murmurou contra a pele.
“Marido”, respondeu ela, virando-se para encará-lo.
Eles se despiram ali mesmo, sob as estrelas. O vestido branco caiu aos pés dela como uma promessa cumprida. A roupa dele seguiu. Ficaram nus, pele contra pele, o vento morno da noite acariciando-os.
Dante a ergueu de novo, as pernas dela ao redor da cintura dele. Encostou-a na parede da varanda, entrando nela devagar, os olhos fixos nos dela.
“Minha”, sussurrou ele a cada movimento.
“Sua”, respondeu ela, as unhas cravando nas costas dele.
Eles fizeram amor ali fora — lento no início, depois mais urgente, mais desesperado. O mar como testemunha, as estrelas como testemunhas. Quando gozaram, foi juntos: um gemido abafado contra o pescoço um do outro, corpos tremendo, lágrimas misturadas ao suor.
Depois, deitaram-se no chão da varanda, sobre uma manta que alguém havia deixado ali. Abraçados, olhando o céu.
“Você acha que acabou mesmo?”, perguntou ela baixo.
Dante beijou a testa dela.
“Não acabou. Mas acabou por hoje. E amanhã… amanhã a gente enfrenta o que vier.”
Ela traçou a aliança no dedo dele.
“Eu te amo, Dante Moretti.”
“Eu te amo, Isabella Moretti.”
Eles adormeceram assim — nus, entrelaçados, sob o céu siciliano.
Mas na madrugada, o celular vibrou novamente.
Dante acordou primeiro. Pegou o aparelho.
Uma mensagem de Vincenzo, que dormia no quarto de hóspedes:
Recebi uma ligação anônima. Voz distorcida. Disseram: “Diga ao Don que o presente de casamento está a caminho. Ele vai gostar.”
Dante apagou a tela.
Apertou Isabella mais forte.
O passado ainda respirava.
Mas agora, eles eram mais fortes.
E o amor deles — votos de sangue, votos de alma — era a única arma que importava.
Capítulo 15
: Cicatrizes que Não Cicatrizam
O corpo de Vincenzo foi levado para o mar ao entardecer, embrulhado em um lençol branco que Nonna Teresa insistiu em usar — “mesmo os traidores merecem dignidade na morte”, disse ela, a voz firme apesar das lágrimas que não caíam. Dante e Salvatore carregaram o corpo até o pequeno barco de pesca ancorado na enseada particular da propriedade. Isabella ficou na praia de pedras, os pés descalços na água fria, assistindo em silêncio enquanto o barco se afastava.
Quando Dante voltou, sozinho, o sol já havia se posto. Ele caminhou até ela, as botas molhadas deixando pegadas escuras na areia. Não disse nada. Apenas a puxou para um abraço forte, o rosto enterrado nos cabelos dela. Isabella sentiu o tremor sutil nos ombros dele — não de choro, mas de algo mais profundo: o peso de uma vida inteira de lealdades quebradas.
“Eu matei o homem que me criou”, murmurou ele contra o pescoço dela. “E não sinto alívio. Só vazio.”
Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, obrigando-o a olhar para ela.
“Você matou o homem que te usou. O vazio é porque você ainda é humano. E isso é bom, Dante. É o que te diferencia dele.”
Ele fechou os olhos por um segundo, depois a beijou — não com fome, mas com uma gratidão crua, quase dolorosa.
Eles voltaram para a villa em silêncio. Nonna Teresa os esperava na cozinha com uma garrafa de grappa antiga e três copos. Serviu sem perguntar.
“Bebam”, ordenou. “Não para esquecer. Para lembrar que ainda estão vivos.”
Eles beberam. O líquido queimou a garganta como fogo líquido. Depois Nonna se retirou, deixando-os sozinhos na mesa de madeira gasta.
Isabella quebrou o silêncio primeiro.
“E agora?”
Dante girou o copo vazio entre os dedos.
“Agora a gente vive. Pelo menos por enquanto. Mas eu não acredito que acabou. Não de verdade.”
“Por quê?”
“Porque Marco morreu dizendo que os arquivos originais estavam com o FBI. Vincenzo negou ter entregue, mas… e se ele mentiu? E se o pacote já foi enviado? E se amanhã, ou depois de amanhã, agentes batem na porta dessa villa?”
Isabella sentiu um frio familiar subir pela espinha.
“Então a gente foge de novo?”
“Não.” A voz dele endureceu. “Eu não vou passar o resto da vida correndo. Se o FBI vier, eu enfrento. Mas antes disso… eu preciso saber exatamente o que Marco deixou para trás.”
Ele se levantou, foi até a sala e voltou com o laptop que trouxera de Nova York. Conectou o pen drive que havia tirado do corpo de Marco no cassino. Arquivos se abriram: planilhas, gravações, e-mails criptografados. Mas havia uma pasta nova que não estava lá antes — criada no dia da morte de Marco.
“Para Dante – quando você estiver pronto”
Dentro, um vídeo curto. Marco aparecendo na tela, já ferido, o ombro sangrando, falando diretamente para a câmera.
“Se você está vendo isso, é porque eu morri. Ou porque você me matou. Não importa. O que importa é que eu cumpri minha promessa. Os arquivos completos — todos os crimes da família Moretti nos últimos quinze anos, incluindo os que você cometeu depois de tomar o poder — já foram enviados para um contato no FBI. Não para ser usado agora. Para ser usado quando eu decidir. Ou quando eu morrer. O gatilho é simples: se eu não mandar uma mensagem de ‘tudo bem’ a cada 72 horas, o pacote é liberado automaticamente.”
Ele fez uma pausa, tossindo sangue.
“Você tem uma janela, Dante. Use-a para desaparecer de verdade. Ou use-a para vir atrás de mim e morrer tentando. A escolha é sua. Sempre foi.”
O vídeo terminou.
Isabella sentiu o ar faltar.
“Setenta e duas horas… quanto tempo já passou desde que você o matou?”
Dante olhou o relógio.
“Quarenta e oito. Temos vinte e quatro horas para decidir.”
Ela se levantou, andando pela cozinha como um animal enjaulado.
“Decidir o quê? Fugir para sempre? Voltar e enfrentar o FBI? Entregar você?”
Dante se levantou também, parando-a com as mãos nos ombros.
“Não vamos entregar ninguém. E não vamos fugir para sempre. Mas também não vamos ficar aqui esperando a polícia bater na porta.”
Ele respirou fundo.
“Eu tenho um contato antigo em Palermo. Um advogado que já limpou nomes piores que o meu. Se conseguirmos chegar até ele antes das 72 horas acabarem, ele pode negociar um acordo. Ou pelo menos atrasar o vazamento. Comprar tempo.”
Isabella olhou nos olhos dele.
“E se não der tempo?”
“Então a gente desaparece. De verdade. Novos nomes, novo país, nova vida. Mas juntos.”
Ela assentiu devagar.
“Juntos.”
Naquela noite eles não fizeram amor. Ficaram deitados na cama, nus, abraçados, conversando em voz baixa até o sol nascer. Falaram sobre possibilidades: uma fazenda na Argentina, uma casa na costa de Portugal, uma vida anônima em alguma cidade pequena da Toscana. Falaram sobre filhos — se um dia teriam, como os criariam longe do sangue. Falaram sobre o casamento na igreja da vila, sobre como, mesmo sendo real, ainda parecia um sonho interrompido.
Quando o dia clareou, Dante se levantou primeiro.
“Vou falar com Nonna. Depois ligo pro advogado. Você fica aqui. Descansa.”
Isabella segurou o pulso dele.
“Não me deixa fora disso, Dante. Eu sou sua esposa. Não sua protegida.”
Ele se inclinou e beijou-a devagar.
“Você é tudo. Mas eu preciso fazer isso sozinho primeiro. Só dessa vez.”
Ela deixou ele ir.
Horas depois, Dante voltou. O rosto sério.
“O advogado disse que pode ajudar. Mas precisa de mim pessoalmente em Palermo. Amanhã. E ele quer falar com você também. Disse que o acordo só funciona se a testemunha principal — você — estiver disposta a assinar algo.”
Isabella sentiu o estômago revirar.
“Testemunha principal contra você?”
“Sim. Ele quer que você assine uma declaração dizendo que entrou no casamento por vontade própria, que não sofreu coação, que não tem conhecimento de crimes. Em troca, o FBI pode arquivar ou negociar redução de pena se algum processo avançar.”
Ela ficou em silêncio por um longo momento.
“E se eu não assinar?”
“Então o pacote é liberado. E eu passo o resto da vida na prisão. Ou morto.”
Isabella fechou os olhos.
“Eu assino.”
Dante se ajoelhou na frente dela, pegando as mãos dela.
“Não faça isso por pena. Faça porque quer.”
“Eu faço porque te amo. E porque eu também quero viver. Sem olhar por cima do ombro todo dia.”
Ele a puxou para um abraço apertado.
“Então amanhã a gente vai para Palermo. E depois… a gente vê o que sobra.”
Naquela noite, eles fizeram amor pela primeira vez como marido e mulher sabendo que o amanhã poderia ser o último dia de liberdade. Foi lento, intenso, quase sagrado. Cada toque era uma despedida e uma promessa ao mesmo tempo. Quando gozaram, abraçados, lágrimas escorreram pelos rostos dos dois.
“Se amanhã der errado”, sussurrou ela contra o peito dele, “saiba que eu não me arrependo de nada. Nem do primeiro casamento forçado. Nem de nenhuma bala. Nem de nenhum beijo.”
Dante beijou a testa dela.
“Se der errado, eu te encontro em qualquer vida. Em qualquer inferno. Você é minha. Sempre foi.”
Eles adormeceram assim.
Mas o relógio continuava correndo.
Vinte e quatro horas.
E em algum lugar, um arquivo aguardava para ser aberto.
Capítulo 16: A Estrada para Palermo
O sol da manhã siciliana batia forte nas janelas da villa quando Dante e Isabella desceram as escadas com malas pequenas e discretas. Nonna Teresa os esperava na cozinha, uma cesta de pão fresco, queijo pecorino e azeitonas pretas embrulhados em pano de linho sobre a mesa. Ela não disse nada sobre a partida — apenas abraçou Dante com força, depois Isabella, segurando o rosto da nora entre as mãos enrugadas.
“Levem isso”, disse ela, entregando a cesta. “E lembrem: o mar sempre volta. Vocês também vão voltar.”
Isabella sentiu um nó na garganta.
“Obrigada por tudo, Nonna. Por nos receber. Por nos deixar ser… nós.”
A idosa sorriu, os olhos úmidos.
“Vocês sempre foram vocês. Só precisavam de um lugar quieto para lembrar.”
Dante beijou a testa da avó.
“Eu volto. Prometo.”
Nonna tocou o peito dele, bem onde ficava a tatuagem da cruz envolta em rosas negras.
“Volte inteiro, figlio. Com ela.”
Salvatore já esperava no carro — o mesmo Mercedes preto, agora com tanque cheio e placas temporárias trocadas por algo menos chamativo. Vincenzo não estava mais lá para dirigir; o vazio dele pesava no ar como fumaça que ainda não dissipou.
Isabella sentou no banco traseiro ao lado de Dante. Salvatore ligou o motor e partiu pela estradinha de terra, deixando a villa para trás. As oliveiras passaram em borrão verde-prateado, o mar aparecendo e desaparecendo entre as curvas da montanha.
Dante segurou a mão dela o caminho inteiro. Nenhum dos dois falou muito. O silêncio era confortável, mas carregado — o tipo de silêncio de quem sabe que cada quilômetro pode ser o último de paz.
Depois de uma hora, Salvatore quebrou o silêncio.
“O advogado se chama Giovanni Falcone. Não é parente do juiz famoso, mas gosta de dizer que é. Ele trabalha em Palermo há trinta anos. Lava reputações como ninguém. Mas cobra caro… e não confia em ninguém.”
Dante assentiu.
“Ele já me ajudou uma vez. Há dez anos. Quando precisei tirar meu nome de um processo de lavagem em Milão. Ele conseguiu. Mas agora… agora é diferente.”
Isabella virou o rosto para ele.
“Diferente como?”
“Porque agora envolve você. E ele vai querer garantias. Assinaturas. Talvez até depoimento gravado. Ele vai te pressionar, Isabella. Vai tentar te fazer duvidar de mim.”
Ela apertou a mão dele.
“Ele pode tentar. Não vai conseguir.”
Dante levou a mão dela aos lábios.
“Eu sei. Mas se em algum momento você quiser parar… só diga. Eu paro tudo. Eu assumo sozinho.”
Ela balançou a cabeça.
“Não. Juntos. Até o fim.”
O carro entrou na autoestrada. Palermo surgiu no horizonte duas horas depois — uma cidade de domos dourados, ruas estreitas, cheiro de mar e fritura, caos organizado. Salvatore os deixou em uma rua discreta no bairro de Ballarò, perto do mercado histórico. O escritório de Falcone ficava no terceiro andar de um prédio antigo, fachada descascada, mas porta de madeira maciça com placa discreta: Studio Legale Falcone & Associati.
Subiram as escadas estreitas. A secretária — uma mulher de uns cinquenta anos, óculos grossos, olhar afiado — os anunciou sem sorrir.
Giovanni Falcone os recebeu na sala principal: homem alto, magro, terno cinza impecável, cabelos grisalhos penteados para trás, olhos claros que pareciam ver através das pessoas. Apertou a mão de Dante com firmeza, depois a de Isabella com um pouco mais de demora.
“Signora Moretti”, disse ele, o sotaque palermitano arrastado. “Ou devo dizer… Rossi? Sente-se. Temos muito o que discutir.”
Eles se sentaram em poltronas de couro gasto. Falcone abriu uma pasta grossa sobre a mesa.
“Eu recebi o pacote de Marco antes da morte dele. Cópias, não originais. Mas suficientes para me fazer entender a gravidade. O FBI tem interesse. Não é um caso prioritário ainda — eles têm peixes maiores —, mas se o gatilho for acionado, seu nome vai aparecer em letras garrafais em todos os jornais. Tráfico, extorsão, assassinato… e o casamento forçado como agravante.”
Dante inclinou-se para frente.
“Quanto tempo temos?”
“Vinte e duas horas. Marco configurou um dead man’s switch simples: sem ‘check-in’ dele a cada 72 horas, o arquivo vai para três endereços diferentes no FBI, Interpol e imprensa italiana. Já tentei acessar o servidor. Não consegui. Ele era bom.”
Isabella falou pela primeira vez.
“E o que você propõe?”
Falcone olhou diretamente para ela.
“Você assina uma declaração juramentada. Afirma que o casamento foi consensual desde o início. Que você conhecia a natureza dos negócios do marido. Que não sofreu coação física ou psicológica. Que não tem conhecimento direto de crimes. Em troca, eu entrego essa declaração ao meu contato no FBI como parte de uma negociação preliminar. Eles podem decidir que o caso não vale o custo. Ou pelo menos adiam. Ganham tempo para vocês desaparecerem de verdade.”
Dante cruzou os braços.
“E o preço?”
Falcone sorriu de lado.
“Dois milhões de euros. Transferência imediata. Mais vinte por cento de qualquer ativo que vocês deixarem na Itália. E uma coisa pessoal: eu quero a verdade. Toda a verdade. Sem omissões. Se eu descobrir depois que mentiram para mim, eu mesmo entrego vocês.”
Isabella sentiu o ar ficar mais pesado.
“E se eu não assinar?”
Falcone deu de ombros.
“Então o arquivo vai para o ar. E vocês passam o resto da vida olhando por cima do ombro. Ou na prisão. Ou mortos.”
Dante olhou para Isabella.
“É sua escolha.”
Ela respirou fundo.
“Eu assino. Mas com condições.”
Falcone ergueu uma sobrancelha.
“Quais?”
“Primeiro: você destrói qualquer cópia que tenha depois que o acordo for feito. Segundo: você nos ajuda a sair da Itália sem deixar rastro. Terceiro: se o FBI pressionar, você nos avisa antes de qualquer movimento. E quarto…” Ela olhou para Dante. “Você garante que ele nunca mais seja procurado por isso. Nem na Itália, nem nos EUA.”
Falcone ficou em silêncio por um longo momento. Depois assentiu devagar.
“Feito. Mas vocês têm que assinar hoje. E pagar metade agora.”
Dante pegou o celular.
“Transferência em dez minutos.”
Enquanto esperavam a confirmação bancária, Falcone preparou os documentos. Isabella leu cada linha com atenção. Não havia armadilhas — era direto, frio, jurídico. Ela assinou com mão firme. Dante assinou em seguida.
Quando o advogado guardou os papéis, olhou para os dois.
“Vocês têm sorte. A maioria das pessoas nessa situação não tem uma parceira disposta a assinar algo assim. Ou um homem disposto a deixar que ela faça.”
Dante pegou a mão de Isabella por cima da mesa.
“Ela não está fazendo por mim. Está fazendo por nós.”
Falcone sorriu — dessa vez, um sorriso quase humano.
“Então vocês vão precisar um do outro mais do que nunca. Porque o acordo pode segurar o FBI por um tempo. Mas não para sempre. E quem quer que tenha mandado aquela mensagem de ‘presente de casamento’… ainda está lá fora.”
Isabella sentiu um arrepio.
“Você sabe quem é?”
Falcone balançou a cabeça.
“Ainda não. Mas vou descobrir. Enquanto isso… saiam da Sicília. Hoje. Eu arranjo passagens falsas para Barcelona. De lá, vocês decidem o próximo passo.”
Dante assentiu.
“Obrigado, Giovanni.”
O advogado se levantou, estendendo a mão.
“Não me agradeça ainda. Me agradeça quando estiverem livres.”
Eles saíram do escritório com o peso de uma nova contagem regressiva.
No carro, Salvatore já esperava com malas rearrumadas.
“Para o aeroporto?”
Dante olhou para Isabella.
“Barcelona. Depois… a gente vê.”
Ela apertou a mão dele.
“Juntos.”
O carro partiu.
Mas no retrovisor, Isabella viu um homem de terno escuro parado na esquina, olhando diretamente para eles. Ele não se moveu. Apenas observou.
E sorriu.
O presente de casamento ainda estava a caminho.
E dessa vez, parecia muito mais pessoal.
Capítulo 17: Barcelona – A Primeira Noite Livre
O avião pousou em Barcelona pouco antes da meia-noite. O ar do aeroporto El Prat era morno, cheirando a mar e azeite quente das lanchonetes que ainda estavam abertas. Isabella e Dante saíram pela saída VIP, sem malas despachadas — apenas mochilas leves e um envelope lacrado que Falcone havia entregado no último minuto: novos passaportes, cartões de crédito pré-pagos, uma chave de apartamento em Gràcia e um bilhete curto: “Fiquem quietos. Eu cuido do resto por 48 horas.”
Salvatore ficou para trás em Palermo, com instruções de Nonna Teresa para vigiar a villa e mandar notícias. Eles estavam sozinhos pela primeira vez desde que tudo começou.
O táxi os deixou em uma rua estreita do bairro de Gràcia, cheia de árvores e varandas floridas. O apartamento ficava no terceiro andar de um prédio modernista, fachada de azulejos coloridos, porta de ferro trabalhado. Dante abriu a fechadura com a chave que estava no envelope. O lugar era pequeno, acolhedor: sala com sofá bege, cozinha aberta, quarto com cama de casal grande e janela que dava para um pátio interno cheio de plantas.
Isabella largou a mochila no chão e foi direto para a janela. Abriu as persianas. Luzes da cidade piscavam ao longe, o som distante de risadas e música subindo das ruas.
“É lindo”, sussurrou ela.
Dante parou atrás dela, os braços ao redor da cintura, o queixo no ombro.
“É nosso. Pelo menos por enquanto.”
Ela virou-se nos braços dele, olhando nos olhos dele.
“Sem guardas. Sem câmeras. Sem ameaças imediatas. Só nós.”
Ele assentiu devagar.
“Só nós.”
Eles não falaram mais. As mãos dele subiram pelas costas dela, tirando a blusa leve que ela usava. Ela abriu os botões da camisa dele com dedos ansiosos. Roupas caíram no chão da sala. Eles se beijaram ali mesmo, contra a parede, como se o tempo pudesse acabar a qualquer segundo.
Dante a ergueu, as pernas dela enroscando na cintura dele. Caminhou até o quarto sem interromper o beijo. Deitou-a na cama, descendo a boca pelo pescoço, pelos seios, pela barriga. Quando chegou entre as pernas dela, lambeu devagar, saboreando cada gemido baixo que escapava dela.
“Dante…”, ela sussurrou, os dedos enfiados nos cabelos dele.
Ele ergueu o rosto apenas o suficiente para falar.
“Diga que você me quer. Aqui. Agora. Sem medo.”
“Eu quero você. Sempre. Sem medo.”
Ele voltou a lamber, os dedos entrando nela, curvando-se no ponto exato. Isabella arqueou as costas, o orgasmo vindo rápido, intenso, silencioso — apenas um tremor longo e o nome dele escapando em um suspiro.
Dante subiu, posicionando-se entre as pernas dela. Entrou devagar, os olhos fixos nos dela. Moviam-se juntos — profundo, ritmado, como se estivessem se redescobrindo depois de uma guerra longa.
“Minha esposa”, murmurou ele contra os lábios dela.
“Sua”, respondeu ela, as unhas cravando nas costas dele.
Eles gozaram abraçados, corpos colados, respirações misturadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes, o silêncio da cidade lá fora como uma canção de ninar.
Depois, deitados de lado, ela traçou a aliança no dedo dele.
“E agora? O que a gente faz?”
Dante beijou a palma da mão dela.
“Amanhã a gente explora a cidade. Caminha pelas ruas. Come tapas. Bebe vinho. Faz amor em cada canto desse apartamento. E finge que o mundo lá fora não existe.”
Ela sorriu, mas o sorriso era frágil.
“Até quando?”
“Até que alguém nos encontre. Ou até que a gente decida que já fugiu o suficiente.”
Ela encostou o rosto no peito dele.
“Eu quero ficar aqui. Pelo menos por um tempo. Quero ser normal. Quero ser só Isabella e Dante. Sem sobrenomes pesados. Sem passado sangrento.”
Ele apertou o abraço.
“Então é isso que vamos ser. Por enquanto.”
Naquela noite, eles dormiram profundamente — o primeiro sono sem medo em meses.
Mas de manhã, quando o sol entrou pela janela, o celular novo de Dante vibrou na mesinha.
Uma mensagem sem remetente.
Parabéns pelo casamento. Espero que tenham gostado do presente.
Anexada, uma foto: Isabella dormindo na cama da villa na Sicília, tirada da varanda — exatamente onde eles haviam feito amor na noite de núpcias.
Dante apagou a mensagem.
Não contou para ela. Ainda não.
Mas o peso voltou.
E o jogo — que eles achavam ter terminado — estava apenas mudando de tabuleiro.
Capítulo 18: O Presente Chega
Barcelona acordou com o som distante de gaivotas e o cheiro de café torrado subindo das padarias da rua de baixo. Isabella abriu os olhos devagar, sentindo o peso quente do braço de Dante sobre a cintura. A luz da manhã entrava pela janela entreaberta, desenhando listras douradas no lençol branco amarrotado. Eles haviam dormido nus, como se o corpo um do outro fosse a única proteção necessária. Ela se virou devagar, traçando com os dedos a linha da cicatriz fina que cortava a sobrancelha esquerda dele — uma marca antiga, de uma briga que ele nunca contara os detalhes.
Dante abriu os olhos no mesmo instante, como se sentisse o toque mesmo dormindo. Sorriu preguiçoso, puxando-a mais perto.
“Bom dia, senhora Moretti.”
Ela riu baixo, o som abafado contra o peito dele.
“Bom dia, senhor Moretti. Dormiu bem?”
“Melhor da minha vida.” Ele beijou a testa dela, depois desceu os lábios até o pescoço, mordiscando de leve a pele sensível. “Mas acho que posso dormir ainda melhor se a gente repetir a noite de ontem.”
Isabella arqueou o corpo contra o dele, sentindo-o já endurecer contra sua coxa.
“Você é insaciável.”
“Só com você.”
As mãos dele desceram pelas costas dela, apertando os quadris, erguendo-a para ficar por cima. Ela se posicionou devagar, guiando-o para dentro de si com um suspiro longo. Moviam-se juntos sem pressa — ondulações lentas, respirações sincronizadas, olhares fixos. Não era só sexo; era uma afirmação. Uma prova de que estavam vivos, livres, juntos. Quando gozaram, foi silencioso, intenso — corpos tremendo, nomes sussurrados como orações.
Depois, ficaram deitados de lado, pernas entrelaçadas, o suor secando na pele.
“Eu poderia ficar assim para sempre”, murmurou ela.
Dante traçou o contorno do rosto dela com a ponta do dedo.
“Então vamos tentar.”
Eles se levantaram finalmente quando o estômago de Isabella roncou alto. Riram juntos — um som leve, quase infantil. Tomaram banho juntos na banheira pequena do apartamento, água morna caindo sobre os dois enquanto se ensaboavam devagar, beijando-se sob o jato, explorando corpos que já conheciam de cor.
Vestiram-se com roupas simples: ela de jeans e blusa branca solta, ele de camiseta preta e calça escura. Saíram para a rua de mãos dadas, sem pressa. Gràcia era um bairro vivo mesmo de manhã: mercados com frutas frescas empilhadas em caixotes de madeira, cafés com mesas na calçada, crianças correndo atrás de bolas, idosos jogando dominó em praças sombreadas por plátanos.
Pararam em uma padaria pequena. Compraram ensaimadas quentes — massas folhadas espiraladas, polvilhadas de açúcar de confeiteiro — e dois cafés com leite. Sentaram-se em uma mesinha na calçada, observando o movimento da rua.
“É estranho”, disse Isabella, mordendo a ensaimada e lambendo o açúcar dos dedos. “Fazer coisas normais. Comprar pão. Sentar em uma calçada. Sem ninguém olhando por cima do ombro.”
Dante pegou a mão dela, beijando os dedos sujos de açúcar.
“Vamos fazer isso todo dia. Até cansar.”
Ela sorriu.
“Promete?”
“Prometo.”
Passaram a manhã caminhando sem destino: Plaça del Sol, onde velhos jogavam petanca; ruas estreitas cheias de grafites coloridos; uma lojinha de vinis antigos onde Dante comprou um disco de flamenco para tocar no apartamento. Almoçaram em um bar de tapas escondido — patatas bravas, jamón ibérico, croquetas de jamón, tudo regado a vermute gelado. Riam de bobagens, tocavam-se o tempo todo, como adolescentes apaixonados.
À tarde, voltaram para o apartamento. Deitaram no sofá, assistindo a luz mudar nas paredes enquanto o sol descia. Não falaram de Nova York, nem da Sicília, nem da mensagem que Dante ainda não havia mostrado a ela. Apenas ficaram ali, corpos colados, respirando juntos.
Quando a noite caiu, decidiram sair para jantar. Escolheram um restaurante pequeno na rua de baixo: paredes de pedra, velas nas mesas, menu escrito à mão em catalão. Pediram paella de frutos do mar, vinho branco gelado, sobremesa de crema catalana queimada na hora.
Estavam no meio do prato principal quando o celular de Dante vibrou na mesa. Ele olhou a tela. Número desconhecido. Uma mensagem simples:
Gostaram do presente? Ele chega hoje à noite. Não abram a porta para estranhos.
Dante congelou. Isabella percebeu a mudança no rosto dele.
“O que foi?”
Ele hesitou. Depois virou o celular para ela mostrar.
Ela leu. O rosto empalideceu.
“Quem mandou isso?”
“Não sei. Mas está em espanhol. Alguém que sabe que estamos aqui.”
Isabella sentiu o estômago revirar.
“E o presente?”
Dante guardou o celular.
“Vamos descobrir.”
Eles terminaram o jantar em silêncio tenso. Voltaram para o apartamento a pé, olhando ao redor a cada esquina. As ruas de Gràcia, que pareciam tão acolhedoras de dia, agora pareciam cheias de sombras. Cada homem encostado em uma parede, cada carro parado com faróis apagados, parecia suspeito.
Chegaram ao prédio. Subiram as escadas devagar. A porta do apartamento estava fechada. Dante tirou a arma da cintura — sempre carregava uma pequena pistola agora, escondida. Abriu devagar.
O apartamento estava vazio. Mas sobre a mesa da sala, havia um pacote pequeno, embrulhado em papel pardo. Nenhum endereço. Nenhum remetente. Apenas uma fita vermelha amarrada como laço.
Isabella parou na porta.
“Não toque.”
Dante se aproximou devagar. Examinou o pacote por todos os lados. Não havia fios visíveis, nenhum cheiro estranho. Abriu com cuidado, usando a ponta da faca que carregava no bolso.
Dentro, uma caixa de madeira pequena. E dentro da caixa, uma foto antiga — amarelada, bordas desgastadas.
Era Elena. A irmã de Isabella. Aos dezessete anos, sorrindo para a câmera em uma praia italiana. No verso da foto, escrito à mão com caneta preta:
Ela morreu por causa do seu pai. Você vai morrer por causa do seu marido. O presente é só o começo.
Isabella sentiu as pernas fraquejarem. Dante a segurou antes que caísse.
“Respira”, disse ele, a voz firme apesar do tremor nas mãos.
Ela pegou a foto, traçando o rosto da irmã com os dedos.
“Quem faria isso? Quem ainda sabe sobre Elena?”
Dante fechou a caixa com força.
“Alguém que estava perto o suficiente para pegar isso. Alguém que tem acesso aos arquivos da família Rossi. Ou… alguém que Marco deixou como herdeiro.”
Isabella ergueu os olhos, lágrimas brilhando.
“Meu pai? Meus irmãos? Eles não fariam isso.”
“Não. Mas alguém próximo a eles. Ou alguém que odeia os dois lados — Rossi e Moretti.”
Ele pegou o celular e discou para Falcone.
“Giovanni. Temos um problema. Um pacote. Foto da irmã dela. Ameaça direta.”
Do outro lado, a voz do advogado era calma, mas tensa.
“Onde estão?”
“Gràcia. Apartamento que você arranjou.”
“Saia daí. Agora. Não voltem. Eu mando outro endereço. E destruam o pacote. Pode ter rastreador.”
Dante desligou.
“Vamos.”
Eles pegaram as mochilas. Saíram do apartamento correndo. Desceram as escadas de dois em dois. Na rua, pararam um táxi. Dante deu um endereço qualquer — uma estação de metrô distante.
No banco traseiro, Isabella encostou a cabeça no ombro dele.
“Eu achei que tínhamos escapado.”
Dante beijou o topo da cabeça dela.
“Ainda vamos escapar. Mas agora sabemos que o presente não era só uma mensagem. É pessoal. E está aqui.”
O táxi os deixou na estação de metrô de Diagonal. Eles entraram no subterrâneo, compraram bilhetes com dinheiro vivo. Pegaram a linha verde, depois trocaram para a azul. Saíram em uma estação aleatória no bairro de Eixample. Caminharam por ruas largas, cheias de árvores e edifícios modernistas, até encontrar um pequeno hotel boutique que aceitava pagamento em dinheiro.
Reservaram um quarto simples no último andar. Quando a porta se fechou atrás deles, Isabella finalmente desabou — sentou na cama, as mãos tremendo, a foto de Elena ainda na mão.
Dante ajoelhou-se na frente dela.
“Ei. Olha pra mim.”
Ela ergueu os olhos.
“Eu não vou deixar ninguém te tocar. Nem Elena vai ser usada contra você de novo. Eu juro.”
Ela tocou o rosto dele.
“E se for alguém da minha família? Meu pai… ele sempre culpou você pela morte dela. E se ele—”
“Então eu confronto ele. Mas não sozinho. Com você.”
Isabella respirou fundo.
“Tudo bem. Mas primeiro… eu preciso de você. Agora. Preciso sentir que ainda estamos vivos.”
Dante não hesitou. Levantou-se, tirando a camisa devagar. Ela fez o mesmo. Roupas caíram no chão. Ele a deitou na cama, cobrindo o corpo dela com o seu. Beijou cada centímetro — pescoço, seios, barriga, coxas. Quando chegou ao centro dela, lambeu com devoção, os dedos entrando devagar, trazendo-a ao limite com paciência cruel.
Ela gozou tremendo, as lágrimas escorrendo enquanto o nome dele escapava em um grito baixo.
Dante subiu, entrando nela com um movimento lento, profundo. Moviam-se juntos — forte, urgente, quase desesperado. Cada estocada era uma afirmação: estamos aqui. Estamos vivos. Estamos juntos.
Quando gozaram, abraçados, o mundo lá fora desapareceu por alguns minutos.
Depois, deitados lado a lado, ela traçou a tatuagem no peito dele.
“E agora?”
Dante beijou a palma da mão dela.
“Amanhã a gente liga para Falcone. Descobre se o pacote foi rastreador. Depois… a gente decide o próximo passo. Mas uma coisa eu sei: não vamos mais fugir sem lutar.”
Isabella assentiu.
“Juntos.”
Ele a puxou contra o peito.
“Juntos.”
Mas enquanto ela adormecia, Dante ficou acordado, olhando o teto.
O presente havia chegado.
E ele sabia que não era o último.
Alguém estava em Barcelona.
Alguém os observava.
E o jogo — que eles achavam ter deixado em Nova York — havia atravessado o oceano.
Capítulo 19: O Rastro que Não Apaga
O quarto do hotel em Eixample era pequeno, mas limpo — paredes brancas, cama de casal com lençóis que cheiravam a lavanderia industrial, uma janela alta que dava para um pátio interno onde uma fonte seca murmurava à noite. Isabella acordou com o corpo dolorido de tensão acumulada, os músculos rígidos como se tivesse corrido uma maratona. Dante já estava de pé, encostado na janela, olhando para o pátio escuro. A arma estava sobre a mesinha de cabeceira, ao lado do celular que vibrava em silêncio intermitente.
Ela se sentou na cama, puxando o lençol até o peito.
“Quantas mensagens?”
Dante virou-se devagar. O rosto dele estava marcado por olheiras profundas, mas os olhos ainda queimavam com aquela intensidade que a fazia sentir segura e aterrorizada ao mesmo tempo.
“Sete. Todas da mesma fonte. Fotos antigas. Sua irmã em diferentes idades. Seu pai em reuniões que nunca deveriam ter sido fotografadas. E uma de nós dois saindo do restaurante ontem à noite.”
Isabella sentiu o estômago revirar.
“Eles estavam lá. Nos seguindo.”
“Sim.” Ele se aproximou da cama, sentando-se na beira. “Mas não entraram aqui. Ainda.”
Ela estendeu a mão, tocando o braço dele.
“O que a gente faz?”
Dante pegou a mão dela, entrelaçando os dedos.
“Primeiro: saímos desse hotel. Agora. Pagamos em dinheiro, não deixamos rastro. Depois: ligamos para Falcone. Ele disse que tinha um plano B se as coisas apertassem.”
Isabella assentiu devagar.
“E o presente? A foto de Elena… quem tem acesso a isso?”
Dante respirou fundo.
“Alguém que esteve na casa dos Rossi depois que você saiu. Ou alguém que invadiu os arquivos antigos da família. Seu pai guardava tudo — fotos, documentos, gravações. Se Marco tinha cópias, quem quer que esteja por trás disso pode ter pego o resto.”
Ela fechou os olhos por um segundo.
“Eu preciso falar com meu pai. Ele pode saber quem tem essas coisas.”
Dante hesitou.
“É arriscado. Se ele estiver envolvido—”
“Ele não está.” A voz dela saiu firme. “Meu pai é fraco, egoísta, covarde. Mas ele amava Elena. Ele nunca usaria a morte dela contra mim.”
Dante estudou o rosto dela por um longo momento. Depois assentiu.
“Tudo bem. Mas a ligação é feita de um telefone público. Nada de celular. E eu fico do seu lado o tempo inteiro.”
Eles se vestiram rápido — roupas neutras, bonés para cobrir o rosto, mochilas leves. Saíram do hotel pela saída de emergência, evitando a recepção. Caminharam por vinte minutos até encontrar uma cabine telefônica antiga em uma praça quase vazia. Dante comprou um cartão pré-pago em uma tabacaria próxima.
Isabella discou o número da casa da família em Nova York. O telefone tocou seis vezes antes de Marco Rossi atender — voz rouca, sonolenta, desconfiada.
“Alô?”
“Pai. Sou eu.”
Silêncio do outro lado. Depois um suspiro pesado.
“Isabella… meu Deus. Onde você está?”
“Não importa. Eu preciso saber uma coisa. Alguém está me mandando fotos antigas de Elena. Fotos que estavam na casa. Quem tem acesso a isso?”
Outro silêncio. Mais longo.
“Eu… eu não sei. Depois que você foi embora, a casa foi revirada. Credores. Advogados. Policiais. Tudo foi mexido. Mas eu guardei as coisas dela no sótão. Ninguém mexeu lá. Eu tranquei.”
Isabella sentiu um frio na espinha.
“Alguém mexeu. Porque as fotos chegaram aqui. Com ameaças.”
Marco engoliu em seco.
“Eu… eu vendi algumas coisas. Depois da sua partida. Pra pagar dívidas. Fotos não. Mas documentos. Caixas de documentos antigos. Talvez alguém tenha pego de lá.”
“Quem comprou?”
“Um colecionador. Um homem chamado Vittorio Morelli. Disse que era historiador de famílias italianas em Nova York. Pagou bem. Em dinheiro.”
Dante, que ouvia pelo viva-voz, apertou o braço dela.
“Morelli. Você tem contato dele?”
Marco hesitou.
“Não. Mas ele deixou um cartão. Eu… eu guardei. Em algum lugar.”
“Procure. Agora. E me diga o número. O endereço. Qualquer coisa.”
Houve barulho do outro lado — gavetas abrindo, papéis sendo remexidos. Depois Marco voltou.
“Tenho. Vittorio Morelli. Endereço em Little Italy. Rua Mulberry, número 147. Telefone: 212-555-0192. Ele disse que era colecionador particular. Parecia inofensivo.”
Isabella olhou para Dante. Ele assentiu.
“Obrigada, pai. Não conte pra ninguém que eu liguei.”
“Isabella… você está em perigo?”
“Sim. Mas eu vou ficar bem. Cuide da mamãe. Dos meninos.”
“Eu… eu sinto muito. Por tudo.”
Ela desligou antes que as lágrimas caíssem.
Dante a puxou para um abraço rápido na cabine apertada.
“Vamos descobrir quem é esse Morelli.”
Eles saíram da cabine. Caminharam até uma cafeteria aberta 24 horas. Pediram dois cafés fortes e um canto discreto. Dante usou o laptop que trouxera para pesquisar o nome.
“Vittorio Morelli. Historiador amador. Tem um site simples. Especializado em famílias ítalo-americanas. Publicou um livro sobre imigração siciliana em Nova York nos anos 50. Endereço bate com o que seu pai disse. Mas… não tem foto. Nenhum perfil em redes sociais. Nada recente.”
Isabella franziu a testa.
“Parece fantasma.”
“Ou alguém que não quer ser encontrado.”
Dante fechou o laptop.
“Falcone disse que tinha um contato em Barcelona. Vamos ligar pra ele. Ver se ele pode investigar esse Morelli de longe.”
Ele discou o número do advogado.
Falcone atendeu no segundo toque.
“Vocês saíram do apartamento?”
“Sim. Estamos seguros. Por enquanto.”
“Bom. O que aconteceu?”
Dante contou tudo — o pacote, a foto de Elena, a ligação para Marco Rossi, o nome Vittorio Morelli.
Do outro lado, silêncio por um longo momento.
“Morelli… esse nome me soa familiar. Espere.”
Houve barulho de teclas. Depois Falcone voltou.
“Vittorio Morelli. Não é historiador. É um pseudônimo. O homem real é Antonio Bianchi. Irmão mais novo do capo que morreu no armazém em Nova Jersey. Ele desapareceu depois da morte do irmão. Rumores diziam que estava na Europa. Se for ele… ele não quer só vingança. Ele quer destruir vocês dois. Completamente.”
Isabella sentiu o sangue gelar.
“O que ele quer exatamente?”
“Provavelmente ver Dante cair. E você… você é o troféu. A Rossi que escolheu o inimigo. Ele vai usar Elena para te quebrar emocionalmente. Depois vai tentar te capturar. Ou pior.”
Dante apertou o celular com força.
“Onde ele está?”
“Não sei ainda. Mas vou descobrir. Enquanto isso: não fiquem parados. Mudem de hotel. Mudem de bairro. Não usem o mesmo cartão duas vezes. E Isabella… se ele mandar mais alguma coisa sobre sua irmã, não abra sozinha. Pode ser armadilha psicológica.”
Dante desligou.
Isabella olhou para ele.
“Antonio Bianchi. Ele perdeu o irmão por causa de você.”
“Por causa da guerra que meu pai começou. E que eu terminei.”
Ela tocou o rosto dele.
“Então a gente acaba com isso. De uma vez.”
Dante assentiu devagar.
“Mas não aqui. Não agora. Primeiro a gente desaparece melhor. Depois… a gente caça.”
Eles pagaram o café em dinheiro. Saíram da cafeteria. Caminharam por ruas secundárias até encontrar outro hotel pequeno — dessa vez em El Born. Pagaram em dinheiro vivo, pediram quarto no fundo, sem vista para a rua.
Quando entraram no quarto, trancaram a porta. Isabella foi direto para Dante, puxando-o pela camisa.
“Eu preciso de você. Agora. Antes que o medo me coma viva.”
Ele não resistiu. Beijou-a com urgência, as mãos tirando as roupas dela com pressa. Ela fez o mesmo com ele. Caíram na cama, corpos colidindo como se precisassem provar que ainda existiam.
Dante desceu a boca pelo corpo dela — pescoço, seios, barriga, coxas. Lambeu o centro dela com fome, os dedos entrando fundo, trazendo-a ao limite rápido. Ela gozou gritando o nome dele, as unhas cravando nos ombros.
Ele subiu, entrando nela de uma vez, forte, profundo. Moviam-se juntos — quase brutal, quase desesperado. Cada estocada era uma declaração: eu estou aqui. Eu não vou te perder.
Quando gozaram, abraçados, lágrimas escorreram pelos rostos dos dois.
Depois, ficaram deitados, ofegantes.
“Ele não vai nos quebrar”, sussurrou ela.
“Não”, respondeu ele. “Porque a gente já foi quebrado. E se reconstruiu mais forte.”
Mas enquanto ela adormecia, Dante ficou acordado.
O celular vibrou novamente.
Uma nova mensagem.
Boa noite, Isabella. Durma bem. Amanhã o presente fica mais pessoal.
Anexada, uma foto: a igreja da vila na Sicília, no dia do casamento deles. Tirada de longe. Com Nonna Teresa na porta, acenando.
Dante apagou a mensagem.
Mas o medo — real, frio — se instalou no peito dele.
E ele soube: o caçador não estava em Nova York.
Estava mais perto do que nunca.
E o próximo passo seria o mais perigoso de todos.
Capítulo 20: O Homem de Palermo
O novo hotel em El Born tinha paredes de tijolo aparente e uma sacada minúscula que dava para uma rua estreita cheia de bares que só abriam depois do meio-dia. Isabella acordou com o som de um acordeão distante — um músico de rua tocando algo melancólico, talvez um tango adaptado ao catalão. Dante já estava acordado, sentado na cadeira ao lado da janela, o laptop aberto no colo, a arma ao alcance da mão direita. Ele não dormira mais do que duas horas; ela sentia isso nos olhos vermelhos dele, na linha tensa do maxilar.
“Bom dia”, disse ela, a voz rouca de sono.
Ele fechou o laptop devagar e se virou para ela. O sorriso que tentou dar não chegou aos olhos.
“Bom dia, amor.”
Ela se sentou na cama, puxando o lençol até o peito.
“Você não dormiu.”
“Não muito.” Ele se levantou, caminhou até a cama e sentou-se na beira. “Estive pesquisando esse Vittorio Morelli. Ou Antonio Bianchi. Ou quem quer que ele seja agora.”
Isabella estendeu a mão, tocando o braço dele.
“E?”
“Ele mudou de identidade três vezes nos últimos sete anos. Passaporte italiano falso, residência em Lisboa, depois Madri. Há seis meses, entrou na Espanha por Gibraltar. O último registro oficial é de um voo de Madri para Barcelona há quatro semanas. Depois… nada.”
Ela sentiu o frio familiar subir pela espinha.
“Ele está aqui. Há um mês.”
“Provavelmente mais. Ele pode ter nos seguido desde a Sicília. Ou ter pago alguém para nos vigiar desde Nova York.”
Isabella fechou os olhos por um segundo.
“Então o que a gente faz? Continua fugindo?”
Dante pegou a mão dela, entrelaçando os dedos.
“Não. Falcone ligou de madrugada. Ele descobriu uma coisa. Morelli — ou Bianchi — tem um ponto fraco. Uma irmã. Mais nova. Mora em Palermo. Casada com um policial local. Ela não sabe do passado do irmão. Se a gente conseguir falar com ela… talvez consiga uma pista. Ou uma barganha.”
Isabella abriu os olhos.
“Você quer voltar pra Sicília?”
“Não eu. Nós. Mas não como fugitivos. Como quem vai resolver um assunto pendente.”
Ela respirou fundo.
“E se for armadilha?”
“Então a gente entra armado. E sai vivo.”
Ela assentiu devagar.
“Tudo bem. Mas antes… eu preciso de um dia. Um dia só. Sem correr. Sem olhar por cima do ombro. Só nós dois. Como ontem.”
Dante estudou o rosto dela por um longo momento. Depois sorriu — dessa vez de verdade.
“Um dia. Só um.”
Eles passaram a manhã trancados no quarto. Não fizeram planos. Não falaram de Bianchi. Apenas se tocaram. Beijaram. Exploraram. Dante a deitou na cama devagar, beijando cada centímetro da pele dela como se fosse a primeira vez. Desceu a boca pelo pescoço, pelos seios, pela barriga. Quando chegou entre as pernas, lambeu com uma paciência quase religiosa, os dedos entrando e curvando devagar, trazendo-a ao limite várias vezes antes de deixá-la gozar.
Isabella arqueou as costas, os gemidos baixos enchendo o quarto pequeno. Quando o orgasmo veio, foi longo, intenso — o corpo tremendo, as lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos.
Dante subiu, beijando as lágrimas. Entrou nela devagar, os olhos fixos nos dela. Moviam-se juntos — lento, profundo, como se o tempo tivesse parado. Cada estocada era uma declaração silenciosa: eu estou aqui. Eu não vou embora. Eu te amo.
Eles gozaram abraçados, corpos colados, respirações misturadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes, o mundo lá fora esquecido.
Depois, tomaram banho juntos. Saíram para almoçar em um restaurante pequeno na rua de baixo — tapas frias, vinho rosé gelado, risadas leves sobre coisas bobas. Caminharam pela Barceloneta à tarde, pés na areia, mãos dadas, assistindo o mar bater nas pedras do quebra-mar. Compraram sorvete de pistache e sentaram em um banco olhando o pôr do sol.
“Eu nunca imaginei que poderia ter isso”, disse ela, encostando a cabeça no ombro dele.
“Nem eu.” Ele beijou o topo da cabeça dela. “Mas agora que tenho… não vou deixar ninguém tirar.”
Quando a noite caiu, voltaram para o hotel. Fizeram amor de novo — dessa vez no chão do quarto, contra a parede, na sacada pequena com a cidade piscando ao fundo. Cada toque era urgente, desesperado, como se soubessem que o amanhã poderia roubar tudo.
Adormeceram entrelaçados, exaustos, saciados.
Mas às três da manhã, o celular de Dante vibrou novamente.
Ele acordou instantaneamente. Pegou o aparelho.
Uma mensagem de vídeo. Sem texto. Apenas um play.
Ele hesitou. Depois apertou.
A imagem era escura, tremida. Uma mulher jovem — uns vinte e cinco anos, cabelos castanhos longos, rosto parecido com Antonio Bianchi. Estava amarrada a uma cadeira em um porão vazio. Olhos arregalados de medo. Uma voz distorcida ao fundo:
“Olá, Dante. Olá, Isabella. Este é o verdadeiro presente de casamento. A irmãzinha do meu irmão. Ela não sabe de nada. Mas vai pagar pelos pecados dele. E pelos seus. Vocês têm 48 horas para voltar à Sicília. Sozinhos. Sem polícia. Sem Falcone. Se não aparecerem… ela morre. E depois… vocês.”
O vídeo terminou com um close no rosto da mulher — lágrimas escorrendo, boca amordaçada, um pedido mudo de socorro.
Dante fechou os olhos. A mão tremia segurando o celular.
Isabella acordou com o movimento.
“O que foi?”
Ele mostrou o vídeo. Ela assistiu em silêncio. Quando acabou, as lágrimas escorriam pelo rosto dela.
“Ele está usando inocentes agora.”
Dante assentiu.
“Ele quer nos forçar a sair do esconderijo. Quer que a gente volte para onde ele controla o terreno.”
Isabella limpou as lágrimas com as costas da mão.
“Então a gente vai.”
Dante olhou para ela.
“Não sem plano.”
“Com plano. Mas a gente vai. Porque se a gente não for… ela morre. E depois outra pessoa. E outra. Ele não vai parar.”
Dante respirou fundo.
“Tudo bem. Amanhã cedo a gente liga para Falcone. Pede ajuda para entrar na Sicília sem ser rastreado. Depois… a gente descobre onde ela está.”
Isabella tocou o rosto dele.
“E se for armadilha?”
“Então a gente entra sabendo. E sai com ela viva. Ou morre tentando.”
Ela assentiu.
“Juntos.”
Ele a puxou para um abraço forte.
“Juntos.”
Naquela madrugada, eles não dormiram mais. Ficaram acordados, planejando em voz baixa. Mapas no celular. Contatos antigos. Armas escondidas na bagagem. Rotas alternativas para Palermo.
Quando o sol nasceu, eles já estavam prontos.
Mas o peso no peito de Dante era novo: não era só medo por Isabella. Era medo por uma mulher que ele nem conhecia. Medo de que o sangue que ele tentara deixar para trás ainda chamasse mais sangue.
Eles saíram do hotel ao amanhecer.
Barcelona ficava para trás.
A Sicília os esperava.
E o homem que se chamava Vittorio Morelli — ou Antonio Bianchi — estava pronto para receber o presente de volta.
Com juros.
Capítulo 21: Volta à Ilha
O voo de Barcelona a Palermo durou pouco mais de duas horas, mas pareceu eterno. Isabella passou a maior parte do tempo olhando pela janela oval do avião, as nuvens brancas refletindo o sol da tarde como algodão esticado. Dante estava ao lado dela, o braço apoiado no encosto do assento, os olhos fixos no caminho à frente. Não conversavam muito. As palavras pareciam pesadas demais para serem ditas em voz alta. Em vez disso, ele segurava a mão dela com firmeza, o polegar traçando círculos lentos na palma — um gesto pequeno, mas constante, como se dissesse: eu estou aqui. Não vou soltar.
Eles desembarcaram no aeroporto Falcone-Borsellino ao entardecer. O ar estava quente, carregado do cheiro de sal e pinheiros. Salvatore os esperava na saída de chegadas — o mesmo Mercedes preto, agora com vidros ainda mais escuros. Ele não sorriu ao vê-los; apenas assentiu, abriu as portas traseiras e colocou as mochilas no porta-malas sem dizer uma palavra.
No carro, o silêncio continuou. Isabella encostou a cabeça no ombro de Dante. Ele beijou o topo da cabeça dela.
“Você está bem?”, perguntou ela baixo.
“Não. Mas vou ficar.”
Salvatore quebrou o silêncio do banco da frente.
“Nonna está na villa. Armou tudo como vocês pediram. Armas limpas, mapas, rotas alternativas. E um celular novo para cada um. Nada rastreável.”
Dante assentiu.
“Obrigado, Salvatore. Você não precisava se envolver mais.”
O homem deu de ombros, os olhos fixos na estrada.
“Nonna pediu. E eu devo a ela. Além disso… eu vi o que aconteceu com Vincenzo. Não quero ver o mesmo com vocês.”
Isabella sentiu um aperto no peito.
“Ela está segura?”
“Sim. Trancou a casa. Ninguém entra sem ela saber.”
O carro seguiu pela autoestrada, depois pegou estradas secundárias. O sol se punha atrás das montanhas, tingindo o céu de vermelho sangue. Quando chegaram à villa, a noite já havia caído. As luzes da casa estavam baixas, quase invisíveis da estrada. Nonna Teresa os esperava na porta, uma xícara de chá na mão, o rosto marcado por preocupação.
Ela abraçou Dante primeiro — forte, como se quisesse verificar se ele ainda era real. Depois abraçou Isabella, segurando o rosto dela entre as mãos.
“Vocês voltaram”, disse ela, a voz rouca. “Eu sabia que voltariam. Mas não sabia se voltariam inteiros.”
Isabella sorriu, apesar das lágrimas que ameaçavam cair.
“A gente vai ficar inteiro. Prometo.”
Nonna os levou para dentro. A cozinha estava iluminada por velas — sem luz elétrica, para não chamar atenção. Sobre a mesa, mapas espalhados, armas limpas, carregadores extras, facas, um rádio de ondas curtas. Tudo arrumado com precisão militar.
“Eu fiz o que pude”, disse Nonna. “A irmã do Bianchi está em um apartamento em Mondello. Casada com um policial chamado Marco Vitale. Ele trabalha na delegacia central. Ela não sai muito. Tem medo do passado do irmão.”
Dante sentou-se à mesa, puxando Isabella para o colo. Ela se sentou de lado, as costas contra o peito dele.
“Como você sabe disso?”
Nonna serviu chá para os dois.
“Eu tenho amigos antigos. Pescadores. Motoristas de táxi. Pessoas que veem coisas e não falam. Elas me contaram. A moça se chama Sofia Vitale. Tem vinte e seis anos. Trabalha em uma floricultura. O marido é rígido, mas justo. Não sabe do cunhado. Ou finge não saber.”
Isabella olhou para Dante.
“A gente não pode machucá-la. Ela é inocente.”
“Não vamos. Vamos usá-la como isca. Mas sem tocar nela. Se Bianchi a sequestrou, ele a está mantendo em algum lugar perto. Provavelmente em Palermo ou arredores. Se a gente falar com Sofia… ela pode nos dar uma pista. Ou pelo menos confirmar se o irmão está vivo e onde.”
Nonna assentiu.
“Mas cuidado. O marido é policial. Se ele desconfiar de vocês… vai complicar.”
Dante apertou Isabella contra si.
“Então a gente vai de manhã. Cedo. Antes que o marido saia para o trabalho. Falamos com ela. Saímos rápido.”
Isabella virou o rosto para ele.
“E se for armadilha?”
“Então a gente entra sabendo. E sai atirando se precisar.”
Nonna colocou as mãos na mesa.
“Durmam. Vocês precisam descansar. Amanhã vai ser longo.”
Eles subiram para o quarto antigo — o mesmo onde haviam se casado, o mesmo onde haviam feito amor sob as estrelas. A cama ainda cheirava a lavanda e a eles. Dante trancou a porta. Isabella foi direto para ele, puxando-o pela camisa.
“Eu preciso de você”, sussurrou ela. “Antes que tudo comece de novo.”
Ele não respondeu com palavras. Apenas a beijou — lento no início, depois urgente. Tirou a roupa dela com mãos firmes, mas gentis. Ela fez o mesmo com ele. Caíram na cama, corpos colidindo como se precisassem se fundir para sobreviver.
Dante desceu a boca pelo pescoço dela, mordiscando de leve a pele sensível. Desceu pelos seios, chupando os mamilos até ela arquear as costas. Continuou descendo — barriga, quadris, coxas. Abriu as pernas dela com cuidado, lambendo devagar, saboreando cada gemido que escapava dela. Os dedos entraram fundo, curvando-se no ponto exato, trazendo-a ao limite várias vezes antes de deixá-la gozar.
Isabella gritou baixo, o corpo tremendo, as unhas cravando nos ombros dele.
Ele subiu, beijando as lágrimas que escorriam pelos cantos dos olhos dela. Entrou nela devagar, preenchendo-a completamente. Moviam-se juntos — forte, profundo, quase desesperado. Cada estocada era uma promessa: eu não vou te perder. Eu não vou deixar ninguém nos separar.
Quando gozaram, foi abraçados, corpos colados, respirações sincronizadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes, o silêncio da villa ao redor como um casulo.
Depois, deitados de lado, ela traçou a tatuagem no peito dele.
“Se amanhã der errado…”
“Não vai dar errado”, interrompeu ele. “Mas se der… saiba que cada segundo com você valeu cada bala, cada traição, cada morte.”
Ela beijou o peito dele, exatamente sobre o coração.
“Eu te amo, Dante.”
“Eu te amo mais do que isso tudo.”
Eles adormeceram entrelaçados, o mar murmurando ao longe.
Mas às quatro da manhã, o celular novo vibrou.
Dante acordou instantaneamente. Pegou o aparelho.
Uma mensagem de vídeo. Sem remetente.
Ele hesitou. Depois apertou play.
A imagem era clara dessa vez. Sofia Vitale — amarrada à mesma cadeira do vídeo anterior. Mas agora havia um homem atrás dela. Alto, magro, cabelos castanhos curtos, olhos frios como os de Antonio Bianchi.
Ele sorriu para a câmera.
“Olá, Dante. Olá, Isabella. Vejo que receberam meu presente. Bom. Agora ouçam com atenção. Vocês têm até o meio-dia para chegar ao porto de Mondello. Sozinhos. Sem armas. Sem polícia. Sem Falcone. Entreguem-se a mim. E eu libero Sofia. Se não… eu mato ela na frente da câmera. E mando o vídeo para vocês. Depois para o marido dela. Depois para o mundo.”
Ele se inclinou, beijando o topo da cabeça de Sofia.
“Meio-dia. Não atrasem.”
O vídeo terminou.
Dante fechou os olhos. A mão tremia segurando o celular.
Isabella acordou com o movimento.
“O que foi?”
Ele mostrou o vídeo. Ela assistiu em silêncio. Quando acabou, as lágrimas escorriam pelo rosto dela.
“Ele quer nós dois.”
“Sim.”
Ela limpou as lágrimas.
“Então a gente vai.”
Dante olhou para ela.
“Não sem plano.”
“Com plano. Mas a gente vai. Porque se não formos… ela morre. E o sangue continua.”
Dante respirou fundo.
“Tudo bem. Mas a gente leva armas. Escondidas. E Nonna fica avisada. Se não voltarmos até o fim da tarde… ela liga para Falcone. E para o mundo.”
Isabella assentiu.
“Juntos.”
Ele a puxou para um abraço forte.
“Juntos.”
Eles se levantaram. Vestiram-se em silêncio. Pegaram as armas. Desceram para a cozinha.
Nonna os esperava — já acordada, como se soubesse.
“Vão com Deus”, disse ela. “E voltem com vida.”
Dante a abraçou forte.
“Eu prometo, Nonna.”
Isabella abraçou-a em seguida.
“Obrigada por tudo.”
Nonna tocou o rosto dela.
“Tragam a moça. E tragam vocês mesmos.”
Eles saíram.
O sol nascia sobre a Sicília.
O porto de Mondello os esperava.
E Antonio Bianchi — o homem que queria destruir tudo — estava pronto para receber sua vingança.
Mas Dante e Isabella não iam como vítimas.
Iriam como predadores.
E o sangue que chamava… dessa vez seria respondido com fogo.
Capítulo 22: O Porto ao Meio-Dia
O sol do meio-dia batia impiedoso no asfalto do porto de Mondello. O mar estava calmo, quase espelhado, refletindo o céu azul sem nuvens como um vidro quebrado. Barcos de pesca balançavam preguiçosamente nos ancoradouros, redes secando ao sol, gaivotas circulando preguiçosas acima das águas. O cheiro de sal, peixe fresco e diesel pairava pesado no ar. Turistas passeavam pelo calçadão, crianças corriam com sorvetes derretendo nas mãos, casais tiravam fotos do horizonte. Tudo parecia normal. Pacato. Inofensivo.
Mas Isabella e Dante sabiam que não era.
Eles haviam chegado cedo — às onze horas —, estacionando o Mercedes de Salvatore em uma rua lateral, longe do porto principal. Caminharam os últimos quinhentos metros a pé, separados por dez metros de distância: Dante na frente, boné baixo sobre os olhos, jaqueta leve apesar do calor para esconder a pistola na cintura; Isabella atrás, óculos escuros, lenço na cabeça, vestido solto de algodão branco que balançava com a brisa. Não se falavam. Não se olhavam diretamente. Mas cada um sentia a presença do outro como uma corrente elétrica.
Dante parou primeiro, encostando-se em um poste de iluminação perto do píer principal. Olhou ao redor devagar: pescadores consertando redes, um vendedor de frutas com carrinho colorido, dois homens de terno sentados em um banco lendo jornal — ou fingindo ler. Nenhum sinal óbvio de Bianchi. Nenhum homem armado. Nenhum movimento suspeito.
Ele ergueu a mão esquerda discretamente — o sinal combinado: “venha”.
Isabella se aproximou, parando ao lado dele como se fosse uma turista qualquer admirando o mar.
“Vê alguma coisa?”, perguntou ela baixo.
“Nada claro. Mas ele está aqui. Eu sinto.”
Ela olhou para o relógio: 11:48.
“Doze minutos.”
Dante assentiu.
“Se ele não aparecer até meio-dia e um, a gente vai embora. Não vamos ficar expostos.”
Isabella tocou o braço dele por baixo da manga.
“E Sofia?”
“Se ele a tem mesmo… a gente descobre onde. Depois a gente resgata. Mas não hoje. Hoje é só conversa.”
Ela respirou fundo.
“Tudo bem.”
Eles esperaram.
Às 11:55, um homem se aproximou. Alto, magro, terno cinza claro impecável apesar do calor. Cabelos castanhos curtos, barba rala bem aparada, óculos escuros Ray-Ban que escondiam os olhos. Caminhava com calma, mãos nos bolsos, como se estivesse dando um passeio casual. Parou a três metros deles.
“Signor Moretti. Signora Moretti.” A voz era suave, quase educada, com sotaque siciliano carregado. “Pontuais. Gosto disso.”
Dante deu um passo à frente, colocando o corpo ligeiramente na frente de Isabella.
“Antonio Bianchi.”
O homem sorriu — um sorriso frio, sem calor.
“Vittorio Morelli serve. Mas sim… Antonio está bom. Faz tempo que ninguém me chama assim.”
Isabella sentiu o estômago apertar.
“Onde está Sofia?”
Bianchi inclinou a cabeça.
“Segura. Por enquanto. Em um lugar bonito. Com vista para o mar. Como vocês gostam.”
Dante apertou o maxilar.
“O que você quer?”
“Simples. Vocês. Os dois. Vivos. Entregues a mim. Em troca, libero a moça. E paro de enviar presentes.”
Isabella deu um passo à frente, ignorando o gesto sutil de Dante para que ficasse atrás.
“Por quê? O que ganhamos com isso?”
Bianchi riu baixo.
“Vocês ganham a vida dela. E talvez a de vocês. Eu ganho justiça. Meu irmão morreu por causa do seu marido. Meu pai morreu por causa da família Moretti. Eu perdi tudo. Agora vocês vão perder.”
Dante falou devagar, controlando cada palavra.
“Seu irmão morreu em uma guerra que ele começou. Não eu. Não ela. Sofia não tem nada a ver com isso.”
“Ela tem o sangue Bianchi. Isso basta.”
Isabella sentiu raiva subir como bile.
“Você está usando a própria sobrinha como moeda. Isso não é justiça. É covardia.”
Bianchi tirou os óculos devagar. Os olhos eram iguais aos do irmão morto — frios, vazios, calculistas.
“Coisas mudam quando você perde tudo, signora. Você deveria saber. Perdeu uma irmã. Perdeu uma casa. Perdeu uma vida normal. Agora vai perder mais.”
Dante deu outro passo.
“Onde ela está?”
“Perto. Muito perto. Mas vocês vêm comigo. Sozinhos. Sem armas. Sem truques. Ou eu aperto o gatilho que mata ela agora. E mando o vídeo para o marido. Para a polícia. Para o mundo.”
Isabella olhou para Dante. Ele sustentou o olhar dela por um segundo longo. Depois assentiu devagar.
“Tudo bem. Nós vamos.”
Bianchi sorriu de novo.
“Excelente. Sigam-me. O carro está ali.”
Ele apontou para um sedã preto estacionado no fim do píer. Vidros escuros. Motor ligado.
Dante e Isabella começaram a andar. Lado a lado. Mãos quase se tocando. Bianchi caminhava na frente, calmo, como se estivesse levando convidados para um passeio.
Quando chegaram ao carro, Bianchi abriu a porta traseira.
“Entrem.”
Dante hesitou.
“Mostre que ela está viva. Agora.”
Bianchi pegou o celular. Apertou um botão. A tela mostrou Sofia — viva, amarrada, mas respirando. Olhos arregalados. Boca amordaçada.
“Sat isfeito?”
Dante assentiu.
Eles entraram no banco traseiro. Bianchi sentou no passageiro da frente. O motorista — um homem calvo, pescoço grosso, tatuagens subindo pelos braços — ligou o carro sem dizer uma palavra.
O sedã saiu do porto devagar. Pegou a estrada costeira. O mar à esquerda. Montanhas à direita. Isabella encostou a mão na de Dante. Ele apertou de volta.
O carro seguiu por vinte minutos. Depois virou em uma estrada secundária, subindo a encosta. Parou em frente a uma casa isolada — pedra clara, telhado vermelho, varanda com vista para o mar. Bianchi desceu primeiro.
“Chegamos.”
Dante e Isabella desceram. Olharam ao redor. Nenhum outro carro. Nenhum homem armado visível. Mas sabiam que estavam lá.
Bianchi abriu a porta da casa.
“Entrem.”
Eles entraram.
O interior era simples, quase vazio. Uma sala ampla. Uma cadeira no centro. Sofia estava lá — amarrada, olhos cheios de lágrimas. Ao lado dela, um homem de máscara preta segurava uma pistola apontada para a cabeça dela.
Bianchi fechou a porta atrás deles.
“Agora… a parte divertida.”
Dante deu um passo à frente.
“Solte ela.”
Bianchi sorriu.
“Primeiro… vocês se ajoelham. Mãos atrás da cabeça. Depois eu penso.”
Isabella olhou para Dante. Ele assentiu devagar.
Eles se ajoelharam.
Mãos atrás da cabeça.
Bianchi se aproximou devagar.
“Vocês achavam que iam ganhar. Que o amor ia vencer o sangue. Que podiam fugir. Mas sangue chama sangue. E o meu… o meu ainda está chamando.”
Ele pegou a pistola do homem mascarado. Apontou para Dante.
“Você primeiro.”
Isabella gritou.
“Não!”
Mas antes que Bianchi pudesse apertar o gatilho, a porta dos fundos explodiu.
Salvatore entrou primeiro — rifle na mão, olhos frios. Atrás dele, dois homens que Isabella nunca vira, mas que pareciam saber exatamente o que faziam.
Tiros ecoaram.
Bianchi caiu primeiro — bala no ombro. O homem mascarado tentou reagir, mas Salvatore foi mais rápido. Dois tiros no peito. O corpo caiu sobre Sofia.
Dante se levantou num pulo, pegando a arma caída. Isabella correu para Sofia, cortando as cordas com a faca que Dante lhe entregara.
Sofia chorava, tremendo.
“Quem… quem são vocês?”
Dante se ajoelhou ao lado dela.
“Amigos. Você está segura agora.”
Salvatore se aproximou, verificando os corpos.
“Estão mortos.”
Dante olhou para Bianchi — ainda vivo, sangrando no chão, olhos arregalados de surpresa.
“Por quê?”, perguntou Dante. “Por que agora?”
Bianchi tossiu sangue.
“Porque… você tirou tudo de mim. Meu irmão. Meu pai. Minha honra. Eu queria ver você perder a mesma coisa.”
Dante apontou a arma para a testa dele.
“Você perdeu.”
Bianchi sorriu — um sorriso fraco, final.
“Talvez. Mas o sangue… ainda chama.”
Dante apertou o gatilho.
O corpo caiu.
Silêncio.
Isabella ajudou Sofia a se levantar. A moça tremia, mas estava viva.
“Obrigada”, sussurrou ela.
Dante assentiu.
“Vá para casa. Para o seu marido. Diga que foi um sequestro aleatório. Não mencione nossos nomes.”
Sofia assentiu, lágrimas escorrendo.
“Eu… eu não sei quem vocês são. Mas obrigada.”
Salvatore a levou para fora.
Dante e Isabella ficaram sozinhos na casa.
Ele se virou para ela.
“Acabou.”
Ela tocou o rosto dele.
“Acabou.”
Eles se beijaram — longo, profundo, como se o mundo tivesse parado.
Mas quando saíram da casa, o sol ainda batia forte.
E o mar ainda cantava.
Eles entraram no carro com Salvatore.
Voltaram para a villa.
Nonna os esperava na porta.
Abraçou os dois ao mesmo tempo.
“Vocês voltaram inteiros.”
Dante sorriu — cansado, mas verdadeiro.
“Voltamos.”
Naquela noite, eles dormiram abraçados.
Sem medo.
Sem mensagens.
Sem sangue chamando.
Pelo menos por enquanto.
Mas Isabella sabia — no fundo — que o silêncio nunca era definitivo.
E Dante sabia também.
Mas, pela primeira vez, eles escolheram acreditar que o amanhã poderia ser só deles.
Capítulo 23: O Silêncio que Precede
A villa parecia mais quieta do que nunca depois do confronto no porto. O mar continuava batendo nas rochas lá embaixo, o vento sussurrava nas oliveiras, mas dentro da casa o ar estava denso, carregado de algo que não era exatamente alívio — era espera. Isabella e Dante passaram o resto da tarde em silêncio, cada um processando o que havia acontecido. Salvatore havia levado Sofia para casa em Mondello, com instruções estritas para que ela contasse ao marido apenas o essencial: sequestro aleatório por um louco, resgate por desconhecidos que sumiram depois. Ela prometera não mencionar nomes. Mas promessas, em um mundo como aquele, eram frágeis.
Nonna Teresa preparou o jantar como se nada tivesse acontecido — massa fresca com molho de sardinhas, salada de tomate e manjericão, vinho tinto da garrafa que guardava para ocasiões especiais. Eles comeram na cozinha, à luz de velas, sem pressa. Ninguém mencionou Bianchi. Ninguém mencionou o sangue que ainda manchava as memórias do dia.
Depois do jantar, Nonna se retirou para o quarto dela. Salvatore ficou no sofá da sala, rifle ao lado, olhos fixos na porta. Dante e Isabella subiram para o quarto. Trancaram a porta. Ficaram parados por um momento, apenas se olhando.
“Você está bem?”, perguntou ela, a voz baixa.
Dante deu um passo à frente, tocando o rosto dela com as duas mãos.
“Não sei. Matei um homem hoje. De novo. E não sinto nada. Nem culpa. Nem satisfação. Só… vazio.”
Isabella cobriu as mãos dele com as suas.
“Você salvou uma vida. Salvou a gente. Isso não é vazio. Isso é o que resta quando o sangue para de chamar.”
Ele fechou os olhos, encostando a testa na dela.
“Eu tenho medo, Isabella. Medo de que isso nunca acabe. De que sempre haja alguém. Um irmão. Um primo. Um amigo. Alguém que vai querer vingança.”
Ela o puxou para a cama. Sentaram-se na beira, de mãos dadas.
“Talvez haja. Mas a gente enfrenta. Juntos. Como hoje.”
Dante abriu os olhos. Olhou para ela como se a visse pela primeira vez.
“Você mudou. Você era forte antes. Mas agora… agora você é indestrutível.”
Ela sorriu de leve.
“Você me fez assim. Você me mostrou que eu podia ser mais do que vítima. Mais do que moeda de troca.”
Ele a beijou devagar — um beijo que começou suave e foi ganhando urgência. As mãos dele desceram pelas costas dela, puxando-a para o colo. Ela envolveu as pernas ao redor da cintura dele, sentindo-o endurecer contra si.
“Eu te quero”, sussurrou ela contra os lábios dele. “Quero sentir que estamos vivos. Que vencemos.”
Dante não respondeu com palavras. Apenas a deitou na cama, tirando a roupa dela com uma lentidão quase reverente. Beijou cada centímetro revelado — pescoço, clavícula, seios, barriga, coxas. Quando chegou ao centro dela, lambeu devagar, saboreando cada tremor, cada gemido baixo. Os dedos entraram fundo, curvando-se no ponto exato, trazendo-a ao limite várias vezes antes de deixá-la cair.
Isabella arqueou as costas, os dedos enfiados nos cabelos dele, o nome dele escapando em um grito abafado. O orgasmo veio forte, longo, deixando-a tremendo.
Ele subiu, beijando as lágrimas que escorriam pelos cantos dos olhos dela. Entrou nela devagar, preenchendo-a completamente. Moviam-se juntos — profundo, ritmado, como se estivessem se curando um ao outro. Cada estocada era uma afirmação: estamos aqui. Estamos vivos. Estamos inteiros.
Quando gozaram, foi abraçados, corpos colados, respirações sincronizadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes, o silêncio da villa ao redor como um casulo.
Depois, deitados de lado, ela traçou a tatuagem no peito dele.
“O que a gente faz agora?”
Dante beijou a palma da mão dela.
“Amanhã a gente liga para Falcone. Confirma se o pacote foi destruído. Se o FBI parou de farejar. Depois… a gente decide. Ficar aqui. Voltar para Barcelona. Ir para outro lugar. Mas juntos.”
Ela assentiu.
“Juntos.”
Eles adormeceram entrelaçados.
Mas às duas da manhã, o celular novo vibrou novamente.
Dante acordou instantaneamente. Pegou o aparelho.
Uma mensagem de vídeo. Sem remetente.
Ele apertou play.
A imagem era clara. Sofia Vitale — deitada em uma cama de hospital, soro no braço, o marido ao lado, segurando a mão dela. Ela sorria fraco para a câmera.
“Eu estou bem”, disse ela. “Obrigada. Quem quer que vocês sejam… obrigada.”
O vídeo terminou.
Dante sentiu o peito apertar. Não de medo. De alívio.
Ele mostrou para Isabella, que acordou com o movimento.
Ela leu a mensagem que acompanhava:
Ela está segura. O marido não sabe de nada. Eu cuidei. Falcone.
Isabella sorriu — um sorriso cansado, mas verdadeiro.
“Falcone cumpriu.”
Dante assentiu.
“Ele cumpriu.”
Eles se abraçaram forte.
Pela primeira vez em meses, o silêncio não era ameaçador. Era paz.
Mas paz, em um mundo como o deles, nunca era definitiva.
Eles sabiam disso.
Ainda assim, naquela noite, escolheram acreditar que poderia durar.
Pelo menos até o sol nascer.
Capítulo 24: O Peso do Amanhã
O amanhecer na Sicília não era suave. O sol nascia como uma lâmina de fogo, cortando as sombras das oliveiras e incendiando o mar ao longe. Isabella acordou antes de Dante, o corpo ainda quente do sono e do toque dele na noite anterior. Ficou deitada de lado, observando-o dormir — o peito subindo e descendo em ritmo lento, a mão direita aberta sobre o travesseiro como se buscasse algo mesmo no sono. A tatuagem da cruz envolta em rosas negras parecia mais viva à luz da manhã, as linhas pretas contrastando com a pele bronzeada. Ela estendeu os dedos e traçou a borda da cruz, sentindo a textura ligeiramente elevada da cicatriz por baixo da tinta.
Dante abriu os olhos no mesmo instante. Não havia surpresa no olhar dele — apenas reconhecimento. Ele virou o rosto para ela, puxando-a para mais perto sem dizer nada. Os corpos se encaixaram como peças antigas, perfeitamente moldadas uma para a outra. Ele beijou a testa dela, depois a têmpora, depois desceu até o pescoço, mordiscando de leve a pele sensível.
“Você não dormiu o suficiente”, murmurou ela contra o peito dele.
“Nem você.” A voz dele era rouca de sono e de algo mais profundo. “Eu sinto você pensando mesmo dormindo.”
Isabella sorriu de leve, mas o sorriso morreu rápido.
“Eu estou pensando que ontem foi o fim de uma coisa… mas não de tudo. Bianchi morreu. Mas ele não era o único. Sempre tem outro. Sempre tem mais sangue.”
Dante rolou por cima dela com cuidado, apoiando-se nos antebraços para não esmagá-la. Olhou nos olhos dela — olhos castanhos que já tinham visto demais, mas ainda brilhavam com determinação.
“Talvez tenha mais. Talvez sempre tenha. Mas ontem… ontem a gente escolheu lutar. E venceu. Não foi o fim do mundo. Foi o fim de uma era. A era em que o sangue mandava em nós.”
Ela tocou o rosto dele, traçando a linha do maxilar.
“E agora? Qual é a próxima era?”
Ele beijou a palma da mão dela.
“A era em que a gente decide. Não mais eles. Nós.”
As palavras pairaram no ar por um momento. Depois ele baixou o rosto e a beijou — lento, profundo, como se quisesse gravar o gosto dela na memória. As mãos dele desceram pelas costas dela, apertando os quadris, erguendo-a contra si. Ela envolveu as pernas ao redor da cintura dele, sentindo-o já duro, já pronto.
“Eu te quero”, sussurrou ela contra os lábios dele. “Quero sentir que isso é real. Que a gente sobreviveu.”
Dante não respondeu com palavras. Apenas a deitou de costas, descendo a boca pelo corpo dela como se estivesse redescobrindo cada centímetro. Beijou o pescoço, mordiscou a clavícula, chupou os seios até os mamilos endurecerem e ela arquear as costas. Continuou descendo — barriga, quadris, a parte interna das coxas. Abriu as pernas dela com cuidado, lambendo devagar, saboreando cada tremor, cada suspiro. A língua circulava o clitóris em movimentos lentos, depois rápidos, os dedos entrando fundo, curvando-se exatamente onde ela precisava.
Isabella agarrou os lençóis, os quadris se movendo contra a boca dele. O prazer subia como uma onda lenta, inevitável. Quando veio, foi intenso — o corpo convulsionando, um grito abafado escapando, lágrimas quentes escorrendo pelos cantos dos olhos.
Dante subiu, beijando as lágrimas, depois a boca. Entrou nela devagar, centímetro por centímetro, os olhos nunca deixando os dela. Moviam-se juntos — profundo, ritmado, quase reverente. Cada estocada era uma promessa silenciosa: eu estou aqui. Eu não vou embora. Eu te amo mais do que o sangue que nos trouxe até aqui.
Eles gozaram abraçados, corpos colados, respirações sincronizadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes, o sol entrando pela janela aberta e aquecendo a pele deles.
Depois, deitados de lado, ela traçou a aliança no dedo dele.
“Eu quero ficar aqui”, disse ela de repente. “Na Sicília. Pelo menos por um tempo. Quero plantar algo. Quero ver Nonna sorrir mais. Quero acordar todo dia sabendo que o dia é nosso.”
Dante beijou a palma da mão dela.
“Então a gente fica. Pelo tempo que for seguro. Depois… a gente vê o resto do mundo. Juntos.”
Eles se levantaram devagar. Tomaram banho juntos — água morna caindo sobre os dois, mãos ensaboando corpos que já conheciam de cor. Vestiram-se com roupas leves. Desceram para a cozinha.
Nonna Teresa já estava lá, mexendo uma panela de café com ervas. Salvatore estava sentado à mesa, limpando o rifle com movimentos precisos.
“Bom dia”, disse Nonna sem se virar. “Ou o que resta dele.”
Isabella sorriu.
“Bom dia, Nonna.”
Dante sentou-se à mesa. Salvatore ergueu os olhos.
“Eu fiz uma ronda de madrugada. Nada. Nenhum carro estranho. Nenhum movimento na estrada. Mas… isso não quer dizer que acabou.”
Dante assentiu.
“Eu sei. Bianchi morreu. Mas ele pode ter deixado alguém. Ou alguém pode ter visto o que aconteceu no porto.”
Salvatore guardou o rifle.
“Eu fico aqui. Vigio. Vocês precisam respirar. Pelo menos por hoje.”
Nonna serviu o café e pão fresco com azeite e tomate.
“Comam. Depois conversamos sobre o futuro. Porque passado… passado já morreu ontem.”
Eles comeram em silêncio confortável. Quando terminaram, Nonna se sentou à frente deles.
“Eu tenho uma proposta”, disse ela. “A propriedade ao lado. Pequena. Abandonada há anos. Pertencia a uma prima minha que morreu sem filhos. Está no meu nome. Vocês podem reformar. Fazer dela uma casa. Uma vida. Longe de Nova York. Longe de tudo.”
Isabella olhou para Dante.
“Você quer isso?”
Ele segurou a mão dela por cima da mesa.
“Quero você. Onde você estiver. Se for aqui… então é aqui.”
Nonna sorriu — um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
“Então está decidido. Salvatore conhece os pedreiros certos. Discretos. Pagamos em dinheiro. Ninguém pergunta nada.”
Isabella sentiu algo se soltar no peito — não medo, não raiva, mas esperança. Pequena. Frágil. Mas real.
“Eu quero isso”, disse ela. “Quero plantar um jardim. Quero ver o sol nascer todo dia sem me perguntar se é o último.”
Dante beijou os nós dos dedos dela.
“Então vamos plantar.”
O resto do dia foi dedicado a planos práticos. Caminharam até a propriedade vizinha — uma casa de pedra menor que a villa, com telhado meio desabado, jardim selvagem, vista direta para o mar. Salvatore mediu os espaços, apontou onde reforçar paredes, onde abrir janelas novas. Isabella já imaginava: uma cozinha ampla, uma varanda com rede, um quarto com vista para o nascer do sol.
Voltaram para a villa ao entardecer. Nonna preparou um jantar simples, mas festivo — peixe grelhado com ervas, salada fresca, vinho da adega antiga. Brindaram com taças erguidas.
“A nova casa”, disse Nonna.
“A nova vida”, corrigiu Isabella.
Dante ergueu a taça por último.
“A nós. Que o sangue pare de chamar. E que o amor comece a falar mais alto.”
Eles beberam.
Naquela noite, depois que Nonna e Salvatore se retiraram, Dante levou Isabella para a varanda do quarto. A lua cheia refletia no mar, prateada e calma. Ele a encostou na grade, beijando o pescoço dela devagar.
“Você está feliz?”, perguntou ele.
“Mais do que já estive em anos”, respondeu ela, virando-se para encará-lo.
Ele a ergueu nos braços, levando-a para dentro sem interromper o beijo. Deitou-a na cama, tirando a roupa dela com uma lentidão quase torturante. Beijou cada centímetro revelado — pescoço, seios, barriga, coxas. Quando chegou ao centro dela, lambeu com devoção, os dedos entrando fundo, trazendo-a ao limite várias vezes antes de deixá-la cair.
Isabella arqueou as costas, os gemidos enchendo o quarto. O orgasmo veio forte, longo, deixando-a tremendo.
Dante subiu, entrando nela devagar. Moviam-se juntos — profundo, ritmado, como se estivessem selando uma promessa nova. Cada estocada era uma declaração: estamos aqui. Estamos livres. Estamos inteiros.
Quando gozaram, foi abraçados, corpos colados, respirações sincronizadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes, o silêncio da noite ao redor como um cobertor.
Depois, deitados de lado, ela traçou a aliança no dedo dele.
“E se amanhã alguém bater na porta?”
Dante beijou a palma da mão dela.
“Então a gente abre. Juntos. E enfrenta. Mas hoje… hoje é só nosso.”
Ela sorriu contra o peito dele.
“Hoje é só nosso.”
Eles adormeceram entrelaçados.
Pela primeira vez em muito tempo, o sono veio profundo. Sem sonhos. Sem medo.
Mas o amanhã ainda estava lá.
E o amanhã sempre trazia algo.
Na manhã seguinte, Salvatore bateu na porta cedo.
“Vocês precisam ver isso.”
Ele entregou um envelope. Sem remetente. Sem endereço.
Dentro, uma única foto: a nova casa vizinha. Tirada à noite. Com uma legenda escrita à mão:
O jardim vai ficar lindo. Mas o sangue também fica bonito quando floresce.
Dante fechou o envelope com força.
Isabella olhou para ele.
“Não acabou.”
“Não”, respondeu ele. “Mas agora a gente sabe que não acabou. E isso muda tudo.”
Eles se olharam por um longo momento.
Depois, juntos, decidiram:
Não iam fugir mais.
Iriam plantar.
Iriam construir.
E quando o próximo sangue chamasse… eles estariam prontos.
Com raízes profundas.
E amor mais profundo ainda.
Capítulo 25: Raízes e Sombras
Os dias seguintes à morte de Bianchi passaram em uma calmaria enganosa, como o mar antes de uma tempestade que ninguém vê se aproximar. A villa continuou sendo o centro do mundo deles: Nonna Teresa cuidando da cozinha como se cada refeição fosse uma oração, Salvatore patrulhando os limites da propriedade com o rifle sempre limpo e carregado, Isabella e Dante caminhando pela nova casa vizinha todos os dias, medindo paredes, desenhando planos em pedaços de papel que ela guardava dobrados no bolso do vestido.
A reforma começou devagar. Dois pedreiros da vila — irmãos, chamados Enzo e Marco, que Nonna jurava serem surdos para fofocas e cegos para nomes famosos — chegavam ao amanhecer com ferramentas antigas e mãos calejadas. Eles não perguntavam nada além do necessário: “Aqui vai uma janela maior?” ou “O telhado aguenta mais uma camada de telha?”. Dante trabalhava ao lado deles quando podia, carregando pedras, misturando cimento, suando sob o sol siciliano. Isabella ficava mais na parte interna: limpando o pó de décadas, pintando paredes com tinta branca que cheirava a novo começo, plantando mudas de lavanda e alecrim no jardim que um dia seria dela.
Eles faziam amor quase todas as noites — às vezes na villa, às vezes na casa nova ainda sem móveis, sobre um colchão improvisado no chão ou diretamente no piso frio de terracota. Era diferente agora: menos urgência, menos desespero. Mais lentidão. Mais reverência. Como se cada toque fosse uma forma de dizer “nós conseguimos”. “Nós estamos aqui”. “Isso é nosso”.
Uma tarde, enquanto pintavam a parede do que seria o quarto principal, Isabella parou, o rolo pingando tinta branca na lona protetora.
“Dante… e se a gente tiver filhos?”
Ele parou no meio de um movimento, o pincel suspenso no ar. Virou-se devagar para encará-la.
“Você quer?”
Ela baixou o rolo, limpando as mãos na calça jeans manchada.
“Quero. Um dia. Não agora. Não enquanto ainda sinto que o passado pode bater na porta a qualquer momento. Mas… um dia. Quero ver você segurando um filho nosso. Quero ensinar a ele — ou a ela — que amor não precisa ser pago com sangue.”
Dante largou o pincel. Caminhou até ela, pegando o rosto dela entre as mãos sujas de tinta.
“Então um dia a gente vai ter. E eu vou ser o pai que nunca tive. O que protege sem sufocar. O que ensina sem controlar.”
Ela sorriu, os olhos brilhando.
“E eu vou ser a mãe que nunca teve medo de amar demais.”
Eles se beijaram ali mesmo, no meio da sala vazia, tinta branca manchando os rostos dos dois. O beijo começou doce e virou fome. Dante a ergueu contra a parede recém-pintada, as pernas dela enroscando na cintura dele. Roupas foram arrancadas com pressa, caindo no chão empoeirado. Ele a segurou firme, entrando nela com um movimento lento, profundo, os olhos nunca deixando os dela.
“Você é minha vida”, murmurou ele contra os lábios dela.
“E você é a minha”, respondeu ela, as unhas cravando nas costas dele.
Eles se moveram juntos — forte, ritmado, como se estivessem selando uma promessa nova. Cada estocada era uma declaração: vamos construir. Vamos crescer. Vamos vencer o que sobrou do passado. Quando gozaram, foi abraçados, corpos colados, respirações sincronizadas, tinta branca manchando a pele dos dois como uma tatuagem temporária de recomeço.
Depois, deitados no chão sobre a lona, ela traçou o contorno da tatuagem no peito dele.
“Você já pensou em fazer outra?”
Ele ergueu uma sobrancelha.
“Outra tatuagem?”
“Sim. Algo nosso. Algo que não seja sobre perda. Sobre o que a gente ganhou.”
Dante pensou por um momento.
“Talvez. Uma raiz. Ou uma flor de limoeiro. Com nossas iniciais entrelaçadas.”
Isabella sorriu.
“Eu gosto disso.”
Naquela noite, eles voltaram para a villa. Nonna os esperava com um jantar simples: sopa de peixe, pão caseiro, vinho. Salvatore estava lá também, o rifle encostado na parede, mas pela primeira vez em dias ele parecia relaxado.
“Eu falei com os pedreiros”, disse Nonna enquanto servia. “Eles terminam o telhado em duas semanas. Depois começam as instalações elétricas. Vocês vão ter luz antes do outono.”
Isabella apertou a mão de Dante por baixo da mesa.
“Obrigada, Nonna. Por tudo.”
A idosa balançou a cabeça.
“Não agradeça. Vocês me deram um motivo para continuar acordando cedo. Ver meu neto feliz… ver uma nora que ele merece… isso é mais do que eu esperava na minha idade.”
Dante ergueu a taça.
“À família. A verdadeira.”
Eles brindaram.
Depois do jantar, Salvatore foi para o quarto de hóspedes. Nonna se retirou cedo. Dante e Isabella subiram para o quarto. Trancaram a porta. Ficaram parados por um momento, apenas se olhando.
“Eu sinto falta de algo”, disse ela de repente.
Ele franziu a testa.
“Do quê?”
“De liberdade. De sair sem olhar por cima do ombro. De não ter que planejar cada passo como se fosse o último.”
Dante caminhou até ela, pegando as mãos dela.
“Então a gente vai ter isso. Um dia de cada vez. Amanhã a gente vai à vila. Sem armas. Sem medo. Só nós dois. Comprar pão. Tomar café. Falar com as pessoas. Ser normais.”
Isabella sorriu.
“Eu quero isso.”
“Então amanhã a gente faz.”
Eles fizeram amor devagar naquela noite — lento, profundo, quase meditativo. Cada toque era uma exploração, cada beijo uma memória sendo criada. Quando gozaram, foi silencioso, intenso, como uma oração compartilhada.
Adormeceram entrelaçados.
Mas o amanhecer trouxe algo novo.
Salvatore bateu na porta cedo — antes mesmo do sol terminar de nascer.
“Vocês precisam ver isso.”
Ele entregou um envelope. O mesmo papel pardo simples. Sem remetente.
Dante abriu com cuidado.
Dentro, uma única foto: a nova casa vizinha. Tirada à noite. A janela do quarto principal iluminada. E dentro da moldura, duas silhuetas claramente visíveis — eles fazendo amor contra a parede, corpos colados, cabeças jogadas para trás.
No verso, escrito à mão:
O jardim vai ficar lindo. Mas as noites… as noites são minhas testemunhas. Estou mais perto do que pensam.
Isabella sentiu o sangue gelar.
“Ele não morreu.”
Dante fechou o envelope com força.
“Bianchi morreu. Mas ele tinha alguém. Ou alguém pegou o lugar dele.”
Salvatore cruzou os braços.
“Eu posso reforçar a segurança. Câmeras. Armadilhas. Mas se ele está perto… ele já sabe tudo.”
Dante olhou para Isabella.
“A gente não vai correr. Não mais. Vamos caçar.”
Ela assentiu.
“Vamos caçar.”
Naquela manhã, eles não foram à vila.
Ficaram na villa. Planejaram. Ligaram para Falcone. Ele prometeu investigar o remetente do envelope — rastrear o papel, a tinta, o correio.
Salvatore saiu para comprar equipamentos: câmeras sem fio, alarmes, holofotes com sensor de movimento.
Nonna ficou na cozinha, mas dessa vez com uma espingarda antiga apoiada na parede ao lado do fogão.
Isabella e Dante foram para a nova casa. Trabalharam o dia inteiro — não mais como quem constrói um lar, mas como quem constrói uma fortaleza. Reforçaram portas. Instalaram trancas extras. Plantaram espinhos naturais ao redor das janelas.
Ao entardecer, exaustos, sujos de terra e tinta, sentaram-se na varanda inacabada, olhando o mar.
“Eu não vou deixar ele tirar isso da gente”, disse ela.
Dante passou o braço ao redor dos ombros dela.
“Ele não vai. Porque agora a gente não está só sobrevivendo. A gente está vivendo.”
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
“Então a gente vive. E quando ele aparecer… a gente acaba com isso.”
Dante beijou o topo da cabeça dela.
“Juntos.”
Naquela noite, eles fizeram amor na casa nova — no chão, sobre a lona ainda manchada de tinta. Foi feroz, urgente, quase brutal. Cada toque era uma declaração de guerra e de amor ao mesmo tempo. Quando gozaram, foi gritando o nome um do outro, como se o som pudesse afugentar as sombras.
Depois, deitados no chão frio, ela traçou a tatuagem dele mais uma vez.
“Eu quero uma também.”
Ele ergueu uma sobrancelha.
“Uma tatuagem?”
“Sim. Uma raiz. Com nossas iniciais. Para lembrar que a gente enraizou aqui. Que não importa o que venha… a gente não sai mais.”
Dante sorriu — um sorriso cansado, mas verdadeiro.
“Então vamos fazer. Quando isso acabar.”
Ela assentiu.
“Quando isso acabar.”
Eles adormeceram ali mesmo, no chão da casa que ainda não era lar, mas já era fortaleza.
O envelope chegou na manhã seguinte.
Dessa vez, não na villa.
Na porta da nova casa.
Dentro, uma única frase:
Raízes profundas sangram mais quando cortadas.
E uma foto: Nonna Teresa na cozinha da villa. Tirada de dentro da casa. Através da janela.
Dante amassou o papel.
Isabella pegou a arma.
“Chega de esperar.”
Dante assentiu.
“Chega.”
Eles saíram.
A caçada recomeçava.
Mas dessa vez, eles não eram mais as presas.
Eram os predadores.
E o sangue que chamava… ia encontrar resposta.
Capítulo 26: O Jardim que Sangra
A manhã seguinte amanheceu com uma névoa fina que subia do mar e se agarrava às oliveiras como um véu de segredos. Isabella acordou cedo, antes mesmo de Nonna Teresa começar a mexer nas panelas. Ficou deitada por alguns minutos, ouvindo a respiração ritmada de Dante ao seu lado, sentindo o peso do braço dele sobre sua cintura. A tatuagem no peito dele subia e descia devagar, como se o coração ainda lutasse para encontrar paz depois de tudo. Ela se levantou com cuidado, vestiu um robe leve de linho e desceu as escadas descalça.
A cozinha estava vazia. O fogo do fogão a lenha ainda estava apagado. Nonna só acendia quando o sol já estava alto. Isabella foi até a janela que dava para o jardim dos fundos. A névoa tornava tudo irreal — as mudas de lavanda que ela plantara dias antes pareciam fantasmas roxos, as oliveiras antigas pareciam sentinelas silenciosas. Mas no centro do jardim, fincado na terra como uma estaca, havia algo que não pertencia ali.
Um envelope.
O mesmo papel pardo simples. Sem endereço. Sem selo.
Ela sentiu o frio subir pela espinha antes mesmo de tocar nele. Olhou ao redor — ninguém. Salvatore ainda dormia no quarto de hóspedes. Dante ainda dormia lá em cima. Nonna não estava na cozinha.
Isabella pegou o envelope com dedos trêmulos. Abriu.
Dentro, uma única folha. Uma foto impressa em papel comum. Era ela. Na nova casa. Pintando a parede do quarto principal. Dante atrás dela, os braços ao redor da cintura, beijando o pescoço dela. A legenda escrita à mão, com a mesma caligrafia das anteriores:
Raízes profundas sangram mais quando cortadas. Mas as flores… as flores são lindas quando murcham.
No canto inferior da foto, uma data: ontem. Hora: 16:47. Exatamente quando eles estavam lá, sozinhos, pintando e rindo como se o mundo tivesse parado de existir.
Isabella sentiu as pernas fraquejarem. Encostou na parede, o envelope caindo da mão. A foto escorregou e caiu no chão de terracota.
Dante apareceu na porta da cozinha segundos depois — cabelo bagunçado, olhos ainda sonolentos, mas alerta no instante em que a viu.
“Isabella?”
Ela apontou para o chão. Ele se abaixou, pegou a foto. Leu a legenda. O rosto dele endureceu como pedra.
“Ele não morreu.”
“Não era Bianchi”, disse ela, a voz baixa. “Era outra pessoa. Alguém que estava lá. Alguém que viu.”
Dante amassou a foto na mão.
“Salvatore!”
O homem apareceu segundos depois, rifle já na mão.
“O que houve?”
Dante entregou o papel amassado.
“Alguém esteve aqui. Ontem. Dentro da propriedade. Tirou isso.”
Salvatore leu. O rosto dele ficou branco.
“Eu patrulhei ontem à tarde. Nada. Nenhum carro. Nenhum movimento.”
“Então ele não veio de carro”, disse Dante. “Ou ele estava aqui antes. Escondido.”
Isabella se endireitou, limpando as lágrimas que ameaçavam cair.
“Nonna. Onde ela está?”
Salvatore olhou ao redor.
“Ela disse que ia ao pomar colher limões. Para o almoço.”
Dante e Isabella trocaram um olhar.
Eles saíram correndo.
O pomar ficava a duzentos metros da casa, descendo a encosta. As árvores eram antigas, galhos retorcidos carregados de frutos amarelos. O cheiro de limão maduro era forte, quase sufocante.
Nonna Teresa estava lá. De costas para eles. Cesto no braço. Colhendo devagar, cantarolando uma canção antiga em siciliano.
“Nonna!”
Ela virou-se ao ouvir o grito de Dante. Sorriu.
“Vocês acordaram cedo hoje. Venham ajudar. Os limões estão perfeitos.”
Mas quando eles se aproximaram, viram.
No tronco de uma das oliveiras mais antigas, cravado com uma faca de cozinha, havia outro envelope. E abaixo dele, uma única rosa vermelha — fresca, ainda com gotas de orvalho.
Nonna seguiu o olhar deles. O sorriso morreu no rosto.
Dante foi até a árvore. Arrancou o envelope. Abriu.
Uma foto de Nonna. Tirada naquela manhã. De costas, colhendo limões. A legenda:
A avó morre primeiro. Depois a esposa. Depois você. Raízes profundas… sangram devagar.
Dante amassou o papel. Olhou ao redor — o pomar estava vazio. Nenhum movimento. Nenhum som além do vento nas folhas.
Nonna deixou o cesto cair. Os limões rolaram pela terra.
“Eu… eu não vi ninguém.”
Dante se aproximou dela, abraçando-a forte.
“Você está bem. Isso é o que importa.”
Isabella pegou a rosa. Cheirava doce. Doentia.
“Ele está brincando com a gente”, disse ela. “Não quer matar ainda. Quer nos ver sofrer.”
Dante assentiu.
“Então a gente para de sofrer. E começa a caçar.”
Eles voltaram para a villa. Salvatore já estava na porta, rifle em punho.
“Eu vi movimento na estrada. Um carro preto. Passou devagar. Não parou.”
Dante entregou a foto e a mensagem.
“Ele está aqui. Perto. Dentro da propriedade.”
Salvatore leu. O rosto dele ficou duro.
“Eu reforço as cercas. Instalo mais câmeras. Mas se ele já entrou uma vez…”
“Ele entra de novo”, completou Dante. “A menos que a gente o pegue primeiro.”
Isabella olhou para os dois homens.
“Não vamos esperar ele atacar. Vamos atrás.”
Dante virou-se para ela.
“Como?”
“Falcone. Ele disse que rastreava o remetente. Vamos ligar. Agora.”
Eles entraram na casa. Ligaram para o advogado de um telefone fixo antigo que Nonna mantinha na sala — linha segura, não rastreável.
Falcone atendeu no segundo toque.
“Vocês ainda estão vivos. Bom sinal.”
Dante foi direto.
“Mais envelopes. Fotos. Ameaças. Ele está dentro da propriedade. Ontem. Hoje.”
Silêncio do outro lado.
“Eu tenho algo”, disse Falcone finalmente. “O papel do envelope. É fabricado em uma pequena gráfica em Trapani. Edição limitada. Usada só por colecionadores e algumas famílias antigas. O mesmo lote foi comprado há três meses por um homem que pagou em dinheiro. Nome falso. Mas a descrição bate com Antonio Bianchi. Só que… ele morreu.”
“Então é outro”, disse Dante.
“Ou alguém que trabalha para ele. Alguém que assumiu o legado. Eu tenho um nome. Um primo distante. Chamado Luca Bianchi. Desaparecido desde a morte do tio. Rumores diziam que ele estava na Sicília. Trabalhando como jardineiro. Ou pedreiro. Algo discreto.”
Isabella sentiu o chão sumir.
“Pedreiro.”
Dante olhou para ela.
“Os irmãos que estão reformando a casa. Enzo e Marco.”
Salvatore praguejou baixo.
“Eu conheço os dois. São da vila. Trabalham juntos há anos.”
Dante apertou o telefone.
“Onde eles moram?”
Falcone deu o endereço — uma casa pequena no alto da encosta, perto do pomar abandonado.
Dante desligou.
“Vamos agora.”
Isabella pegou a arma que estava na mesa.
“Eu vou junto.”
Dante hesitou apenas um segundo.
“Tudo bem. Mas fica atrás de mim.”
Salvatore pegou o rifle.
“Eu cubro a retaguarda.”
Nonna ficou na porta.
“Voltem inteiros.”
Eles saíram.
O carro subiu a estrada de terra em silêncio. Chegaram à casa dos irmãos ao meio-dia — uma construção simples, telhado de telha vermelha, jardim pequeno com flores silvestres. Nenhum carro na frente. Nenhum som.
Dante estacionou a cem metros. Desceram. Caminharam em formação — Dante na frente, Isabella atrás, Salvatore fechando.
Chegaram à porta. Dante bateu.
Silêncio.
Ele tentou de novo.
A porta se abriu devagar.
Enzo estava lá. O mais velho dos irmãos. Olhos arregalados.
“Signor Moretti? O que—”
Dante empurrou a porta. Entrou. A arma apontada.
“Onde está Luca?”
Enzo recuou.
“Luca? Meu irmão? Ele… ele não está aqui. Saiu cedo. Disse que ia colher frutas no pomar abandonado.”
Isabella sentiu o sangue gelar.
“O pomar abandonado. Onde?”
Enzo apontou para trás da casa.
“Lá em cima. Perto da velha capela.”
Dante olhou para Salvatore.
“Cobre ele. Se mexer, atire.”
Salvatore assentiu.
Dante e Isabella subiram a trilha atrás da casa. O caminho era estreito, pedras soltas, mato alto. Chegaram ao pomar abandonado em dez minutos — árvores retorcidas, frutos podres no chão, uma capela pequena em ruínas no centro.
E lá estava Luca.
De pé no meio do pomar. Mãos nos bolsos. Sorrindo.
“Vocês demoraram”, disse ele. A voz era calma. Quase amigável.
Dante apontou a arma.
“Onde está o resto das fotos? O resto das ameaças?”
Luca deu de ombros.
“Não tem mais. Bianchi morreu. Eu só terminei o trabalho. Ele me pagou antes. Eu continuei. Por prazer.”
Isabella deu um passo à frente.
“Por quê? O que a gente fez com você?”
Luca olhou para ela.
“Vocês escolheram o lado errado. Bianchi era família. Moretti destruiu tudo. Eu só queria ver vocês sangrarem um pouco. Como nós sangramos.”
Dante apertou o gatilho.
A bala acertou Luca no ombro. Ele caiu de joelhos.
“Não vou matar você”, disse Dante. “Vou deixar você viver. Mas se eu vir você de novo… não vai ter próxima vez.”
Luca riu, mesmo com a dor.
“Vocês acham que acabou? Bianchi tinha amigos. Eu tinha amigos. O sangue não para.”
Dante se aproximou. Ajoelhou-se na frente dele.
“O sangue para quando a gente escolhe parar. E eu escolhi.”
Ele se levantou.
“Vá embora. E não volte.”
Luca se arrastou para trás. Depois se levantou devagar. Caminhou mancando para longe.
Dante e Isabella voltaram para a villa.
Salvatore esperava na porta.
“Ele falou?”
Dante assentiu.
“Era Luca. Primo de Bianchi. Terminou o trabalho. Mas acabou.”
Salvatore relaxou o rifle.
“Então… acabou?”
Dante olhou para Isabella.
“Acabou.”
Naquela noite, eles foram para a nova casa. Dormiram no chão, sobre a lona. Fizeram amor devagar, sob o teto ainda incompleto, estrelas visíveis pelas vigas.
Quando gozaram, foi em silêncio. Como uma bênção.
Eles adormeceram.
Pela primeira vez, sem medo.
Sem envelopes.
Sem sangue chamando.
Amanhã eles continuariam construindo.
Amanhã eles viveriam.
E o amanhã… o amanhã era deles.
Capítulo 27: A Casa que Respira
A nova casa começou a ganhar vida devagar, como uma planta que demora para brotar depois de um inverno longo. As paredes ganharam cor — branco puro com detalhes em azul mediterrâneo nas molduras das janelas, escolhido por Isabella porque lembrava o mar que via todos os dias. O telhado foi consertado; as telhas vermelhas antigas substituídas por novas, mas mantendo o mesmo tom desgastado que se misturava à paisagem. Enzo e Marco — os irmãos pedreiros — trabalhavam em silêncio quase religioso, como se soubessem que a casa não era só pedra e cimento, mas um refúgio que carregava o peso de duas vidas reconstruídas.
Isabella passava as tardes no jardim. Plantava mais lavanda, alecrim, manjericão e algumas roseiras que Nonna trouxera de mudas antigas da villa. As mãos dela estavam sempre sujas de terra, as unhas curtas e pretas debaixo delas, mas ela sorria toda vez que via uma nova folha verde romper o solo. Era uma vitória pequena, quase insignificante para o mundo, mas para ela era enorme: algo que crescia porque ela havia decidido plantar. Não porque alguém mandara. Não porque era obrigação. Porque ela quis.
Dante trabalhava mais com os pedreiros do que com ela no jardim. Carregava vigas, misturava argamassa, subia no telhado para ajudar a fixar as telhas. O suor escorria pelo peito dele, escurecendo a camiseta cinza, e as tatuagens pareciam mais vivas sob o sol. Às vezes Isabella parava o que estava fazendo só para olhar: o homem que outrora comandava impérios de sangue agora carregava pedras para construir um lar. Era quase poético. Quase impossível.
Uma tarde, enquanto o sol começava a baixar e tingia tudo de laranja, Dante desceu do telhado e caminhou até ela. Estava sujo de poeira e cimento, o cabelo grudado na testa. Parou ao lado do canteiro onde ela plantava rosas.
“Você está linda assim”, disse ele. A voz rouca de tanto gritar ordens para os pedreiros.
Isabella ergueu os olhos, limpando o suor da testa com o dorso da mão.
“Suja de terra?”
“Viva. Real. Minha.”
Ela se levantou, deixando a pá no chão. Caminhou até ele, as mãos sujas tocando o rosto dele, deixando marcas de terra nas bochechas.
“Você também está lindo. Meu construtor de casas. Meu assassino aposentado.”
Ele riu baixo — um som raro, precioso.
“Eu nunca vou me aposentar de te proteger.”
Ela o puxou para um beijo. O gosto de suor e poeira misturado ao cheiro de terra fresca. As mãos dele desceram pelas costas dela, apertando os quadris, erguendo-a contra si. Isabella envolveu as pernas ao redor da cintura dele, sentindo a ereção dura contra o ventre.
“Aqui?”, sussurrou ela contra os lábios dele.
“Aqui. Agora. Nessa casa que ainda não é casa, mas já é nossa.”
Ele a carregou até o interior inacabado. A sala principal ainda sem piso definitivo — apenas cimento bruto. Deitou-a sobre uma lona limpa que os pedreiros usavam para proteger as ferramentas. Tirou a blusa dela devagar, beijando cada centímetro de pele revelada. Desceu a boca pelos seios, chupando os mamilos até endurecerem. Continuou descendo — barriga, quadris, coxas. Abriu as pernas dela com cuidado, lambendo devagar, saboreando cada tremor, cada gemido baixo.
Isabella agarrou os cabelos dele, os quadris se movendo contra a boca. O prazer subia como uma onda lenta, inevitável. Quando veio, foi intenso — o corpo convulsionando, um grito abafado escapando, lágrimas quentes escorrendo pelos cantos dos olhos.
Dante subiu, beijando as lágrimas. Tirou a calça dela, depois a própria. Entrou nela devagar, centímetro por centímetro, os olhos nunca deixando os dela. Moviam-se juntos — profundo, ritmado, quase reverente. Cada estocada era uma declaração: estamos construindo. Estamos crescendo. Estamos vencendo.
Quando gozaram, foi abraçados, corpos colados, respirações sincronizadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes, o cheiro de cimento e terra misturado ao cheiro deles.
Depois, deitados sobre a lona, ela traçou a tatuagem no peito dele.
“Eu quero fazer a minha amanhã. No vilarejo. Com o tatuador que Nonna indicou.”
Dante beijou a palma da mão dela.
“Então amanhã a gente vai. Juntos.”
Naquela noite, voltaram para a villa. Nonna os esperava com jantar quente — coelho ao forno com ervas do jardim, batatas assadas, vinho tinto. Salvatore estava lá, mas dessa vez sem o rifle ao lado. Apenas um copo de vinho na mão.
“Eu falei com os pedreiros”, disse Nonna enquanto servia. “Eles terminam o telhado na próxima semana. Depois começam o piso. Vocês vão dormir lá antes do fim do mês.”
Isabella apertou a mão de Dante por baixo da mesa.
“Eu quero isso. Quero acordar lá. Ver o sol nascer no mar. Plantar mais flores. Fazer café na cozinha que eu mesma pintei.”
Dante ergueu a taça.
“Então vamos fazer.”
Eles brindaram.
Depois do jantar, Salvatore se retirou para o quarto de hóspedes. Nonna foi dormir cedo. Dante e Isabella subiram para o quarto. Trancaram a porta. Ficaram parados por um momento, apenas se olhando.
“Eu sinto falta de algo”, disse ela de repente.
Ele franziu a testa.
“Do quê?”
“De liberdade. De sair sem olhar por cima do ombro. De não ter que planejar cada passo como se fosse o último.”
Dante caminhou até ela, pegando as mãos dela.
“Então a gente vai ter isso. Um dia de cada vez. Amanhã a gente vai à vila. Sem armas. Sem medo. Só nós dois. Comprar pão. Tomar café. Falar com as pessoas. Ser normais.”
Isabella sorriu.
“Eu quero isso.”
“Então amanhã a gente faz.”
Eles fizeram amor devagar naquela noite — lento, profundo, quase meditativo. Cada toque era uma exploração, cada beijo uma memória sendo criada. Quando gozaram, foi silencioso, intenso, como uma oração compartilhada.
Adormeceram entrelaçados.
Pela primeira vez em muito tempo, o sono veio profundo. Sem sonhos. Sem medo.
Mas o amanhã trouxe algo.
Salvatore bateu na porta cedo — antes mesmo do sol terminar de nascer.
“Vocês precisam ver isso.”
Ele entregou um envelope. O mesmo papel pardo simples. Sem remetente. Sem endereço.
Dante abriu com cuidado.
Dentro, uma única foto: a nova casa vizinha. Tirada à noite. A janela do quarto principal iluminada. E dentro da moldura, duas silhuetas claramente visíveis — eles fazendo amor contra a parede, corpos colados, cabeças jogadas para trás.
No verso, escrito à mão:
O jardim vai ficar lindo. Mas as noites… as noites são minhas testemunhas. Estou mais perto do que pensam.
Dante amassou o papel.
Isabella olhou para ele.
“Não acabou.”
“Não”, respondeu ele. “Mas agora a gente sabe que não acabou. E isso muda tudo.”
Eles se olharam por um longo momento.
Depois, juntos, decidiram:
Não iam fugir mais.
Iriam plantar.
Iriam construir.
E quando o próximo sangue chamasse… eles estariam prontos.
Com raízes profundas.
E amor mais profundo ainda.
Naquela tarde, eles foram ao vilarejo. Sem armas. Sem medo. Só mãos dadas.
O tatuador era um homem velho, barba branca, mãos tremulas mas precisas. Ele fez a tatuagem de Isabella no pulso esquerdo: uma raiz fina, entrelaçada com uma flor de limoeiro, as iniciais D e I escondidas nas curvas das folhas.
Dante segurou a mão dela o tempo inteiro.
Quando terminou, ele beijou o pulso dela, sobre a tatuagem fresca.
“Agora você carrega a gente. Sempre.”
Ela sorriu.
“E você carrega a mim.”
Eles voltaram para casa ao pôr do sol.
A casa nova estava quase pronta.
O jardim começava a florescer.
E o silêncio… o silêncio era deles.
Pelo menos por enquanto.
Capítulo 28: O Eco que Não Morre
Os dias que se seguiram à morte de Luca Bianchi foram estranhamente silenciosos — um silêncio que não era paz, mas a ausência de barulho antes de uma explosão. A casa nova avançava rápido: o telhado estava pronto, as janelas instaladas, o piso de terracota assentado com perfeição. Isabella passava as tardes lá dentro, pintando as paredes de branco com toques de azul nas molduras, imaginando como seria acordar todos os dias vendo o mar através delas. Dante trabalhava ao lado dos pedreiros, carregando materiais, fixando vigas, suando sob o sol que queimava a pele e curava as cicatrizes antigas.
Eles não falavam muito sobre o que havia acontecido no pomar abandonado. Luca fora embora mancando, sangrando, mas vivo. Ninguém o vira na vila desde então. Salvatore reforçara as cercas da propriedade com arame farpado discreto, instalara sensores de movimento simples ao redor do perímetro, mas ninguém aparecia. Nenhum envelope. Nenhuma foto. Nenhum carro preto passando devagar na estrada.
Nonna Teresa dizia que era bom sinal.
“Às vezes o silêncio é só silêncio”, repetia ela enquanto preparava o almoço. “Não precisa ser ameaça.”
Mas Dante não acreditava em silêncios inocentes. Ele acordava cedo, antes do sol, e patrulhava o pomar sozinho. Verificava as árvores, os limites da propriedade, as trilhas que subiam a encosta. Isabella o via voltar com o rosto marcado por preocupação, mesmo quando tentava esconder.
Uma manhã, ela o encontrou na varanda da villa, olhando o mar com o olhar distante.
“Você ainda espera”, disse ela, parando ao lado dele.
Dante passou o braço ao redor da cintura dela.
“Eu espero o nada. Mas o nada às vezes tem rosto.”
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
“Então vamos dar um rosto ao nada. Vamos viver como se ele não existisse. Porque se a gente parar de viver por causa de um eco… o eco vence.”
Ele virou o rosto para ela. Beijou-a devagar — um beijo que começou suave e ganhou força. As mãos dele desceram pelas costas dela, apertando os quadris, puxando-a contra si.
“Você tem razão”, murmurou contra os lábios dela. “Vamos viver.”
Eles subiram para o quarto. Trancaram a porta. Dante a deitou na cama com cuidado, tirando a roupa dela devagar, beijando cada centímetro revelado. Desceu a boca pelo pescoço, pelos seios, pela barriga. Abriu as pernas dela com reverência, lambeu devagar, saboreando cada tremor. Os dedos entraram fundo, curvando-se no ponto exato, trazendo-a ao limite várias vezes antes de deixá-la cair.
Isabella arqueou as costas, os gemidos enchendo o quarto. O orgasmo veio forte, longo, deixando-a tremendo.
Dante subiu, entrando nela devagar. Moviam-se juntos — profundo, ritmado, como se estivessem selando uma promessa nova. Cada estocada era uma afirmação: estamos aqui. Estamos vivos. Estamos inteiros.
Quando gozaram, foi abraçados, corpos colados, respirações sincronizadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes.
Depois, deitados de lado, ela traçou a tatuagem no pulso dela — a raiz com a flor de limoeiro.
“Eu quero mais uma”, disse ela de repente.
Dante ergueu uma sobrancelha.
“Outra tatuagem?”
“Sim. Algo para Leni. Para o filho que ainda não veio. Para nós. Algo que diga: a gente enraizou aqui. E ninguém arranca.”
Ele beijou o pulso dela, exatamente sobre a tatuagem.
“Então vamos fazer. Quando a casa estiver pronta. Vamos tatuar juntos.”
Ela sorriu.
“Promete?”
“Prometo.”
Naquela tarde, eles foram à vila. Sem armas. Sem olhar por cima do ombro. Caminharam de mãos dadas pelas ruas estreitas, compraram pão fresco, azeitonas, queijo pecorino. Sentaram-se em uma cafeteria pequena na praça. Tomaram café com leite, comeram pastelinhos de amêndoa. As pessoas da vila os cumprimentavam — alguns com acenos discretos, outros com sorrisos abertos. Ninguém perguntava quem eram. Ninguém precisava.
Quando voltaram para casa, o sol já estava baixo. Nonna os esperava na varanda da villa com uma cesta de limões frescos.
“Para o jantar”, disse ela. “E para lembrar que a vida tem gosto.”
Isabella pegou um limão. Apertou na mão. O cheiro subiu forte, ácido, vivo.
“Tem gosto de casa”, respondeu ela.
Naquela noite, depois do jantar, eles foram para a casa nova. Dormiram no colchão no chão do quarto principal. A janela aberta deixava entrar o som do mar e o cheiro de terra úmida.
Fizeram amor devagar, sob a luz da lua que entrava pela janela sem cortina. Dante beijou cada centímetro do corpo dela como se estivesse memorizando. Entrou nela com lentidão, movendo-se profundo, ritmado. Quando gozaram, foi em silêncio — apenas respirações pesadas, corpos tremendo juntos.
Depois, abraçados, ela sussurrou:
“Eu sinto que estamos seguros.”
Dante beijou a testa dela.
“Estamos. Porque escolhemos estar.”
Eles adormeceram.
Pela primeira vez, o sono veio sem peso.
Sem eco.
Sem espera.
Mas o amanhã trouxe algo.
Não um envelope.
Não uma foto.
Apenas o sol nascendo sobre o mar.
E Leni — ainda não nascida — chutando forte na barriga de Isabella.
Ela acordou sorrindo.
“Dante… ele mexeu.”
Dante colocou a mão na barriga dela. Sentiu o movimento.
“Ele está vivo.”
“Ele está vivo”, repetiu ela.
Eles ficaram ali, deitados, sentindo a vida crescer dentro dela.
A casa respirava ao redor deles.
O jardim florescia lá fora.
E o silêncio… o silêncio era paz.
De verdade.
Capítulo 29: A Flor que Não Murcha
O silêncio que se seguiu à última mensagem de Luca Bianchi durou semanas — um silêncio tão denso que às vezes parecia barulhento. Isabella acordava todas as manhãs esperando o envelope na porta, ou uma foto deixada no jardim, ou o som de um carro passando devagar na estrada. Mas nada vinha. Nenhum envelope. Nenhuma rosa seca. Nenhum aviso escrito à mão. Apenas o mar cantando, as oliveiras balançando ao vento e o sol nascendo todos os dias no mesmo lugar, como se o mundo tivesse decidido dar uma trégua.
A casa nova foi concluída antes do outono. O telhado vermelho brilhava sob o sol, as janelas deixavam entrar a luz do mar como se fossem quadros vivos, o jardim florescia com lavanda, jasmim e rosas que Isabella plantara com as próprias mãos. Eles se mudaram numa tarde de setembro, carregando caixas pequenas e poucos móveis — o berço que Dante construíra, a mesa longa de madeira reciclada, a cama que Nonna insistira em dar como presente de inauguração.
Na primeira noite, eles não fizeram amor. Apenas ficaram deitados no chão do quarto principal — ainda sem móveis —, colchão improvisado, lençóis limpos, janela aberta para o mar. Dante abraçou Isabella por trás, a mão na barriga dela que ainda não mostrava nada.
“Você acha que acabou mesmo?”, perguntou ela baixo.
Ele beijou a nuca dela.
“Acabou o que precisava acabar. O resto… o resto é vida.”
Ela virou-se para encará-lo.
“Eu sinto falta de algo.”
Dante franziu a testa.
“Do quê?”
“De normalidade. De acordar e não pensar em quem pode estar olhando. De plantar flores sem me perguntar se alguém vai usá-las contra mim.”
Ele tocou o rosto dela.
“Então vamos ter isso. Um dia de cada vez. Amanhã a gente vai à vila. Comprar pão. Tomar café na praça. Falar com as pessoas. Ser normais.”
Isabella sorriu — um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
“Eu quero isso.”
“Então amanhã a gente faz.”
Eles fizeram.
Na manhã seguinte, saíram de mãos dadas. Sem armas. Sem olhares desconfiados. Caminharam pela estrada de terra até a vila, compraram pão fresco na padaria da praça, tomaram café com leite em uma mesa ao ar livre. As pessoas cumprimentavam — alguns com acenos discretos, outros com sorrisos abertos. Ninguém perguntava quem eram. Ninguém precisava.
Leni ainda não existia, mas Isabella já sentia ela ali — um chute leve, quase imperceptível, como um segredo bom que crescia dentro dela.
Eles voltaram para casa ao entardecer. Nonna os esperava na varanda da villa com uma cesta de limões.
“Para o jantar”, disse ela. “E para lembrar que a vida tem gosto.”
Isabella pegou um limão. Apertou na mão. O cheiro subiu forte, ácido, vivo.
“Tem gosto de casa”, respondeu.
Naquela noite, eles foram para a casa nova. Dormiram no colchão no chão do quarto principal. A janela aberta deixava entrar o som do mar e o cheiro de terra úmida.
Fizeram amor devagar, sob a luz da lua que entrava pela janela sem cortina. Dante beijou cada centímetro do corpo dela como se estivesse memorizando. Desceu a boca pelo pescoço, pelos seios, pela barriga que começava a arredondar. Abriu as pernas dela com reverência, lambeu devagar, saboreando cada tremor. Isabella agarrou os cabelos dele, os quadris se movendo contra a boca. O orgasmo veio longo, intenso, deixando-a tremendo.
Dante subiu, entrando nela devagar. Moviam-se juntos — profundo, ritmado, como se estivessem selando uma promessa nova. Cada estocada era uma afirmação: estamos aqui. Estamos vivos. Estamos inteiros.
Quando gozaram, foi abraçados, corpos colados, respirações sincronizadas. Ficaram assim por longos minutos, suados, ofegantes.
Depois, deitados de lado, ela traçou a tatuagem no pulso dela — a raiz com a flor de limoeiro.
“Eu quero mais uma”, disse ela de repente.
Dante ergueu uma sobrancelha.
“Outra tatuagem?”
“Sim. Algo para Leni. Para o filho que ainda não veio. Para nós. Algo que diga: a gente enraizou aqui. E ninguém arranca.”
Ele beijou o pulso dela, exatamente sobre a tatuagem.
“Então vamos fazer. Quando a casa estiver pronta. Vamos tatuar juntos.”
Ela sorriu.
“Promete?”
“Prometo.”
Os meses passaram. A barriga de Isabella cresceu. Leni nasceu numa madrugada de primavera, chorando forte, cabelos pretos cacheados, olhos castanhos que pareciam ver além do que estava à vista. Nonna chorou segurando a neta nos braços.
“Ela é perfeita”, sussurrou.
Dante beijou a testa de Isabella.
“Você é perfeita.”
Isabella olhou para a filha.
“Nós somos.”
A casa respirava ao redor deles.
O jardim florescia lá fora.
E o silêncio… o silêncio era paz.
De verdade.
Anos depois, Leni tinha dezesseis anos. Marco, o irmão mais novo, oito. A casa nova era velha agora — paredes marcadas por mãos pequenas, portas rangendo com histórias, jardim um caos organizado de flores e ervas.
Naquela tarde, Leni chegou correndo da vila.
“Mãe! Pai! Eu trouxe uma coisa!”
Ela entregou um envelope. Sem remetente.
Isabella sentiu o coração parar por um segundo.
Dante pegou o envelope. Abriu.
Dentro, uma única foto: eles quatro na varanda, rindo. Tirada de longe. Sem legenda. Sem ameaça.
Apenas uma rosa seca colada no verso.
E uma frase escrita à mão:
O jardim floresceu. O sangue parou de chamar. Vocês venceram.
Isabella sentiu lágrimas quentes nos olhos.
Dante passou o braço ao redor dela.
“É o fim de verdade.”
Leni e Marco olharam a foto.
“Quem mandou isso?”, perguntou Leni.
Isabella sorriu.
“Alguém que aprendeu a mesma coisa que a gente. Que o amor vence o sangue.”
Dante beijou a testa da filha.
“Alguém que parou de ouvir o chamado.”
Naquela noite, eles jantaram juntos — todos na mesa longa que Dante construíra anos antes. Riram. Contaram histórias. Brindaram com vinho da vinha que eles mesmos plantaram.
Depois do jantar, Dante levou Isabella para a varanda. O mar cantava. A lua cheia brilhava.
Ele a puxou para dançar — sem música, só o som do mar e do vento.
“Você se lembra do primeiro voto?”, perguntou ele.
Ela sorriu.
“Eu prometi te amar mesmo quando o mundo tentasse nos separar.”
Dante a girou devagar.
“Eu prometi te proteger. E te amar. Sempre.”
Eles pararam.
Beijaram-se — longo, profundo, como no primeiro dia.
“Eu te amo, Isabella Moretti.”
“Eu te amo, Dante Moretti.”
Eles entraram.
Fecharam a porta.
A casa respirou ao redor deles.
O jardim floresceu lá fora.
E os votos — votos de sangue que viraram votos de vida — foram cumpridos.
Para sempre.
Fim.